O trabalho político nas forças armadas envolvidas na Guerra de Resistência

Zhou Enlai

10 de janeiro de 1938


Primeira edição: o presente artigo foi publicado, sem indicar a data da sua redação, no panfleto Programa do Trabalho Político na Guerra de Resistência, editado em Xangai no dia 10 de janeiro de 1938.

Fonte para a tradução: Obras Escogidas de Zhou Enlai, t. I, Pequim: Ediciones en Lenguas Extranjeras, 1981, pp. 120-130.

Tradução e HTML: João Batalha.

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I. Trabalho político revolucionário, artéria vital da revolução nacional

As lições extraídas em dois meses de Guerra de Resistência em escala nacional evidenciaram, de maneira nítida e imperiosa, diante de todo o povo, e, de modo particularmente agudo, diante do Kuomintang, a necessidade premente de reformar nossas forças armadas, a fim de que correspondam às exigências da Guerra de Resistência de toda a pátria.

O fator mais relevante na reforma de nossas forças armadas é a instituição de um sistema de trabalho político revolucionário. Somente mediante a criação de tal sistema nas forças empenhadas na guerra antijaponesa será possível elevar o espírito combativo de toda a nação, unindo, numa só vontade, oficiais e soldados, militares e civis, de modo que, agindo como um só homem, levem até as últimas consequências a luta pela liberdade e independência da nação!

Antes da reorganização do Kuomintang(1) em Guangzhou, em 1924, e da fundação do Governo Nacional, as forças armadas de velho tipo ainda não haviam sido reformadas, tampouco fora criado o exército revolucionário. Como consequência, permaneceu indefinido o desfecho dos encarniçados combates travados pelos exércitos de Guangdong, Hunan, Yunnan e outros, com mais de 200 mil homens, contra as tropas de Chen Jiongming e de seus aliados, nas bacias dos rios Dongjiang, Xijiang e Beijiang e em Nanlu(2). Em contrapartida, a Expedição do Leste(3), empreendida pelo novo Exército Nacional Revolucionário(4) logo após a formação de dois regimentos oriundos da primeira turma de cadetes da Academia Militar de Huangpu(5), tendo esses dois regimentos como núcleo principal, contou com a calorosa acolhida e o apoio das massas populares da região do Dongjiang, recuperou Chaozhou e Shantou, avançou até as fronteiras da província de Fujian e rapidamente aniquilou as forças de Yang e Liu(6). Do ponto de vista puramente militar, não seria um milagre que, diante da impotência de 200 mil homens dos exércitos de Guangdong, Hunan e Yunnan, incapazes de derrotar Chen Jiongming ao longo de um ano inteiro de sangrentos combates, tenha bastado o acréscimo de apenas dois regimentos, compostos por alguns milhares de homens, para decidir toda a batalha? A razão desse milagre reside no fato de que os dois novos regimentos eram forças armadas revolucionárias de novo tipo, cujo trabalho político tinha como base os Três Princípios do Povo revolucionários(7). Politicamente, eram superiores ao inimigo, o que lhes permitiu elevar sua combatividade, bem como assegurar sua unidade interna e sua unidade com a população civil. Foi precisamente a lição desse fato irrefutável que levou o Kuomintang a tornar o trabalho político revolucionário o elo central na formação contínua de novas forças armadas revolucionárias e na reforma das antigas. Daí a vitória da Expedição do Norte(8).

O fato de o Exército Vermelho da União Soviética ter conseguido, aliando-se aos operários e camponeses de todo o país, repelir os ataques da Guarda Branca e dos intervencionistas estrangeiros em meio às devastações e privações; de o Exército Vermelho da China ter sabido unir, ao longo de dez anos, o povo das zonas soviéticas(9) para travar lutas sangrentas; e de o Exército Republicano Espanhol, em unidade com seu povo, ter levado adiante uma luta resoluta e prolongada contra as tropas fascistas invasoras da Alemanha e da Itália e contra as forças amotinadas de Franco — todos esses “milagres”(10) se deveram, entre outros fatores determinantes, ao sólido trabalho político revolucionário realizado no seio das forças armadas revolucionárias.

À vista disso, podemos afirmar com plena convicção que o trabalho político revolucionário, baseado na doutrina revolucionária, constitui a artéria vital e a alma de todo exército revolucionário.

Há quem afirme que o trabalho político não passa de mera charlatanice, “falatório de curandeiro que tenta vender seus emplastros milagrosos”. Outros opinam que o trabalho político apenas serve para intensificar os atritos entre superiores e subordinados no exército, criando maiores obstáculos para os oficiais no exercício do comando, e tornar ainda mais difícil ao exército dirigir a população civil, quando se estabelecem relações “excessivamente cordiais” entre ambos.

Devemos dizer com franqueza e sinceridade que essas reprimendas lançadas contra o trabalho político derivam tanto da falta de compreensão sobre seu verdadeiro significado quanto de uma oposição consciente e premeditada ao trabalho político revolucionário nas forças armadas, com o propósito de impedir sua revolucionarização. Se o trabalho político se reduz a mera charlatanice, a culpa não reside nele em si, mas nos quadros políticos que não realizaram um autêntico trabalho político revolucionário. Se se fala em termos vagos sobre a doutrina e o programa da revolução, mas, na prática, se obstaculiza de mil maneiras a sua aplicação; se, em declarações, transmissões radiofônicas e programas de treinamento, se conclama oficiais, soldados e civis a participar do esforço bélico em escala nacional, mas, na prática, se priva o povo de todo direito e de toda possibilidade de fazê-lo, dificultando por toda parte o desenvolvimento das relações entre as forças armadas e a população civil, inclusive proibindo-a de manifestar sua solidariedade às tropas; se se eleva a voz pregando a Guerra de Resistência e lançando apelos vazios para que os soldados combatam bravamente na frente, mas, no momento do confronto, se permite que oficiais de alta patente recuem diante do inimigo ou mesmo fujam disfarçados em trajes civis — então tudo isso se opõe à doutrina e ao programa da revolução, assim como à norma de conduta própria de um verdadeiro exército revolucionário. Nessas condições, o trabalho político não passa de algo meramente decorativo, insípido e suntuoso. Inevitavelmente degenerará em charlatanice, em “falatório de curandeiro”.

O trabalho político, como tal, deve servir para assegurar a unidade e estreitar os laços entre as forças armadas e a população civil, bem como entre oficiais e soldados, com base na doutrina e no programa da revolução. É impossível forjar a unidade e exercer o comando de modo eficiente quando não existem vínculos sólidos entre oficiais e soldados, ou entre as próprias forças armadas e o povo, fundados no princípio supremo da união e da coesão, na luta resoluta e abnegada pela nação e pela pátria, quando os “superiores”, em vez de preconizar tal princípio e adotá-lo de forma exemplar, perpetuam no exército os velhos métodos dos senhores da guerra, deixando subsistir a tendência centrífuga, fruto da opressão dos soldados pelos oficiais e da população civil pelas forças armadas. Nestas condições, tampouco é possível transformar o exército em uma autêntica vanguarda revolucionária da libertação nacional.

Alguns perguntam: o Exército Nacional Revolucionário continua praticando o trabalho político instituído na época da Grande Revolução(11)? A esta pergunta devemos responder, com igual franqueza e sinceridade, que a organização e o sistema políticos das forças armadas de então já não subsistem nos chamados Departamentos de Instrução Política(12) da atualidade. Ao longo dos últimos dez anos, os Três Princípios do Povo revolucionários e as Três Grandes Políticas revolucionárias do Dr. Sun Yat-sen deixaram de constituir o conteúdo do trabalho político. Por acaso, um trabalho político desprovido de sistema e de conteúdo revolucionários pode corresponder às necessidades atuais de um exército encarregado da revolução nacional? Nos dez anos transcorridos desde 1927, somente o atual XVIII Grupo de Exércitos, ou seja, o Exército Vermelho, manteve e desenvolveu o trabalho político estruturado na época da Grande Revolução, trabalho fundado em um sistema revolucionário e dotado de conteúdo igualmente revolucionário.

II. As tarefas e o conteúdo do trabalho político nas forças armadas antijaponesas

O propósito fundamental do trabalho político nas forças armadas revolucionárias é elevar sua capacidade combativa, assegurar a vitória na guerra, consolidar suas fileiras e preservar a união com o povo.

A nação chinesa encontra-se em uma conjuntura decisiva: sobreviverá ou perecerá. Impõe-se, portanto, a necessidade urgente de que as forças armadas antijaponesas possuam a combatividade capaz de levar a guerra até o fim, sem poupar sacrifícios, e de que estas, junto à população civil, salvem em conjunto a pátria e conquistem a vitória final em uma prolongada Guerra de Resistência. Hoje, para eliminar todo o fracionismo ainda existente nas forças armadas; para extirpar a noção de preservar as próprias forças e considerar as próprias tropas como propriedade pessoal; para suprimir todos os métodos dos senhores da guerra, marcados pela opressão dos inferiores pelos superiores, dos soldados pelos oficiais e da população civil pelos militares; e para erradicar todas as manifestações ignominiosas do temor mórbido do Japão, que se manifesta em hesitações, prevaricações, relutância em auxiliar as tropas amigas em apuros ou fugir ao menor sinal do inimigo, não há outro caminho senão desenvolver o trabalho político revolucionário estruturado na época da Grande Revolução, convertendo todas as forças armadas do país em forças revolucionárias dispostas a perseverar até o fim na luta pela libertação nacional.

O trabalho político revolucionário em todas as forças armadas do país deve voltar a se basear nos Três Princípios do Povo revolucionários e tomar como eixo as Três Grandes Políticas revolucionárias, princípios e políticas defendidos pelo Dr. Sun Yat-sen. É preciso fazer com que todos os comandantes, combatentes e cidadãos compreendam e acreditem firmemente que a Guerra de Resistência que hoje travamos é uma luta em favor dos interesses da pátria, da nação, de nós mesmos e das gerações futuras, uma luta pelos três grandes objetivos — a libertação nacional, o bem-estar do povo e as liberdades democráticas —, e fazê-los entender a fundo e aplicar firmemente as Três Grandes Políticas — aliança com a União Soviética, cooperação com o Partido Comunista e apoio aos operários e camponeses —, reconhecendo nelas o único caminho capaz de materializar os Três Princípios do Povo revolucionários. Somente ao integrar um trabalho político dessa natureza com a execução efetiva das políticas revolucionárias, poderemos unir numa só vontade as forças armadas e a população civil de todo o país, para que ambas atuem como um só homem, mantenham plena confiança na vitória, forjem entre si uma firme unidade voltada à brilhante perspectiva da libertação nacional e, sem se intimidar diante das dificuldades e reveses, sem ceder a ameaças ou subornos e sem se deixar confundir pelas intrigas do inimigo, perseverem até o fim na luta pelo triunfo final da Guerra de Resistência.

Tendo em vista esses objetivos e princípios básicos, o que devemos realizar na prática para levar adiante o nosso trabalho político? Creio que este deve se desenvolver em três frentes: dirigido às forças armadas, à população civil e às tropas inimigas.

Em relação ao trabalho político a ser desenvolvido no seio das forças armadas, impõe-se atualmente cumprir, com urgência, as seguintes tarefas:

1) Realizar uma educação política revolucionária entre todos os comandantes e soldados de cada unidade, propagar os Três Princípios do Povo revolucionários e integrar a teoria à prática. Devemos garantir que estes adquiram uma concepção de mundo progressista e revolucionária, compreendam as tendências internacionais, a conjuntura chinesa e o estado geral das coisas no Japão, entendam o que devem fazer para alcançar a vitória final na Guerra de Resistência e elevem significativamente sua consciência nacional e seu espírito de sacrifício. Para tanto, deve-se conceder à educação política a mesma importância que ao treinamento militar, levá-la adiante de forma regular, elaborar materiais didáticos de conteúdo revolucionário, promover amplas discussões entre comandantes e soldados, esclarecer pacientemente todas as dúvidas e mal-entendidos, combater todo formalismo e ritualismo na educação política e elevar o interesse dos combatentes pelo estudo e pela investigação. Somente assim será possível aprofundarmos efetivamente a educação política.

2) Empenhar-nos em proporcionar melhor tratamento aos soldados e em elevar suas condições de vida. É preciso reconhecer que, nas forças armadas de velho tipo, tanto o tratamento dado aos soldados quanto suas condições de vida são péssimas. Se não fizermos todo o possível para melhorar essa situação, será impossível estimular o ânimo combativo das tropas e eliminar a barreira entre oficiais e soldados. É imperativo proibir os insultos, os castigos corporais e o desvio dos soldos por parte dos oficiais. Esses pontos devem constar em diretivas formais e ser cumpridos sob a supervisão dos órgãos políticos. Deve-se organizar diversos espaços e atividades adequadas, como centros de exposições e clubes da Guerra de Resistência, a fim de promover recreações sadias e práticas esportivas entre oficiais e soldados, impulsionar a campanha de alfabetização entre os combatentes, garantir o abastecimento das tropas, permitir que os soldados elejam comitês encarregados da administração do rancho e cuidar da melhoria de sua alimentação. Todos os presentes enviados pelas massas, como expressão de simpatia para com o exército, devem ser distribuídos principalmente entre os oficiais subalternos e os soldados, e deve-se admitir que as massas populares que vêm saudar as forças armadas entrem em contato direto com estes. Somente assim oficiais e soldados poderão viver felizes e cheios de entusiasmo. O trabalho político se tornará um verdadeiro “falatório de curandeiro” se os órgãos políticos não souberem articulá-lo estreitamente à melhoria das condições de vida e do tratamento dado aos soldados.

3) Estabelecer uma disciplina militar revolucionária consciente nas forças armadas. A implementação da disciplina e a consolidação de um exército revolucionário nacional devem fundamentar-se na consciência política e nacional, e não em insultos, açoites e outras formas de castigos físicos. A unidade entre as forças armadas e o povo deve assentar-se na solidariedade que cada oficial ou soldado manifeste conscientemente para com as massas populares no decorrer da defesa ativa de seus interesses, jamais por meio de opressão, violência, coação ou ordens arbitrárias. Aqueles que cometerem erros ou infringirem a disciplina devem ser tratados principalmente com métodos educativos e persuasivos, recorrendo-se a sanções disciplinares apenas quando todos os outros meios se mostrarem insuficientes. Assim, a observância voluntária da disciplina em um exército revolucionário só poderá ser assegurada mediante educação política adequada, compreensão e confiança mútuas entre oficiais e soldados, além do cultivo de laços afetivos entre as forças armadas e o povo. Para instaurar uma disciplina militar revolucionária, os órgãos políticos devem basear seu trabalho no fortalecimento da educação política e na melhoria do tratamento dispensado aos soldados.

4) Assegurar a plena execução das ordens dos comandos militares nos assuntos de natureza militar-administrativa. Todas as ordens emitidas pelos comandos militares em prol dos interesses nacionais da Guerra de Resistência e destinadas a fortalecer o papel das forças armadas e consolidá-las organicamente devem ser cumpridas pelos órgãos políticos por meio de seu trabalho político, apoiando-se na elevada consciência nacional e na disciplina consciente dos oficiais subalternos e soldados. É necessário combater com rigor toda tendência ao desacato e, através disso, educar todos os oficiais e soldados.

5) Fazer valer o papel exemplar de todos os trabalhadores políticos. Estes devem servir de modelo a todos os oficiais e soldados tanto no plano ideológico e político quanto na conduta prática; devem ser fiéis à doutrina da revolução; devem influenciar todos os oficiais e soldados por meio de sua vontade inquebrantável e de sua perseverança diante das dificuldades e provações; devem unir todos os oficiais e soldados com uma atitude modesta, afável e de paciente persuasão. Somente assim será possível elevar o prestígio do trabalho político, fazê-lo avançar e aumentar sua eficácia. É preciso vencer e eliminar todos os vícios de arrogância, exibicionismo e charlatanismo, bem como erradicar a malversação e a corrupção.

No que se refere ao trabalho político entre a população civil, é imperioso agir do seguinte modo:

1) Defender os interesses do povo e integrar os militares com os civis. Onde quer que uma unidade militar chegue, deve ser terminantemente proibido recrutar mão de obra à força, requisitar veículos sem indenização ou impor tributos sobre grãos e forragem. É preciso assegurar que os militares paguem pelo que comprarem de forma justa e que não importunem o povo nem prejudiquem seus interesses. Quando houver real necessidade de obter ajuda do povo para o cumprimento de tarefas militares, devem ser convocadas conferências com os verdadeiros representantes das massas populares, a fim de convencer e estimular o povo para que auxilie o exército de forma voluntária.

As forças armadas revolucionárias, onde quer que passem, não devem apenas garantir que seus próprios membros não atormentem o povo nem atentem contra seus interesses, mas também ajudem a eliminar tudo aquilo que o oprime. Os órgãos políticos do exército devem adotar uma postura resoluta em defesa dos interesses do povo e libertá-lo de seus sofrimentos. Somente assim o povo poderá compreender, pela própria experiência, que este é o seu exército, que luta pelos interesses nacionais, e só assim as forças armadas e a população civil se unirão solidamente.

2) Organizar e armar o povo. Por onde quer que passem as forças de resistência, seus órgãos políticos devem assegurar ao povo o direito de decidir seus próprios assuntos. Devem conduzir um trabalho de propaganda entre o povo, mobilizá-lo, auxiliá-lo e dirigi-lo para que se organize e se arme. É necessário estimular os diversos setores populares e círculos sociais a formar, por sua própria iniciativa, toda espécie de organizações de resistência à agressão japonesa e de salvação nacional, bem como forças armadas antijaponesas. As organizações existentes que não sejam adequadas para mobilizar as massas a participar da guerra ou que restrinjam suas atividades devem ser reformadas, além de dotá-las de uma base popular mais sólida, de modo a pôr plenamente em jogo a iniciativa das massas que as integram. Somente assim as forças armadas antijaponesas poderão contar com a colaboração das forças de milhões e milhões de pessoas e suprir todas as suas necessidades apoiando-se na força do povo.

3) Mobilizar o povo para liquidar os colaboracionistas. Os serviços secretos japoneses possuem agências espalhadas por todo o nosso país, e os colaboracionistas cometem abusos por toda parte. A fim de consolidar as áreas de operações das forças armadas antijaponesas e sua retaguarda, bem como elevar a vigilância política das tropas e dos civis, os órgãos políticos devem empenhar-se em mobilizar as massas e coordenar seu trabalho com as campanhas massivas de contraespionagem. Toda indulgência para com os invasores japoneses e os colaboracionistas chineses constitui um crime contra a nação. Uma das principais tarefas dos órgãos políticos para assegurar o prosseguimento da Guerra de Resistência é preparar os militares e o povo, assim como erradicar, por meio de medidas resolutas, as atividades dos espiões e agentes inimigos.

No que diz respeito ao trabalho voltado a lidar com as tropas inimigas, é necessário proceder da seguinte maneira:

1) Realizar um trabalho constante de propaganda e agitação entre as tropas inimigas. Devemos aproveitar toda oportunidade que surja para desmoralizá-las e desagregar suas fileiras, enfraquecendo assim sua capacidade combativa.

2) Dirigir apelos em voz alta às tropas inimigas ou lançar panfletos ao longo das linhas de fogo, inclusive durante o combate. Isso minará sua disposição para lutar.

3) Despender todos os esforços para impedir os maus-tratos aos prisioneiros de guerra. Devemos tratá-los com clemência, educá-los e realizar entre eles um trabalho de esclarecimento, para então libertá-los imediatamente.

III. A organização e os métodos do trabalho político

Para levar adiante o trabalho político revolucionário e obter resultados satisfatórios, é preciso implementar um sistema rigoroso e uma sólida organização. Para tanto, antes de mais nada, deve-se abandonar toda concepção errônea que implique negligenciar esse trabalho ou considerar os órgãos políticos como algo meramente decorativo, mantido apenas por razões de aparência.

O trabalho político nas forças armadas deve dispor de uma estrutura organizativa independente, estabelecida em todas as instâncias, desde a mais alta, correspondente ao Departamento Político Geral em escala nacional, até o instrutor político de companhia. Os órgãos políticos, além de se submeterem às orientações dos comandos militares da mesma instância, devem se subordinar às diretrizes dos órgãos políticos superiores. Quando um órgão político discordar de uma instrução do comando militar da mesma instância, terá o direito de recorrer ao órgão político imediatamente superior. Os oficiais militares dos diversos níveis devem proporcionar todas as facilidades para a realização do trabalho político em suas respectivas instâncias e abster-se de interferir nele ou obstruí-lo. Os oficiais dos órgãos políticos em cada nível têm o direito de denunciar perante os órgãos políticos superiores qualquer oficial militar da mesma ou de instâncias inferiores que prejudique a causa revolucionária ou viole a doutrina da revolução, o programa revolucionário ou a disciplina revolucionária. Somente assim será possível garantir que os órgãos políticos alcancem seus objetivos e cumpram suas tarefas.

Precisamente em razão da séria responsabilidade que recai sobre os trabalhadores políticos e das inadiáveis tarefas que lhes incumbem, é preciso agir com toda prudência em sua seleção e preparação. Devem ser reunidos os melhores elementos de todos os cantos do país para o trabalho político. Deve-se preparar incessantemente os quadros jovens mais avançados do país e destiná-los aos órgãos políticos das forças armadas em todo o território nacional, assegurando assim o cumprimento das tarefas políticas. Prejudicará esse trabalho toda ideia de empregar elementos incompetentes no trabalho político para desempenhar o mero papel de figurantes.

Novamente, justamente por conta da imensa responsabilidade que recai sobre os órgãos políticos e os trabalhadores políticos, é imperativo prestar atenção aos métodos empregados na realização do trabalho político. Deve ser adotada uma abordagem flexível e variada nas diferentes unidades militares, de acordo com seus antecedentes, sua forma de organização, os costumes de seus integrantes, sua composição social e o estado das relações entre oficiais e soldados, bem como em conformidade com as complexas condições sociais, econômicas, políticas e étnicas de cada localidade. Não devem estabelecer um antagonismo entre os assuntos militares e políticos, nem se divorciar da realidade ou se afastar do exército e da população civil. É necessário conquistar a confiança dos oficiais, soldados e civis por meio de uma paciente atitude de esclarecimento e persuasão, unindo-os numa luta resoluta sob a orientação da doutrina e do programa revolucionário.

Todas as forças armadas antijaponesas têm a necessidade premente de empreender, com a maior determinação e prontidão, seu trabalho político revolucionário, condição indispensável para conquistar a vitória final na Guerra de Resistência. É em vista da urgência desse importante problema que apresentamos estas modestas sugestões às forças armadas de todo o país.