L. N. Tolstói

V. I. Lénine

16 (29) de Novembro de 1910

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Escrito: Publicado no jornal Sotsial-Demokrat nº 18 de 16 (29) de Novembro de 1910.
Fonte: Obras Escolhidas em seis tomos, Edições "Avante!", 1986, t2, pp 34-38.
Tradução: Edições "Avante!" com base nas Obras Completas de V. I. Lénine, 5.ª ed. em russo, t.20, pp. 19-24.
Transcrição e HTML: Manuel Gouveia
Direitos de Reprodução: © Direitos de tradução em língua portuguesa reservados por Edições "Avante!" — Edições Progresso Lisboa — Moscovo.

capa

Morreu Lev Tolstói. A sua importância mundial como artista, o seu renome mundial como pensador e doutrinador reflectem, à sua maneira, a importância mundial da revolução russa(1).

L. N. Tolstói surgiu como grande artista ainda no tempo da servidão. Numa série de obras geniais por ele escritas ao longo da sua actividade literária de mais de meio século, pintou principalmente a velha Rússia de antes da revolução, que mesmo depois de 1861(2) se manteve na semi-servidão, a Rússia rural, a Rússia do latifundiário e do camponês. Descrevendo este período da vida histórica da Rússia, L. Tolstói soube colocar nos seus trabalhos tantos grandes problemas, soube atingir uma tão grande força artística que as suas obras ocuparam um dos primeiros lugares na literatura mundial. A época de preparação da revolução num dos países oprimidos pelos feudais surgiu, graças à interpretação genial de Tolstói, como um passo em frente no desenvolvimento artístico de toda a humanidade.

Tolstói artista é conhecido duma ínfima minoria, mesmo na Rússia. Para que as suas obras grandiosas se tornem efectivamente património de todos, é necessária a luta, uma luta contra o regime social que condenou milhões e dezenas de milhões de pessoas à ignorância, ao embrutecimento, a um trabalho de forçados e à miséria, é necessária a revolução socialista.

E Tolstói não criou só obras de arte que sempre serão apreciadas e lidas pelas massas, quando estas tiverem criado condições humanas de vida, derrubando o jugo dos latifundiários e capitalistas, soube transmitir com uma força notável o estado de espírito das amplas massas, oprimidas pelo regime actual, descrever a sua situação, exprimir o seu sentimento espontâneo de protesto e de indignação. Pertencendo principalmente à época de 1861 a 1904, Tolstói encarnou com impressionante relevo nas suas obras — como artista, como pensador e doutrinador — os traços da peculiaridade histórica de toda a primeira revolução russa, a sua força e a sua fraqueza.

Um dos principais traços característicos da nossa revolução consiste em que ela foi uma revolução burguesa camponesa numa época de desenvolvimento extremamente elevado do capitalismo em todo o mundo e relativamente elevado na Rússia. Foi uma revolução burguesa porque a sua tarefa imediata era o derrube da autocracia tsarista, da monarquia tsarista, e a destruição da propriedade latifundiária, e não o derrube do domínio da burguesia. O campesinato, em particular, não tinha consciência desta última tarefa, não tinha consciência de em que é que ela diferia das tarefas mais próximas e mais imediatas da luta. E foi uma revolução burguesa camponesa porque as condições objectivas colocavam em primeiro plano a questão da transformação das condições fundamentais da vida do campesinato, da destruição do antigo regime medieval de propriedade da terra, da «limpeza do terreno» para o capitalismo, porque as condições objectivas empurraram as massas camponesas para a cena duma acção histórica mais ou menos independente.

Nas obras de Tolstói expressaram-se a força e a fraqueza, o poder e a estreiteza precisamente do movimento camponês de massas. O seu protesto caloroso, apaixonado, com frequência impiedosamente acerbo, contra o Estado e contra a igreja oficial-policial, transmite os sentimentos da democracia camponesa primitiva, na qual os séculos de servidão, de arbitrariedade e de pilhagem administrativas, de jesuitismo clerical, de mentiras e fraudes acumularam montanhas de cólera e de ódio. A sua negação intransigente da propriedade privada da terra transmite a psicologia das massas camponesas num momento histórico em que o velho regime medieval de propriedade tanto dos latifundiários como em «lotes»(3), se tornara definitivamente um obstáculo intolerável ao desenvolvimento do país e em que devia ser inevitavelmente destruído da maneira mais impiedosa. A sua incansável denúncia do capitalismo, impregnada do mais profundo sentimento e da mais veemente indignação, transmite todo o horror do camponês patriarcal, contra o qual começara a avançar um novo inimigo, invisível, incompreensível, vindo algures da cidade ou do estrangeiro, que destruía todos os «pilares» da vida rural, trazendo consigo uma ruína sem precedentes, a miséria, a morte pela fome, o asselvajamento, a prostituição, a sífilis — todos os flagelos «da época da acumulação primitiva», cem vezes agudizados pela transferência para o solo russo dos mais modernos processos de pilhagem, elaborados pelo senhor Cupão(4).

Mas o ardoroso protestatário, o acusador apaixonado, o grande crítico, revelou ao mesmo tempo nas suas obras uma incompreensão das causas da crise e dos meios para sair da crise que avançava sobre a Rússia, própria apenas de um ingénuo camponês patriarcal, mas não de um escritor de formação europeia. A luta contra o Estado feudal e policial, contra a monarquia, transformava-se nele em negação da política, conduziu à doutrina da «não resistência ao mal», levou-o a afastar-se completamente da luta revolucionária das massas em 1905-1907. A luta contra a igreja oficial era acompanhada da prédica de uma religião nova, depurada, isto é, de um novo veneno depurado, refinado, para as massas oprimidas. A negação da propriedade fundiária privada não conduzia à concentração de toda a luta no verdadeiro inimigo, a propriedade latifundiária e o seu instrumento político de poder, a monarquia, mas a suspiros sonhadores, vagos e impotentes. A denúncia do capitalismo e das calamidades que ele causa às massas era acompanhada duma atitude inteiramente apática para com a luta libertadora mundial travada pelo proletariado socialista internacional.

As contradições nas opiniões de Tolstói não são contradições apenas do seu pensamento pessoal mas o reflexo das condições, das influências sociais e das tradições históricas extremamente complexas e contraditórias que determinavam a psicologia das diferentes classes e das diferentes camadas da sociedade russa na época posterior à reforma mas anterior à revolução.

E por isso a correcta apreciação de Tolstói só é possível do ponto de vista da classe que, pelo seu papel político e pela sua luta durante o primeiro desfecho dessas contradições, durante a revolução, provou a sua vocação de chefe na luta pela liberdade do povo e pela libertação das massas da exploração, provou a sua devoção sem limites à causa da democracia e a sua capacidade de lutar contra a estreiteza e a inconsequência da democracia burguesa (incluindo a democracia camponesa) — só é possível do ponto de vista do proletariado social-democrata.

Vejamos a apreciação que fazem de Tolstói os jornais do governo. Eles choram lágrimas de crocodilo, afirmando o seu respeito pelo «grande escritor» e defendendo ao mesmo tempo o «santo» sínodo(5). Mas os santos padres acabam de perpetrar uma vileza particularmente abjecta, enviando os padres junto do moribundo para enganar o povo e dizer que Tolstói «se arrependeu». O santo sínodo excomungou Tolstói. Tanto melhor. Essa proeza ser-lhe-á contada quando o povo ajustar as contas com os funcionários de sotaina, gendarmes em Cristo, com os sinistros inquisidores que encorajaram os pogromes contra os judeus e outros feitos da quadrilha tsarista das centúrias negras(6).

Vejamos a apreciação que fazem de Tolstói os jornais liberais. Eles limitam-se às frases ocas, liberais estereotipadas, triviais e professorais sobre a «voz da humanidade civilizada», sobre a «repercussão mundial unânime», sobre as «ideias da verdade, do bem», etc., pelas quais Tolstói havia estigmatizado tão fortemente — e estigmatizado justamente — a ciência burguesa. Eles não podem exprimir clara e abertamente a sua apreciação sobre as opiniões de Tolstói acerca do Estado, da Igreja, da propriedade fundiária privada, do capitalismo, não porque a censura os impede — pelo contrário, a censura ajuda-os a sair do embaraço! — mas porque cada afirmação na crítica feita por Tolstói é uma bofetada no liberalismo burguês; porque o simples enunciado intrépido, aberto, implacavelmente áspero por Tolstói das questões mais delicadas, mais malditas do nosso tempo, atinge directamente as frases estereotipadas, as piruetas triviais, a mentira «civilizada» e evasiva da nossa imprensa liberal (e liberal-populista(7)). Os liberais são todos por Tolstói, todos contra o sínodo — e ao mesmo tempo são a favor... dos vekhistas(8), com os quais «se pode discutir», mas com os quais «é preciso» entender-se no seio de um mesmo partido, «é preciso» trabalhar em conjunto na literatura e na política. Ora Antoni Volinski anda aos beijos aos vekhistas.

Os liberais põem em primeiro plano que Tolstói foi «uma grande consciência». Não será isto uma frase oca repetida em mil tons pelo Nóvoe Vrémia(9) e todos os seus pares? Não será isto iludir as questões concretas da democracia e do socialismo colocadas por Tolstói? Não coloca isto em primeiro plano aquilo que exprime os preconceitos de Tolstói e não a sua razão, aquilo que nele pertence ao passado e não ao futuro, a sua negação da política e a sua prédica do auto-aperfeiçoamento moral e não o seu protesto veemente contra toda a dominação de classe?

Tolstói morreu, e ficou no passado a Rússia de antes da revolução cuja fraqueza e impotência se exprimiram na sua filosofia e foram descritas nas obras do genial artista. Mas na sua herança há algo que não ficou no passado, que pertence ao futuro. O proletariado da Rússia recolhe essa herança e trabalha sobre ela. Ele explicará às massas dos trabalhadores e dos explorados o significado da crítica tolstoiana do Estado, da Igreja, da propriedade fundiária privada — não para que as massas se limitem ao seu auto-aperfeiçoamento e aos suspiros sobre uma vida de acordo com deus, mas para que elas se ergam para desferir um novo golpe na monarquia tsarista e na propriedade latifundiária, que em 1905 foram apenas ligeiramente abaladas e que é preciso destruir. Ele explicará às massas a crítica tolstoiana do capitalismo, não para que as massas se limitem a maldizer o capital e o poder do dinheiro, mas para que elas aprendam a apoiar-se em cada passo da sua vida e da sua luta nas conquistas técnicas e sociais do capitalismo, aprendam a unir-se num exército único de milhões de combatentes socialistas, que derrubarão o capitalismo e criarão uma nova sociedade sem miséria do povo, sem exploração do homem pelo homem.


Notas de rodapé:

(1) Trata-se da Revolução de 1905-1907 na Rússia. (retornar ao texto)

(2) Trata-se da «reforma camponesa» que aboliu a servidão na Rússia. Em 19 de Fevereiro de 1861 o imperador Alexandre II assinou um manifesto e uma «Disposição» sobre os camponeses, que saíam da dependência servil. A reforma foi realizada no interesse dos latifundiários. A propriedade dos latifundiária da terra foi mantida. Os camponeses foram obrigados a resgatar os lotes recebidos dos latifundiários. O resgate dos lotes pelos camponeses era um roubo descarado da parte dos latifundiários e do governo tsarista. O montante dos pagamentos de resgate ultrapassava em muito o valor real dos lotes dos camponeses, o que conduziu à ruína das explorações camponesas. Quando da medição das terras, os latifundiários cortaram para si uma parte significativa das terras camponesas (terras cortadas) e entregavam aos camponeses as terras piores. Nas mãos dos latifundiários ficavam as melhores terras, os prados, florestas, bebedouros, pastagens, sem os quais os camponeses não podiam ter as suas explorações independentes. (retornar ao texto)

(3) Lote: terrenos concedido em usufruto ao camponês pelo latifundiário ou pelo Estado a troco de diversas obrigações. Depois da reforma camponesa de 1861, os lotes tornaram-se propriedade comunitária ou individual dos camponeses. (retornar ao texto)

(4) «Senhor Cupão»: expressão metafórica usada na literatura dos anos 80 e 90 do século XIX para designar o capital e os capitalistas. (retornar ao texto)

(5) Santo Sínodo: supremo órgão estatal da Rússia de 1721 a 1917. Dirigia os assuntos da igreja ortodoxa. O Sínodo era chefiado por um procurador-geral, nomeado pelo tsar. Depois de 1917, órgão consultivo junto do patriarca de Moscovo e de toda a Rússia. (retornar ao texto)

(6) Trata-se dos bandos monárquicos criados pela polícia tsarista para combater o movimento revolucionário. Os membros das centúrias negras atacavam intelectuais progressistas, matavam revolucionários, organizavam pogromes contra os judeus. (retornar ao texto)

(7) Populismo: corrente pequeno-burguesa no movimento revolucionário russo, surgida nos anos 60-70 do século XIX. Os populistas procuravam a liquidação da autocracia e a entrega das terras dos latifúndios aos camponeses. Negavam a inevitabilidade do desenvolvimento das relações capitalistas na Rússia, e de acordo com isso consideravam que a principal força revolucionária não era o proletariado mas o campesinato; consideravam a comunidade rural como o embrião do socialismo. Procurando erguer os camponeses para a luta contra a autocracia, os populistas iam para o campo, «para o povo», mas não encontraram apoio. O socialismo dos populistas era um socialismo utópico, na medida em que não se apoiava no desenvolvimento real da sociedade. O populismo passou por uma série de etapas, evoluindo do democratismo revolucionário para o liberalismo. Nos anos 80-90 os populistas tomaram o caminho da reconciliação com o tsarismo, expressavam os interesses dos kulaques, lutavam contra o marxismo. (retornar ao texto)

(8) Vekhistas: destacados publicistas democratas-constitucionalistas, representantes da burguesia liberal contra-revolucionária, que publicaram na Primavera de 1909 em Moscovo uma colectânea de artigos seus sob o título Vékhi (Marcos). Nesses artigos os «vekhistas» procuravam denegrir as tradições democráticas revolucionárias do movimento de libertação na Rússia e as opiniões e actividade de V. Belínski, N. Tchernichévski, N. Dobroliúbov. (retornar ao texto)

(9) Nóvoe Vrémia (Tempos Novos): jornal diário; publicou-se em Petersburgo de 1868 a 1917; pertenceu a diferentes editoras e alterou muitas vezes a sua orientação política. A partir de 1905 foi órgão das centúrias negras. (retornar ao texto)

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Inclusão 05/02/2012
Última alteração 09/08/2016