O fim da economia da potência mundial

Robert Kurz

20 de agosto de 2010


Primeira Edição: DAS ENDE DER WELTMACHT-ÖKONOMIE in www.exit-online.org. Publicado em Neues Deutschland 20.08.2010

Fonte: http://www.obeco-online.org/robertkurz.htm

Transcrição e HTML: Fernando Araújo.


Na Alemanha festeja-se o "conto de fadas de verão" de um forte crescimento trimestral, impulsionado principalmente pelo sucesso das exportações da indústria automóvel (o mercado doméstico caiu entretanto 30 por cento) e da construção de máquinas. A crise é considerada superada, embora o nível anterior do produto interno bruto nem de longe tenha voltado a ser alcançado, nem seja previsível um novo boom da economia mundial. O actual factor de incerteza é constituído pelos Estados Unidos, a maior economia do mundo. Há aí um clima deteriorado. Isso deve-se principalmente a uma mudança de fase da economia, pois os Estados Unidos foram os primeiros a aplicar os programas de estímulo económico os quais, portanto, também aí acabam mais cedo. Agora se evidencia que a suposta "retoma” ameaça rodar em falso. Economistas influentes falam de um iminente double dip [mergulho duplo], uma recaída possivelmente ainda mais profunda na recessão.

O problema principal, além do endividamento público, é o sobre-endividamento maciço das famílias americanas, cujo consumo representa 70 por cento do PIB. No auge da conjuntura económica de deficit, em 2007, o rendimento médio real foi menor que o de 1970. O poder de consumo vinha apenas dos cartões de crédito e de créditos garantidos por hipotecas que na sua maioria não têm qualquer valor. O desemprego oficial duplicou para os 10 por cento, sendo o desemprego real estimado em 17 por cento. Mesmo para manter este precário status quo é necessário um crescimento anual de 3 por cento; uma redução durável da taxa de inactividade somente seria viável com um crescimento de 6 a 9 por cento. Isso está fora de questão no longo prazo, especialmente porque a classe média está a ser corroída a um ritmo de tirar o fôlego. Para recuperarem o poder de compra, as famílias teriam de amortizar dívidas de mais de seis biliões de dólares ou reduzir os seus encargos durante 10 anos. Isso seria lançar a economia ainda mais no abismo. A continuação das subvenções públicas, por sua vez, põe em questão o crédito dos E.U.A. e, não em último lugar, o seu poder militar mundial. Os custos das operações no Afeganistão, no Iraque e em outros países têm aumentado desde 2002 várias centenas por cento, e, após o estouro de bolhas financeiras, deixaram de poder ser pagos com os fundos da caixa para pequenas despesas.

A má vontade anti-americana que grassa perante este desenvolvimento negligencia o papel da economia da potência mundial no capitalismo global. Seria ilusório pensar na separação a longo prazo da conjuntura económica global relativamente aos Estados Unidos. Essa conjuntura, construída ao longo de décadas e que assenta no consumo baseado no deficit da potência mundial, não pode ser transformada no seu contrário no espaço de alguns meses. Nem a China nem a União Europeia ou o Japão estão em posição de assumir o papel dos E.U.A. Isso diz respeito também à função do dinheiro mundial. Após o fim do “dólar-ouro” agora está em discussão o “dólar-armamento”. O yuan chinês nem sequer é uma moeda convertível e o euro está numa profunda crise. A perda de uma moeda reconhecida no comércio internacional e como moeda de reserva por maioria de razão teria repercussão na conjuntura económica global. À medida que as diferentes fases conjunturais se equipararem e os programas de estímulo económico chegarem ao fim também na China e na União Europeia (neste caso, com o agravamento das políticas de austeridade impostas), ocorrerá também nestes centros uma situação semelhante à surgida agora nos E.U.A. O fim efectivo da economia da potência mundial, segura já apenas por fios ténues, poderá então desencadear, o mais tardar nos próximos anos, uma segunda onda da crise económica mundial.


Inclusão: 31/03/2020