Kung I-Chi

Lu Xun

Março de 1919


Primeira Edição: Kung I-Chi (em chinês: 孔乙己) é um conto de Lu Xun, o fundador da literatura chinesa moderna, até então inédito em português. Originalmente publicado em abril de 1919 na revista Nova Juventude (新 青年), foi posteriormente incluído em sua primeira coleção de contos, O Chamado (吶喊). O presente conto expressa a rejeição de Lu Xun ao chinês clássico (文言 wényán) em favor do chinês vernáculo (白話 / 白话 báihuà), que ele ajudou a consolidar. É uma das obras mais conhecidas e analisadas de Lu Xun.

Fonte: LavraPalavra - https://lavrapalavra.com/2020/12/04/kung-i-chi/

Tradução: Isabela Ferreira Gesser - da versão em inglês disponível em http://www.coldbacon.com/writing/luxun-calltoarms.html

HTML: Fernando Araújo.


As lojas de vinho em Luchen não são como as outras ao redor da China. Todas têm um balcão perpendicular, diretamente virado para a rua, onde a água quente é mantida para aquecer o vinho. Tanto ao meio dia quanto ao anoitecer, os homens saem do trabalho para consumir uma tigela de vinho, que há 20 anos custava 4 moedas de cobre, mas hoje em dia, custa 10. Relaxados e aquecidos, eles permanecem de pé ao lado do balcão saboreando o calor do vinho. Com mais uma moeda seria possível comprar um prato de brotos de bambu conservados, ou ervilhas temperadas com anis-estrelado para acompanhar o vinho; enquanto com 12 cobres, você compra um prato de carne. Mas muitos desses clientes vestem simplesmente casacos curtos. São parte de uma classe que não consegue pagar por esse serviço. Apenas aqueles com longas vestimentas podem percorrer o caminho até o quarto. Sentados, ele se entretém, ao gosto do vinho e das comidas.

Aos 12 anos eu comecei a trabalhar como garçom na Taverna da Prosperidade, logo na entrada da cidade. O dono do local dizia que eu parecia tolo demais para servir os clientes com vestidos longos, então fui trabalhar na ala externa. Embora os de casacos curtos fossem menos exigentes, havia entre eles uns poucos que gostavam de arranjar confusão. Eles insistiam em ver com seus próprios olhos como o vinho amarelo era servido dos barris. Ficavam de olho para ver se teria um pouco de água no fundo da vasilha, e monitoravam a imersão do pote em água quente. Sob olhares tão exigentes, era muito difícil de diluir o vinho. Então, após alguns dias, meu chefe decidiu que eu não era qualificado para esse trabalho. Felizmente eu fui recomendado por uma pessoa influente, e portanto, não poderia ser dispensado. Sendo assim, fui transferido para o trabalho enfadonho de aquecedor de vinho.

Desde então eu passo o dia atrás do balcão, completamente engajado com as minhas obrigações. Apesar de satisfeito com este trabalho, eu acho monótono e sem relevância. Nosso chefe era um sujeito carrancudo, e os clientes bastante mal-humorados, então era quase impossível ficar feliz. Só quando Kung I-Chi chegou à taverna que eu pude rir um pouco. É por isso que ainda me lembro dele.

Kung era o único cliente bem vestido que bebia seu vinho de pé. Era um homem alto, excepcionalmente pálido, com cicatrizes que frequentemente sobressaiam entre as rugas de seu rosto. Tinha a barba longa e mal feita, com algumas mechas brancas. Embora usasse os longos vestidos, suas roupas eram sujas e esfarrapadas. Parecia que não eram lavadas ou remendadas há pelo menos 10 anos. Ele usava muitos arcaísmos em seu discurso, era impossível entender metade do que ele dizia. Como seu sobrenome era Kung, ele foi apelidado de “Kung I-Chi”, os três personagens de um caderno de caligrafia infantil. Sempre que ele vinha à loja, todos o olhavam para ele e caçoavam. Então alguém gritava alto:

“Kung I-Chi! Tem cicatrizes novinhas no seu rosto!”

Ignorando esse comentário, Kung vinha até o balcão pedir duas tigelas de vinho quente e um prato de ervilhas temperadas com anis-estrelado. Isso custou a ele 9 moedas de cobre. Deliberadamente, alguém gritava em alto tom:

“Você deve estar roubando de novo!”

“Por que arruinar a reputação de um homem sem motivo?” Ele pergunta, abrindo bem seus olhos.

“Oooh, e que reputação! Anteontem te vi com os meus próprios olhos sendo detido e apanhando por roubar livros da família Ho!”

Com o rosto vermelho e as veias da testa sobressaindo, ele retruca: “Tomar um livro não pode ser considerado roubo… Tomar um livro, o apego de um estudante, não pode ser considerado roubo!” e seguiu com citações dos clássicos, como “Um cavalheiro mantém sua integridade mesmo na pobreza” junto à outras expressões arcaicas sem pé nem cabeça, até todos gargalharem, e a taverna inteira ficar feliz.

Através de boatos, ouvi que Kung I-Chi havia estudado os clássicos, mas nunca passou no exame oficial. Sem conseguir se sustentar, ele foi ficando cada vez mais e mais pobre, até praticamente se submeter à mendigar. Felizmente, ele era um bom calígrafo, e conseguia o bastante com os trabalhos de cópia para se manter. Ele tinha falhas, lamentavelmente: gostava de beber e era preguiçoso. Então após alguns dias, ele acabava desaparecendo, levando os livros, o papel, os pincéis e a pedra de tinta consigo. Depois de acontecer repetidas vezes, ninguém mais quis contrata-lo como copista de novo. E assim não havia outra alternativa para ele, a não ser furtar ocasionalmente. Na nossa taverna seu comportamento era exemplar. Ele nunca deu calote, apesar de às vezes, quando ele não tinha dinheiro na hora, seu nome aparecia no quadro em que listamos os devedores. Entretanto, em menos de um mês ele sempre quitava, e seu nome era novamente apagado.

Após beber meia tigela de seu vinho, Kung retomou a compostura. Mas alguém perguntaria:

“Kung I-Chi, você sabe mesmo ler?”

Quando Kung olhou, como se tal pergunta fosse desnecessária, eles insistiam “Como poderia se você nunca foi aprovado nem no mais baixo exame oficial?”

Naquele momento, Kung olhou desconsolado e tenso. Seu rosto ficou pálido e seus lábios moviam, mas apenas para completar aquelas expressões clássicas difíceis de se entender. E então, todo mundo gargalharia outra vez, alegrando a taverna inteira.

Às vezes, eu ria junto sem ser repreendido pelo meu patrão. Na verdade ele frequentemente provocava Kung com essas perguntas, evocando mais risadas. Sabendo que não valia a pena conversar com eles, Kung foi falar conosco, as crianças. Uma vez ele me perguntou:

“Você já foi à escola?”

Fiz que sim com a cabeça ele disse “Muito bem, eu vou testa-lo. Como se escreve o caractere hui(1)  de ‘ervilhas temperadas com hui-xiang’(2)?”

Pensei “Eu não vou ser testado por um mendigo!!” Então virei de costas e ignorei. Depois de esperar algum tempo, ele disse com honestidade:

“Não sabe escrever? Te mostro como. Você vai se lembrar! É importante que lembre disso, pois futuramente quando você tiver sua própria loja, precisará saber para fazer as suas contas.”

Para mim, parecia que eu ainda estava bem longe de ter uma loja; além de que nosso chefe nunca colocou ervilhas hui-xiang no caderno de contas. Entretido, mas irritado, eu respondi com apatia “Quem te quer como professor? Esse não é o caractere hui com o radical de ‘grama’?”

Satisfeito, Kung tapeava duas longas unhas de seus dedos sobre o balcão. “Certo, certo!” disse acenando com a cabeça. “Neste caso existem quatro maneiras diferentes de escrever hui. Você sabe quais são?” Minha paciência estava no limite, franzi a testa e saí. Kung I-Chi tinha mergulhado seus dedos no vinho para traçar os caracteres sobre o balcão; mas quando viu o quão indiferente eu estava, ele pareceu bem desapontado.

Às vezes as crianças da vizinhança ao ouvir sua risada vinham se juntar e se divertir. Cercavam Kung I-Chi, e então ele lhes dava ervilhas temperadas com anis-estrelado, um pouco para cada. Depois de comer as ervilhas, as crianças esperavam por ali com os olhos em seu prato. Acanhado, ele cobre o prato com a mão e, curvando-se para frente, diz: “Não tem muito. Não mais do que isso.” Então ele endireitava a coluna e olhava novamente as ervilhas, balançando a cabeça. “Não muito! De verdade, não muito, de fato!” E as crianças saem correndo, aos gritos e risadas.

Kung I-Chi era uma ótima companhia, mas também ficávamos bem sem ele.

Certa vez, alguns dias antes do Festival de Outono, o dono da taverna estava ativamente fazendo suas contas. Retirando o quadro da parede, de repente ele disse: “Já tem um bom tempo que Kung I-Chi não aparece. Ele ainda nos deve 19 cobres!” O que me fez pensar há quanto tempo eu já não o via.

“Como ele poderia vir?” disse um dos clientes. “Suas pernas foram quebradas na última vez em que apanhou.”

“Ah!”

“Ele estava roubando de novo. Dessa vez foi tolo o bastante por roubar do Sr. Ting, um estudante da província! Como se alguém conseguisse sair ileso dessa!”

“E aí?”

“E aí?” Ele primeiro precisou escrever uma confissão, e depois apanhou. A porrada durou quase a noite inteira, até que suas pernas foram quebradas”

“E então?”

“Bem, suas pernas foram quebradas”

“Sim, mas e depois disso?”

“Depois?… Quem sabe? Talvez esteja morto.”

O dono da taverna não prosseguiu com as perguntas, mas continuou fazendo suas contas lentamente.

Após o Festival de Outono, os ventos foram ficando cada dia mais frios, e o inverno chegou. Mesmo passando o tempo todo perto do fogão, eu precisava vestir meu casaco de frio. Em uma tarde, quando a loja estava vazia, eu sentei com meus olhos fechados, quando ouvi uma voz:

“Aqueça uma tigela de vinho.”

Aquela voz grave me soou familiar. Mas quando olhei, não havia sinal de ninguém. Eu me levantei e olhei em direção à porta, e lá, encarando à beira da entrada, de trás do balcão, estava Kung I-Chi sentado. Seu rosto estava abatido e esguio, ele parecia estar numa condição terrível. Vestia um casaco de forro esfarrapado, e sentou-se de pernas cruzadas em uma esteira que estava ligada aos seus ombros por uma corda de palha. Quando me viu, ele repetiu:

“Aqueça uma tigela de vinho.”

Naquele momento, meu chefe cruzou o balcão e disse: “Aquele é o Kung I-Chi? Você ainda deve 19 cobres!”

“Isso… Irei quitar na próxima vez,” respondeu Kung, olhando desconsolado. “O dinheiro de agora; o vinho deve estar bom.”

O dono da taverna, assim como da outra vez, caçoou e disse:

“Kung I-chi, você estava roubando de novo!”

Mas ao invés de protestar com veemência, o outro simplesmente disse:

“Você gosta da sua piada”

“Piada? Se não roubou, por que quebraram suas pernas?”

“Eu caí,” disse Kung com voz baixa. “Eu quebrei numa queda”. Seus olhos imploravam ao dono da taverna para que deixasse o assunto de lado. Mas agora, várias pessoas se juntaram ao redor, e todas riram. Eu aqueci o vinho, o carreguei, e sentei à beira da entrada. Ele tirou quatro cobres do bolso de seu casaco de forro e pois em minha mão. Quando fez, eu vi que suas mãos estavam cobertas de lama – ele deve ter se rastejado até aqui. Assim que terminou o vinho, em meio aos comentários e risadas dos outros, lentamente, ele foi embora se arrastando com as mãos.

Um longo tempo se passou, e após isso, ninguém mais viu Kung. No final do ano, quando o dono da taverna abaixou o quadro, ele disse: “Kung I-Chi ainda deve 19 cobres!” E no Festival do Barco-Dragão no ano seguinte, ele disse a mesma coisa. Mas quando o Festival de Outono veio, ele não mencionou isso. Outro Ano Novo se passou sem ninguém ter visto ele mais uma vez.

Não o vejo desde então — provavelmente Kung I-Chi está morto.


Notas de rodapé:

(1) Representado pelo caractere 茴 (retornar ao texto)

(2) Tradução: Anis-estrelado, 茴香 (retornar ao texto)

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Inclusão: