A natureza do movimento juvenil e suas presentes tarefas

Zhou Enlai

31 de dezembro de 1937


Origem: segunda e terceira partes de um discurso proferido na Universidade de Wuhan, publicado em A Juventude em Tempos de Guerra, nº 1, Wuhan.

Fonte para a tradução: Obras Escogidas de Zhou Enlai, t. I, Pequim: Ediciones en Lenguas Extranjeras, 1981, pp. 116-119.

Tradução e HTML: João Batalha.

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Caráter do movimento juvenil contemporâneo

Gostaríamos de referir-nos ao ambiente em que vive a juventude de nossos dias, à luz da situação atual da Guerra de Resistência.

Não há dúvida de que estes são tempos de grandes mudanças e lutas, sem precedentes na história. O inimigo procura reduzir-nos, a nós e a nossos filhos e netos, à condição de escravos apátridas. Para sobrevivermos, não temos outra alternativa senão travar a Guerra de Resistência e perseverar nela até o fim. Estes são tempos de luta que não podem ser comparados aos do Movimento de 4 de Maio de 1919(1), do Movimento de 30 de Maio de 1925(2) ou da Grande Revolução de 1925(3). As lutas de outrora foram lutas políticas internas e de escala limitada, ao passo que a atual é uma guerra geral de resistência contra a agressão fascista de um inimigo externo. Este é um momento em que todo o povo chinês — vítima de opressões, massacres, ultrajes e agressões — se ergue em luta, razão pela qual atravessamos agora uma situação inteiramente distinta. Dadas as transformações no ambiente geral da nação, o papel que cabe hoje à juventude é o mais árduo e, ao mesmo tempo, o mais importante. Já não lhes é possível prosseguir nos estudos, buscar emprego ou contrair matrimônio como outrora [...], enfim, já não podem seguir o curso normal da vida. A guerra nos vedou a tranquilidade do estudo. Dos principais centros de cultura — Nanquim, Xangai, Beiping, Tianjin, Guangzhou e Wuhan — já se perderam quatro. A maior parte dos estabelecimentos de ensino localizados nas áreas de retaguarda deixou de funcionar, de modo que centenas de milhares de jovens se encontram sem lar e sem escola. Particularmente dramática é a sorte de nossos jovens amigos do Nordeste, que, forçados repetidas vezes a emigrar e andejar de um lugar a outro, provaram os dissabores deste mundo. A quantos não se parte o coração ao ouvir a melodia da canção Sobre o rio Songhua! Isto é indubitável. Porém, devemos sentir orgulho, muito orgulho. Nossa jovem geração deve alegrar-se por ter-lhe tocado viver justamente em tão relevante e turbulenta época. Em uma época como esta, devemos progredir pelo estudo e fortalecer-nos pelo tempero da luta.

À nossa juventude não pertence apenas o presente, mas também a aguarda um resplandecente porvir. Não deve se ocupar somente de si mesma, mas também de seus futuros filhos e netos, de seus descendentes. A juventude contemporânea não deve se limitar a indagar como alcançar a vitória final da Guerra de Resistência, mas preocupar-se igualmente em como, após essa vitória, transformar a China em uma república livre e democrática.

Por isso, consideramos que, sob um prisma positivo, esta é a melhor das épocas, uma época que permitirá à nossa jovem geração enfrentar o desafio corajosamente, consumar realizações maiores e conquistar um futuro mais esplêndido. Tal oportunidade é rara sob circunstâncias convencionais.

As tarefas do movimento juvenil contemporâneo

Nossa juventude não só deve salvar a pátria na corrente luta pela sobrevivência nacional, mas também assumir a responsabilidade de reconstruí-la no futuro. Salvar a pátria e edificá-la: parece-me que, para a juventude chinesa, cai como uma luva a expressão “o fardo é pesado e o caminho é longo”.

Para onde devemos direcionar nossos esforços hoje? Gostaria de propor quatro possibilidades aos nossos jovens amigos:

Primeiro, alistar-se nas forças armadas. Este é, presentemente, o meio mais eficaz de salvar a nação do perigo de subjugação. A responsabilidade de estabelecer novas forças armadas e reforçar as fileiras das já existentes recai sobre os ombros dos nossos jovens amigos. Na minha opinião, tal como um homem que não sabe se defender deixa de ser homem de verdade, da mesma forma ocorre com uma nação. Portanto, o melhor é que recebamos um treinamento militar formal, de modo que possamos estar prontos para marchar a qualquer momento rumo ao campo de batalha e aniquilar o inimigo.

Segundo, prestar serviços nos cenários de guerra. As massas populares desses locais, carentes de organização, vagam perplexas, sem saber o que fazer. Querem defender-se, querem lutar, mas não há quem as oriente. Temos de ir lá, organizá-las, armá-las e dirigi-las na guerra de guerrilhas, apoiando as operações das tropas regulares, bloqueando o fluxo de informações ao inimigo, esvaziando os campos, para que este não encontre nada, sabotando suas linhas vitais de comunicação […] ou, pelo menos, dificultando a ação dos colaboracionistas mediante a cooperação entre as forças armadas e a população civil.

Terceiro, ir às zonas rurais. Embora tenhamos perdido muito território, ainda nos restam um vasto número de cidades e povoados na retaguarda, onde, até hoje, muitas pessoas desconhecem o que é a resistência à agressão japonesa. Se quisermos prosseguir no esforço de guerra e aumentar a capacidade combativa de nossas forças, é preciso mobilizar amplos setores das massas populares para incorporá-los às forças armadas. Devemos reformar os métodos irracionais de recrutamento vigentes. Todos os jovens de nobres aspirações devem, portanto, organizar-se e dirigir-se diretamente às zonas rurais para mobilizar as massas, de modo que os homens aptos do interior se apresentem voluntária e destemidamente à frente de batalha. Em nosso trabalho, devemos oferecer tratamento preferencial às famílias dos militares que participam da guerra antijaponesa. O ideal é que cada um contribua com o que puder, seja dinheiro ou esforços, e que aqueles no campo que disponham de recursos, mas não queiram se alistar, custeiem efetivamente o sustento das famílias desses militares, a fim de que estes fiquem livres de preocupações domésticas. Acredito que assim se selará a cooperação entre os órgãos governamentais e o povo, evitando grande parte dos possíveis atritos. Ademais, muito pode ser feito no que tange à autodefesa popular, preparando-a para coordenar suas atividades com as futuras operações das forças governamentais na Guerra de Resistência.

Quarto, dirigir-se às áreas ocupadas pelo inimigo. Não devemos permitir que o inimigo se apodere tão facilmente de todo o Leste e Sul da China como fez com as quatro províncias do Nordeste(4). Sob as duras condições da feroz dominação inimiga, devemos forjar-nos e, na clandestinidade, expandir nossas organizações de salvação nacional, armando secretamente nossos compatriotas oprimidos, aguardando o momento em que nosso exército regular lance a contraofensiva, para que possamos atuar em coordenação, uns de dentro e outros de fora.

Se nossos jovens amigos se dispersarem entre as massas, em todos os recantos do país, nossa força será tal que não terá igual!

O trabalho e o estudo são duas coisas inseparáveis. Somente o estudo constante pode levar adiante, com êxito, nosso trabalho. Estou convencido de que, contanto que o desejemos, podemos estudar onde quer que nos encontremos. Cada um deve encontrar um lugar apropriado para desenvolver suas aptidões, estudar e trabalhar.

Isso não significa, entretanto, descartar o que aprendemos. Significa, antes, acrescentar ao que já conquistamos, que constitui a base, alinhando a teoria à prática e aplicando nossos conhecimentos.

O movimento juvenil da China se distingue por suas gloriosíssimas tradições. Hoje, em meio à luta pela libertação nacional, cabe à nossa juventude uma missão grandiosa.

Trabalhemos, superemos todas as dificuldades, dissipemos todos os receios e atuemos com coragem, perseverança, laboriosidade e perspicácia [...] Sejamos pilares da Guerra de Resistência.

Diante de nós desponta um porvir radiante e promissor.

Jovens amigos, esforcem-se por coroar a Guerra de Resistência com a vitória final, por fazer surgir uma nova China, independente, livre e feliz!