O Materialismo Histórico em 14 Lições

L. A.Tckeskiss


Introdução


O livro sobre o materialismo histórico que ora apresentamos ao publico é formado por uma serie de preleções proferidas na Universidade Comunista para as minorias nacionais do Ocidente, no ano letivo de 1921-1922.

Nestes últimos anos, a literatura russa enriqueceu-se com uma série de compêndios sobre o materialismo histórico, o que facilita imenso a tarefa do professor.

O materialismo histórico foi entre nós introduzido como matéria de cursos, e por essa razão já conta com um programa elaborado e aceito. Durante o curso a que nos referimos ainda não havia compêndios sobre a matéria. O autor teve, portanto que elaborar um programa um tanto diferente do atualmente aceito, mas que oferece, entretanto algum interesse. O mesmo acontece com a apreciação de alguns fatos.

Não será, portanto demais apontar ligeiramente os pontos essenciais, que distinguem o nosso trabalho.

O materialismo histórico é ao mesmo tempo uma filosofia materialista da historia e uma sociologia materialista. Desvenda as leis estáticas da vida social e as leis dinâmicas do desenvolvimento social. O seu método é o cientifico — materialista. Funda-se sobre bases já determinadas nas ciências naturais e antropológicas e forma os alicerces da historia e da vida social como ciências positivas. Esses conceitos são o fundo deste curso e determinam o seu desenvolvimento lógico.

O curso pode ser dividido em quatro partes. A primeira, a metodologia, compreende uma preleção introdutiva sobre o objeto do materialismo histórico, subdividida em Quatro lições. A 1ª destas lições explica o objeto da sociologia e da historia; a 2ª a posição da sociologia e da historia na escala das ciências (dificuldades em organizar a ciência da vida social e da historia); a 3ª as varias teorias sociológicas e a critica da teoria organicista (spenceriana).

A segunda parte, a filosófica, compreende Três lições: a 1ª – Materialismo e idealismo e suas relações com a ciência; a 2ª – O materialismo do século XVIII e a filosofia critica e seu papel na ciência; a 3ª – O idealismo de Hegel e a formação do novo materialismo cientifico (dialético).

A terceira parte, a sociológica, compreende Quatro lições. A 1ª – Os fundamentos do materialismo histórico; a 2ª – O papel e a ação da técnica no desenvolvimento da sociedade; a 3ª – A estrutura da sociedade e a divisão em classes; a 4ª – A luta das classes como força motriz da historia na formação da psicologia das classes.

A quarta parte compreende quatro lições, destinadas a mostrar como o materialismo histórico investiga e explica certas questões filosóficas de um lado, e por outro, como explica complicados fenômenos sociais, cientificamente, empregando o método materialista. A 1ª lição estuda a questão da liberdade e da necessidade (determinismo); a 2ª – o direito do Estado e a arte, do ponto de vista materialista; a 3ª – a religião do ponto de vista materialista (cientifico); a 4ª – o papel das grandes personalidades e de acasos importantes na historia, sempre do mesmo ponto de vista.

O curso tem o caráter didático. As preleções não foram taquigrafadas. Foram apontadas por dois camaradas, alunos do curso, Portnoi e Liberman, que só anotaram as linhas gerais. Esses apontamentos serviram como matéria prima que só foi trabalhada pelo autor, mas não transformada. Isso se sente no estilo e em alguns enunciados. Se todas as questões abordadas nesse curso fossem suficientemente desenvolvidas, o nosso trabalho exigiria não uma brochura, porem, inúmeros volumes, mas então perderia o caráter de curso.

As preleções contem poucas citações das obras dos mestres marxistas. O autor julgou que só viriam aumentar o texto. O curso todo não é senão um ensaio de transmitir, numa forma sistemática e logicamente concatenada, os ensinamentos de Marx e Engels. Em algumas passagens tenta o autor abordar a questão, empregando um método de exposição diverso do usado habitualmente, diferindo também a sua interpretação; terá sido original sem, contudo alterar o aspecto geral da matéria.

Num curso são permitidas as repetições e liberdades estilísticas.

Aproveito a oportunidade para externar meus agradecimentos aos camaradas Portoin e Liberman que, com seu devotamento, contribuíram para a publicação deste curso.

Preleção Introdutiva

Que é o materialismo histórico?

O materialismo histórico é parte da concepção geral marxista. O que é o marxismo e que lugar ocupa o materialismo histórico na ciência social e particularmente no marxismo?

Cada época social tem sua concepção da vida que surge da ciência e da filosofia dominantes em dada sociedade e que representam os interesses e pontos de vista das classes dominantes. Assim, a concepção da vida na antiguidade era diferente do que na época da escravidão; a concepção burguesa é diversa da feudal e do mesmo modo a concepção proletária já se distingue radicalmente da burguesa.

O marxismo é a concepção, isto é, o modo de encarar a vida, do ponto de vista do proletariado e que permite esboçar a concepção que terá a sociedade que ele esta destinado a criar. Esta concepção surgiu algumas décadas antes de Marx e com Marx ainda não se completou.

Afirmar o contrario seria estar fundamentalmente em contradição com as bases do materialismo histórico. Marx e Engels apenas indicaram as linhas gerais, segundo as quais a concepção proletária se deve desenvolver e, quando mais se desenvolve o proletariado, tanto mais se deve desenvolver a sua concepção sobre a vida.

O materialismo histórico como parte do marxismo, estuda as leis da vida social e a tendência do seu desenvolvimento. A sociedade humana surgiu, por um lado, de agregados inferiores e por outro, sendo composta de indivíduos isolados: organismo, cujo desenvolvimento está subordinado a determinadas leis químicas e biológicas, as quais por sua vez, estão ligadas a fenômenos físicos e, por conseguinte, á natureza em geral.

Realmente, nada existe na natureza que se ache isolado, que seja independente, que não tenha relação com alguma outra coisa. O materialismo histórico está, portanto, estreitamente ligado ao determinismo e á moderna ciência natural. Ele não se ocupa com o estudo das leis gerais da natureza; forma, apenas, do resultado de todas as ciências a sua base concreta, e emprega o método cientifico para o estudo da vida social e seu desenvolvimento. O materialismo histórico é, portanto, uma ciência cujo objeto é o estudo dos fenômenos sociais.

Com relação a estes fenômenos o materialismo histórico não se preocupa com pormenores, -- estabelece somente as leis gerais básicas e as tendências do desenvolvimento da sociedade. Tomando-se, por exemplo, os fenômenos sociais, tais como o direito, a moral, a religião (que são, alias mais antigos que a própria ciência social, e que, no entanto até Marx não tinham sido cientificamente estudados), nota-se que não são os pormenores desses fenômenos que formam o objeto do estudo histórico-materialista. Este, somente estabelece cientificamente seu conteúdo e as leis do seu desenvolvimento.

Alguns fatos ou pretensas ciências sociais foram por Marx e Engels analisados e estudados: são aspectos da historia, da economia política, e as tendências do sistema capitalista. Outros foram investigados por seus discípulos, particularmente por Lenine, que melhor compreendeu e desenvolveu a escola proletário-marxista.

Á pergunta: qual é o objeto do materialismo histórico, devemos responder que o materialismo histórico estuda os fenômenos sociais e a historia.

À segunda pergunta: como ele as estuda, a resposta é: — do ponto de vista marxista.

O materialismo, que antes era somente uma escola filosófica, torna-se, alem disso, uma filosofia da historia.

O materialismo histórico estuda, portanto cientificamente as sociedades e a historia.

Que significa porem estudar cientificamente uma coisa, e qual é em geral, a finalidade de uma ciência? Que é a historia? Pode ela construir uma ciência?

A finalidade da ciência é descobrir e estudar as leis segundo as quais se apresentam os fenômenos. Para isso deve a ciência descrever e determinar antes de mais nada os fenômenos que se propõe estudar. A ciência deve, portanto buscar as causas dos fenômenos dados e, com isso, também as relações entre aquelas e estes. Aquecendo a água até certo grau, obtemos vapor. Temos aqui dois fenômenos; um conseqüência do outro. Existe, portanto entre eles uma relação constante. Constatada essa relação entre os dois fenômenos, obtemos uma lei empírica. O conjunto das leis forma a ciência.

A finalidade de cada ciência é encontrar a relação constante entre determinados fenômenos, para a previsão dos mesmos, porque saber quer dizer prever e só poderemos prever conhecendo as relações constantes entre os fenômenos, — as leis (causas e efeitos).

Está claro que nem todos os conhecimentos já alcançaram o verdadeiro grau cientifico, pois muitos fenômenos da natureza e da vida ainda não foram estudados cientificamente. Dizemos, portanto, que os conhecimentos em geral estão ainda imperfeitos e incompletos; a sua finalidade é, entretanto, o aperfeiçoamento, isto é, não deixar na natureza nem na vida um só fenômeno que não seja cientificamente estudado.

O materialismo histórico, dizíamos, tem a missão de estudar cientificamente e pelo método materialista, a história e a sociedade (dois conceitos intimamente ligados entre si). Não é, entretanto a ciência da sociedade em si; indica somente o método e o processo no estudo das leis da vida social e do seu desenvolvimento. Não se deve confundir o materialismo histórico com a sociologia. Esta estuda e determina as leis estáticas e dinâmicas da sociedade, enquanto que o materialismo histórico indica somente o meio pelo qual se descobrem estas leis.

Surge aqui uma questão: se cada ciência deve determinar as relações constantes entre fenômenos dados, estes fenômenos devem se repetir. Mas a historia é somente uma substituição de fenômenos que não se repetem. Então, como pode a historia ser estudada cientificamente?

Estas dificuldades explicam o fato de não ter, até Marx, a história existindo com caráter cientifico. Existia apenas uma filosofia da historia que procurava encontrar as tendências do desenvolvimento humano e o materialismo histórico saiu de algum modo, da filosofia da historia de Hegel.

O materialismo histórico criou uma base para a sociologia, mas não é a ciência da sociedade que alias não pode substituir; por outro lado descobriu as bases gerais do desenvolvimento social, — do “progresso” humano, determinando, cientificamente o conteúdo (a razão de ser) do progresso em si.

O materialismo histórico, não é porem, a história.

O materialismo histórico é o método cientifico e o estudo da sociologia, base cientifica para a novíssima filosofia da história.


Este texto foi uma contribuição do
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Inclusão 17/02/2010