A Guerra Sul-Africana I

James Connolly

19 de agosto de 1899


Primeira edição: Workers' Republic, 19 de agosto de 1899.

Transcrição: Einde O'Callaghan.

Tradução e HTML: Guilherme Corona.

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No momento desta publicação parece provável que em algumas semanas no máximo o Governo Britânico terá declarado guerra contra a República Sul-Africana. Ostensivamente em busca de um desejo cavalheiresco de obter concessões políticas no país adotado para cidadãos britânicos ansiosos para renunciar sua cidadania, mas na realidade pelo objetivo de permitir uma gangue sem escrúpulos de capitalistas colocar suas mãos nas imensas riquezas dos campos de diamante. Tal guerra tomará lugar indubitavelmente como uma das guerras mais iníquas do século. Feita por um poderoso império contra uma nação totalmente incapaz de responder de maneira efetiva, por um governo de financistas contra uma nação de fazendeiros, por uma nação de enroladores contra uma nação de trabalhadores, por um círculo de capitalistas, que nunca verá um tiro disparado durante a guerra, contra um povo defendendo suas casas e liberdades - tal é a guerra na qual o povo da Inglaterra está criminal ou estupidamente, e criminalmente mesmo se estupidamente, permitindo seu governo entrar. Não há melhor corroboração da verdade da máxima socialista que o estado moderno é apenas um comitê de homens ricos administrando os assuntos públicos no interesse da classe alta, foi fornecida nos últimos anos, do que a demonstrada por este espetáculo de uma gangue de especuladores sul-africanos movendo toda a maquinaria do Império Britânico para seus próprios fins privados. Não há pretensão de que a guerra beneficie o povo inglês, e ainda é calmamente esperado que o povo pagará pela guerra, e, se necessário, lutará nela.

Deve ser admitido que o povo inglês está agora fazendo o máximo para justificar a baixa estima que seus governantes lhe dão; um povo que por séculos nunca ouviu um tiro ser disparado em suas praias, e ainda encoraja seu governo na sua campanha de saque e assassinato contra uma nação inocente; um povo, que, seguro em suas próprias casas, permite que seus governantes levem destruição e morte para as casas de outros povos, com certeza merece pouco respeito não importa quão alto eles declarem seu espírito amante da liberdade.

Para o trabalhador irlandês a guerra contém algumas lições valiosas. Em primeiro lugar ela servirá como um comentário sobre as esperanças daqueles em nossas fileiras que tanto gosta de falar sobre a realização "pacífica" dos objetivos do socialismo. Nós não gostamos de teorizar sobre a função da força como uma parteira do progresso - isso, como já está demonstrado, é um assunto a ser resolvido pelos inimigos do progresso - mas não podemos permitir que continuemos cegos para os sinais do tempo. Se, então, vemos uma pequena seção da classe possuidora preparada a lançar duas nações em guerra, a derramar oceanos de sangue e gastar milhões do tesouro, para manter intacta uma pequena proporção dos seus privilégios, como podemos esperar que toda a classe proprietária se abstenha de usar as mesmas armas, e se submeter pacificamente quando chamada a entregar para sempre todos seus privilégios? Que a democracia da classe trabalhadora da Irlanda note essa lição, e, por mais que trabalhe pacificamente enquanto puder, tenha constantemente em mente a verdade que a classe capitalista é uma besta de caça, e não pode ser moralizada, convertida, ou conciliada mas deve ser extirpada.

Outra lição é, que a Irlanda é aparentemete um fator negligenciável nos cálculos do Governo Imperial. Em certos círculos "avançados" ouvimos tanto sobre a posição importante da Irlanda na política internacional. O valor exato de tais comentários pode ser medida no fato que as tropas estão sendo tiradas da Irlanda para serem colocadas no Transvaal. O Governo Britânico não tem medo da Irlanda; o Partido do Autogoverno, e seus bons amigos no Constabulário, podem ser confiados para manter o país em paz. Mas se a classe trabalhadora da Irlanda estivesse unida e compreendesse seu poder bem o suficiente, e tivesse se livrado da prole gêmea do Autogoverno-Unionismo - nos mantendo separados para que sua classe possa nos roubar - ela veria nesta complicação uma chance para dar um longo passo adiante para melhores condições de vida - e, vendo isso, agiria de maneira a garantir a ausência do Transvaal de uma porção considerável do exército britânico. Os trabalhadores com consciência de classe que se irritam com nossa impotência atual, e desejam removê-la, encontrarão um caminho indicado para eles nas fileiras do Partido Socialista Republicano Irlandês.