O Partido Comunista da Tcheco-eslováquia

J. V. Stálin

30 de Março de 1925


Primeira Edição: Discurso pronunciado perante a Comissão Tchecoslovaca do Comitê Executivo da Internacional Comunista(1).
Fonte: Problemas - Revista Mensal de Cultura Política nº 57 - Mai de 1954.
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo
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Camaradas!

Se nos abstrairmos de algumas particularidades e aspectos pessoais com que alguns camaradas emaranharam a questão, poderíamos reduzir às nove questões seguintes as divergências que se verificam no Partido Comunista da Tcheco-eslováquia:

  1. Há uma crise no Partido Comunista da Tcheco-eslováquia?
  2. Qual a causa fundamental da crise?
  3. Qual o caráter da crise? — isto é: de onde vem o perigo? da esquerda ou da direita?
  4. Qual dos dois perigos é o mais sério? — o de esquerda ou o de direita?
  5. Por que o perigo de direita é o perigo mais real?
  6. Como lutar contra o perigo de direita, para, através da luta» conseguir uma real bolchevização e uma real saída da crise?
  7. Qual a tarefa imediata no sentido da bolchevização do Partido Comunista da Tcheco-eslováquia?
  8. Os direitos do Komintern em relação às secções nacionais.
  9. O camarada Kreibich e a ameaça de cisão.

Há uma crise no Partido Comunista da Tcheco-eslováquia? Sim: há. Ambos os lados reconhecem isso. Nesse sentido nenhuma divergência há entre eles. O camarada Chmeral avançou ainda mais ao afirmar que a crise é mais profunda do que geralmente crêem alguns camaradas.

Qual a causa fundamental da crise? O camarada Chmeral tem toda a razão ao afirmar que a causa fundamental da crise reside nas dificuldades ligadas à transição do período de ascenso revolucionário ao período de calmaria. Um período de transição, que exige uma nova orientação, habitualmente provoca no Partido uma ou outra crise. É o que também está acontecendo, atualmente, na Tcheco-eslováquia.

Qual o caráter da crise?, e de onde vem o perigo? — da esquerda ou da direita? Nisso, também o camarada Chmeral tem razão ao afirmar que o perigo parte de ambos os lados — tanto da esquerda como da direita. Há o perigo de superestimarmos as reivindicações parciais em detrimento das reivindicações fundamentais; de superestimarmos a atividade parlamentar e o trabalho nos sindicatos. Trata-se de um perigo de direita, porque, leva à adaptação à burguesia. Há, por outro lado, o perigo da subestimação das reivindicações parciais, da atividade parlamentar, do trabalho nos sindicatos, etc. Trata-se do perigo de esquerda, porque nos leva a nos isolarmos das massas, e ao sectarismo. O desejo do camarada Chmeral de colocar-se em posição equidistante nessa luta entre dois desvios opostos é um desejo perfeitamente legítimo. O mal está, apenas, em que não conseguiu manter-se nessa posição, marchando a retoque dos direitistas.

Qual desses perigos é o mais sério? — o de esquerda ou o de direita? Penso que o camarada Chmeral ainda não compreendeu esse problema. Dirige sua crítica principalmente contra os esquerdistas, julgando que aí se encontra o perigo principal. Entretanto, os fatos demonstram que o perigo principal vem da direita, e não da esquerda. Isso é que o camarada Chmeral não compreendeu, e aí está seu primeiro erro.

Por que o perigo de direita é, no momento atual, o perigo mais sério? Por três motivos:

1.º) Por si mesma e por sua própria natureza, a passagem do ascenso à calmaria aumenta as probabilidades do perigo de direita. Se o ascenso dá origem a ilusões revolucionárias fazendo do perigo de esquerda o principal, já a calmaria, ao contrário, dá origem a ilusões social-democráticas, reformistas, fazendo do perigo de direita o fundamental. Em 1920, quando o movimento operário estava em ascensão, Lênin escreveu o folheto «A Doença Infantil do 'Esquerdismo'». Por que Lênin escreveu justamente um folheto desse tipo? Porque o perigo de esquerda era então o perigo mais sério. Penso que se Lênin estivesse vivo escreveria agora um novo folheto sobre «A Doença Senil do Direitismo», porque atualmente, no período de calmaria, quando as ilusões conciliadoras devem aumentar, o perigo de direita é o perigo mais sério.

2.º) Como nos informou o camarada Chmeral, no Partido Comunista da Tcheco-eslováquia há nada menos de 70% de ex-social-democratas. Não é preciso demonstrar que as recaídas de tipo social-democrata são, não somente possíveis, mas inevitáveis em tal Partido. Não é preciso dizer que essa circunstância não pode deixar de agravar o perigo de direita.

3.º) O Estado tcheco-eslovaco é um Estado que representa a vitoria nacional dos tchecos. Os tchecos já receberam seu Estado nacional como nação dominante, por enquanto os operários ali não vivem mal: não há desemprego e impera a embriaguês pelas idéias do Estado nacional. Tudo isso não pode deixar de criar entre as classes da Tcheco-eslováquia ilusões de paz nacional. Não é preciso dizer que essa circunstância origina e intensifica, por sua vez, o perigo de direita. É justamente aí que é preciso procurar a causa de as divergências entre os direitistas e os esquerdistas haverem surgido em torno da política nacional, sendo que os eslovacos e os alemães (nações oprimidas) se colocaram no flanco esquerdo e o tchecos no flanco oposto.. O camarada Chmeral referiu-se ao perigo dessa divisão — o que é, evidentemente, uma verdade. Entretanto, também é verdade que essa divisão é inteiramente compreensível se levarmos em conta as particularidades nacionais do Estado tcheco-eslovaco, acima mencionadas, e a situação dominante dos tchecos. Essas são as causas fundamentais que tornam particularmente sério o perigo de direita no Partido Comunista da Tcheco-eslováquia.

Como se deve lutar contra o perigo de direita no Partido Comunista da Tcheco-eslováquia? Esse problema nos leva à própria essência das divergências. Parece-nos que a luta contra esse perigo deve ser a mais decidida e implacável. Entretanto os comunistas tchecos agiram de maneira inversa. O camarada Chmeral luta contra o perigo de direita? Sim: luta. Luta, porém, de tal maneira que, ao invés da liquidação dos direitistas, consegue como resultado final, o encorajamento, o apoio e a defesa dos direitistas contra os ataques dos esquerdistas. É um pouco estranho, mas é um fato, camaradas. Eis aí o segundo e fundamental erro do camarada Chmeral.

Julgai por vós mesmos.

1. É fato que existe um artigo do camarada Kreibich a favor do trotskismo. É fato que esse documento é conhecido nos círculos partidários e passa de mão em mão. Seria necessário dar publicidade a esse documento e arrasar seu autor — arrasá-lo ideologicamente perante os operários, para dar ao Partido a possibilidade de compreender o perigo do trotskismo e educar os quadros no espírito do bolchevismo. Porque, que é o trotskismo senão a ala direita do comunismo, senão o perigo de direita? Como procedeu nesse caso o camarada Chmeral? Em vez de levar ao conhecimento de todo o Partido o problema do trotskismo do camarada Kreibich; dissimulou a questão, ocultou-a, transferiu-a para os bastidores do Partido, e, aí, «solucionou-a» como se solucionam habitualmente simples «mal-entendidos». Com isso ganharam o trotskismo e o camarada Kreibich. O Partido perdeu. Ao invés da luta contra os direitistas o que se fez foi protegê-los.

2. Sabe-se que alguns líderes de três sindicatos — dos trabalhadores em transportes, dos madeireiros e dos trabalhadores em construção civil — editaram certo documento em que exigiam a total independência dos sindicatos com relação ao Partido. Sabe-se que esse documento é um indício da existência de vários elementos direitas nos sindicatos da Tcheco-eslováquia. Seria necessário analisar esse documento perante todo o Partido e preveni-lo com relação ao perigo de os sindicatos se afastarem dele. Como procedeu nesse caso o camarada Chmeral? O que fez foi dissimular esse problema, retirando o documento de circulação e ocultando-o, assim, das massas do Partido. Desse modo os direitistas permaneceram ilesos e o «prestígio do Partido» foi salvaguardado. A isso se chama lutar contra os direitistas

3. Sabe-se que entre a fração parlamentar comunista existem elementos direitistas. Sabe-se que esses elementos de quando em vez não se subordinam à direção do Partido, tentando contrapor-se ao Comitê Central do Partido, A luta contra esses elementos representa uma necessidade vital, particularmente agora, particularmente nas atuais condições de calmaria. Como o camarada Chmeral luta contra esse perigo? Ao invés de desmascararmos elementos de direita da facção comunista, ele os defende e salva com uma elástica resolução de acatamento à direção do Partido, resolução aprovada como resultado de uma luta interna, de bastidores, no quarto ano de existência do Partido. Novamente os direitistas ganharam, e o Partido perdeu.

4. Finalmente, o caso Bubnik. Devo afirmar, camaradas, que o período de calmaria não é um período de ausência de quaisquer manifestações. O período de calmaria é um período de formação e aprendizado dos exércitos proletários, o período de sua preparação para a revolução. Entretanto, os exércitos proletários só podem aprender no decurso de manifestações.

A carestia da vida, verificada nos últimos tempos na Tcheco-eslováquia, é uma das condições favoráveis para essas manifestações. Sabe-se que o Partido Comunista da Tcheco-eslováquia aproveitou o momento e realizou recentemente uma série de demonstrações com base na carestia da vida. Sabe-se que o comunista de direita Bubnik — atualmente excluído do Partido — também se aproveitou da oportunidade e tentou fazer fracassar a manifestação dos operários, golpeando a retaguarda do Partido. Que fez o camarada Chmeral para preservar o Partido dos golpes vibrados contra sua retaguarda pelos direitistas? Ao invés de utilizar o «caso» Bubnik e de, com base nessa questão, desmascarar implacavelmente perante o Partido todo o grupo dos direitistas, o camarada Chmeral reduziu um problema de princípios sobre o direitismo ao problema individual de Bubnik, embora todos saibam que Bubnik não está só, que tem partidários tanto nos sindicatos como na fração comunista do Parlamento e na imprensa. Ao preço de uma pequena vítima (a exclusão de Bubnik), ele salvou da destruição o grupo dos direitistas, em detrimento dos interesses fundamentais do Partido Comunista da Tcheco-eslováquia. E a isso o camarada Chmeral chama de tática de luta contra os direitistas!

O camarada Chmeral chama essa tática de «sutil», «delicada». É possível que essa tática seja realmente sutil; mas nada tem de comum com a tática bolchevique de luta intransigente contra os direitista — disso não pode haver a menor dúvida. O camarada Chmeral esquece-se do seguinte provérbio russo. «A corda rebenta do lado mais fraco». Esqueceu se de que a sutileza não pode ser uma garantia contra o fracasso. E isso aconteceu, como sabe, porque essa tática «sutil» contra os direitistas se fez em pedaços e fracassou à primeira prova, quando o grupo de Bubnik, formado nessa tática, quase pôs a perder a recente manifestação do proletariado tcheco. O fortalecimento dos direitistas e a traição de Bubnik — eis o resultado da tática «sutil» do camarada Chmeral. Por esse motivo é que pensamos que a tática «sutil» do camarada Chmeral é uma tática de salvação dos direitistas, uma tática de aprofundamento da crise, uma tática que acarreta a ruína do Partido.

Por que a velha social-democracia fracassou como partido revolucionário? Entre outros motivos porque Kautski & Cia. puseram em prática uma tática «sutil» de dissimulação e de salvação dos direitistas — a «delicada» tática de «unidade e paz» com E. Bernstein & Cia.. Qual foi, porém, o resultado de tudo isso? Aconteceu que no momento crítico, às vésperas da guerra, os social-democratas de direita traíram os operários, os «ortodoxos» se transformaram em prisioneiros dos direitistas, e a social-democracia em seu conjunto se transformou em «cadáver ambulante». Penso que, com o tempo, o mesmo poderá acontecer com o Partido Comunista da Tcheco-eslováquia, se não substituirdes, de maneira rápida e firme, a tática «sutil» do camarada Chmeral pela tática bolchevique de luta implacável contra os agrupamentos direitistas no movimento comunista. Não quero, com isso, comparar o camarada Chimeral aos social-democratas. De forma alguma. Ele, indiscutivelmente, é um comunista — talvez, mesmo, um comunista magnífico. Quero, porém, afirmar que se não renunciar à sua tática «sutil» inevitavelmente rolará para o social-democratismo.

Qual a tarefa imediata do Partido Comunista da Tcheco-eslováquia?

Sua tarefa imediata reside em lutar contra os desvios ultra-esquerdistas, e ao mesmo tempo travar luta decidida contra o perigo de direita com o objetivo do total isolamento dos direitistas e sua definitiva liquidação. União de todos os elementos realmente revolucionários do Partido para a total liquidação dos grupos direitistas — essa a tarefa do Partido, essa a saída da crise. Sem isso nem se pode pensar na bolchevização do Partido Comunista da Tcheco-eslováquia.

Isso ainda não significa, evidentemente, a expulsão obrigatória de todos e quaisquer elementos direitistas. A expulsão não representa uma medida decisiva na luta contra os direitistas. A tarefa principal é destruir ideológica e moralmente os grupos direitistas no decurso de uma luta de princípios, incorporando a essa luta as amplas massas do Partido. Esse um dos principais e importantes meios de educação do Partido no espírito do bolchevismo. A expulsão se processará, se realmente necessária, como resultado natural da derrota ideológica do adversário. Nesse sentido os esquerdistas cometeram sério erro na Tcheco-eslováquia ao se apressarem em expulsar Bubnik. Ao invés de aproveitar ao máximo o «caso» Bubnik, e de ligá-lo à posição de princípios dos direitistas quanto ao problema das manifestações de massas — desmascarando sua verdadeira fisionomia —, apressaram-se em expulsá-lo, privando-se de todas as possibilidades de uma posterior ofensiva contra os direitistas nesse terreno. Quanto ao direito de o Komintern intervir nos problemas dos Partidos nacionais, não concordo absolutamente com alguns camaradas que se manifestaram pela limitação desse direito. Desejam que o Komintern se transforme em uma organização que paira acima das nuvens; que imparcialmente assista ao que se passa nos diferentes Partidos, e pacientemente registre os acontecimentos.

Não, camaradas; o Komintern não pode tornar-se uma organização dessa espécie. O Komintern é uma organização de luta do proletariado; acha-se ligado ao movimento operário por todas as raízes de sua existência e não pode deixar de intervir nos problemas dos diferentes Partidos, apoiando os elementos revolucionários e lutando contra seus adversários. É evidente que os Partidos possuem sua autonomia interna; os Congressos dos Partidos devem ser livres, e os Comitês Centrais devem ser eleitos pelos Congressos. Concluir daí, porém, pela negação ao Komintern do direito de dirigir e, por conseguinte, de intervir significa trabalhar para os inimigos do comunismo.

Finalmente, falemos do camarada Kreibich. Penso que todo seu discurso visava a amedrontar alguém com a ameaça de cisão. Não toqueis — afirmou — nos direitistas de Brno, senão tudo irá mal; não luteis contra os mesmos, senão haverá cisão. Pois bem: veremos. Desejamos apenas que o camarada Kreibich não tente intimidar-nos, porque de forma alguma nos deixaremos atemorizar. Não pode ele deixar de saber que somos homens temperados na luta e que não nos enganará com uma ameaça de cisão. E se ele quiser passar da ameaça à ação posso assegurar-lhe que apenas ele — e ninguém mais — sofrerá com isso.

Em resumo: É evidente que existe uma crise no Partido. Não há qualquer dúvida quanto às causas da crise. O perigo principal vem da direita. Uma luta firme e irredutível contra esse perigo — eis a tarefa. Unificação de todos os elementos revolucionários do Partido para a liquidação total dos direitistas — eis a saída da crise.

É preciso aproveitar o período de calmaria para fortalecer o Partido, bolchevizá-lo e torná-lo «sempre pronto» para enfrentar quaisquer possíveis «complicações» — pois não se sabe que acontecerá no dia de amanhã —, abrindo caminho a um novo ascenso revolucionário»

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Nota da redação:

(1) A Comissão Tchecoslovaca foi formada no Pleno Ampliado do Comitê Executivo da Internacional Comunista realizado em Moscou de 27 de março a 6 de abril de 1925. Esse Pleno estudou os seguintes problemas: as perspectivas internacionais e a bolchevização dos Partidos Comunistas; a luta pela unidade do movimento sindical mundial; o problema camponês; os debates que se verificaram no P. C. (b) da Rússia; problemas relativos a determinadas secções; etc. Nesse Plano foram criadas as seguintes Comissões: política, tcheco-eslovaca, iugoslava e outras. J. V. Stálin foi eleito para participar da Comissão Política e da Comissão Tchecoslovaca. A 30 de março J. V. Stálin pronunciou, na Comissão Iugoslava, um discurso sobre a questão nacional na Iugoslávia. (retornar ao texto)

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Inclusão 21/07/2011