As explicações talvez sejam várias, mas o fato é este: enquanto a obra dos mais notáveis poetas brasileiros de nossos dias, de maneira predominante, é aristocrática, no fundo e na forma, o romance brasileiro contemporâneo, a obra dos nossos melhores romancistas é eminentemente popular. O que já deu de melhor neste último quarto de século reflete em parte a vida social e tem às vezes um acento revolucionário.
Dentro desta corrente popular e como um retrato quase sociológico do interior do Brasil nesta fase de transição parcial das relações feudais para relações capitalistas em algumas regiões do país, aí está, despertando justificada admiração e mesmo entusiasmo o livro do Sr. João Guimarães Rosa – Grande sertão: veredas.
Antes de tudo, temos que render homenagem à coragem do autor de lança-se a uma narrativa corrida sem receio de fatigar o leitor. E não fatiga. Seu livro tem aquele atrativo do romance tradicional: o enredo empolgante, despertando curiosidade crescente pelo desenrolar dos episódios.
Tampouco temeu o Sr. Guimarães Rosa tornar-se incompreensível para muitos com o linguajar típico do sertão. É provável que de início, talvez nas primeiras páginas, haja um excesso de termos e expressões estranhas que dificultam a leitura: uma infinidade de modismos e regionalismos.
Pensamos quando líamos: estes homens falam realmente assim, esta é a linguagem do tabaréu, do matuto, do sertanejo. Se eles soubessem ler, nada estranharia. Mas, em geral, são analfabetos. O romance é para quem sabe ler, e quem sabe ler, o homem das cidades (além de uma minoria do campo) perde numerosos termos e expressões típicas. Mas, ou porque nos habituemos aos poucos com a linguagem, ou porque o romancista depois se torne mais natural (como se tivesse esgotado, a partir das primeiras cem páginas, o grosso de um vocabulário colecionado há anos) continuamos a leitura sem sacrifício. Não negamos, porém, que preferíamos uma linguagem menos carregada de regionalismos, mais natural.
Ainda quanto à forma, quero destacar uma notável qualidade do romance: o lirismo vigoroso e belo de que está impregnado. É o lirismo inato do nosso sertanejo, que nem a fome, a pobreza, a miséria conseguem estancar. O homem, ainda rústico, traduz em suas palavras esse transbordamento permanente de vida que o cerca, mesmo nas regiões agrestes do sertão, em contraste com sua existência de pária.
Mas o que nos agrada sobretudo no romance do Sr. Guimarães Rosa é o seu profundo realismo. Neste sentido, o autor segue a linha tradicional da ficção brasileira, do que há de bom e duradouro no romance nacional. Grande sertão: veredas tem, para a nossa ficção, este aspecto de obra amadurecida, que não é fruto apenas do talento de um autor (qualidade indispensável, é certo), mas da evolução de uma literatura que atingiu à idade adulta com os romancistas do Nordeste, depois de 1930. Grande sertão: veredas não é uma surpresa, mas um novo elo, um degrau mais alto na literatura brasileira. Quanto ao tema, nenhum dos que o trataram anteriormente conseguiram ir tão alto quanto o Sr. Guimarães Rosa, ou melhor, o Sr. Guimarães Rosa ultrapassou a todos. O seu romance é o documentário de uma época, não de um determinado aspecto do cangaço, mas do cangaço em seu conjunto. Grande sertão: veredas é um mundo. Esse mundo gerado pelo latifúndio, pela grande propriedade territorial, pelo monopólio da terra casado aos restos feudais. Ali encontramos todos os tipos mais diversos do cangaceiro: desde o homem simples que vem da mais negra miséria e da exploração, transbordando de revolta inconsciente ante uma ordem de coisas que o esmaga e que ele próprio não sabe explicar nem compreender com clareza, uma revolta mal dirigida e que acaba a serviço de seus próprios algozes, até o fazendeiro chefe de cangaço, que queima a sua fazenda, desfaz-se de seus haveres para comandar um bando de jagunços; desde o sertanejo que aparentemente está a serviço de uma vingança pessoal, até o fazendeiro ambicioso que sonha ser deputado e ter retrato nos jornais. E por acaso esta não é ainda uma realidade hoje? São dos nossos dias tipos assim, antigos chefes de cangaço que inclusive fundam jornais e orientam a opinião pública neste país onde o capitalismo está tão intimamente entrosado com o que há de mais odioso nas relações semifeudais, limitando com o escravismo. Daí a revolta cega de nossos valentes sertanejos, pois raciocinam naturalmente como Riobaldo: “O jangão é homem já meio desistido por si…”. Realmente, é o homem que nada mais tem a perder. Um sopro de miséria perpassa entre as andanças e os combates: a fome, as maleitas, a bexiga, a prostituição. E o sertanejo se enria para enfrentar a terrível realidade que o cerca: “O sertão não tem janelas nem portas. E a regra é esta: ou o senhor bendito governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa”.
Aí está o melhor retrato do latifúndio semifeudal, com toda a sua brutalidade e selvageria, gerando o cangaceiro e os retirantes, desgastando endereços dos despossuídos que, se represadas e devidamente orientadas, poderiam derrocar esse reino da opressão e da miséria. Porque na realidade o maldito que governa o sertão são os grandes fazendeiros, com o seu poder incontrolável, baseado no latifúndio e na capangagem.
Mas o sertanejo quer viver. Ou quando se deixa arrastar pelos chefes de cangaço, ou quando se congrega em torno de “milagreiros”, sua aspiração suprema é uma vida melhor, o fim do regime de semi-servidão em que arrasta sua existência. Ante a “milagreira” que aparece numa cena rápida do romance, o narrador sabe traduzir perfeitamente este anseio: “E aquela gente gritava, exigia saúde expedita, rezavam alto, discutiam uns com outros... – queriam era sarar, não desejavam Céu nenhum... O sertão está cheio desses...: o estatuto de misérias e enfermidades”.
Como isolar este quadro de tamanho realismo deste outro igualmente verídico: “... Por aí arriba, ainda fazendeiro graúdo se reina mandador – todos donos de agregados valentes, turmas de cabras no trabuco e na carabina escopetada! (...) Mesma coisa no barranco do rio, e se descer esse São Francisco, que aprova, cada lugar é só de um grande senhor…”.
O resultado é o cangaço, surgido inicialmente como expressão de revolta cega contra a opressão do latifúndio e geralmente posto a serviço do próprio latifúndio. Numa sociedade ainda em formação como a dos campos brasileiros, onde o servo se confunde com o pequeno proprietário, onde a miséria e a ruína de uma economia profundamente atrasada atingem muito vezes os próprios fazendeiros – nada mais lógico do que esse ajuntamento de homens de condições sociais diversas num só bando de cangaceiros, ou em bandos rivais que se entredevoram. O latifundiário consegue quase sempre voltar as armas dos primitivos revoltados contra eles mesmos.
O romance do Sr. Guimarães Rosa traduz perfeitamente este drama. A semelhante sociedade corresponde esta modalidade de luta de classe, prolongando-se desde os tempos da colônia, mesclando-se com movimentos mais amplos já no Império, como a Balaiada e a Cabanada.
No fundo está a luta pela terra. Mesmo quando não consciente e palpável. Está a opressão do latifúndio, passando de geração a geração. Riobaldo se orgulha: “Ah, esses meus jagunços – apragatados pebas – formavam trincheira em chão e em tudo. Eles sabiam a guerra, por si, feito já tivessem sabido, na mãe e no pai”.
Sim, seus antepassados haviam travado secularmente aquela mesma luta. Como esquecer Canudos, essa epopeia sertaneja que abalou regiões vizinhas àquelas que são teatro do romance do Sr. Guimarães Rosa? Lampião, Antônio Silvino, Volta Seca, são o prolongamento mais recente das velhas lutas ateadas pelo latifúndio semifeudal.
Está em extinção o cangaço?
O romance do Sr. Guimarães Rosa atesta este fenômeno. “Tempos foram, os costumes desmudaram... Os bandos bons de valentes repartiram seu fim; muito que foi jagunço por aí pena, pede esmola”. “Tempo de jagunço tinha mesmo que acabar, cidade acaba com o sertão”.
Em outras palavras: capitalismo acaba com feudalismo. A tese é verdadeira. Mas, terá havido de fato uma transformação tão grande nas relações econômicas e sociais no campo que levasse à eliminação do cangaço? Se o cangaço está em vias de desaparecimento, não é devido a essa transformação. Verifica-se, nos últimos anos, uma determinada penetração capitalista em algumas zonas do campo. Mas, com a conservação do latifúndio e dos restos feudais. A terra continua monopolizada por uma minoria de grandes fazendeiros, como instrumento de domínio, de poder econômico e político, de ascendência social. E a miséria dos sem-terra, dos explorados e oprimidos do campo, encontrou outra válvula de escape: a fuga em massa para os centros industriais ou para as regiões rurais onde penetra em maior escala o capitalismo. Justamente os dois Estados que são cenário do romance do Sr. Guimarães Rosa – Minas e Bahia, onde o peso do latifúndio é esmagador – fornecem há muitos anos os mais elevados contingentes de imigrantes para São Paulo, Rio e as novas fazendas de café do norte do Paraná. Em 1950, mais de 1 milhão de mineiros viviam fora de seu Estado de origem. Somente em 1952 um terço da população do município de Monte Azul emigrou para São Paulo, enquanto cerca de 30% da população de dois municípios baianos tomavam o mesmo destino.
Riobaldo cita um caso sintomático: “O Sr. vê: o Zé-Zim, o melhor meeiro meu aqui, risonho e habilidoso. Pergunto: – Zé-Zim, por que é que você não cria galinhas d’angola, como todo mundo cria? ‘– Quero criar nada não…’ me deu resposta: ‘– Eu gosto muito de andar’”.
E como ser um homem fixado à terra, se não tem terra? Se do que planta, cultiva e colhe deve entregar metade ao dono da terra? Onde a sua segurança, a esperança de uma vida melhor?
E ainda Riobaldo quem comenta com acerto: “fazendeiro-mor é sujeito da terra definitivo, mas jagunço não passa de ser homem muito provisório”.
E note-se: Riobaldo, como tem terra, herdada de suposto pai, tendo sido embora chefe de cangaceiros, assenta sua vida. E recorda que Davião, um jagunço que abandona o cangaço, “com certas promessas, de ceder uns alqueires de terra... conseguiu do Faustino dar baixa também…”. Aí estão claras expressões individuais de um profundo anseio social: a posse da terra pelos camponeses sem terra.
O romance do Sr. Guimarães Rosa confirma, com o seu realismo, que latifúndio e cangaço, numa determinada fase do desenvolvimento econômico do país, estão intimamente ligados entre si. O cangaço é gerado pelo regime de propriedade dominante em que o latifundiário é senhor de baraço e cutelo por todo esse vasto sertão. Quando as relações agrárias tendem a modificar-se, como acontece hoje no Brasil, com a ruína extrema do latifúndio semifeudal, o cangaço tende a extinguir-se. Isto não significa de forma alguma que as relações de produção no campo estejam se modificando no sentido de resolver a questão agrária. Esta só será resolvida, nos marcos atuais, com a reforma agrária, com a destruição do latifúndio semifeudal. As mudanças que se operam hoje (determinada penetração capitalista na agricultura em algumas regiões, ao lado de um certo crescimento da indústria em alguns centros) apenas trocam os termos do problema secular. Este continua existindo e exclamando solução urgente. Aí está o êxodo em massa do campo para as cidades, a ponto de num decênio a população urbana do Brasil crescer mais de 40%, enquanto a população rural aumentou apenas pouco mais de 17%. É a melhor prova de que a miséria terrível decorrente do atraso do campo continua irremediável.
“Muito que foi jagunço por aí pena, pede esmola”...
Este o sertão visto pelo romancista Guimarães Rosa. Sertão heroico e trágico, valente e sofredor, povoado de seres profundamente humanos, como Riobaldo, obrigados a viver uma vida de tropelias, sem consciência de sua situação de oprimidos, sem terem encontrado ainda o caminho certo para se libertarem da exploração do latifúndio. A extinção dos tradicionais bandos de cangaceiros apontará não somente o rumo das cidades e das terras virgens aos camponeses sem terra. Dar-lhes-á também uma nova consciência – consciência de classe, elevando suas lutas à altura de lutas de emancipação social. Esta a convicção que nos deixa a leitura do empolgante livro do Sr. Guimarães Rosa.