É dito que aqueles que os deuses desejam destruir antes enlouquecem. A julgar pelos eventos que acompanharam a visita do Secretário Colonial a Dublin(1), podemos concluir que as classes governantes desses países de fato estão sob a sentença dos deuses. Visto que, exceto como ações de loucos, a conduta das autoridades da cidade de Dublin durante aquela visita é totalmente inexplicável para a mente ordinária. A visita do Sr. Chamberlain foi, é claro, principalmente proposta como uma demonstração política com o intuito de anular o efeito que as manifestações anti-guerra na Irlanda pudessem ter tido sobre a mente do mundo. Para o povo irlandês, certamente, a ideia de encarar Trinity como um foco do pensamento nacional seria altamente absurdo, mas a informação sobre assuntos irlandeses nas outras nações não é tão precisa para excluir a possibilidade de uma honra conferida por uma universidade na nossa capital ser confundida com um boas-vindas da própria cidade.
Que havia tal perigo, acreditamos; que a organização de duas grandes, mas possivelmente não-noticiadas, reuniões de protesto não desviariam completamente o perigo também acreditamos; que tal perigo foi evitado, e tal ênfase dada ao fato que o povo de Dublin não são por opção escravos da classe governanete britânica, ou dóceis cúmplices do Império pirata, devemos à loucura que tomou nossos governantes e levaram eles a suprimir o direito de reunião pública em Dublin, e soltaram seus capanga uniformizados sobre um povo indefeso.
Enquanto a bandeira britânica é derrubada na África, quando seus soldados treinados e disciplinados se dirigem contra uma nação de fazendeiros, quando seus mais capazes generais são ludibriados na estratégia por homens que eles desprezam, quando no mundo todo os inimigos do Império Britânico estão especulando sobre o ponto mais fraco para ser atacado, então, na sua hora de maior perigo, os poderes que estão na Irlanda se apressam para mostrar o mundo que aqui, há algumas horas de barco das costas da Inglaterra, está uma nação amargamente hostil a seu governo, e só submetida pela força superior.
Isto, repitimos, foi uma ação de loucos. Ela acentuou a fraqueza da Inglaterra e a hipocrisia dos seus governantes. Quando os mesmos homens que vão à guerra sob o pretexto de garantir a liberdade política para a população de outros estados brutalmente suprimem o mais elementar dos direitos do cidadão em um país sob seu próprio governo, o último resto de justificativa para sua política de guerra é destruída, e a própria guerra se revela em suas verdadeiras cores como uma agressão criminal contra um povo livre. Assim o governo fez, assim o povo notou. Toda a maquinaria elaborada da Constituição britânica, todas as suas pretensas liberdades políticas e direitos do cidadão, estão sempre a mercê da classe governante da Inglaterra, que, com a força do exército e da política lhe apoiando, não respeitam nada, exceto a força. É uma estranha lição para ensinar à classe trabalhadora irlandesa hoje. A classe trabalhadora irlandesa, dizemos, porque em todo tumulto popular dos últimos anos a classe proprietária, pelo seu silêncio, concordou previamente com as ações do governo.
Enquanto o governo continuar a sufocar a liberdade política que ele considere bem suas ações e no que elas podem resultar. Há no presente apenas alguns soldados na Irlanda; a milícia e a última das reservas estão para ser convocadas e enviadas para o fronte. Agora, se aqueles trabalhadores irlandeses refletissem, e considerassem que os soldados britânicos não são atiradores tão bons quanto os bôeres, e que portanto não há tanto perigo de morte em lutar contra o Exército britânico quando ao lutar contra o Exército bôer, e finalmente eles concluíssem que seria mais seguro, mais prudente, e no geral mais honrado ficar na Irlanda e lutar contra seus tiranos em casa do que arriscar sua vida e perder sua honra lutando por seus tiranos no exterior, e se eles fossem encorajados nessa decisão observando os procedimentos que acompanharam a visita do Sr. Chamberlain, vendo que métodos de agitação pacíficos não surtem nenhum efeito; se, repitimos, aqueles trabalhadores irlandeses seguissem a lógica de pensamento daquela força que os tiranos acatam - o último recurso do povo assim como dos reis - pode aparecer de repente na Irlanda.
E quem sabe?