Filósofos puseram em dúvida a certeza de nosso conhecimento do mundo exterior, porque, declara Berkeley, as informações fornecidas pelos sentidos são duvidosas e porque o espírito, ser imaterial, não pode perceber objetos materiais. Nosso conhecimento seria subjetivo, conheceríamos apenas as ideias que fazemos das coisas. A qualidade e a quantidade de uma coisa, as causas que a determinam, sua modalidade, suas relações com as outras coisas, seu deslocamento no espaço e sua sucessão no tempo seriam concepções de nossa inteligência, formas de nosso entendimento. A causalidade, o espaço e o tempo seriam igualmente concepções necessárias e universais de nossa razão, dizem Hume e Kant. As coisas do mundo exterior tais como as percebemos seriam criações de nosso espírito. Não conhecemos a substância das coisas, segundo Hume, a coisa em si segundo Kant. As coisas permanecem desconhecidas e irreconhecíveis.
Huet, o erudito bispo de Avranches, zombava de Descartes, "esse suposto inventor da verdade", porque, após ter começado, com louvável prudência, por duvidar de tudo, ele se extravia já no segundo passo e afirma tudo, quando o homem não pode afirmar nada, pois não tem certeza de nada, exceto das verdades reveladas por Deus e ensinadas por sua Igreja. O ceticismo pirrônico, argumento teológico! Encontra-se desempenhando esse papel em Charron, o ardente pregador da Liga: era, segundo ele, "um grande preparatório" para a fé; para "plantar e instalar o cristianismo em um povo incrédulo e infiel, seria um método muito belo começar por essas proposições e persuasões, que o mundo está todo impregnado, dilacerado e envilecido de opiniões fantásticas, forjadas em seu próprio cérebro; que Deus criou bem o homem para conhecer a verdade, mas que ele não pode conhecê-la por si mesmo, nem por nenhum meio humano, e que é preciso que o próprio Deus, em cujo seio ela reside, e que faz nascer no homem o desejo dela, a revele, como o fez"(1).
Mas chega Pascal, que desaloja a certeza de seu último refúgio: a verdade revelada por Deus.
"(...) As principais forças dos pirrônicos são que não temos nenhuma certeza da verdade fora da fé e da revelação; ... pois não há certeza fora da fé, se o homem é criado por um Deus bom, por um demônio mau ou ao acaso, está em dúvida se esses princípios (de certeza) nos são dados, ou verdadeiros, ou falsos, ou incertos, segundo nossa origem.
(...) Que fará o homem nesse estado? Duvidará de tudo? Duvidará se o beliscam, se o queimam? Duvidará se duvida? Duvidará se é? Não se pode chegar a isso; e afirmo que nunca houve um pirrônico efetivo perfeito." (Pensamentos, VIII, §1).
Filósofos afirmaram a realidade de nosso conhecimento. O idealista Hegel sustenta que, se se conhecem todas as qualidades de uma coisa, conhece-se a coisa em si; não resta mais que o fato de que a dita coisa existe fora de si e quando os sentidos apreenderam esse fato, captou-se o último resto da coisa em si, o inconhecível Ding an sich de Kant. O socialista Engels refuta como economista: "No tempo de Kant, nosso conhecimento dos objetos da natureza era tão fragmentário que ele podia crer-se no direito de supor, além do pouco que conhecíamos de cada um deles, uma misteriosa coisa em si. Mas essas coisas inapreensíveis foram umas após outras apreendidas, analisadas e, mais ainda, reproduzidas, graças aos progressos gigantescos da ciência: o que podemos produzir não podemos pretender considerar como inconhecível"(2).
Os mortais comuns não são atormentados por tais dúvidas, se sabem que os sentidos os enganam frequentemente; os filósofos com escrúpulos sobre a certeza de nossos conhecimentos não o são tampouco, quando descem das regiões da Razão pura e da especulação metafísica para o mundo da realidade. Os sábios os ignoram quando estudam os fenômenos da natureza. Contudo, desde o renascimento do kantismo, há homens de ciência que se inquietam com isso. Impacientes, mais que perturbados por essas dúvidas, eles os mandam às favas e, com Gustave Le Bon, declaram que "a ciência não tem de ocupar-se das coisas em si mesmas, isto é, dos noumena dos filósofos, e de opô-las às aparências, isto é, aos fenômenos revelados por nossas sensações... Visto que as refrações criadas por nossos sentidos são quase as mesmas para todos os espíritos construídos sobre o mesmo tipo, a ciência pode considerá-las como realidades e construir seu edifício com elas... Pouco lhe importa saber se o mundo tal como o percebemos é real ou irreal. Ela o aceita como aparece e procura adaptar-se a ele... Nossos conhecimentos estão à nossa medida e só nos interessam porque estão à nossa medida"(3). Le Bon põe de lado a dúvida kantiana, mas não a contesta; ao contrário, reconhece-a. Félix Le Dantec a ataca como naturalista e lhe desfere um golpe mortal: "O fato de estarmos vivos e de nossa espécie não ter desaparecido basta para nos permitir afirmar que nosso conhecimento do mundo exterior não é enganoso e que concerne a todos os acidentes ambientais que interessam à conservação de nossa existência"(4).
A dúvida sobre a certeza de nosso conhecimento, que há mais de dois mil anos preocupa o pensamento humano, que adquiriu tamanha importância filosófica e que está em recrudescência desde o renascimento do kantismo, é um dos problemas que deve resolver a filosofia das ciências.
Propus-me neste artigo pesquisar suas origens históricas e causas determinantes e tentar dar uma explicação e uma refutação.
O problema do conhecimento foi posto pelos sofistas da Grécia antiga com uma ousadia lógica que nunca tiveram os filósofos modernos que o recolocaram em discussão. Questionaram e puseram em dúvida os conhecimentos que nos chegam pela via dos sentidos e não respeitaram os conceitos da Razão pura.
Diziam eles: os sentidos não nos informam exatamente: um remo mergulhado na água parece quebrado; a lua parece diminuir de tamanho à medida que se eleva no horizonte; uma torre redonda torna-se plana vista à distância; as árvores de uma alameda aproximam-se à medida que nos afastamos de uma de suas extremidades; um perfume agradável ao olfato fere o paladar; uma pintura que tem relevo à vista não o tem ao tato; para quem está sobre um navio em movimento, as colinas da margem se movem; uma bola, rolada entre o indicador e o médio, cruzado sobre o indicador, dá a sensação de duas bolas etc.
Os sentidos fornecem não apenas dados errôneos, mas dessemelhantes segundo os indivíduos e segundo os estados de um mesmo indivíduo: tal perfume agradável para um é desagradável para outro; o mel parece doce a uns e amargo a outros; Demócrito pretendia que não é nem doce, nem amargo, e Heráclito que tem essas duas qualidades; tem-se frio quando, no inverno, vai-se a um banquete e calor quando se sai dele etc.
Os objetos não nos sendo conhecidos senão por nossas sensações, podemos dizer como nos aparecem e não como são: com que direito supor que nossas percepções são mais conformes à natureza das coisas que a dos animais, sustentava Enesidemo; os animais que têm a pupila alongada devem ter outra percepção que nós: o tato não é o mesmo para quem está revestido de uma concha, de escamas, ou de penas. A diversidade das sensações é atestada por fatos: o azeite, bom para o homem, mata as vespas e as abelhas; o heléboro, veneno mortal para o homem, engorda as codornizes e as cabras; a água do mar, condição de vida para os peixes, é nociva para o homem que nela prolonga sua permanência etc.
Já que só temos conhecimento das coisas por nossas sensações, concluía Aristipo, discípulo de Sócrates, não podemos saber se elas têm as qualidades que nos impressionam; temos as sensações do doce, do branco, do quente, mas ignoramos se os objetos que as causam são doces, brancos, quentes.
Protágoras, o sofista genial, de quem, infelizmente, só conhecemos as opiniões por algumas citações abreviadas, dizia: se o olho é cego quando não há objeto colorido que o impressione, o objeto é incolor enquanto não há olho para percebê-lo, portanto nenhum objeto é ou se torna em si e por si o que é ou se torna; só o é para o indivíduo que o percebe, e este naturalmente o percebe diferentemente segundo o estado em que se encontra. As coisas só são para cada um o que lhe aparecem e só lhe aparecem como devem lhe aparecer segundo seu próprio estado, por conseguinte "o homem é a medida de todas as coisas, das que são e das que não são, no que concerne a saber que não são". Não há verdade objetiva, mas apenas uma aparência subjetiva de verdade.
O célebre aforismo de Protágoras é todo o tema da filosofia subjetiva, a filosofia da Burguesia, a classe individualista por excelência, cujos indivíduos medem tudo a seus interesses e paixões(5).
O sofista não duvidava de suas próprias sensações, assim como Descartes de seu pensamento; tinha certeza de que vivia, via a luz, sentia o perfume da rosa; não duvidava de que a rosa lhe parecia perfumada e a neve branca; mas ignorava se a rosa tinha perfume e a neve brancura; ignorava igualmente se a rosa e a neve produziam exatamente a mesma sensação nos outros; provavelmente não, pois seu estado era diferente; como então ter certeza de que as mesmas coisas aparecem semelhantemente a todos os homens. As mesmas palavras são empregadas para expressar sensações diferentes, observava ele: quando dois homens pretendem sentir a mesma sensação, nenhum deles tem certeza de que a sensação do outro seja semelhante à sua, pois só sente segundo seu próprio estado e não segundo o do outro. Não se pode nem conhecer as coisas, nem comunicar a outrem as impressões que produzem em nossos sentidos; trocam-se palavras e não sensações. Por conseguinte não há conhecimento válido para todos, pois todo conhecimento só repousa sobre sensações; só há opiniões, declarava Protágoras, e não há opinião verdadeira e válida para todos.
Os sofistas, consequentemente, professavam que o indivíduo não deve aceitar sem exame as opiniões correntes, mesmo quando legadas pelos antepassados; que cada um deve fazer por si mesmo suas opiniões, não reconhecer como verdadeiro senão o que lhe parece verdadeiro e só atribuir valor ao que obtém sua convicção e lhe oferece um interesse pessoal qualquer. Lançaram assim as bases de uma nova filosofia, onde deveria predominar, como observa Hegel, o princípio da subjetividade. Prepararam sua vinda tornando-se educadores públicos: ensinaram o que era útil para chegar ao sucesso e preconizaram o abandono das pesquisas sobre a natureza das coisas, às quais se consagrara a filosofia primitiva, porque não rendem lucros.
A Igreja, ela também, fulminou seus raios contra as ciências físicas, essas invenções de Satanás. Os sofistas e a Igreja representavam nessa ocasião o espírito da Burguesia, que, não buscando em tudo senão o lucro, só encorajou o estudo dos fenômenos da natureza quando lhe foi provado que o conhecimento das forças naturais e sua aplicação industrial eram uma fonte inesgotável de riquezas.
Sócrates, o mais ilustre dos sofistas, segundo Grote, contribuiu, mais que qualquer outro, para o arranque da filosofia subjetiva e para sua definitiva separação de toda ciência: tomou como ponto de partida de seu ensino não o conhecimento das coisas, mas o conhecimento de si mesmo, o conhecimento de seu Eu. Platão, no Fédon, mostra-o disposto a explicar o mundo pelo homem; contrariamente à filosofia primitiva, que, por sua direção e conteúdo, era a filosofia da natureza e que procurava explicar o homem pelo mundo.
Sócrates só pedia às ciências o imediatamente útil à vida prática; à geometria, o que era necessário para medir os campos, à astronomia apenas o que bastava "para conhecer as horas da noite, os dias do mês e as estações do ano". Xenofonte relata que, "longe de pesquisar as causas dos fenômenos celestes, demonstrava a loucura daqueles que se entregavam a tais especulações. Aqueles que aprendem um ofício, dizia ele, esperam exercê-lo depois por si mesmos e para os outros; aqueles que procuram penetrar os segredos dos Deuses (isto é, os mistérios da natureza) creem que, quando conhecerem bem as causas de tudo o que é, farão a seu bel-prazer e segundo suas necessidades os ventos, a chuva, as estações e outras coisas semelhantes? ou, sem lisonjear-se de tanto poder, lhes basta saber como isso se faz" (Memórias de Sócrates, liv. I).
Sócrates considerava que havia perdido seu tempo estudando os fenômenos da natureza: recomendava deixar as coisas — πρχγματα (pragmata) —, pelas ideias — λόγοι (logoi) —, as realidades — όντα (onta) —, pela verdade das realidades — άλήθεια των όντων (aletheia ton onton). As ideias que o homem fazia das coisas eram essa verdade: o conhecimento da ideia da coisa dispensava toda pesquisa sobre sua natureza. O conhecimento do conceito do cavalo, dizia Platão, ensina as propriedades do cavalo. Os conceitos, segundo ele, possuíam a realidade; não é a matéria, mas a ideia de que ela recebe sua forma, que faz de cada coisa o que é: por conseguinte, a ideia representa a verdadeira realidade das coisas.
Mas nem todos os sofistas partilhavam essa alta opinião pelas ideias da Razão pura. Objetavam: não se pode expressar senão as sensações do estado em que se encontra, sem poder afirmar nada sobre o que está fora de si, nem enunciar nada que tenha um alcance geral, porque os sentidos se interpõem entre o mundo exterior e a razão, a qual está como aprisionada e não pode sair de si mesma. Submetiam a sua crítica paradoxal e implicante as ideias de movimento, de espaço, as definições da geometria e as operações da aritmética(6).
Sócrates abandonava as ciências físicas pela ética, o único estudo digno de um homem livre: a moral, os costumes, a legalidade, a justiça foram de fato a constante e geral preocupação dos sofistas; passaram-nas pelo crivo de sua implacável crítica.
Górgias vangloriava-se de haver descoberto que a aparência tem mais peso que a verdade e Pirro declarava que a aparência é rainha por toda parte onde se apresenta: a teoria da aparência é a que os sofistas vão aplicar à ética. Já que as coisas são para cada indivíduo o que lhe aparecem segundo suas sensações, a verdade só é uma opinião individual; cada um deve ter por verdadeiro o que lhe parece verdadeiro e por bem e justo o que lhe parece bem e justo; pois o homem é também a medida das coisas do mundo moral como das coisas do mundo físico. Os mais ousados, opondo a natureza à sociedade, o direito natural ao direito legal, concluíam que cada um deve seguir suas paixões e seus interesses: e se as leis e o costume a isso se opõem, atentam contra seu direito natural e lhe impõem um constrangimento ao qual não é obrigado a submeter-se e sem hesitação deve violá-las, se puder fazê-lo impunemente.
O rei da Pérsia, porque podia satisfazer todos os caprichos de seu Eu, possuía o soberano bem e Arquelau, porque se apoderara do trono da Macedônia pela traição e o assassinato, tornava-se um herói. O Eu único de Stirner e o pretensioso super-homem de Nietzsche são as caricaturas dessas ideias da sofística grega. O indivíduo devia conduzir-se, não segundo uma moral geral e válida para todos, mas segundo as conveniências de seu Eu. O Eu era o começo, o meio e o fim de tudo; tornou-se o ponto de partida da nova moral, cujo dogma fundamental: Faze a outrem o que gostarias que te fizessem, que reporta Hesíquio e que comenta assim o sofista Isócrates: "Não faças aos outros o que não gostarias que te fizessem... Sê para com os outros o que gostarias que eu fosse para contigo", foi retomado pelo cristianismo, que repete: "Não faças a outrem o que não gostarias que te fizessem. Ama teu próximo como a ti mesmo."
Os estoicos que ostentavam a pretensão de retornar à natureza, quando rejeitavam a primitiva filosofia da natureza, pela subjetiva filosofia da sofística, professavam que, para ser livre sob todos os aspectos, o sábio não deve aceitar nenhum encargo, nem nenhum dever para com os outros; não deve impor-se o cuidado de educar filhos; deve bastar-se a si mesmo e não submeter-se à servidão do casamento, quando há tantos outros meios de satisfazer as necessidades sexuais. O cínico, para retornar inteiramente à natureza, satisfazia-as em público. Zenão e Platão pregavam a comunidade das mulheres.
Os sofistas atacavam as instituições sociais; Licofron declarava que a superioridade da aristocracia é imaginária; Alcidas que a oposição entre homem livre e escravo é desconhecida à natureza; outros que a escravidão é contrária à natureza. A cidade, a nação, o Estado, diziam eles, são demasiado estreitos para quem tem o universo no lugar da pátria. O sábio é cidadão do mundo; não deve pertencer nem a uma cidade, nem a um Estado, pois a nenhum preço deve alienar sua liberdade e porque de todo lugar o caminho que leva ao Hades tem o mesmo comprimento. É ridículo sacrificar-se pela pátria: o sábio que tem o mundo no lugar da pátria não irá fazer o sacrifício de sua pessoa e da sabedoria em proveito dos loucos(7).
Sócrates não ousou levar a dúvida até suas últimas consequências lógicas, mas assim como Bentham, o teórico do utilitarismo burguês, fazia do útil a condição do bem e aconselhava ser virtuoso, por causa das vantagens que a virtude proporciona; evitar o adultério por causa dos perigos a que expõe; tomar parte nos negócios públicos porque o bem-estar da comunidade aproveita ao indivíduo; cultivar a amizade, idealizada pela sodomia mútua, por causa dos serviços que dela se podem esperar, etc.; contudo, contrariamente aos outros sofistas, identificava a legalidade ao conceito do justo, a ponto de recusar subtrair-se a um julgamento que considerava injusto para não violar a lei. Tinha por regra, assim como Pirro, de se ater ao senso comum e fazer como todo mundo; e é para não chocar a opinião pública que sacrificava aos deuses cuja existência para os sofistas era tão duvidosa quanto o conhecimento das coisas.
A dúvida dos sofistas quanto à veracidade do conhecimento e seu desdém por toda ciência da natureza levavam a reconhecer o senso comum como o guia do sábio e o garantidor universal do que o conhecimento humano pode ter de certo; contudo, era contra as opiniões correntes, que eram, em sua época, sobrevivências de uma ordem social esgotada que partiam para a guerra na sequência de Heráclito.
Os primeiros sofistas eram originários das cidades comerciais da Jônia e da Magna Grécia, onde, desde o VIIº século antes de Jesus Cristo, a indústria e o comércio davam o assalto à organização comunista da gens e da família patriarcal, substituindo a propriedade individual à comunidade dos bens e constituindo uma classe nova, a Burguesia.
A família patriarcal era uma providência para os numerosos lares, vivendo sob a autoridade despótica do Pai, que representava os antepassados: provia a todas as necessidades materiais e intelectuais. As colheitas de seus campos e o trabalho de seus escravos alimentavam todos os seus membros; o culto de seus antepassados, sua história, suas lendas, suas tradições e suas regras de conduta, que não se discutiam e que os aprisionavam, eram seu pasto intelectual e moral.
À medida que a classe dos traficantes e manufatureiros enriquecia e crescia, a classe dos aristocratas patriarcais empobrecia e se reduzia. Os nobres, para quem a guerra era o único meio de adquirir riquezas, só tinham ódio e desprezo pelos arrivistas do comércio e da indústria, de quem o poeta aristocrata, Teógnis, desejava "beber o sangue negro". Contudo esses indivíduos tão desprezados disputavam-lhes o governo da cidade, despojavam-nos de seus bens pela usura e aliavam-se com os nobres desclassificados, os artesãos e os escravos para expulsá-los do poder, exilá-los e expropriá-los. A guerra civil ensanguentou durante séculos as cidades antigas.
A sociedade individualista que a classe nova estabelecia sobre as ruínas da comunidade gentílica e patriarcal não tinha providência, e é para colmatar essa lacuna que se inventou a providência de Deus: em vez de esperar seu bem-estar de uma coletividade familiar, cada indivíduo só o esperava do sucesso de seus empreendimentos individuais: libertado do despotismo patriarcal e entregue a suas únicas forças, devia prover a suas necessidades materiais e intelectuais. Os sofistas encarregaram-se de dar-lhe a educação que recebia outrora no seio da família; abriram as primeiras escolas públicas e pagas; ensinaram tudo o que era preciso saber para fazer seu caminho na refrega social, sem ser incomodado pela moral e pelos costumes ultrapassados do patriarcado.
O homem, em vez de perder sua individualidade em uma comunidade gentílica ou patriarcal, erguia seu Eu diante da sociedade; em vez de tudo reportar a uma coletividade, reportava tudo a seu Eu; era a medida de tudo, segundo a palavra profunda de Protágoras. As novas condições sociais punham o princípio da subjetividade, donde os sofistas deduziram a filosofia subjetiva da Burguesia.
Aristófanes e Anytos acusaram Sócrates de desprezar os Deuses e os costumes legados pelos antepassados, de corromper os costumes e de desmoralizar a juventude; acusação semelhante foi dirigida contra os outros sofistas. Contudo seu ensino respondia às necessidades intelectuais e morais de seu meio; só lhes dava uma expressão filosófica. "O povo, diz Platão, é o grande sofista, que não quer ser contraditado nem em suas opiniões, nem em suas inclinações". Estava em plena decomposição moral. Permitiam-se todos os excessos, relata Tucídides. A má-fé era geral, não se podia confiar nos juramentos mais terríveis; a multidão aplaudia as mais descaradas e egoístas máximas dos oradores, eis alguns exemplos: cada um persegue seu interesse segundo seus meios, sem jamais se deixar deter pelo respeito ao direito; o triunfo do mais forte é a lei da natureza; cada um mede enfim o direito e a honra a seu proveito e prazer etc.
A colocação em dúvida do conhecimento das coisas e o impudico rejeitar das noções da moral privada e pública eram os reflexos intelectuais do transtorno das condições sociais que determinavam os eventos econômicos e políticos que transformavam a sociedade antiga.
A dúvida, nascida com a Burguesia, instalou-se definitivamente em sua filosofia. Descartes creu que seu axioma, penso, logo existo, a expulsaria: poderia ter dito, com igual justeza, sinto, logo existo. Batia à porta ao lado. Os sofistas nunca haviam duvidado de seu pensamento e de suas sensações, mas da certeza dos conhecimentos que elas proporcionavam. A dúvida invicta continua a florescer no pensamento filosófico: é fatal, pois a dúvida é uma das características intelectuais do indivíduo burguês, que vive na incerteza do sucesso de seus empreendimentos comerciais e industriais e da continuidade de sua prosperidade.
Em várias ocasiões no curso da história da Burguesia, viu-se reaparecer nas épocas de transição a devassidão moral dos sofistas gregos, mas jamais se exibiu com tanto cinismo.
A crítica sofística das impressões errôneas e variáveis dos sentidos não foi refutada e não pode sê-lo; todos os dias, numerosas e brilhantes provas da infidelidade sensorial a confirmam e reforçam. A sabedoria popular a apoia com seu provérbio: de gostos e cores não se discute.
Há alguns anos, Blondlot, o célebre físico de Nancy, anunciava ao mundo científico a descoberta dos raios N, cuja aparição se constatava por uma mancha luminosa sobre um écran fosforescente: numerosos sábios da Europa e da América, experimentadores igualmente hábeis, os viram; contudo tiveram de acabar por reconhecer que esses raios eram uma ilusão óptica dos que os haviam visto. Todo mundo vê o sol irradiando luz; os físicos afirmam que um aeronauta que conseguisse sair da atmosfera terrestre o veria negro. Um professor de psicologia, para demonstrar que o mesmo objeto impressiona diferentemente os indivíduos, fez entrar, ex abrupto, no meio de sua conferência, um arlequim que executou duas ou três piruetas e desapareceu ao fim de um minuto. Pediu às pessoas presentes que pusessem por escrito, sem se consultar, o que acabavam de ver; não houve duas narrativas de acordo sobre os gestos e o traje do palhaço. Os depoimentos judiciais das testemunhas oculares e auriculares são discordantes, quando não se concertaram; por ocasião do duplo assassinato do impasse Ronsin, dez testemunhas, das quais seis sargentos de cidade, gente do ofício, habituadas a fazer constatações nos locais dos crimes, não puderam concordar sobre a posição do cadáver do pintor Steinhel: o doméstico e um vizinho o perceberam estendido no chão; quatro policiais o encontraram de joelhos, apoiado contra uma porta; um quinto o viu encostado na parede, perto do lavatório, etc. Quando o historiador só possui um único testemunho, o fato é registrado como positivo, certo; mas quando existem vários documentos, torna-se duvidoso em seus detalhes e às vezes em seu conjunto. Quem poderá desembaraçar o caso Dreyfus, que tantos documentos embaraçam? A história não é uma ciência.
Os conceitos da Razão pura, que, para Platão, eram toda a verdade, não sendo senão interpretações cerebrais das sensações, são forçosamente errôneos, quando os sentidos fornecem ao cérebro dados incorretos. A Razão pura, em que Kant alojava a certeza, parece tão incerta que se controlam e verificam seus raciocínios pela experiência "a fonte única da verdade", diz Poincaré em A Ciência e a Hipótese. A Razão impura corrige a Razão pura. Os sentidos enganam a razão, que por sua vez os engana; e Charron triunfa: "Vede que bela ciência e certeza pode ter o homem, quando o dentro e o fora estão cheios de falsidades e de fraquezas e que essas partes principais, ferramentas essenciais da ciência, enganam-se uma à outra".
A opinião pública e o senso comum sobre os quais se apoiavam Sócrates e Pirro na antiguidade e Thomas Reid e Royer Collard nos tempos modernos não são muito tranquilizadores pois se formam com as sensações, tão frequentemente falhas: porque a vista ilude sobre a grandeza e o curso do sol, a opinião pública e o senso comum declararam que o sol girava em torno da terra, situada no centro do universo.
Os sofistas sustentavam que, já que as sensações produzidas por um objeto são diferentes segundo os indivíduos e os estados de um mesmo indivíduo, não se pode edificar uma ciência das coisas. Com efeito, uma ciência edificada com as únicas sensações não seria válida para todos, seria pessoal e variaria segundo os indivíduos e à medida que a idade transformasse os sentidos de seu edificador.
Contudo, como proclama Le Dantec, estamos vivos e nossa espécie não desapareceu; é preciso portanto que tenha tido um mínimo de conhecimentos do mundo exterior mais ou menos extenso e exato para adaptar-se aos meios naturais e sociais que atravessou. É preciso também que esse mínimo de conhecimentos fosse válido para todos, pois os homens de raça e países diversos instituíram organizações familiares e sociais, formas de propriedade e modos de produção semelhantes e evoluindo na mesma direção; elaboraram igualmente um senso comum semelhante, como o provam os provérbios populares, que, como observa Vico, são em todos os países da mesma substância, embora sejam expressos em formas diferentes. Para que tenha havido uma evolução econômica e social e um senso comum análogos em todos os povos da terra, foi preciso que esse mínimo de conhecimentos, válido para todos, se desenvolvesse à medida que o homem multiplicava suas experiências.
Essa analogia, acarretando as mesmas consequências, prolonga-se até os animais, pois "há uma grande vizinhança e parentesco entre o homem e os outros animais", diz Charron. É certo, assim como os sofistas pensavam, que os olhos de pupila alongada de certos vertebrados e os olhos de facetas dos insetos, assim como os olhos de córnea proeminente e cristalino fortemente convexo dos míopes e os olhos de córnea e cristalino achatados dos presbíopes têm uma percepção dessemelhante dos mesmos objetos; isso não os impede de fornecer aos animais e aos homens um conhecimento semelhante do mundo exterior suficientemente exato para permitir-lhes prover os meios de existência, defesa, proteção, e criação dos pequenos. Os animais e os homens, porque são formados da mesma matéria, porque têm uma idêntica estrutura celular de seus órgãos e porque, para viver e perpetuar-se, fizeram um número infinito de experiências mais ou menos semelhantes devem por conseguinte ter sentido sensações análogas e elaborado conhecimentos semelhantes. É, por exemplo, mais que provável que os animais possuam os primeiros axiomas da matemática: o asno, dizia Diógenes, sabe, tanto quanto um geômetra, que a linha reta é o caminho mais curto para ir ao cocho e ao bebedouro; os pombos só começam a chocar quando a fêmea botou dois ovos, como se soubessem que 1 mais 1 fazem 2; as ovelhas têm a noção do tempo, conhecem também tão bem quanto o pastor a hora de voltar ao aprisco; as galinhas sem que a Razão pura aí tenha parte, têm a noção do espaço e demonstram-no por sua hesitação em lançar-se de um poleiro elevado. Essa ideia do espaço não é inata, isto é, instintiva; pode-se observar facilmente sua aquisição em cães com alguns dias de idade. É forçoso reconhecer que, apesar da diversidade das sensações causadas pelos mesmos objetos nos animais e nos homens, elas dão lugar a uma representação intelectual semelhante porque uns e outros são amassados da mesma matéria.
Se é impossível recusar um mínimo de conhecimentos exatos aos animais e aos homens, é preciso constatar com Freycinet "a singular adequação entre o mundo exterior e a inteligência" que Parmênides pressentira quando dizia que, só o que pode ser, pode ser pensado, e que faz que "os algoritmos e suas combinações, isto é, a linguagem matemática, tal como os homens souberam criá-la, presta-se maravilhosamente a expressar as operações da natureza... Fórmulas imaginadas para especulações teóricas encontraram-se depois do fato em exata correspondência com os fenômenos naturais e tornaram-se sua tradução a mais bem apropriada". Quem poderia desconfiar que a lei das superfícies esféricas, reconhecidas proporcionais aos quadrados de seus raios, seria um dia a lei de decrescimento da gravidade e das outras forças irradiantes; que a série dos números ímpares representaria os espaços percorridos por um corpo caindo livremente no vácuo, durante os períodos sucessivos da queda; que as propriedades das curvas resultantes da intersecção de um cone por um plano diversamente inclinado sobre o eixo, expostas há mais de dois mil anos por Apolônio de Perga, tornar-se-iam as leis astronômicas de Kepler? E Freycinet acrescenta: "É difícil ver nesses fatos uma pura coincidência e atribuir ao acaso encontros tão frequentes. Encontro aí que a inteligência humana e a natureza entram em um plano geral, em virtude do qual a primeira está admiravelmente disposta a compreender a segunda"(8). O plano geral de Freycinet, que suporia um fabricante de planos, poderia bem não ser senão a composição material do universo, a mesma por toda parte; com efeito, a matéria pensante e a matéria bruta são formadas dos mesmos elementos e é por causa disso que a inteligência humana pode compreender a natureza. "O espírito, ser imaterial, dizia com razão Berkeley, não pode perceber os objetos materiais". A matéria pensante pode.
Esse mínimo de conhecimento, que não se pode negar ao homem, não é a ciência, mas é seu prelúdio: se, para conhecer o mundo exterior, se ativesse apenas ao serviço de seus sentidos, seu conhecimento mal teria ultrapassado o dos animais, cujos sentidos são mais perfeitos, se não o sentido tátil, extraordinariamente desenvolvido pelo uso da mão.
A geometria, por exemplo, não teria nascido, se o homem não tivesse inventado o bastão para conhecer o comprimento e a largura de seus campos, em vez de confiar ao olho para apreciá-los. O bastão, de que os povos primitivos se servem para medir as terras aráveis, distribuídas todos os anos às famílias da gens ou da aldeia, é-lhes de tamanha utilidade que adquire um caráter místico: os camponeses do mir russo o chamavam o bastão sagrado e o depositavam na igreja, e os Egípcios tinham tomado o côvado, unidade de medida das partilhas agrárias, por símbolo hieroglífico da Verdade e da Justiça; tudo o que medira era verdadeiro e justo.
Um pedaço de madeira, um bastão, substitui um sentido: desde então o comprimento de um campo não é mais uma sensação do olho, incerta e diferente segundo os indivíduos, mas um múltiplo do bastão invariável; o que mede, em vez de dar lugar a contestações, como as apreciações do olho, é declarado verdadeiro e justo.
Conhecemos as qualidades ou propriedades das coisas pelas impressões que fazem em nossos sentidos: a sensação é nossa primeira maneira de entrar em relações com o mundo exterior e enquanto dura a primeira idade ela é nossa única maneira de conhecer as coisas; os selvagens a empregam quase exclusivamente; daí, a superioridade de seus sentidos. Mas as propriedades das coisas impressionam também os corpos brutos. O peso de uma coisa se faz sentir sobre o prato de uma balança, como sobre nossa mão; sua dureza, seu calor, sua luz, etc., afetam os corpos brutos como nosso corpo vivo. Pode-se portanto definir a qualidade ou a propriedade de uma coisa, a potência que possui de produzir uma ação sobre os corpos animados e inanimados.
A sensibilidade dos corpos inanimados é mesmo mais delicada que a dos corpos animados: reage a propriedades das coisas, que, como, por exemplo, as ondas hertzianas da telegrafia sem fio, não abalam nossos sentidos, mas afetam um tubo de limalha metálica; não poderíamos apreciar a dureza dos diferentes aços, se nos servíssemos de nossos sentidos em vez de empregar a bola de Brinell e a broca de Keep. Segue-se que se pode utilizar a sensibilidade dos corpos brutos para conhecer as propriedades dos corpos, servir-se de uma coluna de mercúrio para medir a temperatura, do papel de tornassol para revelar a acidez de um líquido, etc. Kant e os neokantianos cometem um grave erro quando dizem que só conhecemos as propriedades das coisas por nossos sentidos. Não são mais as sensações incertas e dessemelhantes do homem, que fornecem os elementos do conhecimento científico, mas as sensações certas e sempre semelhantes a si mesmas dos corpos brutos: se, quando se recorria apenas às variáveis sensações humanas, era impossível conhecer com alguma exatidão a temperatura da atmosfera, conhece-se exatamente cientificamente, desde que a sensibilidade invariável do mercúrio a registrar. Dois astrônomos, instalados diante do mesmo astro, davam sempre esboços diferentes; enquanto a placa fotográfica, "essa retina do sábio", assim como a chama Jansen, reproduz sua imagem exata; como tem sobre o olho a vantagem de ser exclusiva de toda interpretação pessoal e de guardar fielmente o traço das impressões acumuladas, os astrônomos substituem cada vez mais a fotografia às observações oculares. O pequeno aparelho de Maneuvrier, fundado sobre a resistência elétrica proporcional à quantidade de água de uma mistura vínica, detecta o batismo dos vinhos, melhor que o paladar do mais fino degustador. A análise crioscópica permite apreciar a aguagem do leite por seu grau de congelação e diagnosticar à distância o estado de saúde da vaca leiteira, o que não saberia fazer o veterinário mais experimentado. O homem só conhece o som de sua própria voz desde que o fonógrafo a reproduz; e então não a reconhece, pois a ouve, como os outros a ouvem, sem a ressonância da cabeça.
O conhecimento exato e válido para todos, porque sempre idêntico, adquirido pela substituição dos corpos brutos aos sentidos do homem, induz o médico e o psicólogo a empregá-los para diagnosticar as doenças do corpo e estudar as qualidades psíquicas do Eu. Sócrates dizia: conhece-te a ti mesmo; o filósofo moderno acrescenta: com a ajuda da matéria não pensante.
A ciência substitui por toda parte onde é possível os sentidos do sábio por corpos brutos. Há ciências onde a substituição é quase completa: o químico não se serve de nenhum de seus sentidos para conhecer as propriedades do ácido sulfúrico e dos outros corpos que decompõe e recompõe. Poder-se-lhe-ia acrescentar ou retirar um sentido que não se modificaria seu conhecimento científico, pois não é um conhecimento sensorial, sujeito a erro e a variações, mas o conhecimento da matéria pela matéria inanimada, não sujeito a erro e a variações.
A produção industrial, que outrora precedia a ciência, hoje lhe segue o passo: enquanto para seu controle dependia dos sentidos do homem, era incerta e a rotina que nela presidia não podia fornecer nenhuma explicação plausível dos erros e das más fabricações; tornou-se certa quando se recorreu aos instrumentos registradores de toda sorte, desde os mais simples (termômetro, manômetro etc.) até os mais complicados (voltímetro, amperímetro, pirômetro, analisador de gás, calorímetro etc.).
A substituição da sensação da matéria humana pela sensibilidade da matéria bruta permitindo conhecer, por exemplo, a temperatura pelo número dos graus da coluna mercurial, o som pelo número das vibrações por segundo, etc., transforma o que é qualidade para o homem em quantidade para a matéria. Essa transformação permite estabelecer relações numéricas entre os fenômenos e muda a natureza do conhecimento. O conhecimento qualitativo de um objeto é seu conhecimento relativo ao homem, e o conhecimento quantitativo de um objeto é seu conhecimento relativo a outros objetos. O homem não é mais a medida de tudo, são os objetos que são as medidas dos objetos. O princípio de subjetividade, ponto de partida da filosofia subjetiva da classe burguesa, é substituído pelo princípio de objetividade.
Os sentidos, mesmo quando não extraviam, proporcionam um conhecimento das coisas extremamente limitado; só assinalam um número restrito de suas qualidades: o olho, por exemplo, não percebe a décima parte do espectro solar; seu poder de percepção é infinitamente inferior ao da matéria inanimada. Onde o olho do astrônomo não consegue furar as trevas, nesses lugares desertos, que Herschell qualificava de "saco de carvão", a placa de gelatino-brometo de prata faz surgir novos aglomerados de estrelas e de matéria cósmica difusa: à medida que as placas fotográficas se sensibilizam, os conhecimentos astronômicos estendem-se a abismos cada vez mais profundos.
Ignoramos os limites da sensibilidade da matéria bruta; a dos instrumentos científicos é limitada, mas aperfeiçoa-se e cresce todos os dias. O termômetro, que mal pode medir um centésimo de grau, nos deixava na ignorância de fenômenos que o bolômetro faz conhecer: esse instrumento, baseado na resistência elétrica dos metais, influenciados pelo calor, podendo medir o milionésimo de grau, revelou que o espectro solar era mais extenso do que se supunha. O conhecimento científico progride, não à medida que os sentidos se aperfeiçoam, mas à medida que os métodos de utilização da sensibilidade da matéria bruta se generalizam e que os instrumentos de pesquisa e controle se multiplicam e se sensibilizam.
Mas o conhecimento das coisas permanecerá sempre incompleto por causa da imperfeição dos sentidos e dos instrumentos que os substituem e por causa do método que devemos empregar para estudá-las.
Um objeto não é um produto espontâneo, é determinado por um concurso de inumeráveis fatos anteriores e concomitantes; nunca é idêntico a si mesmo: influenciado pelos inumeráveis objetos de seu meio, está em um eterno devir. Devemos, para estudá-lo, abstraí-lo de seu meio, considerá-lo como invariável e examinar suas propriedades separadamente umas após as outras e não levar em conta suas modificações e ações umas sobre as outras. As ciências abstratas não procederam diferentemente; proveram-se dos objetos de seus estudos, o ponto, a linha, o plano, os números, etc., extraindo-os, abstraindo-os do meio ambiente e despojando-os de suas qualidades para transformá-los em seres de razão, em seres imaginários não tendo realidade objetiva e existindo apenas nos cérebros que os pensam(9).
Por essa razão, as deduções especulativas dos matemáticos não relevam dos sentidos e não estão sujeitas a suas causas de erro; e quando são logicamente encadeadas, são válidas para todos, porque conformes à lei geral do espírito humano. Assim as geometrias de Euclides, de Riemann e de Lobatchevski, embora contraditórias, são tidas por verdadeiras pelos matemáticos porque suas proposições são logicamente ligadas umas às outras.
As ciências físicas, que substituem os sentidos humanos por corpos inanimados, são tão válidas para todos quanto as ciências abstratas, porque o sábio não analisa suas sensações; não estuda as impressões dos objetos sobre seus sentidos, mas sobre outros objetos; registra-as e classifica-as para delas deduzir consequências teóricas e práticas, que, podendo ser mais ou menos logicamente deduzidas, são mais ou menos verdadeiras e válidas para todos; não raciocina sobre os efeitos dos objetos sobre seus sentidos, mas sobre seus efeitos sobre outros objetos. O conhecimento, de subjetivo que era quando se fundava sobre os dados fornecidos pelos sentidos, torna-se objetivo porque se funda sobre os dados fornecidos pelos objetos. A crítica mordaz e irrefutável dos sofistas gregos, que mina os fundamentos do conhecimento subjetivo, não tem qualquer influência sobre o conhecimento objetivo.
Os sofistas, esses demolidores impávidos do conhecimento subjetivo, por uma inconcebível contradição, tomaram o homem, de que contestavam o conhecimento, por medida de tudo e abandonaram a primitiva filosofia da natureza para erguer a filosofia subjetiva da classe burguesa. Os homens de ciência, que criaram o conhecimento objetivo das coisas, retomando a antiga filosofia, desprezada pelos sofistas, elaboram hoje uma nova e grandiosa filosofia do universo.
La Revue des Idées
15 de dezembro de 1910