Mitos do 18 de Janeiro

Francisco Martins Rodrigues

4 de Novembro de 2000


Primeira Edição: Este artigo foi publicado no jornal Público, suplemento Leituras, de 4 de Novembro. Política Operária nº 77, Nov-Dez 2000

Fonte: Francisco Martins Rodrigues - Escritos de uma vida

Transcrição: Ana Barradas

HTML: Fernando A. S. Araújo.

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Não me atreveria a comentar a entrevista de Fátima Patriarca ao Público (2/9, suplemento “Leituras”) se o meu nome não fosse chamado à baila, a certa altura, como inventor do “mito do soviete da Marinha Grande”, durante o movimento operário de 18 de Janeiro de 1934.

Diz F. P.: “O mito do soviete é serôdio: só lhe encontro uma referência de três linhas num texto de meados dos anos 60 de Francisco Martins Rodrigues”. Mas se a ilustre investigadora conhece o texto do dirigente comunista José Gregório, um participante na revolta, sabe que a menção do soviete já aí vem. No relato de Gregório “Sobre a associação e o movimento do operariado vidreiro” refere-se, a propósito da manifestação popular que se seguiu à tomada do posto da GNR pelos operários: “Os vivas repetiam-se… Gritava-se: ‘Vamos abrir o sindicato! Vamos nomear o soviete!’…” E mais adiante comenta que se criara a convicção “entre os comunistas e outros militantes destacados da classe operária de que o único caminho que se apresentava era somente o da insurreição, o da implantação do regime soviético”. Portanto, se houve mito, foi aí, na Marinha Grande, no próprio dia 18 de Janeiro de 1934, que ele se originou; F. P. deveria tê-lo referido, em vez de o atribuir a uma “serôdia” invenção minha.

Naturalmente, esse negregado soviete não pode ter tido existência real, visto que, imediatamente a seguir, a vila em revolta foi atacada pelo exército e os operários, após breve e desesperada resistência, foram presos e mandados para o degredo. O soviete ficou apenas como uma intenção, um projecto dos operários marinhenses, projecto mesmo assim tão extraordinário e electrizante que a história passou de boca em boca, durante décadas, nos relatos das prisões e da clandestinidade, onde a recolhi.

Mais importante do que a história do soviete é, porém, a espécie de ajuste de contas com a revolta da Marinha Grande a que F. P. se entrega ao longo da entrevista. Em sua opinião, o assalto operário ao posto da GNR e a constituição de brigadas armadas não teve uma importância por aí além em comparação com as greves que nessa data eclodiram em Almada, Barreiro, Sines e Silves. Porquê então as parangonas da imprensa da época em torno da revolta dos operários vidreiros? Aplicando-se a decifrar o “enigma”, F. P. chegou à seguinte conclusão: o regime salazarista teria optado por “privilegiar as acções violentas em detrimento das pacíficas, realçar o papel dos comunistas, pondo na sombra as demais correntes…” porque, “mais do que as acções violentas, que acabam por ser extintas em dois tempos, as acções pacíficas de greve, sem dúvida menos espectaculares, foram no entanto as que mais incomodaram o governo e que ele mais tentou silenciar.”

E aí temos a importância da revolta operária da Marinha Grande inflacionada pelo próprio regime com fins propagandísticos! De tal modo que o entrevistador (Adelino Gomes) pôde escrever em títulos garrafais: “Mitos e enganos do 18 de Janeiro. Na Marinha Grande não houve greve nem soviete nem bandeira vermelha”. E ainda: “A versão ‘canónica’ do 18 de Janeiro de 1934 teve como principais autores a imprensa ‘burguesa’ e o governo, mas o PCP e a extrema-esquerda deram uma ajuda”. Graças a Fátima Patriarca podemos agora descobrir que fascistas e comunistas terão mitificado, cada um com os seus móbeis próprios mas em boa colaboração, um motim sem grande significado!

Tirou a distinta investigadora conclusões totalmente erradas, em minha modesta opinião (o que talvez pudesse ter evitado se, para além da consulta aos jornais da época, tivesse ouvido pessoas ligadas ao acontecimento). Perante o 18 de Janeiro, a ditadura fascista de Salazar recorreu, como era norma sua, à receita infalível da “desordem” e do “papão comunista” para melhor obter a obediência da pequena burguesia recalcitrante e das massas atrasadas. Mas fê-lo também, e muito, porque a revolta armada da Marinha Grande veio revelar que os comunistas já suplantavam os anarco-sindicalistas em matéria de eficácia na radicalização do movimento operário. E mais: eram capazes de orientar esse radicalismo no sentido de uma revolta armada com aspirações “soviéticas”, o que tinha que ser motivo de séria apreensão para os adeptos da ordem estabelecida.

Obviamente, a repressão sobre os grevistas foi muito menor do que a que caiu sobre os insurrectos, não por ser mais difícil reprimir os grevistas (explicação bizarra quando nos lembramos da brutalidade com que foram reprimidas greves noutras ocasiões; recorde-se por exemplo o Barreiro em 1943), mas porque Salazar teve que optar, numa emergência grave como aquela, por concentrar a punição sobre o perigo principal.

É sem dúvida necessário destacar o papel das greves ocorridas nesse dia, tradicionalmente subestimadas pelo PCP devido a terem sido conduzidas pelos anarco-sindicalistas. Mas tornou-se habitual de há uns anos para cá, neste como em outros episódios da resistência, chamar a primeiro plano a intervenção dos anarco-sindicalistas para minimizar o papel dos comunistas. Troca-se uma deformação por outra. E com frequência, no entusiasmo desta onda “rectificadora”, avoluma-se a intervenção muitas vezes negligenciável de republicanos ou socialistas. Em nome do combate aos mitos” fabricam-se mitos. Não será por acaso que F. P., remetendo a Marinha Grande ao seu lugar, invoca uma “componente militar e republicana” do 18 de Janeiro que comunistas e “esquerdistas” teriam até hoje escamoteado. Ora, se é um facto averiguado que havia da parte dos operários grande expectativa nessa “componente” também é um facto que ela não se manifestou. F. P. não consegue apresentar outras provas além de algumas conversas de alguns militares com os operários, antes da revolta.

Resta-me dar o meu contributo para esclarecer o enigma da animosidade da ilustre investigadora do ICS para com o papel do PCP e dos operários da Marinha Grande no 18 de Janeiro. Ela inscreve-se numa tendência forte do pensamento social-democrata, alimentada, ao que me parece, por duas secretas incomodidades. Primeira: os socialistas querem fazer esquecer que andavam a negociar com a ditadura a sua legalização na mesma altura em que os operários fizeram greve e se revoltaram. Segunda: na Marinha Grande os operários armaram-se com as espingardas obtidas no assalto ao posto da GNR e proclamaram um poder que, mesmo simbólico, momentâneo, infantil se se quiser, conserva, passados três quartos de século, já em plena Democracia, uma forte carga subversiva.


Inclusão 30/05/2018