O ano de 1991 foi o mais difícil da minha vida política e familiar. Ao longo de todo aquele ano, vivi situações extremamente graves, provocadas pelos ataques, perseguições e atos desumanos e ilegais dirigidos contra mim e contra a minha família com Enver Hoxha.
As novas forças de oposição que já haviam surgido no cenário político — e que abrigavam em seu seio também setores atrasados da sociedade — passaram a seguir a “estratégia da rua”, a aplicar a lógica do Kanun(1) e da vingança, estimulando a violência do recém fundado Partido Democrático (PD) da Albânia. Esse novo partido começou a revelar sua verdadeira face reacionária, desencadeando ações violentas e destrutivas contra o patrimônio nacional herdado do período anterior.
Via-se claramente sua inclinação ao confronto e, sobretudo, a práticas de caráter banditista. Sob seu estímulo, espalhavam-se pelo país ações anárquicas e radicais, o crescimento da criminalidade, da ilegalidade e dos choques com as forças da ordem.
Naturalmente, também atuaram forças estrangeiras interessadas na desestabilização da Albânia. Os estrangeiros que mantiveram contato com os líderes do Partido Democrático e de outras formações políticas foram inspiradores, instigadores e principais apoiadores desses atos anticomunistas, antialbaneses e nada democráticos. A isso se somaram elementos da emigração política albanesa e estruturas oficiais de determinados países que, em nome da “luta contra o comunismo”, buscavam lançar nosso país na anarquia e no caos.
Não posso deixar de assinalar que grande responsabilidade pela degeneração do PD em uma organização que atuava por meio de bandos cabe particularmente ao seu líder, Sali Berisha, que, com a mentalidade medieval de um kanunista e verdadeiro antialbanês, fomentou a divisão no povo, incentivou a fragmentação regional da Albânia e procurou colocar o Norte contra o Sul(2). Não tenho dúvidas de que ele causou danos profundos ao país e à nação; a história o julgará como merece.
Já no mês de janeiro comecei a sentir o agravamento da situação, tanto pelas ações do recém-criado Partido Democrático quanto pelo movimento estudantil, cujos integrantes se sentiam marginalizados pelo próprio PD. Em 7 de janeiro de 1991, a rádio “Voice of America” (A Voz da América) falava em “golpe de Estado” na Albânia; na realidade, tratava-se de um incentivo para que algo dessa natureza viesse a ocorrer.
Em 8 de fevereiro de 1991, o chamado Sindicato “Independente”, surgido com o apoio do PD, declarou greves, entre elas a greve de fome na mina de Valias, em Tirana, que ganhou ampla repercussão e se transformou em local de peregrinação de líderes e intelectuais do PD e de outras formações.
Nos dias 9 e 10 de fevereiro ocorreram atos violentos em quase todos os distritos da Albânia, especialmente no Norte, onde operavam serviços estrangeiros de inteligência, em primeiro lugar a UDBA(3) sérvia. Seu objetivo era fomentar a instabilidade política e destruir a economia construída no Estado socialista.
Não houve um só dia sem atos de vandalismo: bustos de Enver eram derrubados, memoriais e túmulos de mártires profanados, museus da Guerra de Libertação Nacional destruídos. Veteranos ainda vivos eram atacados e espancados para espalhar medo e terror entre o povo. Livrarias e bibliotecas começaram a ser incendiadas; livros de Enver Hoxha eram queimados nas ruas e praças, como nos autos de fé do tempo de Hitler.
Danos imensos foram infligidos ao país quando, por decisão de Sali Berisha e de seu partido, toda a economia foi paralisada: minas, fábricas, usinas e complexos industriais foram fechados. Deliberadamente deixados à própria sorte, foram destruídos para que seu valor caísse e depois fossem apropriados pelos novos detentores do poder a preço de banana. Máquinas, mercadorias industriais, produtos alimentícios, até armas do Exército e reservas estatais foram saqueadas, traficadas e vendidas no mercado paralelo.
O mesmo ocorreu com a agricultura: cooperativas e empresas agrícolas foram desmanteladas; plantações de cítricos, oliveiras e vinhedos devastadas; florestas derrubadas em massa. Apenas as hidrelétricas permaneceram intactas — estas não puderam destruir. Escolas, internatos, centros de saúde, hospitais, creches, jardins de infância, cinemas e centros culturais também foram vandalizados, simplesmente por serem “comunistas”. Muitos desses edifícios foram ocupados por pessoas que abandonaram suas aldeias e regiões montanhosas e, estimuladas por uma política demográfica caótica, instalaram-se nas grandes cidades, em terras e propriedades alheias, chamando-as de “terra ocupada”.
A tensão social e política cresceu a tal ponto que o país foi tomado pelo caos e pela desordem. Tratava-se de uma tensão irracional e desnecessária, alimentada por dogmáticos “esquentadinhos” sedentos de poder, como o novo “bajraktar” das montanhas, Sali Berisha, que se tornaria a figura mais perigosa que a Albânia e o povo albanês conheceram. Ele contou ainda com o apoio de Gramoz Pashko, criado nos privilégios do regime socialista, filho de comunistas, que proclamou a “terapia de choque”, a “quota zero” e o “cheque em branco”, sob a palavra de ordem “o governo dirige e o mundo nos ajudará”. Berisha utilizaria também Azem Hajdari como instrumento de agitação, lançando palavras de ordem fascistas como “comunistas na forca”.
Naquele inverno difícil de 1990–1991, com a agitação degenerando em anarquia, nós, na direção do Partido do Trabalho da Albânia (PTA), estávamos profundamente preocupados com a estabilidade do país, com a ordem e a segurança, com o risco de destruição da propriedade social construída no sistema anterior e com o agravamento das dificuldades econômicas do povo. Também nos inquietava o risco de desdobramentos sociais dramáticos, alimentados pelas greves e pelas ações destrutivas promovidas por bandos inspirados por ideias anarquistas. A contenção e a interrupção dessas ações tornaram-se prioridade. Como sublinhou Ramiz Alia em seu livro “Jeta Ime — Kujtime” (Minha Vida — Memórias) em 2010:
Era de importância particular evitar sobretudo os excessos e os confrontos que pudessem provocar um banho de sangue.
Com o passar dos dias, os estudantes passaram a conclamar ações diretas contra os símbolos do regime socialista e da luta partisan. Acrescentaram às suas reivindicações a exigência de retirar o nome de Enver Hoxha da Universidade, sob pena de exigir a renúncia do governo e iniciar uma greve de fome. Isso poderia gerar graves tensões, pois muitos no povo não aceitavam que se tocasse na figura e na obra de Enver.
Eu, como esposa e companheira de luta de Enver, acompanhava esses acontecimentos com profunda dor no coração, sobretudo porque via que até mesmo alguns companheiros da direção, em silêncio, já se preparavam para ceder nesse ponto.
Nessa atmosfera carregada e tensa, em 17 de fevereiro de 1991, um grupo de estudantes da Universidade de Tirana, primeira universidade da história do país e fundada por Enver, trancou-se no clube da Cidade Estudantil e iniciou uma greve de fome, exigindo a retirada do nome “Enver Hoxha” como patrono da Universidade.
Em 19 de fevereiro, Ramiz Alia convocou, em caráter de emergência, uma Plenária do Comitê Central para discutir a questão. Houve muitos debates. Propôs-se o fechamento temporário da Universidade e a dispersão dos estudantes, mas a ideia foi rejeitada sob o argumento de que o espírito de revolta poderia se espalhar para jovens de outras escolas e para suas famílias em todas as regiões de origem. O então ministro da Educação, Skënder Gjinushi, sugeriu dividir a Universidade de Tirana, destacando dela a Faculdade de Ciências Sociais, que passaria a conservar o nome de Enver Hoxha.
Ao final, decidiu-se não aceitar a exigência dos estudantes. Isso, porém, os inflamou ainda mais. A greve foi instrumentalizada para provocar distúrbios na Cidade Estudantil e reunir multidões de cidadãos, operários, estudantes do ensino médio e familiares dos grevistas, preocupados com seus filhos. Os estudantes enviavam cartas emocionadas às famílias, jurando permanecer “até a morte” pela realização de suas reivindicações por “liberdade e democracia” e assim por diante.
Era evidente que os estudantes não atuavam isoladamente, mas eram encorajados e instrumentalizados por forças internas e externas que trabalhavam, de forma coordenada, para agravar progressivamente a tensão política na Albânia. Tal fato se tornou patente na manhã de 20 de fevereiro, quando os estudantes, acompanhados por uma multidão crescente, deixaram a Cidade Estudantil, desceram pela Rua Elbasan e alcançaram o cruzamento próximo à sede da Rádio e Televisão da Albânia (RTSH), revelando a intenção inequívoca de provocar distúrbios e testar os limites da ordem pública. A partir dali, a massa tentou avançar em direção à Avenida Dëshmorët e Kombit, ao Gabinete do Primeiro-Ministro e à sede do Comitê Central do Partido, visando, mais adiante, o chamado “Bloco” de moradia dos dirigentes. Contudo, no entroncamento das vias mencionadas, depararam-se com um verdadeiro “muro” de forças de segurança. Seguiu-se um confronto físico, marcado pelo uso de cassetetes de borracha e agressões diretas. Diante da resistência encontrada, a multidão — conduzida pela atriz Rajmonda Bulku, cunhada de Gramoz Pashko — recuou e desviou-se pelo trajeto atrás do Gabinete do Primeiro-Ministro, dirigindo-se à Praça Skanderbeg. Paralelamente, um grupo de mulheres concentrou-se diante da Presidência da Assembleia Popular, exigindo uma audiência com o Presidente do Estado, Ramiz Alia.
Esses acontecimentos desenrolaram-se na manhã de 20 de fevereiro de 1991. Frente à gravidade do cenário, Ramiz Alia decidiu convocar com urgência, ao meio-dia, o Plenário do Conselho Universitário, ainda que composto apenas pelos membros que se encontravam em Tirana ou em suas imediações, como os provenientes de Durrës. A reunião foi chamada com o propósito de avaliar as circunstâncias extremamente delicadas então criadas e de reexaminar a decisão relativa à insistente reivindicação estudantil pela retirada do nome “Enver Hoxha” como patrono da Universidade.
Durante a reunião, porém, chegou a notícia de que a multidão reunida na Praça Skanderbeg havia conseguido derrubar o Monumento de Enver Hoxha.
Fiquei paralisada. Foram momentos extremamente dolorosos. Incapaz de pronunciar uma palavra, levantei-me e deixei a reunião, com lágrimas nos olhos e o coração devastado, pois senti que, com aquele ato de vandalismo, o sistema socialista sofria um golpe profundo. Fui direto para casa. Meus filhos me cercaram imediatamente, chorando e profundamente abatidos. Eu me esforçava para manter a serenidade. Depois do que ocorrera, eles precisavam de mim — mas eu precisava ainda mais do apoio deles. Naqueles dias, senti também a ausência de companheiros e amigos, que não se manifestaram nem por telefone, nem pessoalmente.
No dia seguinte à derrubada do Monumento, nossa situação se agravou ainda mais. Nossa própria vida foi colocada em risco pelos ataques de multidões que tentavam invadir e incendiar nossa casa.
Apesar do abalo, mantive a calma e ordenei categoricamente aos oficiais que guardavam a residência que, sob hipótese alguma, utilizassem armas de fogo — ainda que a casa fosse incendiada. Minha maior preocupação era a segurança dos meus filhos e de suas famílias. Permaneci ao lado deles, sobretudo das crianças. Foram horas terríveis. Não sabíamos para onde ir, o que fazer, e nenhum dos dirigentes se interessou pela situação que enfrentávamos.
Naquele momento dramático, tendo de pensar em abrigo para uma família de quinze pessoas, eu me sentia ainda mais angustiada diante dos gritos e palavras de ordens lançadas contra mim, das ameaças e até de absurdos inimagináveis — como a acusação de que eu, Nexhmije Hoxha, teria organizado um golpe de Estado.
Mesmo em meio a tudo isso, minha preocupação era evitar o pior: um confronto fratricida. Grupos de comunistas, cidadãos, jovens e veteranos haviam se mobilizado exigindo a reinstalação do Monumento de Enver Hoxha. Como esposa de Enver, encontrei forças para dominar minha indignação diante da derrubada do Monumento — um ato que, para mim, jamais deveria ter ocorrido — e, como dirigente política responsável diante do povo e da pátria, atuei com coragem para não tensionar ainda mais a situação. Coloquei-me à disposição para dialogar e acalmar os organizadores dos comícios dos chamados “Voluntários de Enver”.
Não me detenho aqui nas peripécias da expulsão forçada de meus familiares de seus apartamentos, em poucas horas, nem no fato de que eu própria fiquei sem casa — temas que abordarei mais adiante. Quero apenas registrar que, nos meses seguintes, enfrentei outros momentos igualmente duros e dolorosos.
Com profunda tristeza, vivi a segunda onda do êxodo massivo de março de 1991. Acompanhei também com preocupação os acontecimentos internos do Partido do Trabalho da Albânia (PTA). No novo contexto do pluralismo político, o Partido enfrentou a renúncia de Ramiz Alia à sua direção. Recebi com surpresa o fato de que, ao deixar o cargo, ele não expressou arrependimento nem disse palavra alguma sobre o futuro do Partido. Sua substituição por Xhelil Gjoni(4) deixou gosto amargo entre os comunistas, pois era visível o declínio do prestígio do Partido com essa escolha.
Também foi dolorosa para mim a reunião da 10ª Plenária do Comitê Central do PTA. Pela primeira vez, senti que já não estava “no meu Partido”, aquele ao qual havia dedicado cinquenta anos de militância. No informe apresentado e nos debates que se seguiram, percebia-se uma postura ambígua, uma inflexão em relação ao que antes fora afirmado no Partido — tanto sobre o próprio PTA quanto sobre a figura e a obra de Enver Hoxha.
Também o desenvolvimento do 10º Congresso do PTA me trouxe apenas inquietação. Foi completamente distinto dos nove congressos anteriores do Partido. A maioria dos delegados manifestava sérias reservas quanto ao que vinha sendo feito nos dois últimos anos e não concordava nem com as mudanças propostas para a “renovação” do Partido, nem com as posições que ali se expressavam acerca da figura e da obra de Enver Hoxha(5).
Ainda hoje me vêm à memória as fortes emoções que senti ao tomar a palavra. Nas sessões anteriores eu ouvira ataques a Enver Hoxha vindos inclusive de pessoas que, enquanto ele era vivo, o exaltavam aos céus, mas que agora despejavam contra ele um rio de acusações e mentiras. Negava-se, por parte de autodenominados comunistas, uma história de cinquenta anos gloriosa, patriótica e emancipadora do Partido do Trabalho e de seu dirigente. Para piorar, ensaiava-se a mudança do nome do Partido — algo com o qual manifestei frontal e total desacordo. Tinha clareza de que aquele seria o último congresso do Partido do Trabalho da Albânia (PTA).
Por outro lado, o PD, em sua assembleia de setembro de 1991, voltou a dirigir ataques contra mim. Insistia em se vingar da esposa de Enver Hoxha e procurava criar o ambiente político para que eu não tivesse paz nem liberdade. Seu líder, Sali Berisha, ao declarar que “Nexhmije Hoxha ainda detém muito poder”, na verdade abria caminho para o apelo público que faria, no comício de outubro de 1991, exigirem minha prisão. Apenas um mês depois, o mesmo Berisha colocaria a minha prisão como condição indispensável para assegurar a chamada “estabilidade da nova governança”.
Como se não bastassem as iniciativas das forças anticomunistas, também certas atitudes pouco éticas de antigos companheiros deixaram em mim um amargo sentimento. Doeu-me profundamente que, em 23 de novembro, na comemoração do aniversário de fundação da União da Juventude do Trabalho da Albânia (BRPSH), eu não tenha sido convidada — eu que fora a única mulher presente na reunião fundadora e eleita para o Comitê Central da Juventude já em 1941, ao lado de Qemal Stafa. Ramiz Alia esteve presente na cerimônia, mas não me disse nada. Sentindo-me ferida, fui procurá-lo e perguntei por que ocorrera aquilo. Ele justificou-se dizendo que o evento fora organizado por Lisen Bashkurti(6), então Primeiro-Secretário da Juventude, e que ele próprio comparecera apenas como convidado.
Ao que tudo indicava, a pressão das forças anticomunistas por minha investigação e prisão produzia efeitos. Essa insistência não me surpreendia. Consciente de não ter cometido crime algum, atendi à convocação para comparecer à investigação. Enfrentei de cabeça erguida a grosseria dos servidores do novo poder que, para vergonha deles, efetuaram minha prisão de forma repentina e humilhante, diretamente da sessão de interrogatório, em 4 de dezembro de 1991, por motivos exclusivamente políticos e unicamente por eu ser esposa de Enver Hoxha.
Com esse ato que considero injusto e vingativo — minha condução a uma cela de segurança máxima aos 70 anos — encerrava-se para mim 1991, o ano mais duro de minha vida política e pessoal.
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Dois acontecimentos marcaram aquele dia e dominaram as transmissões televisivas de 1996: a celebração do fim do Ramadã e o 5º aniversário da derrubada do Monumento de Enver. Para o fim do Ramadã, as mulheres vestiram-se com esmero, maquiaram-se, cantaram e dançaram. Para elas era dia de festa; para mim, dia de luto. O 20 de fevereiro trouxe ondas e cristas de lembranças das mais amargas da minha vida. Vivi tão intensamente os acontecimentos daquele dia, os dias e noites que se seguiram, e os repassei tantas vezes ao longo dos cinco anos de solidão na prisão, que já não sei se os escrevi no papel ou se permanecem gravados, indeléveis, em minha mente. Registro-os aqui apenas como crônica, sem me deter nas emoções minhas e de minha família, pois até sua simples recordação ainda me abala.
Estava em meu gabinete, pouco antes do meio-dia, quando me avisaram: “O camarada Ramiz pediu que vá ao salão de descanso do Birô Político”, onde os membros tomavam café entre as sessões. Parecia que eu fora chamada apenas para acompanhar os acontecimentos. Lá estavam Adil Çarçani, Hekuran Isai, Kiço Mustaqi, Xhelil Gjoni, Sofo Lazri e mais alguém. Todos tínhamos conhecimento da chamada greve de fome dos estudantes, na Cidade Estudantil, exigindo a retirada do nome de Enver da Universidade.
Hekuran Isai permanecia com um rádio comunicador na mão, informando o que se passava lá fora. Chegou a notícia de que um grupo de mulheres, liderado pela esposa de Abdi Baleta, estava diante da Presidência, exigindo encontro com Ramiz Alia. Este orientou que fossem recebidas por Eleni Selenica, membro da Presidência da Assembleia Popular, vice-presidente da União das Mulheres da Albânia (UGSH) e vice-presidente da Suprema Corte. As mulheres recusaram e insistiram em falar diretamente com Ramiz. Xhelil Gjoni sugeriu:
— E se o senhor fosse, camarada Ramiz? — Ele não respondeu. Tinha outras preocupações em mente.
Chegou então o novo secretário do Partido para Tirana, Robert Koli, que eu via pela primeira vez. Sua postura não me causou boa impressão: parecia alheio à gravidade do momento. Informou, em tom sereno, que grandes contingentes de cidadãos e trabalhadores das empresas de Tirana estavam se dirigindo à praça da Cidade Estudantil.
— E agora, o que faremos? — perguntou Ramiz(7).
Seguiu-se um silêncio, rompido por Kiço Mustaqi(8), então ministro da Defesa. Ele retirou do bolso uma folha dobrada, alisou-a com a mão e declarou:
— Aqui está o texto da decisão que a Presidência deve adotar para declarar o estado de emergência. Mas, sem a assinatura do Presidente, não darei ordem alguma nem tomarei qualquer medida.
Ramiz mostrou-se hesitante em assumir responsabilidade pessoal e propôs:
— Vamos convocar novamente a Plenária do Comitê Central. — Na prática, seria uma Plenária incompleto, pois o tempo era escasso.
Determinou-se que os membros do Comitê Central presentes em Tirana fossem convocados para reunião urgente às 14 horas. A Plenária havia se reunido no dia anterior e, após debates acalorados e contraditórios, aceitara — sem votação formal — uma fórmula de compromisso, proposta com o conhecimento de Ramiz: dividir a Universidade em duas partes, separando as faculdades de Ciências Sociais e Humanas dos cursos técnicos de Exatas e retirando o nome de Enver apenas de uma delas. Assim, anulava-se parcialmente a decisão anterior do governo de manter o nome.
Quanto a mim, diante da questão discutida, só me restava o silêncio, com profunda dor e tristeza no coração. Tudo indicava que se caminhava para uma concessão.
Às 14 horas, na grande sala de reuniões do Comitê Central, já haviam chegado os membros para a Plenária que estavam em Tirana e, talvez, também alguns de Durrës — lembro-me de que estava ali Moikom Zeqo, secretário do Comitê do Partido em Durrës, embora não fosse membro do Comitê Central. Na mesa da Presidência sentavam-se Ramiz Alia, Adil Çarçani, Xhelil Gjoni e mais alguém. Ramiz informou os presentes sobre a situação criada e perguntou como seria possível sair daquele impasse.
O debate mal havia começado quando entrou na sala o assistente de Ramiz e lhe entregou um pedaço de papel. Ele leu sozinho e, em seguida, leu para nós. Dizia: “Os manifestantes na Praça Skanderbeg derrubaram o Monumento do camarada Enver”. Ramiz virou o papel de cabeça para baixo sobre a mesa, bateu a palma da mão sobre ele — e só. Nenhuma palavra, nenhum comentário sobre aquele ato de vandalismo; limitou-se a dizer:
— Como vocês veem, camaradas, a situação está se agravando...
Diante disso, eu entendi que, em outras palavras, “temos de recuar”. O que foi dito exatamente naquele instante e o que se discutiu depois, eu já não sei. Sentada onde estava, comecei a chorar em silêncio, com lágrimas quentes correndo sem que eu conseguisse contê-las, enquanto minha cabeça latejava com a pulsação nas têmporas. Passaram-se apenas alguns minutos e entregaram a Ramiz um segundo aviso. Ele leu e disse:
— Estão arrastando o Monumento para levá-lo aos estudantes em greve...
Eu não aguentei mais. Não apenas pela dor, mas também pela revolta diante daquela reunião de um fórum supostamente colegiado. Recolhi minhas folhas de anotação, coloquei-as na bolsa, levantei-me e, sem pedir licença, saí da sala.
Arrependo-me muito de não ter me dirigido a Ramiz antes de sair, para dizer: “O que é isso, camarada Ramiz? Lá fora estão arrastando o Monumento do nosso dirigente, Enver Hoxha, para oferecê-lo como ‘sacrifício’ aos estudantes, supostamente em greve de fome, e nós ficamos aqui discutindo como satisfazê-los, retirando até o nome dele da Universidade que ele ergueu!”. Mas talvez eu nem conseguisse dizer essas palavras, de tão tomada pelo choro.
Saí da sala, percorri todo o corredor. Até o elevador, trabalhadores do aparelho, camaradas, oficiais de escolta me abraçavam, punham a mão no meu ombro. Eu não parei nem falei: segui em frente, sem baixar a cabeça.
Quando saí pela grande porta, um dos oficiais do serviço quis me acompanhar. Agradeci e fui sozinha, a pé, para casa — que, como se sabe, não ficava longe. Assim que entrei, meus filhos e familiares vieram ao meu encontro e me abraçaram. Quando Enver morreu, eles choravam e eu não: eu estava endurecida e não queria me deixar vencer. Agora era o contrário: eles não choravam, e eu desabei, sem me conter nem em lágrimas nem em palavras, chegando a gritar: “Não, não! Isso não devia acontecer! Isso não podia ter sido permitido!”.
O que mais eu disse, nem lembro, nem quero registrar. Mas preciso dizer que, naquele dia, com a derrubada do Monumento e com a ferocidade das multidões incendiadas por forças obscuras, internas e externas, compreendi que também no nosso país a barragem do sistema socialista havia se rompido. Perdi qualquer ilusão e esperança(9) de que se preservariam as conquistas obtidas com tanto sangue e suor pelo povo, sob a direção do nosso Partido do Trabalho.
Aquela tarde sombria caiu, e ninguém veio me ver, ninguém me telefonou: nenhum membro do Birô Político, nenhum secretário do Comitê Central, nenhum dos amigos e camaradas mais próximos. Eu já havia recomposto plenamente o meu ânimo. Mas aquela sensação de abandono, somada ao pânico de pessoas próximas, deixou-me apenas um gosto amargo. Senti que eu teria de nadar sozinha nas ondas dessa enxurrada contrarrevolucionária e anticomunista, sustentar e proteger minha família, meus filhos e seus pequenos, que não me deixaram um instante e, sem muitas palavras, mais pela atitude, procuravam me mostrar que não estavam nem um pouco amedrontados.
Naquela noite, junto com meus dois filhos e um dos oficiais da casa — que também ajudava nos deslocamentos e no transporte dos dossiês do arquivo familiar, os meus e os de Enver — trabalhamos até o amanhecer, separando o que era original, manuscrito, do que era datilografado ou fotocopiado. Na manhã seguinte, logo após as 7 horas, o oficial levou ao Comitê Central os principais dossiês que selecionamos — manuscritos e documentos-chave — e os depositou para guarda e segurança.
Para mim já estava completamente claro que eu teria de sair não apenas da casa onde então estávamos, mas também da casa menor em que vivêramos por trinta anos após a Libertação — casa que, por decisão assinada pelo primeiro-ministro Adil Çarçani, ficaria comigo para moradia, enquanto meus filhos buscavam apartamentos para se acomodar. Por isso, passei toda a manhã lidando com gavetas, livros e meus pertences.
Em 21 de fevereiro, bandos de vândalos se aproximaram da nossa casa ameaçando incendiá-la. Perto do meio-dia, o oficial de plantão me informou que circulava a notícia de que grupos que queimavam e destruíam estavam vindo em direção à residência. Eu já ouvira ameaças de bandos ligados a Azem Hajdari e de democratas exaltados de Kavajë, que gritavam e escreviam pelos muros das cidades: “Vamos destruir o ninho da família de Enver Hoxha”, “Família Hoxha na prisão”, “Nexhmije Hoxha na forca”. Mas eu não imaginava que as coisas pudessem chegar realmente a esse ponto.
Mantendo a frieza, pedi ao oficial que avisasse meus filhos e Pranvera para virem o quanto antes. Assim que chegaram, eu disse:
— Peguem seus filhos e vão para a casa dos consogros. E, se nem lá vocês se sentirem seguros, podem entrar em alguma família decente aí mesmo, no prédio.
Eles pegaram as crianças e saíram de carro. Eu desci para conversar com minha cunhada, Sano. Lá encontrei a sobrinha de Enver, Katerina, casada com um aviador que, naquela época, embora ainda jovem, já estava aposentado por motivos de saúde. Ele havia ido para a luta partisan aos 14 anos. Eu disse à sobrinha:
— Vá perguntar ao seu marido se ele aceita que Sano e eu nos abriguemos com vocês por alguns dias.
Ela saiu e, ao mesmo tempo, a situação precipitou-se. O oficial da guarda veio e me alertou:
— Camarada Nexhmije, a senhora precisa sair de casa agora! No começo da rua há inimigos amontoados com sacos no ombro — ao que parece, para saquear. Eles estavam gritando: “Vamos queimar a casa de Enver Hoxha!”. Na entrada da casa, chegou um blindado da guarda para levá-la a algum lugar, fora da cidade!
— Você está fora de si? — Exclamei. — Eu entrar num blindado e ir embora?! Não, nunca!
Eu já havia afastado meus filhos e, quanto a mim, não tinha mais medo. Voltei-me para minha cunhada e disse:
— Vista-se depressa, vamos para a Casa do Partido! — Ficava a poucos passos da nossa residência; à frente estavam os escritórios do Comitê Central, e ao lado ficava a casa de Ramiz Alia. Eu pensei: “Se chegou ao ponto de nem ali ser seguro, então que se dane”.
Agora, enquanto escrevo estas memórias, acrescento aqui que, quando já estávamos prontas para sair, apareceram quatro oficiais do serviço interno da nossa casa, que voluntariamente se apresentaram no posto, fora dos seus turnos. Sobre esse gesto deles, meus filhos e alguns oficiais escreveram em suas memórias. Eu registro aqui apenas as palavras que lhes disse:
— De jeito nenhum pode haver derramamento de sangue na casa de Enver Hoxha. Deixem que a queimem!
Saímos Sano e eu pela porta lateral e entramos na Casa do Partido. Enquanto isso, os bandidos tinham se aproximado da casa aos gritos, mas uma rajada — tiros para o alto — disparada pelo blindado, que fez cair ao chão folhas das tílias da rua, colocou em fuga os vândalos pagos. Eles viram que não eram balas de borracha, como as da polícia de Hekuran Isai. Não estavam tão determinados a perder a cabeça nessa aventura sórdida.
Como me disseram depois, os oficiais do serviço tinham vindo para proteger a casa, caso os inimigos ousassem invadi-la. Também por iniciativa própria, o Diretor da Guarda apareceu, embora não tivesse recebido ordem alguma de cima. Ele teria dito:
— Isso faz parte das tarefas da Guarda, que diferença há se a ameaça não vem de fora, mas de dentro?
Aquele militar corajoso e fiel ao juramento de defender a República e o Socialismo sabia, com lucidez, que do outro lado não estavam adversários idealistas, dispostos a derramar o próprio sangue, e sim bandos de ladrões e assassinos, soltos como feras após saírem das grades. Por isso, bastavam uma ou duas rajadas para o alto e evitava-se um ato de vandalismo e um escândalo vergonhoso para o nosso Estado socialista.
Hoje eu penso: por que não se poderia ter agido do mesmo modo também diante do Monumento de Enver, que era protegido inclusive por lei?! Por que deixaram os blindados — ou tanques, não sei quantos eram, dois ou três — posicionados atrás do Museu Histórico e não permitiram que fossem colocados no perímetro do Monumento junto à Guarda, para que sua simples presença dissesse à multidão de canalhas vende pátrias reunida na Praça Skanderbeg: “Não ousem tocar um dedo nisto; é um ato bárbaro, punido pela lei!”? Não teria sido mais sensato ordenar aos comandantes desses veículos que, em hipótese alguma, atirassem contra a multidão ou contra pessoas específicas em ação, mas apenas disparassem para o alto, para intimidar e afugentar?
Quando a situação em torno da nossa casa se acalmou, eu não suportava mais a separação dos meus filhos. Eu perguntava: “Onde eles estão? Como estão?”. Pedi ao oficial de escolta que se informasse, que lhes dissesse onde eu estava e que eu queria que estivéssemos juntos, para decidir o que faríamos dali em diante. Meus filhos chegaram um após o outro, com seus pequenos. Não pareciam abalados — ou, ao menos, não deixavam transparecer, nem diante de mim, nem diante das crianças.
Ao contrário: tentavam me fazer rir, contando como haviam saído de casa, que tipos tinham visto nas vielas ao redor, homens por fazer a barba, de cabelo comprido, alguns com sacos plásticos — e de outros tipos — nos ombros. As crianças estavam eufóricas: viveram aquilo como uma aventura, dessas que veem nos filmes da televisão. Claro que elas não tinham como perceber o risco e a “virada brusca” que se desenrolava na vida delas.
Já passara da hora do almoço, mas nenhum dos meus filhos havia comido. O oficial de escolta foi até a casa, trouxe pão, queijo e o que encontrou para as crianças. Nós, os adultos, conversamos entre nós. Na casa onde estávamos não poderíamos ficar sequer uma noite. A Casa do Partido tinha uma sala de bilhar e pingue-pongue, uma sala de cinema; no segundo andar havia apenas dois quartos, com duas camas cada, onde dormiam camaradas do Birô Político que trabalhavam no interior como secretários do Partido.
Enquanto isso, não sabíamos o que se passava na cidade. Desde o dia anterior, desde a derrubada do Monumento, já tinham se passados mais de 24 horas sem que nenhum camarada do Birô viesse me ver, nem qualquer secretário do Comitê Central. Na verdade, nenhum deles sequer telefonou. E nenhum quadro do aparelho do Comitê Central ou do Ministério do Interior entrou em contato para perguntar como estávamos ou para nos dizer o que deveríamos fazer.
As horas corriam, a noite se aproximava. Pedi ao oficial de escolta que falasse com o diretor da unidade do Ministério do Interior responsável pelos deslocamentos da alta direção do Partido e do Estado. Veio um funcionário que eu via pela primeira vez. Era jovem e, ao que parecia, substituía um quadro antigo, Xhule Çiraku, que fora partisan. Eu estava irritada com aquela negligência, mas, vendo que ele era novo na função, me contive e disse:
— Camarada, o que vocês decidiram a nosso respeito? Você sabe o que aconteceu hoje em torno da nossa casa? Somos quinze pessoas, com sete crianças pequenas, e aqui não podemos ficar. Para onde podemos ir?
Ele, visivelmente tocado, respondeu:
— Sua observação é mais do que justa, companheira, estivemos muito ocupados. Entretanto, eu não recebi nenhuma ordem sobre a senhora...
— Certo. — Eu disse. — Então vá e diga aos seus responsáveis que decidam onde devemos passar a noite e que tomem providências! — ao dizer “seus responsáveis”, eu me referia à direção principal do Ministério do Interior.
Dali, ocorrera um encontro sem precedentes com Ramiz Alia e Adil Çarçani. Não demorou quando Ramiz e Adil chegaram. Eu os recebi com o rosto fechado. Sentamo-nos num canto da sala. Ramiz, com voz abatida, disse:
— Companheira, lamentamos profundamente o que aconteceu ontem... — Eu o interrompi:
— Lamentam?! Vocês não têm vergonha nenhuma na cara? Nenhuma? Vergonha, vergonha, vergonha! Vocês sabem, — continuei descarregando sobre eles, — quando Enver morreu, nem você nem ninguém me viu chorar. Foi um grande consolo saber que quem chorou pela morte dele foi um povo inteiro. Já ontem, eu chorei e gritei pela casa como uma ferida. Enver foi deixado para ser arrastado pela praça; deixado para ser levado como “sacrifício” àqueles canalhas, supostamente em greve de fome, com aqueles cantos bestiais, para arrancar o nome de Enver da Universidade, que foi erguida por iniciativa dele. E lamento, camarada Adil, que o senhor encerre sua carreira política com uma assinatura vergonhosa para retirar o nome de Enver de uma universidade que ele fundou.
— Não, as coisas não são assim... — interveio Ramiz. — Adil vai continuar a trabalhar e a lutar!
Eu esbocei um sorriso leve e amargo diante dessas ilusões que já tinham sido derrubadas junto com o Monumento de Enver e queimadas no fogo de suas obras — como faziam outrora os esquadrões nazistas, quando Hitler subia as escadas do poder na Alemanha. Eu disse a eles:
— Vocês foram informados do que aconteceu hoje ao redor da casa? Como a casa de Enver foi salva do saque, do arrasamento, do incêndio, e como a família dele foi salva do linchamento? Como é possível que tenham passado 24 horas desde aquilo que, para mim, foi a segunda e mais dolorosa morte de Enver — e nenhum de vocês, nem os membros do Birô, nem os secretários do Comitê Central, nenhum camarada, nenhuma camarada, tenha vindo me dizer uma palavra de consolo? E agora eu estou na rua, com quinze pessoas, e não sei para onde ir!
— O que você diz é mais do que justo, camarada... — lamentou Ramiz, — mas estivemos muito ocupados; a situação está muito tensa e estivemos envolvidos em várias reuniões.
Aqui eu interrompo as anotações para registrar que:
Enquanto eu estava angustiada com o destino da minha família, eu não sabia que Ramiz Alia havia sido convocado ao Ministério da Defesa e ao Ministério do Interior para prestar contas sobre o que se passava em Tirana, na Praça Skanderbeg, e sobre a derrubada do Monumento de Enver.
Ao mesmo tempo, espalharam-se boatos de que Ramiz teria sido preso pelos agentes do Sigurimi; outros diziam que “Ramiz Alia foi assassinado e que Nexhmije Hoxha deu um golpe de Estado” — Esses rumores se espalharam pelo ar e atiçaram a multidão, conduzida por militantes do PD, a marchar da Praça Skanderbeg até a sede do Comitê Central do PTA e à Presidência da Assembleia Popular para verificar se Ramiz estaria vivo.
O próprio Ramiz escreveu em seu último livro que sua reunião no Ministério do Interior foi interrompida e que ele voltou à sede do Comitê Central, onde recebeu dois representantes da multidão para que vissem com os próprios olhos que ele estava vivo.
A crônica continua, e Ramiz me perguntou:
— E você, o que acha? Para onde pensa em ir?
— O que eu posso dizer? — respondi, — Eu não sei como está a situação: vocês têm isso sob controle ou quem está com a iniciativa são os inimigos nas ruas, incitados por forças obscuras, que estão destruindo o país e aterrorizando o povo? De todo modo, eu não quero sair de Tirana; posso me abrigar provisoriamente em alguma base nos arredores.
Conversamos sobre algumas alternativas e concordamos que eu iria para o Monte Dajti, para uma vila que não me era desconhecida.
Aquela fora uma noite como nos tempos da Guerra de Libertação Nacional Antifascista. No Monte Dajti, meus filhos voltaram para casa e pegaram algumas bolsas com roupas de inverno para as crianças. Assim que caiu o crepúsculo, chegaram à entrada da Casa do Partido dois grandes caminhões militares “Ifa” e um jipe “Aro”. Disseram-me que toda a família iria no caminhão do meio e que os outros dois veículos nos acompanhariam — um à frente, outro atrás. Eu decidi que não se deveria concentrar toda a família num só caminhão: no primeiro iria Iliri com sua família; no último, Pranvera com Klem e as crianças; e no caminhão do meio, Sano, a família de Sokoli e eu. Do mesmo modo, o destacamento de soldados de escolta, armados com fuzis automáticos, foi distribuído entre os três veículos, e eu pedi que mantivessem distância entre si, sem se perderem de vista.
Ainda hoje, embora já tenham se passado tantos anos, não encontro palavras — nem tenho forças — para descrever como merece aquela viagem. A estrada me pareceu interminável. Para chegar ao ponto marcado no Monte Dajti bastariam 30 ou 40 minutos, mas os caminhões avançavam devagar: a estrada para Dajti tem muitas curvas, era noite e havia caído neve. Eles não conseguiram subir até a vila. Os soldados da unidade estacionada na região abriram um caminho a pé no meio da neve, que nas laterais já ultrapassava meio metro. Caminhamos por ali, a pé, no frio, até chegar à casa.
Três telefonemas de Tirana. Eu me sentia, em certa medida, isolada do que acontecia em Tirana. Mas, na manhã seguinte, antes do almoço, Ramiz Alia telefonou e perguntou como estávamos instalados. Agradeci, mas não prolonguei a conversa e nem perguntei sobre a situação. Pouco depois, Hekuran Isai ligou, mas eu não atendi. Disse aos meus filhos: “Digam que eu estou lá em cima, com dor de cabeça”. Eu não conseguia perdoar as atitudes — não apenas vacilantes, mas, a meu ver, suspeitas — que ele vinha assumindo naqueles dias.
Mais tarde, o ministro da Defesa, Kiço Mustaqi, me telefonou. Também ele perguntou como estávamos acomodados. Agradeci o interesse; falei do cuidado que os comandantes da unidade militar estavam demonstrando e do tratamento caloroso que nos davam. Fiquei contente que ele tivesse ligado. Eu só o conhecia de algumas reuniões do Comitê Central, e ele me causara boa impressão num encontro casual na sala de descanso dos camaradas do Birô Político. Nesse encontro — que descrevi nestas anotações — ele afirmara que não daria um passo sequer se o chefe de Estado não assinasse a decisão de declarar o estado de emergência. Eu também ouvira que, no confronto no Ministério da Defesa entre Ramiz Alia e os oficiais que lhe exigiam explicações, estes últimos se solidarizaram com o Ministro, apesar de antes terem tido divergências com ele. Não ocorreu o mesmo no Ministério do Interior, onde agentes do Sigurimi e outros funcionários se opuseram a Ramiz Alia e a Hekuran Isai.
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Um dia depois, decidi descer a Tirana. Dirigi-me imediatamente ao escritório de Ramiz. Tomei essa iniciativa porque ouvira que muitos dos que se reuniam naqueles comícios em defesa do socialismo pretendiam ir à capital para reinstalar o Monumento de Enver no local onde antes se erguera e, ao mesmo tempo, exigir a renúncia de Ramiz Alia, a quem qualificavam como traidor. Não me recordo quem me transmitiu essa informação, nem se ela fora mencionada por comentaristas da televisão. Mas o que ouvi me levou a refletir seriamente e me causou profunda inquietação.
Como pretendiam vir a Tirana? Sabiam eles que os trabalhadores da capital, em grande número, assim como a juventude das escolas, haviam subido à Cidade Estudantil — fosse porque “assim lhes fora orientado” ou simplesmente por curiosidade — quando parte dos estudantes e professores entrara em greve? E quanto ao Monumento derrubado (ou mesmo que não tivesse sido destruído), onde o encontrariam? Sob a proteção de quem o recolocariam? Da polícia de Hekuran Isai, ou viriam eles próprios armados? Os “Valentes de Pezë”(10), tão ligados ao Poder Popular e à memória de Enver e de Babë Myslym — como eu ouvira dizer — haviam se recusado a atender ao chamado do governo para enviar a Tirana um batalhão destinado à manutenção da ordem. Teriam declarado: “Não podemos nos ensanguentar contra o povo de Tirana”. Também se falava que forças seriam deslocadas de Skrapar para Kavajë. Não sei se de fato foram enviadas, mas em Kavajë a ferocidade das bestas anticomunistas já havia atingido o ápice, e dali provinham os núcleos dos bandos mais violentos.
Como disse acima, além dos que queriam vir a Tirana, exigia-se também a renúncia de Ramiz Alia. Mas quem eles imaginavam colocar no lugar? Eu estava absolutamente convencida de que nenhum dos camaradas do Birô Político ou do Comitê Central estava preparado — nem seria aceito — para assumir a direção do Partido e do Estado. Quem? Adil? Manushi? Hekurani? Haxhi Lleshi? Shefqet Peçi? Quem? Ou um novo dirigente sairia dessa própria “Movimentação popular”?
Repassando e repassando esses pensamentos, concluí que eu não podia ficar afastada, junto da minha família. Como um antigo quadro do Partido e como companheira de luta e de trabalho de Enver por quase 45 anos, eu precisava fazer algo para que não ocorresse um mal maior, para que não se derramasse sangue apenas porque havia gente disposta a recolocar o Monumento de Enver no lugar. Isso tinha de ser evitado a qualquer custo, porque era um tempo e uma conjuntura em que se jogava com o futuro das conquistas e com o destino do nosso povo.
Sem hesitar, amarrei um lenço na cabeça, coloquei óculos escuros e saí de casa. Disse ao oficial de escolta, que dirigia ele próprio o carro, que partíssemos para Tirana. Durante todo o trajeto, acompanhava-me uma sensação estranha diante do que estava acontecendo. Fui diretamente ao Comitê Central do Partido. Telefonei para Ramiz Alia e segui para o seu gabinete.
Ramiz parecia profundamente abatido. O encontro não foi caloroso nem cordial como antes. Sobre a mesa — que ele costumava manter organizada, sem excesso de pastas — havia agora montes de papéis, que pareciam ser as mensagens enviadas pelas manifestações populares nos distritos. Sem rodeios, fui direto ao ponto:
— Vim aqui como comunista veterana, como membro do Comitê Central e, posso dizer, também como companheira de vida de Enver, para perguntar: o que posso fazer? Em que medida posso ajudar e influir para que, nessas circunstâncias tão tensas, não se chegue ao derramamento de sangue em nome da defesa dos Monumentos de Enver?
Disse-lhe que estava pronta para ir a alguns distritos, como Gjirokastër, Vlorë e outros, conversar com os organizadores dessas manifestações, ouvir o que pediam, o que pensavam sobre o futuro, que planos tinham, e esclarecer a situação — sobretudo o que estava acontecendo em Tirana.
Ramiz ouviu em silêncio e, depois, com voz enfraquecida, respondeu:
— Isso é difícil de fazer. Também nesses distritos há grupos com inimigos exaltados, e pode ser fatal...
Seguiu-se um silêncio. Ele tinha razão. Em alguns lugares, como Kavajë e Shkodër, as palavras de ordens contra mim eram ainda mais duras e ameaçadoras do que contra ele. Então propus que, de cada distrito onde haviam ocorrido esses comícios, fossem chamados alguns organizadores e representantes mais ativos para que os ouvíssemos e dialogássemos diretamente com eles. Ramiz aprovou a proposta e tomou medidas para implementá-la.
Despedi-me e saí, mas não voltei para o Dajti, onde estavam meus filhos. Passei o dia e dormi na Vila nº 4, acima do lago artificial de Tirana. Ali havíamos ficado alguns meses; eu e Enver costumávamos ir para breves descansos, pois o lugar oferecia uma vista tranquila.
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Em 10 de junho de 1991 reuniu-se o 10º Congresso do PTA, no “Pallati i Kongreseve” (Palácio dos Congressos), projetado pelo destacado arquiteto Klement Kolaneci e seus colegas do Instituto de Projetos, com todo o conforto, embora não tenha sido concluído ainda na vida de Enver.
Os trabalhos do Congresso duraram três dias. Participaram mais de mil e quinhentos delegados, eleitos em Tirana e nos distritos. Eu estive presente como membro do Comitê Central e, junto com outros membros e convidados, ficamos acomodados na galeria superior.
A abertura e o informe do Comitê Central foram apresentados pelo primeiro-secretário interino, Xhelil Gjoni. Durante quase duas horas, ele desenvolveu a análise feita pelo Comitê Central sobre o passado do Partido do Trabalho, sobre Enver Hoxha e sobre os problemas atuais colocados diante do Partido, à luz das situações criadas na Albânia, na Europa e no mundo — que, segundo ele, tornavam necessário também o “renovamento” do Partido.
Não me recordo se nesse informe já se propunha explicitamente a mudança do nome de Partido do Trabalho para Partido Socialista ou se essa proposta surgiu mais tarde, tornando-se o principal tema dos debates. O que ficou claro é que houve fortes divergências e que, na prática, o conjunto dos delegados estava dividido.
Minha impressão foi a de que a maioria dos delegados vindos da base tinha reservas quanto ao que fora feito nos dois últimos anos; não concordava com as mudanças propostas pelos chamados “reformadores” nem com a alteração do nome do Partido. Isso ficou particularmente evidente quando tomou a palavra o escritor Dritëro Agolli, que também falou desse “renovamento” do Partido e dos comunistas. A maioria dos delegados levantou-se e, interrompendo-o, bradou “Enver Hoxha”, “Enver Hoxha” durante vários minutos.
Do mesmo modo, quando alguém, em nome do grupo organizador do Congresso, leu uma resolução relativamente extensa e pediu sua aprovação, a maioria reagiu com intervenções enérgicas desde seus lugares. Não me recordo se chegou a ser colocada em votação; de todo modo, aquela resolução não foi aprovada, foi retirada e, ao final dos trabalhos, substituída por outra, muito mais breve.
O primeiro dia pode-se dizer que transcorreu relativamente bem. No segundo, porém, a maioria dos oradores falou em apoio às reformas e à mudança do nome para Partido Socialista. Ao meu lado, na galeria, estava um veterano comunista de Skrapar, convidado ao Congresso. Observei que, durante todo o tempo, ele acompanhou os trabalhos em silêncio, mas com lágrimas que lhe escorriam pelo rosto. Era impressionante ver um homem chorar. Tentei acalmá-lo, confortá-lo, mas ele tinha o direito de expressar sua dor: sentia profundamente que estávamos perdendo o Partido, os valores e as conquistas de cinquenta anos que ele considerava gloriosos.
Logo depois, fui eu quem sentiu uma dor profunda ao ouvir, um após o outro, dois antigos membros do Birô Político, Adil Çarçani e Manush Myftiu. Nunca compreendi — nem então, nem depois — como e por que “rebaixaram-se” daquela forma. Em vez de uma autocrítica política pelas responsabilidades que tiveram nos desdobramentos dos últimos anos e pela grave situação econômica e social do país, fizeram autocríticas por questões menores: que a Direção de Recepção, por sugestão superior e em nome das despesas da direção, teria fornecido algumas peças de roupa para as esposas e algum brinquedo para os filhos. Esses “fatos” foram amplamente comentados e até utilizados no informe apresentado no Parlamento pluralista por Genc Ruli, do Partido Democrata (PD).
Tanto eu quanto Vito Kapo, que estava ao meu lado e que conhecia muito bem aqueles dois camaradas — homens sérios, que haviam lutado e sacrificado muito pela Albânia —, nos sentimos mal ao ouvi-los. Vito, quase em lágrimas e indignada, murmurava:
— Como é possível que Manush seja tratado assim, ele cuja família, durante a Guerra, foi base clandestina dos Partisans e sacrificou toda a sua vida em Vlorë?!
Ramiz Alia acompanhava da tribuna o debate e as cobranças dirigidas aos membros do Birô Político. Para nós, porém, foi inesperado quando ele subiu ao púlpito e, referindo-se à autocrítica daqueles dois camaradas — não recordo palavra por palavra, mas em essência — afirmou: “Eis, camaradas, creio que vocês compreendem com que tipo de dirigentes fui obrigado a trabalhar (!)”.
Ele falava como se aqueles não fossem os mesmos camaradas com quem havia colaborado antes, como se não fossem justamente dois dos mais próximos de si — sobretudo Adil — e como se não tivessem enfrentado, ao lado dele, as duras provações criadas pelo movimento estudantil de 1990-1991.
No terceiro dia do Congresso, já ao final dos debates, pouco antes do almoço, foi-me concedida a palavra. Eu estava profundamente emocionada: era a última vez que falava como membro do Comitê Central e aquele era o último Congresso do Partido do Trabalho.
Minha intervenção foi recebida apenas com uma salva de palmas normal quando subi ao púlpito e, ao final, distante das aclamações a Enver Hoxha e ao Partido do Trabalho que haviam ecoado diversas vezes durante minha fala no 9º Congresso, em novembro de 1986. Ainda assim, meu discurso no 10º Congresso foi acompanhado com atenção e em silêncio absoluto, exceto por um momento, no meio da exposição, quando se ouviu uma voz: “Conclua!”.
Aquele grito soou como um trovão anunciando a tempestade que me ameaçava. Continuei, serena, mas firme, defendendo o papel e a figura de Enver Hoxha, como já havia feito na 18ª Plenária do Comitê Central, quatro dias antes. Ao final, manifestei meu desacordo com a mudança do nome de Partido do Trabalho para “Partido Socialista”, por considerar equivocado negar uma organização com cinquenta anos de experiência e uma história que eu qualificava como gloriosa, patriótica e emancipadora — tanto enquanto Estado quanto enquanto sociedade. Encerrei desejando êxito nos trabalhos, para o bem da Albânia e do povo albanês.
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Tanto durante o Congresso quanto, sobretudo, na tarde do terceiro dia, nos bastidores e sob forte tensão, realizavam-se manobras para propor novos nomes para o Comitê Central de um novo partido, com novo programa, bem como para eleger sua nova direção e seu Presidente.
Quando essa questão foi colocada abertamente no plenário, novamente os delegados se dividiram. Um grupo defendia que o presidente do Partido fosse Ismail Lleshi, respeitado professor de filosofia, homem reconhecido por sua integridade e imparcialidade naqueles tempos turbulentos. Ele, porém, recusou de forma insistente, mesmo quando diversos delegados foram até ele, um a um, pedindo que não rejeitasse. Retirou-se da mesa e foi sentar-se num canto do salão, acompanhando calmamente os trabalhos.
O outro candidato, Fatos Nano, inicialmente também recusou, mas, após intervenção de Ramiz Alia — que o chamou e o aconselhou —, acabou aceitando. Foi eleito, então, o primeiro Presidente do Partido Socialista (PS) da Albânia, fundado em 12 de junho de 1991.
O primeiro sinal do desvio político desse novo partido — e a razão compreensível da decepção de Ramiz — manifestou-se de forma eloquente quando sua direção, liderada por Fatos Nano, decidiu oferecer a primeira candidatura presidencial não àquele que lhe abrira o caminho e contribuíra decisivamente para a elaboração de seu Programa, mas ao dirigente do Partido (Social-Democrata) italiano, Bettino Craxi. Tal gesto simbolizou, desde o início, uma orientação externa e uma ruptura com a continuidade política interna que havia possibilitado a própria existência da nova organização.
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Quero sublinhar que, pelo que ocorreu nos anos de 1990-1992, Ramiz Alia foi acusado, inclusive por muitos comunistas, de principal responsável pelo declínio do socialismo na Albânia, e chegou a ser chamado de “traidor e inimigo do povo”. Ele próprio, em seu livro “Jeta Ime — Kujtime” (Minha Vida — Memórias), escreveu:
A principal responsabilidade recai, também, sobre mim.
Posso dizer que, para o bem ou para o mal, a responsabilidade e o mérito cabem principalmente a Ramiz Alia, que, diferentemente de nós, seus apoiadores, como líder do país, tinham clareza e determinação nos passos que dava rumo às mudanças do sistema, sempre com o objetivo de evitar conflitos destrutivos. Na minha opinião, acontecimentos de tal magnitude não podem ser geridos por uma única pessoa. A Ramiz coube o peso da direção principal do Partido no período mais difícil atravessado pelo PTA e pelo Estado socialista. Ainda assim, ele não esteve sozinho: contou com o apoio da maioria do Birô Político e da Plenária do Comitê Central, contou também com meu apoio e com o da grande maioria dos membros do PTA — embora, para alguns, esse apoio tenha sido convicto; para outros, doloroso e cheio de reservas.
A acusação de “traidor” ou de “traição nacional” foi dirigida antes de tudo a Ramiz Alia, mas também ao Birô Político, a mim pessoalmente e até ao próprio PTA — como se este não fosse o mesmo Partido que durante cinquenta anos fora dirigido por Enver Hoxha. Curiosamente, o grupo ou Partido Comunista que formulava tais acusações foi criado e dirigido por uma pessoa entusiasmada com ideias comunistas, mas que jamais fora membro do Partido do Trabalho(11).
A meu ver, a qualificação de “traidor” e “inimigo do povo” aplica-se a alguém que trai sua nação e seu país. Contudo, Ramiz Alia e seus camaradas procuraram, ao longo daqueles dois anos, salvar o que fosse possível diante do ciclone que, após varrer os países ex-socialistas da Europa, alcançou também a Albânia. Menos ainda se pode rotular Ramiz Alia de “traidor nacional”.
Pelo contrário, muitos albaneses — dentro e fora das fronteiras — reconheceram o contributo inegável que ele deu tanto durante a Segunda Guerra Mundial, na libertação da Albânia e de Kosovo dos ocupantes nazifascistas, quanto ao lado de Enver Hoxha, ao longo de 45 anos de Poder Popular, a serviço da liberdade e da independência do país e da defesa dos direitos dos albaneses além da nossa fronteira(12).
Aproveito para declarar que sinto o dever de fazer autocrítica por, em uma entrevista daqueles anos turbulentos, também eu ter qualificado Ramiz Alia como “traidor nacional”. Sublinho que essa acusação foi feita apenas uma vez, em momento de ira e emoção pessoal, devido à forma como se deu a defesa — ou a não-defesa — do Monumento de Enver. Como já mencionei, poucos dias após a derrubada do Monumento, eu me coloquei ao lado de Ramiz Alia e o defendi perante representantes dos “Voluntários de Enver”, que exigiam sua renúncia, assim como em outras ocasiões.