Massacres Tribais no Ruanda Inspirados pela França

Francisco Martins Rodrigues

Outubro de 1994


Primeira Edição: Política Operária nº 46, Set-Out 1994. Texto assinado com o pseudónimo Mário Fontes

Fonte: Francisco Martins Rodrigues - Escritos de uma vida

Transcrição: Ana Barradas

HTML: Fernando A. S. Araújo.

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 Paraquedistas franceses e americanos no Ruanda – mais uma operação internacional, “rigorosamente neutral” destinada a pôr termo aos combates e acudir aos refugiados”. O Ocidente não desiste da sua missão civilizadora…

 Hutus matam Tutsis e vice-versa — vá lá saber-se quem tem razão no meio dessa sangueira tribal! O cidadão comum, agoniado pelo espectáculo da carnificina, servido a todas as refeições pela televisão, recebeu com um suspiro de alívio o desembarque das tropas “pacificadoras”.

Mas a história do “caso Ruanda” não foge ao sórdido esquema habitual, a não ser pelas suas dimensões apocalípticas. Foi a França que instalou no poder, em 1975, a ditadura de Habyarimana; para facilitar, o governo foi constituído no próprio recinto da embaixada francesa em Kigali; conselheiros militares franceses treinaram a milícia pessoal do ditador, especializada na matança da etnia Tutsi; a França, ainda, forneceu-lhe 6 milhões de dólares de armas através do Crédit Lyonnais, o que, diga-se de passagem, constituiu um óptimo negócio para a fábrica Dassault.

Salvo pelas tropas francesas e belgas de uma ofensiva dos rebeldes da Frente Patriótica (FPR) vinda do Uganda em 1990, o ditador era apresentado como amigo de Mitterrand, apesar das provas esmagadoras de prisões em massa, torturas, desaparições de opositores, etc. Imperturbável, o embaixador da França no Ruanda desmentia há pouco mais de um ano como “rumores infundados” as notícias que transpiravam sobre massacres sistemáticos.

Acontece, todavia, que a Frente Patriótica, apoiada pelos Estados Unidos e Inglaterra, alargou pouco a pouco o seu domínio do território. A França foi forçada a aceitar uma partilha do poder com os rebeldes, decidida nos acordos de Arusha, na Tanzânia, em Agosto do ano passado. Mas Habyarimana e os seus capangas não estiveram pelos ajustes. Os serviços secretos franceses terão então recorrido aos grandes meios, preparando o atentado de que resultou a morte do seu antigo protegido, em Abril. Objectivo da operação: colocar no poder um governo provisório, como última forma de negociar em boas condições com a FPR.

A partir daí, a situação fugiu porém a todo o controlo e os massacres de Tutsis tomaram uma amplitude devastadora. Interveio então, em último recurso, a “Operação Turquesa”. Com a criação da “zona humanitária” visava-se preservar um refúgio para o exército derrotado, pôr a salvo os culpados do genocídio, e impor aos vencedores uma partilha de poder na composição do futuro governo ruandês. Só que os incitamentos para a população se concentrar na zona de “segurança” ocupada pelas tropas francesas provocou o amontoa- mento de dois milhões de refugiados nesta zona e nos campos do Zaire, sem quaisquer condições. Nada funcionou como devia do ponto de vista sanitário e os refugiados começaram a morrer à cadência de milhares diaria mente, de desidratação, cólera, disenteria.

O preço total é conhecido: meio milhão de seres humanos mortos. Para nada, afinal, já que quem encaixou os benefícios foram os Estados Unidos, protectores da nova Junta no poder em Kigali.

Em Paris, o governo disfarça o desaire sob compungidas expressões de pesar pelas vítimas, como se não tivesse a principal responsabilidade na catástrofe. E, o que é mais notável, oposição socialista, parlamento, grande imprensa, unidos num “responsável sentido patriótico”, abstêm-se de desmascarar Bahadur. Porque o fariam, se esta é apenas a continuação da invariável política francesa em África? Afinal, não é a “democrática” França que tem no seu activo, desde 1961, dezoito intervenções militares em países africanos, as quais nunca foram votadas no parlamento e se destinaram, como regra, a sustentar ditadores no poder?


Inclusão 06/09/2018