A guerra contra os judeus
Porque se volta a opinião pública global contra Israel na crise económica

Robert Kurz

11 de janeiro de 2009


Primeira Edição: DER KRIEG GEGEN DIE JUDEN in www.exit-online.org . Publicado na Folha de S. Paulo, 11.01.2009.

Fonte: http://www.obeco-online.org/robertkurz.htm

Transcrição e HTML: Fernando Araújo.


As reacções políticas à guerra em Gaza mostram que quanto mais crítica é a situação militar de Israel menor é o número dos seus amigos. Ocorre um deslocamento tectónico na relação de forças. Desde sempre o Médio Oriente foi palco não de conflitos limitados entre interesses regionais, mas de um conflito por procuração paradigmático e com forte carga ideológica. Na época da Guerra Fria, o conflito entre Israel e a Palestina era visto como paradigma da oposição entre um imperialismo ocidental liderado pelos EUA e um campo “anti-imperialista”, cuja liderança era disputada pela União Soviética e pela China. A propaganda de ambos os lados ignorava então o duplo carácter do Estado de Israel que, por um lado, é um país moderno vulgar no quadro do mercado mundial, por outro lado, porém, constitui a resposta dos judeus à ideologia de exclusão eliminatória do anti-semitismo europeu e sobretudo alemão. Subsumia-se Israel a uma constelação da política mundial com a qual ele nunca coincidiu.

Depois do colapso do socialismo de Estado e dos “movimentos de libertação nacional”, que tinham formulado um programa de “desenvolvimento atrasado” com base no mercado mundial, a natureza do conflito por procuração modificou-se profundamente. No Médio Oriente e não só, o lugar dos regimes desenvolvimentistas laicos foi ocupado pelo chamado islamismo, que apenas na aparência se apresenta como movimento religioso tradicional. Na realidade, trata-se de uma ideologia de crise culturalista pós-moderna de parte das elites dos países islâmicos há muito ocidentalizadas, que representam o potencial autoritário da pós-modernidade e absorveram o anti-semitismo europeu totalmente não-islâmico. Nessa região, os segmentos do capital que fracassaram no mercado mundial declararam guerra aos judeus como combate paradigmático contra a dominação ocidental. Inversamente, o imperialismo de crise ocidental, encabeçado pelos EUA, transformou o islamismo no novo inimigo principal, depois de o ter amamentado e abastecido com armas durante a Guerra Fria.

Essa nova constelação levou a confusões ideológicas duma dimensão nunca imaginada. O neoliberalismo parecia identificar-se com a guerra de ordenamento mundial capitalista contra os “Estados em desagregação” nas regiões de crise e com Israel no Médio Oriente. Desde então, correntes neofascistas do mundo inteiro andam de mãos dadas com a “luta de resistência” islâmica anti-semita, embora ao mesmo tempo aticem sentimentos racistas contra migrantes dos países islâmicos. Segmentos expressivos da esquerda global também passaram a conferir sem cerimónia a glorificação do velho “anti-imperialismo” aos movimentos e regimes islâmicos. Isso só pode ser caracterizado como abandalhamento ideológico, pois o islamismo é contra tudo o que a esquerda sempre defendeu; ele persegue qualquer pensamento marxista com repressão e tortura impiedosas, pune a homossexualidade com a pena de morte e trata as mulheres como seres humanos de segunda classe. A responsabilidade por isso também não deve ser atribuída a nenhuma religião tradicional, mas a uma militância de tons culturalistas do patriarcado capitalista na crise, que também no Ocidente se dá a conhecer de maneira diferente. A nada santa aliança entre o caudilhismo “socialista” de Hugo Chávez e o islamismo representa apenas a ratificação dessa decadência ideológica no plano da política mundial, sem qualquer perspectiva emancipadora.

Desde o recente crash financeiro, sem precedentes na história, a constelação global está rodando novamente. Agora fica claro que o colapso do socialismo de Estado e dos regimes de desenvolvimento nacional foi apenas o prenúncio de uma grande crise do mercado mundial. O neoliberalismo está falido e a guerra de ordenamento mundial capitalista já não pode ser financiada. Nessa situação evidencia-se que Israel sempre foi apenas um peão no tabuleiro de xadrez do imperialismo de crise global. A própria administração Bush acabou por considerar inofensivo o programa iraniano de armamento nuclear. Os interesses dos EUA e de Israel separam-se; Obama já não dispõe de qualquer margem de manobra político-militar. A guerra islâmica contra os judeus é aceite como inevitável. Por isso os lançamentos de mísseis do Hamas sobre a população civil israelita se afiguram sem importância. A opinião pública global caracteriza o contra-ataque israelita majoritariamente como “desproporcionado”. Os palestinianos em Gaza são como vítimas identificados com o Hamas, como se este regime não se tivesse imposto numa sangrenta guerra civil contra a laica Fatah.

Assim a propaganda islâmica do massacre da população civil cai em terreno fértil. Com efeito, o Hamas transforma a população em refém, exactamente como o Hezbollah libanês em 2006, ao transformar mesquitas em depósitos de armas e ao permitir que seus quadros armados atirem a partir de escolas ou hospitais. A opinião pública mundial não dá importância a isso, pois já reconheceu o Hamas como “força da ordem” no meio da crise social. Por isso o pragmatismo capitalista se volta cada vez mais contra a autodefesa israelita, como se pode observar até na imprensa burguesa liberal. Este é, afinal, o segredo da viragem neo-estatista perante a queda da economia global: as massas depauperadas devem ser pacificadas autoritariamente, e para isso agora até o islamismo serve, mais ainda se ele logra legitimar-se formalmente como democracia. Mesmo uma esquerda, que já não tem qualquer objectivo socialista e se vangloria da “perda de todas as certezas” pós-moderna, corre o risco de ser absorvida pela administração autoritária da crise e como flanqueamento ideológico aceitar a inevitabilidade da guerra islâmica contra os judeus. O conflito por procuração alcançou uma dimensão social no plano global. Contra o mainstream ideológico, faz-se mister constatar que o aniquilamento do Hamas e do Hezbollah é condição elementar não apenas de uma paz capitalista precária na Palestina, mas também de uma melhoria das condições sociais. Se as perspectivas para tanto são más, são boas para a desagregação da sociedade mundial na barbarização.


Inclusão: 31/03/2020