O Novo Evangelho

A Base Econômica da Política

O Estômago, não o Cérebro

James Connolly

12 de agosto de 1899


Primeira edição: Workers' Republic, 12 de agosto de 1899.

Fonte: Seção em Inglês do MIA.

Tradução e HTML: Guilherme Corona.

Creative Commons BY-SA 4.0


Nada ilustra melhor as teorias grosseiras e não-científicas do político de classe média ordinário do que as tentativas desesperadas hoje sendo feitas para construir um grande partido político na Irlanda nas linhas do antigo movimento de Autogoverno. Aparentemente todas as seções do partido do Autogoverno estão possuídas pela crença de que grandes movimentos políticos podem ser construídos pela vontade, e que uma força política efetiva, agressiva, pode ser sua origem, não as profundezas da vida diária do povo, mas os cérebros de uma dúzia de cavalheiros no parlamento. Visto desta perspectiva as multidões laboriosas são meros autômatos, e a força nacional realmente efetiva é encontrada nos homens que a imprensa e oradores Autogovernistas apontam para a multidão como líderes. O fato que os movimentos políticos de um país nascecm das pulsações da vida econômica; que todos partidos políticos são instrumentos de uma classe, e são grandes e poderosos somente na proporção em que o desenvolvimento da luta pela existência força seu interesse de classe particular na maioria da nação como um fator dominante na sua vida diária - tudo isso parece uma filosofia pouco conhecida entre políticos capitalistas.

Entretanto uma rápida revisão da história do mundo no geral, ou da Irlanda em particular, não falha em mostrar a verdade desta eminente doutrina Socialista para o atento estudantioso dos eventos. As grandes organizações políticas que revolucionaram com sucesso os sistemas de governos sob os quais viviam, tiveram sua origem, não nos cérebros de poderosos líderes, mas nas necessidades diárias e cotidianas da multidão, e adquiriram força e poder somente enquanto essas necessidades se tornaram agudas e fortes o suficiente para arrastar a lenta multidão para a ação. Quando em tais crises se destacou um homem sortudo o suficiente, ou astuto o suficente, para se tornar o porta-voz da multidão descontente; para gravar suas reclamações desarticuladas em fraseologia política, e dar seu desejo faminto por mudança uma formulação inteligente, então tal homem se tornou um "grande líder", e a organização seguindo o curso que ele defendia a principal força política. Para os pensadores de classe média superficiais - sempre prontos a acreditar que o mundo gira ao redor dos seus heróis e pessoas bem-sucedidas como sobre seu eixo - os líderes criaram o movimento que eles lideraram; para o Socialista científico os líderes e os movimentos foram ambos produtos da aceleração de intelecto causada pelas condições sociais que afetaram adversamente a vida do povo em geral.

Examine os grandes movimentos revolucionários da história e você verá que em todos os casos eles nasceram das condições sociais insatisfatórias, e tinham sua origem no desejo por bem-estar material. Em outras palavras, o lugar do progresso e a fonte da revolução não está no cérebro, mas no estômago. O fato que esta verdade foi até agora obscurecida, ou até negada; que os pioneiros do progresso uniformemente vestiram suas demandas políticas na linguagem mais idealista e na fraseologia mais enfeitada; ou que eles constantemente apelaram para o apoio de "todas as almas caridosas e generosas", mais do que para interesses comum, só prova que estamos todos dispostos demais a esconder mesmo de nós a natureza real dos nossos desejos impulsionadores, e, mesmo quando a maioria insistentemente segue nossos instintos mais básicos, a colocar em nossas ações todo o galmor das "necessidades espirituais", ou "esperanças patrióticas".

O poder e otimismo inconquistável do partido socialista é devido ao seu reconhecimento desta base materialista da história, esta base econômica da política. Sabendo que seu ideal último e demandas imediatas estão alinhados com o progresso da raça humana para a prosperidade, e que todo plano para melhorar as condições sociais que possa cumprir seu objetivo deve ser na essência um passo nessa direção, Socialistas não podem perder coragem, porque mesmo no meio da derrota temporária eles sabem que as necessidades dos trabalhadores, que estão na maioria, eventualmente os colocará de acordo comm as forças Social-Revolucionárias. Deste fato nossos políticos irlandeses - e revolucionários - podem ganhar, não conforto, talvez, mas sabedoria. A história da Revolução Americana, da Revolução Francesa, dos Voluntários Irlandeses, dos levantes de 1798, 1848, e da Liga da Terra Irlandesa, todas apoiam nosso argumento da base econômica dos grandes movimentos políticos.

A Revolução Americana foi uma revolta contra a ação da Inglaterra em prejudicar as indústrias nascentes da América, e veio à tona com um imposto sobre o chá - todas razões de "base" material; a Revolução Francesa foi a revolta de um povo oprimido e faminto contra o velho, medieval latifundismo (feudalismo) e os impostos vexatórios sobre a indústria impostos por uma Corte corrupta; o movimento dos Voluntários Irlandeses foi, no seu aspecto anti-inglês, uma revolta da classe manufatureira irlandesa contra as restrições sobre seus negócios pela Inglaterra, - "Livre Mercado, ou então" foi o mote que eles penduraram no seu canhão, e quando este ponto foi conquistado todo o "entusiasmo patriótico" dos líderes desapareceu; Grattan encerrou os Voluntários, sobre os quais ele se construiu como uma eminência política, "uma confusão armada", e todo o movimento colapsou tão de repente quanto tinha surgido - a base econômica desaparecida o patriotismo não estava mais evidente. 1798 foi uma edição irlandesa abortada da Revolução Francesa - apesar da falas mentirosas dos dias atuais sobre a sociedade dos Irlandeses Unidos ser uma "União de Todas as Classes", não há na história nenhum registro de um movimento, exceto a Comuna de Paris, no qual as classes e massas estiveram tão agudamente divididas; 1848 encontrou sua inspiração na situação de fome - e sua derrota na incapacidade total dos doutrinários Jovens Irlandeses de entender a diferença entre ação revolucionária e posturas "heróicas"; a Liga da Terra encontrou sua inspiração na perda parcial das colheitas, e na recenemente desenvolvida competição da América - e o colapso da Liga da Terra veio com os aluguéis reduzidos e prosperidade parcial.

Em cada caso a condição social da massa do povo foi o fator determinante na atividade política. Quando a massa do povo acha as condições existentes intoleráveis, e imaginam ver uma saída, haverá um grande movimento político; quando as condições sociais não são tão anormalmente agudas nenhuma quantidade de oratório político, nem ainda a cooperação de líderes, pode produzir um movimento.

O grande levante do Trabalho nas eleições do Governo Local irlandês de 1898 surgiu espontaneamente sem um líder, e apesar dos partidos políticos; quando os homens que o apoiaram perceberam a futilidade de tentar conquistar qualquer grande melhora na sua condição pela ação de órgãos locais, eles buscarão um partido político que possa expressar seus interesses de classe numa base nacional - e buscando isso encontrarão o Partido Socialista, pronto e equipado para a tarefa. Pela nossa ação hoje preparamos o terreno para mais ação revolucionária agressiva quando a classe trabalhadora da Irlanda finalmente reconhecer nos nossos princípios a encarnação das suas esperanças; firmemente baseadas no nosso conhecimento da base econômica de toda ação política, nos confiantemente aguardamos o dia em que a pressãos sempre crescente da sociedade capitalista trouxer os trabalhadores às nossas fileiras e os destinos da nação às nossas mãos.