Intelectuais Brasileiros & Marxismo:
Sérgio Buarque de Holanda
(1902-1982)

Leandro Konder

14 de Abril de 1990


Fonte: Revista Espaço Acadêmico, nº 81, Fevereiro de 2008. Nota do editor: Os textos desta série foram publicados pelo autor no jornal carioca Tribuna da Imprensa, ao longo do ano de 1990. No final de cada artigo é indicada a data de publicação. Os artigos foram reunidos e publicados em "Intelectuais brasileiros & marxismo" (Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1991). O autor, a quem agradecemos, autorizou a publicação na REA. Também registramos o agradecimento ao Prof. Paulo Cunha.

Transcrição e HTML: Fernando Araújo.


Em 1935 — há cinqüenta e cinco anos — saiu publicado na revista Espelho um ensaio intitulado “Corpo e alma do Brasil”. No ano seguinte, reelaborado e desenvolvido, o trabalho apareceu em livro. E o livro, já com o título Raízes do Brasil, rapidamente se tornou um clássico na literatura dedicada à nossa reflexão sobre nós mesmos.

O autor da façanha era um paulista, nascido na cidade de São Paulo em 11 de julho de 1902: chamava-se Sérgio Buarque de Holanda.

Quando começaram a surgir as primeiras composições de Chico Buarque de Holanda, algumas pessoas bem informadas apontavam para o moço e diziam: “É o filho do Sérgio Buarque de Holanda”. Depois da Banda, de Olé-olá e de tantos outros sucessos, o Chico ficou famoso e o velho Sérgio passou a ser caracterizado como “o pai do Chico”.

Por mais genial que seja o nosso bravo compositor, entretanto, ele sabe, melhor do que ninguém, que sua fama jamais ofuscará a glória de seu pai. Sérgio Buarque de Holanda era um grande admirador do filho Chico e não se incomodava nem um pouco com a merecida atenção que o público dedicava ao autor de Roda viva. Sérgio podia se alegrar, com toda a tranqüilidade, pois tinha consciência de que, pela importância de sua obra, pela força dos ensaios que escrevera, seu lugar na admiração dos brasileiros estava assegurado

★ ★ ★

Sérgio Buarque de Holanda era uma personalidade marcante. Na juventude, foi devorador de livros. Quando o conheceu, no Rio de Janeiro, para onde ele tinha vindo em 1921, Manuel Bandeira se espantou com a solidez da sua erudição. Perguntou-se como era possível que Machado de Assis no século XIX e Sérgio no século XX tivessem chegado a ter, no Brasil, uma formação cultural tão séria. Para o poeta pernambucano, Sérgio corria o risco de se perder no intelectualismo, de soçobrar no cerebralismo. Mais tarde, porém, Manuel Bandeira constatou: “Sérgio não soçobrou. Curou-se do cerebralismo, caindo na farra.”

Em companhia de Manuel Bandeira, de Gilberto Freyre e de Prudente de Moraes, neto, mas também eventualmente, em companhia de Donga e Pixinguinha, Sérgio freqüentou os botequins cariocas e tomou pileques memoráveis.

Na revista Estética, que ajudou a fundar, apoiou energeticamente o movimento modernista dos anos vinte. Empenhou-se na luta pela renovação da nossa expressão literária, contra a empostação retórica e o espírito acadêmico. Percebia, contudo, que nem tudo no ímpeto inovador era bom. Distanciou-se, por exemplo, do futurismo, no qual pressentia alguns traços fascistizantes.

Desenvolveu intensa atividade jornalística. Uma equipe coordenada por Francisco de Assis Barbosa (a quem a cultura brasileira tanto deve!) reuniu e publicou, recentemente, os artigos do jovem Sérgio no livro Raízes de Sérgio Buarque de Holanda (Editora Rocco). O volume nos dá uma idéia do esforço do jornalista para combinar a agilidade da informação com o rigor da compreensão das questões que abordava.

Sérgio se desdobrava. Colaborou com O Jornal, com Rio-Jornal, com o Jornal do Brasil, com A Idéia Ilustrada e outras publicações. Durante algum tempo, traduziu telegramas na agência Havas e na United Press. Em 1927, foi para Cachoeiro de Itapemerim, no Espírito Santo, para dirigir um jornal local.

Politicamente, sempre foi um homem de esquerda. Interessou-se pelo comunismo, chegou a procurar o principal intelectual do Partido Comunista naquele tempo, Octávio Brandão, porém ficou muito mal impressionado com o sectarismo do combativo farmacêutico.

Em 1929 foi mandado à Alemanha como correspondente do O Jornal. A correspondência enviada também consta no livro Raízes de Sérgio Buarque de Holanda (apresentada por Antonio Candido). Entrevistou Thomas Mann, analisou a evolução da situação política na Polônia, comentou a repercussão da chamada “revolução de 1930” brasileira na Alemanha e pensou em ir à União Soviética (mas desistiu por causa do frio: a viagem se faria em pleno inverno).

Em Berlim, Sérgio conheceu Mário Pedrosa e Astrojildo Pereira, dois marxistas que trilhavam caminhos politicamente opostos. Astrojildo se subordinava à linha de Stálin e Mário seguia a linha de Trotsky. Sérgio se afeiçoou a ambos, mas não acompanhou nenhum dos dois.

Na época, começou a se empenhar, cada vez mais, em penetrar nas origens das instituições, das mentalidades, das peculiaridades do Brasil. Os esquemas doutrinários não lhe pareciam convincentes. E se tornavam mais nocivos quando invocavam princípios apresentados como “racionais” para alimentar os simplismos e preconceitos por eles difundidos. De volta da Alemanha, encontrou seu amigo Manuel Bandeira e lhe declarou: “Quando saí daqui, eu tinha uma tendência para o comunismo. Hoje estou achando nele o mesmo excesso racionalista do catolicismo.”

O abandono dos esquematismos pretensamente “racionalistas” não significava necessariamente uma capitulação diante do “irracionalismo”; em lugar de recorrer a mitos, Sérgio tratava de esclarecer o “sentido” da experiência histórica efetivamente vivida pelos homens durante a “colonização”.

A recusa da “ortodoxia” do “marxismo-leninismo” não o impedia de assimilar as contribuições originais dos marxistas mais inquietos e originais, tidos como “revisionistas”. E a desconfiança em face dos “excessos” do “racionalismo” não o afastava da dialética.

A historiadora Maria Odila Leite da Silva Dias, que organizou o volume dedicado a Sérgio Buarque de Holanda na série “Grandes Cientistas Sociais” (Editora Ática), escreveu, na introdução ao livro, que Sérgio assimilou idéias provenientes de História e consciência de classe (de Lukács), de Adorno, Horkheimer e Walter Benjamin: “A marca do método dialético na obra de Sérgio Buarque de Holanda condiz com uma admiração reiterada pela obra de Georg Lukács e com uma afinidade constante, vida afora, pelas inovações do revisionismo marxista.”

Sérgio precisava de um instrumental conceitual flexível para entender melhor o Brasil em sua gênese. Em suas palavras, ele queria entender como ocorreu na vida brasileira “uma acentuação energética do afetivo, do irracional, do passional, e uma estagnação, ou antes uma atrofia correspondente das qualidades ordenadoras, disciplinadoras, racionalizadoras. Quer dizer, exatamente o contrário do que parece convir a uma população em vias de organizar-se politicamente” (Raízes do Brasil).

Aristóteles dizia que o espanto é o começo da ciência. Pois bem: Sérgio se espantava com o conservadorismo vigente na sociedade brasileira. Ele se perguntava: “Como esperar transformações profundas em um país onde eram mantidos os fundamentos tradicionais da situação que se pretendia ultrapassar?” (Raízes do Brasil).

É curioso ver como Sérgio enxergou as pistas presentes em algumas palavras da nossa língua. A palavra “desleixo”, por exemplo, que era tão sintomaticamente exclusiva do idioma português como “saudade”. E sobretudo a palavra “traficante” ou a palavra “tratante”, que em outras designa simplesmente o comerciante, o homem de negócios, e – aplicada à burguesia portuguesa (mãe da nossa) – assumiu uma significação claramente depreciativa.

Sérgio notou que, ao longo da história da sociedade brasileira, os movimentos reformadores “partiam quase sempre de cima para baixo”. Como as forças que promoviam as reformas eram marcadas pelo espírito dos “tratantes” e “traficantes”, empenhados em preservar seus privilégios acima de tudo, era natural que as mudanças, afinal, fossem superficiais, inócuas, limitadas.

A ideologia dominante – que, como ensinava o velho Marx, é sempre a ideologia das classes dominantes – explorava essa pasmaceira, para tentar sempre legitimar um quadro no qual não só as coisas pareciam eternas como, ainda por cima, nada deveria se modificar. E mesmo os representantes das forças empenhadas em transformar a sociedade tendiam a sucumbir diante de um pessimismo paralisador.

A reação de Sérgio contra esse ponto de vista conservador, que induzia o observador à passividade, consistiu em reexaminar de um ângulo energeticamente crítico o panorama de nossa história, para enxergar as manifestações de movimentos subterrâneos em áreas culturais nas quais se negava a existência de qualquer movimento significativo. Especialmente na cultura, na vida cultural dos brasileiros da época colonial, ele apontou os caminhos pelos quais fluíam as contradições, por baixo das imagens enganadoras de uma circulação coagulada.

Na relação dos colonizadores brancos com os índios, por exemplo, onde a perspectiva conservadora sugeria uma passagem de mão única, através da doação da cultura do elemento “civilizado” ao elemento “inculto”, Sérgio promoveu uma reviravolta pioneira. Ele lembrou que foram os índios que ensinaram ao brancos a habilidade essencial de que os bandeirantes precisavam nas longas caminhadas que empreenderam terra adentro: saber andar. Os brancos andavam pelo mato como estavam acostumados a andar pelas cidades. Os índios lhe mostraram como deviam caminhar, combinando o movimento e o ritmo das pernas com o balanço do corpo inteiro; e como deviam pisar no chão, com toda a sola do pé, para não cansar logo.

Para reconstruir o processo das influências efetivamente trocadas, Sérgio estudava com sua curiosidade insaciável, punha uma paixão imensa em suas pesquisas. Uma vez, sua mulher – Maria Amélia Alvim – surpreendeu-o, de madrugada, quase desmaiando de exaustão, folheado montanhas de livros, à procura de uma referência que lhe forneceria a data em que os índios guaicurus passaram a usar cavalos.

Esse estudo, diga-se de passagem, nunca eliminou da personalidade de Sérgio o seu lado boêmio e saudavelmente moleque, o robusto senso de humor, que, no dizer de Manuel Bandeira, o salvou de “soçobrar no cerebralismo”. Sérgio era terrivelmente “gozador”, sua irreverência é conhecida. Poderíamos encher páginas e páginas com o relato de suas brincadeiras. Limito-me aqui a contar um de seus “casos”: a professora Ismênia de Lima Martins, da Universidade Federal Fluminense, estava sentada à frente do grande historiador num almoço cerimonioso, ao qual ambos tinham comparecido a contragosto; Sérgio dava evidentes demonstrações de que não estava se sentindo à vontade no meio dos convivas, que eram pessoas graves e circunspectas; num dado momento, ele passou a pedir à Ismênia, em voz alta, que contasse anedotas debochadas. “Conta aquela do pentelho, Ismênia!”

O “moleque”, no entanto, era um incansável trabalhador. Depois de Raízes do Brasil, vieram numerosos outros livros, como Cobra de vidro (1944), Monções (1945), Caminhos e fronteiras (1957), Visão do paraíso (1958) e O extremo Oeste(publicado postumamente, em 1986, pela Editora Brasiliense). Além disso, ele coordenou a História geral da civilização brasileira e para ela escreveu o ensaio “Do império à república”, constante do segundo tomo do quinto volume.

Uma última observação se impõe: além de escrever e pilheriar, Sérgio acompanhava atentamente a vida política brasileira e participava dela, com muita “garra”. Pouco antes de morrer (ele faleceu no dia 24 de abril de 1982), ele ingressou no Partido dos Trabalhadores, no momento mesmo de sua fundação. Procurou, com isso, confirmar uma posição de esquerda, assumida desde a juventude, que sempre encontrara dificuldades para se concretizar no plano da filiação político-partidária, em decorrência da cristalização dogmática das opções oferecidas pelas organizações de esquerda existentes.


Inclusão 14/07/2019