O Jovem Hegel e os Problemas da Sociedade Capitalista

Georg Lukács


Prefácio à Edição Alemã


Acabei de escrever este livro no final do outono de 1938. Pouco depois era declarada a guerra e impossibilitada assim por muitos anos sua publicação. Quando em 1947-48 apresentou-se a mim finalmente a possibilidade de imprimi-lo submeti o texto a uma minuciosa revisão, mas minhas várias ocupações não permitiam então tomar em consideração senão a mínima parte da literatura sobre Hegel, surgida desde 1938. Também esta nova edição foi revisada, mas fora de certas correções de estilo, fiz poucas modificações no texto anterior.

O leitor encontrará na Introdução informação detalhada sobre os pontos de vista metodológicos que orientaram o autor. Nem deste ponto de vista creio ter razões para alterar a exposição que fiz há dezesseis anos. As tentativas atuais na França — assinaladamente no conhecido livro de J. Hippolyte(1) — de “modernizar Hegel num sentido existencialista-irracionalista não constitui motivação relevante para modificar minha exposição, e nem sequer para completá-la”. Para uma crítica básica ao hegelianismo do período imperialista aplica-se sem mais a estes esforços franceses para uma reinterpretação de Hegel, embora seja obviamente compreensível que as condições internas e externas desse renascimento hegeliano francês tenham que ser em muitos aspectos diferentes das alemães.

Permita-me aqui algumas observações dirigidas aos leitores alemães de outras obras minhas que em muitos casos foram escritas depois desta. A exposição do desenvolvimento do jovem Hegel completa em vários sentidos o que em outros estudos tentei dizer sobre a história da filosofia e da literatura alemã. Assim, por exemplo, nesta obra encontrar-se-á sobretudo um contra-ataque positivo da época “clássica” do irracionalismo estudado no meu livro A Destruição da Razão. A peleja analisada nesta obra como luta de Schelling e seus sucessores é apresentada naquele livro, da perspectiva de Hegel, como uma crítica e superação do irracionalismo, embora não seja naturalmente, senão por motivo crítico-negativo para a fundamentação do novo método idealista-dialético. Mas a complementação recíproca das duas obras não termina por aqui. No livro presente pude explicar positivamente porque a filosofia hegeliana foi a grande adversária dos irracionalistas da época, porque estes combateram em Hegel — com razão — ao mais significativo representante do progresso filosófico burguês de então, e porque a critica daqueles irracionalistas a dialética do historicismo pode achar nos limites e erros idealistas de Hegel pontos reais de apoio e pretextos para uma argumentação no vazio. A exposição e a crítica do desenvolvimento juvenil de Hegel indicam assim a razão pela qual, uma vez surgido o socialismo científico como adversário principal do irracionalismo, perdem-se — com Nietzsche — os restos dos fundamentos filosóficos que ainda possuía o irracionalismo na época da juventude de Schelling. Para entender plenamente o papel de Marx, na história do pensamento alemão – um papel que nem sempre é direto, porém também às vezes mediato – é imprescindível um conhecimento real de Hegel, da sua grandeza e de seus limites.

Não menos importante é o problema para a compreensão da literatura alemã em sua época de esplendor. Em meus estudos sobre Hölderin e Heine, e especialmente dedicado ao Fausto de Goethe, chamei a atenção para essas relações, vistas sob a perspectiva da poesia alemã. A Fenomenologia do Espírito encontra-se tematicamente no centro do presente livro, e como ao estudá-la mostra os profundos laços de parentesco mental e ideal entre ela e o Fausto, o leitor atento conseguirá uma complementação talvez útil das análises da obra de Goethe anteriormente publicado por mim(2), embora, como são natural, as proporções neste livro voltadas para um estudo sobre a obra goethiana. Algo parecido possa se dizer pelo que faz a todo complexo de problemas da literatura alemã progressista. Restabelecer as verdadeiras relações entre todos estes temas é uma tarefa científica importante porque o claro equilíbrio ideológico com o romantismo reacionário é um problema central na história da literatura alemã, porque os representantes dessa reação romântica foram exaltados tanto mais desmedidamente quanto mais reacionários fossem, e porque a história literária escrita no período imperialista, deixando de fora os casos em que se apresentou abertamente e militante como luta reacionária, pretendeu sempre esconder a oposição que existe entre o classicismo alemão e o romantismo alemão.

Contudo, além de ser uma tarefa científica importante, é algo que repercute imediatamente no terreno da política cultural em geral. Numa época em que o povo alemão está de novo buscando um caminho, quando importantes setores da intelectualidade alemã encontram-se ainda vacilantes entre o caminho para frente e o caminho para trás, a compreensão correta das lutas espirituais do passado é como uma bússola para o futuro. O autor esforçou-se sempre por pôr-se a serviço das grandes tarefas postas, tanto com seus trabalhos filosóficos, quanto em seus estudos históricos literários. Pensa o autor que o esclarecimento da filosofia de Hegel, bem como de suas relações com tendências progressistas e reacionárias de sua época, possa contribuir para iluminar mais adequadamente este problema importante e atual.

É uma tomada de posição como a indicada antes – o caminho para trás ou para adiante – desempenha um papel crucial a atitude perante a Marx; E neste ponto o importante não é apenas a atitude perante Marx como pensador e político, como filósofo, economista e historiador, mas também o que significou e significa Marx para a cultura alemã. Thomas Mann escreveu há uns trinta anos:

“Disse que as coisas não chegaram a bom termo para a Alemanha, que a Alemanha, até que Carlos Marx leu Frederico Hölderin. Acrescentei que este encontro estava preparando-se, mas esqueci de precisar que uma mera e unilateral noticia seria necessariamente estéril”.

Trata-se, eficazmente de um promissor programa cultural, especialmente se antes de restabelecer o autêntico Hölderin, como pretendeu fazer este mesmo programa aqui e em outros lugares. Porém seria uma ilusão perigosa imaginar que esse programa já se realizou em parte na cultura do povo alemão. A expulsão de Marx da consciência cultural alemã – de amplas camadas sociais pelo menos – é uma tremenda debilidade que se manifesta diariamente, a todas as horas, em todos os âmbitos da vida. O povo alemão, que possui tradições revolucionárias mais débeis objetivamente que as de muitas outras nações, não pode permitir-se ao luxo de renunciar a este valor central da sua cultura revolucionária.

Há muitos caminhos que chegam ao objetivo desejável de evitar esta renuncia. Um deles consiste em mostrar as raízes especificamente alemães da obra vital de Marx, pondo assim a claro o quanto Marx está profundamente ligado ao desenvolvimento progressista alemão desde Lessing até Heine, desde Leibniz até Hegel e Feuerbach, o profundamente alemão que é sua obra, começando por sua estrutura mental e terminando pela forma verbal. Uma análise histórica correta de Hegel que contemple e interprete do ponto de vista filosófico da perspectiva de Marx possa ser também um acréscimo de utilidade para o cumprimento da tarefa.

Como é óbvio, este livro é antes de tudo um estudo científico de fatos e conexões de ordem filosófica e histórico-filosófica. Seu valor depende da medida que haja conseguido dar clareza maior nesses problemas da alcançada antes dele. Porém nenhum conhecimento é um ente isolado. A compreensão correta do desenvolvimento de Hegel coloca todos os problemas que acabamos de esboçar, e o presente livro propõe-se também esclarecer neste sentido. O próprio autor não pode qualificar o êxito ou fracasso de seu livro. Porém é seu dever declarar sem disfarces suas intenções ao leitor.


Notas de rodapé:

(1) Genese et structure de la phenomenologie (Gênese e estrutura da Fenomenologia) de Hegel. (N do t.) (retornar ao texto)

(2) Goethe e seu tempo. (N do t.) (retornar ao texto)

Inclusão 16/07/2018
Última alteração 17/07/2018