A Esquerda em Campanha

Francisco Martins Rodrigues

Maio/Junho de 2004


Primeira Edição: Política Operária nº 95, Maio-Junho 2004

Fonte: Francisco Martins Rodrigues - Escritos de uma vida

Transcrição: Ana Barradas

HTML: Fernando A. S. Araújo.

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Não creio que os leitores estejam interessados em apreciações sobre a campanha eleitoral dos partidos do sistema. Fizeram o que lhes compete. Só Durão Barroso merece uma menção especial por em Viseu se ter insurgido por a campanha eleitoral estar a ser aproveitada para “fazer agitação política”! Repetiu, sem se dar conta, os raspanetes do defunto Salazar, que também não gostava da “agitação política”. Mas vejamos alguns tópicos da campanha daqueles em que muitos trabalhadores confiam: o PGP e oBE.

Situação caricata na campanha da CDU em Setúbal: depois de ter falado, em Palmeia, para 200 pequenos e médios empresários que se juntaram para a ouvir, lida Figueiredo deparou-se, à porta da Autoeuropa, com reacções de desinteresse e frieza dos operários em mudança de turno. Não será tempo de o PCP reconhecer Que errou a vocação?

Para se afirmar como “a esquerda da esquerda”, o BE desdobrou-se em propostas “avançadas”: “Levar para a Europa a coragem social que lhe tem faltado”, “contraporá Europa dos grandes a Europa dos cidadãos”, “reabrir um verdadeiro processo constituinte, livre e democrático”, “reforço dos poderes do Parlamento Europeu”, “renúncia à corrida aos armamentos”, “fim das privatizações que submetem os serviços públicos ao critério do lucro”, “reconhecimento dos direitos sociais e políticos dos imigrantes”, “impostos sobre o capital”, “uma Europa que cuide do ambiente”…

Mas, quanto mais multiplica as reivindicações, mais ressalta a grande questão ausente: podem os deputados do PE mudar algo? Ou vão ser figurantes numa farsa? Se a UE, esse megaempreendimento capitalista, não é reformável, como sublinha, com razão um dirigente do BE, João Pascoal, na Ruptura de Maio, a tarefa da esquerda é desmascarar a fraude, ou jogar o jogo com propostas fantasistas?

E depois, há a tropa. Respondendo a um inquérito sobre a força militar da UE, lida Figueiredo disse o mínimo que se poderia exigir: “O PCP está preocupado com a crescente militarização da União… com o alinhamento com a NATO e com os EUA… O PCP rejeita uma UE que vise tornar-se um bloco político-militar”. A precaução com que escreveu “que vise tornar-se” (?!) é típica dos panos quentes do PCP. Mas vejamos como responde Miguel Portas ao mesmo inquérito: “A defesa ou é comum ou não é. Portugal, ainda que privilegiando uma idealidade europeia de defesa e segurança, não deve aceitar que outros partam a União ensaiando uma geometria variável neste domínio. O primado da defesa colectiva e a expressão da identidade civilista da Europa devem ser assumidas igualmente por todos os Estados-membros”. (Transcrevi na íntegra do Público de 2/6). Pelo meio destas tiradas eurocráticas, está perfeitamente expressa a aceitação da “identidade europeia de defesa e segurança”.

Quando Durão desafiou os partidos da oposição a declararem se irão trabalhar em conjunto com os eurodeputados da coligação de direita “na defesa dos interesses do país”, Carvalhas não encontrou nada melhor para responder do que lembrar-lhe tolamente “os elogios que Cavaco Silva, Guterres, Deus Pinheiro e vários outros comissários fizeram ao trabalho do PCP”. A tanto chega a ânsia de ser aceite como “responsável”.

Interrogado pelos jornalistas em Salvaterra sobre a perspectiva de Louçã vir a fazer parte de um governo liderado pelo PS, responde Miguel Portas: “Isso ainda vem longe, para quê estar já a falar disso?” Não diz que o Bloco não tenciona entrar em qualquer governo PS; pelo contrário, confirma implicitamente o interesse em consegui-lo. A meta vai-se aproximando…


Inclusão 16/10/2018