Cartas do Cáucaso - Baku(1)

J. V. Stálin

26 de Dezembro de 1909


Primeira Edição: Publicado pela primeira vez no “Sotzial Demokrat”, n.° 11. 13 (26) de fevereiro de 1910. Assinado: K. S. O parágrafo “As possibilidades legais” foi escrito em 20 de dezembro de 1909. Assinado: K. Stéfin.
Fonte: J.V. Stálin – Obras – 2º vol., pág: 169-189, Editorial Vitória, 1952 – traduzida da 2ª edição italiana G. V. Stalin - "Opere Complete", vol. 2 - Edizioni Rinascita, Roma, 1951.
Tradução: Editorial Vitória
Transcrição: Partido Comunista Revolucionário
HTML: Fernando A. S. Araújo
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A situação da indústria petrolífera
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Após um período de certa “calma” no país, após a colheita na Rússia, o trabalho foi recomeçado na zona industrial central e a indústria petrolífera entrou numa fase de relativa ascensão. Graças ao risco que apresentam as greves parciais (dadas as ferozes repressões policiais e a crescente organização dos industriais do petróleo), o petróleo não extraído por causa das greves reduziu-se a cerca de meio milhão de puds (em 1908 era de 11 milhões e em 1907 de 26 milhões). A ausência de greves e o consequente funcionamento regular da extração criaram condições favoráveis ao aumento da quantidade do petróleo de poço. A estabilidade (relativa) que se operou na situação da indústria petrolífera devolveu a esta última o mercado que havia perdido nos últimos anos. A extração do petróleo atingiu este ano 500 milhões de puds, cifra que não havia nunca sido atingida nos últimos quatro anos (no ano passado foi de 467 milhões de puds). Admitido que a procura do combustível líquido por parte da zona industrial central aumentou, que nas linhas ferroviárias Sul-Este, Riazán-Urais e Moscou-Kazán, em lugar do carvão fornecido pela bacia do Donétz, emprega-se agora a nafta, a venda do petróleo este ano superou sensivelmente a do ano passado. Os preços do petróleo, não obstante as choradeiras dos industriais, não caem, mas permanecem os mesmos, uma vez que o preço médio anual é o mesmo do ano passado (21 copeques). E por aquelas benditas perfurações, frequentes vezes os industriais são recompensados com uma chuva de petróleo que emana naturalmente dos poços. Numa palavra, os “negócios” dos industriais do petróleo prosperam.

Entrementes, as repressões econômicas não só não diminuem, mas, pelo contrário, intensificam-se. Abolem-se as “gratificações” e a indenização de alojamento. O trabalho em três turnos (8 horas de trabalho) é substituído pelo de dois turnos (12 horas) e o trabalho extraordinário fora da sede torna-se sistema. A assistência sanitária e as despesas para as escolas são reduzidas ao mínimo (com a polícia os industriais do petróleo despendem mais de 600 mil rublos por ano). Os refeitórios e as casas do povo foram fechados. As comissões de poço e de oficina e os sindicatos são absolutamente ignorados, continuam as dispensas dos companheiros conscientes. Volta-se às pancadas e às multas.

Os lacaios do poder tzarista, a polícia e os gendarmes, estão ao inteiro serviço dos reis do petróleo. Os distritos de Baku estão inundados de espiões e de provocadores, os operários são expulsos em massa ao menor conflito com os industriais do petróleo, as “liberdades” — privilégio de Baku — são de fato completamente abolidas, prisões seguem-se a prisões: este é o quadro do trabalho “constitucional” da administração local. E é compreensível : primeiro que tudo, esta não pode, “ por natureza”, deixar de sufocar quaisquer “liberdades” que sejam, mesmo as mais elementares; em segundo lugar, é obrigada a agir de tal maneira também porque a indústria petrolífera, que rende para o fisco não menos de 40 milhões por ano, de “lucro”, sob a forma de impostos diretos sobre cada pud, de cota de desfalcamento relativa aos terrenos dominiais, de impostos indiretos e de tarifas de transporte, “tem necessidade” de tranquilidade, da extração ininterrupta. Nem falemos sequer do fato de que qualquer estagnação na indústria petrolífera tem uma ação deprimente sobre a região industrial central, e isto, por sua vez, perturba os “negócios” do governo. É verdade que num passado não remoto o governo julgava necessário permitir uma certa “liberdade” nas regiões petrolíferas e organizava “conferências” de operários e industriais. Mas isto acontecia no passado, quando o êxito da contrarrevolução ainda não era claro, quando a política do namoro com os operários era a política mais vantajosa. Hoje a situação já está clara; a contrarrevolução afirmou-se “definitivamente”, e a política ferozmente repressiva tomou o lugar da política do namoro; o instigador de pogromos Martínov substituiu o doce cantor Junkóvski.

Nesse ínterim, os operários perderam definitivamente a confiança na utilidade das greves parciais e falam com decisão cada vez maior na greve geral econômica. O fato de os “negócios” dos industriais do petróleo prosperarem, e do mesmo passo aumentarem os vexames infligidos aos operários, produz nestes a mais profunda indignação e os dispõe à luta. E quanto mais energicamente forem os operários privados das antigas conquistas, tanto mais amadurece em seus cérebros a ideia da greve geral, tanto maior é a impaciência com que “aguardam” a “declaração” da greve.

O organismo levou em conta quer a situação da indústria petrolífera quer a disposição dos operários à greve e decidiu iniciar o trabalho preparatório para a greve geral. Neste momento o Comitê de Baku preocupa-se em auscultar as massas e em elaborar as reivindicações gerais que podem unir todo o proletariado da indústria petrolífera. Nas reivindicações serão compreendidos provavelmente a jornada de trabalho de oito horas, o aumento dos salários, a abolição do trabalho extraordinário e fora da sede, o melhoramento da assistência sanitária, as vilas operárias e a indenização de alojamento, as casas do povo e as escolas, o reconhecimento das comissões e dos sindicatos. O organismo e o seu órgão executivo, o Comitê de Baku, julgam que, não obstante o reforça- mento da contrarrevolução e a crescente organização dos industriais do petróleo, os operários conseguirão obter o que lhes cabe se opuserem às forças inimigas suas organizações de classe, sob a forma de unificação das comissões de poço e de oficina, de ampliação e reforçamento dos sindicatos, de união em torno da social-democracia. A escolha do momento depende de muitas e variadas condições, as quais dificilmente podem ser de antemão levadas em conta. Uma só coisa é clara por ora: a greve é inevitável e é preciso prepararmo-nos, sem perder “um só instante”.

A autoadministração da zona petrolífera

O período de ascensão na indústria do petróleo não é o único fato importante na vida do proletariado de Baku. Um outro acontecimento não menos importante é a “campanha dos zemstvos”(2) inaugurada entre nós há pouco tempo. Aludimos à autoadministração nos distritos petrolíferos de Baku. Após os conhecidos “projetos” do ministro do interior sobre o zemstvo nas regiões periféricas e a respectiva “circular” do governador do Cáucaso sobre as medidas práticas no sentido da instituição do zemstvo no Cáucaso, os industriais do petróleo prepararam-se para a elaboração do projeto relativo à autoadministração da zona petrolífera. A essência do projeto, que será sem dúvida ratificado pelo congresso ordinário (o 28.°) dos industriais do petróleo, é aproximadamente a seguinte. A zona petrolífera (Balakhani, Romani, Sabuntchi, Surakhani, Bibi-Eibat) constituirá uma unidade separada, destacada da cidade e da província, sob o nome de autoadministração da zona petrolífera. As funções desta autoadministração serão: abastecimento de água, iluminação, construção de estradas, bondes, assistência sanitária, casas do povo, escolas, instalações de matadouros e banhos, vilas operárias, etc. De um modo geral, a autoadministração será organizada com base no “regulamento” de 12 de junho de 1890(4), com a diferença de que, enquanto este “regulamento” garante de modo absoluto a metade dos assentos no zemstvo à nobreza, aqui, onde não há nobreza (separando a zona petrolífera da província, os industriais do petróleo garantiram-se contra a predominância da nobreza fundiária, assegurando a sua própria), essa proporção é garantida aos industriais do petróleo, e não a todos, mas aos 23 maiores. Na autoadministração, dos 46 assentos, 6 são designados para os representantes dos departamentos governamentais e das instituições sociais; 4 para a população operária, que conta 100.000 pessoas; 18 para aqueles que pagam dois terços de todos os impostos, isto é, aos 23 grandes industriais do petróleo (todo o orçamento é de cerca de 600.000 rublos); 9 para aqueles que pagam um sexto dos impostos, isto é, aos 140 a 150 industriais médios do petróleo que são vassalos dos grandes; os demais 9 à pequena burguesia industrial e comercial (cerca de 1.400 pessoas).

Como vedes, temos diante de nós, por um lado, os capitalistas privilegiados, pelo outro, um zemstvo puramente industrial, que deverá ser a arena de ásperos conflitos entre o trabalho e o capital.

Organizando precisamente um zemstvo deste tipo, os industriais do petróleo querem, em primeiro lugar, transferir a maioria das funções administrativo-culturais do seu “congresso” para a autoadministração da zona petrolífera, transformando assim o “congresso” num puro e simples cartel; em segundo lugar, fazer participar das despesas públicas a população operária e a restante burguesia da zona, os proprietários de empresas subsidiárias, os empreiteiros de perfurações, etc. Quanto aos quatro votos reservados aos operários, eleitos “segundo o regimento da terceira Duma de Estado” (delegados eleitos pela cúria operária e portanto quatro eleitores diretos), isso não só não constitui para os industriais do petróleo um sacrifício, como constitui antes uma grande vantagem: quatro votos operários para dar um verniz à auto- administração é coisa de tal maneira “liberal” e... barata, que os reis do petróleo puderam consenti-los sem dificuldade.

Por outro lado, não há dúvida de que a autoadministração da zona petrolífera, do mesmo passo que reunirá num todo único a burguesia da indústria petrolífera e a denominada “subsidiária”, não poderá deixar de unir também os operários da indústria petrolífera e os das empresas complementares, até agora divididos, dando-lhes a possibilidade de proclamar suas reivindicações comuns através de seus quatro representantes.

Levando em conta tudo isso, o Comitê de Baku, na sua resolução sobre a autoadministração da zona petrolífera, decidiu utilizar a projetada autoadministração participando dela com o objetivo de ali promover uma agitação em prol das necessidades econômicas gerais dos operários e de intensificar a obra de organização destes últimos.

Há mais. Para ampliar os limites do sistema eleitoral e partindo do fato de que a autoadministração da zona petrolífera ocupar-se-á das mesmas questões que agitam os operários e de que se ocuparam as conferências até agora convocadas — e nestas últimas aos operários e aos industriais do petróleo fora designado o mesmo número de votos — o organismo exige, na sua resolução, um número igual de votos para os operários na autoadministração da zona petrolífera, sublinhando, na mesma resolução, que a luta no seio da autoadministração pode ser eficaz somente na medida em que for apoiada pela luta por fora da autoadministração e se tornar útil às finalidades dessa luta.

Além disso, considerando que a decisão da conferência de governadores no sentido de não incluir na zona de autoadministração as vilas de Balakhani, Sabuntchi, Romani — que são na realidade vilas operárias — não é vantajosa para os operários, o organismo exige que essas vilas sejam incluídas na zona da autoadministração.

Enfim, na parte geral da resolução, ressaltando que o sufrágio universal, igual, direto e com escrutínio secreto, é condição necessária a um livre desenvolvimento das autoadministrações locais e ã livre manifestação das contradições de classe existentes, o Comitê de Baku sublinha a necessidade de abater o poder tzarista e de convocar a Assembleia Constituinte popular, condição indispensável à instituição de autoadministrações locais coerentemente democráticas...

A autoadministração da zona petrolífera está por ora na fase de formação. O projeto da comissão dos industriais do petróleo deve ser ratificado pelo seu congresso; em seguida, através da chancelaria do governador, passará ao ministério do interior, depois à Duma de Estado, etc. O organismo decidiu ainda inaugurar logo a campanha, convocar assembleias junto aos poços e nas oficinas, com o objetivo de desmascarar os industriais do petróleo, de popularizar entre as amplas massas a sua plataforma, de promover a agitação no sentido da Assembleia Constituinte popular. Pelos mesmos objetivos ele não se recusa nem a “participar” do congresso dos industriais do petróleo, nem a utilizar a tribuna da Duma, após haver fornecido antecipadamente à nossa fração parlamentar os materiais necessários.

A situação do organismo

Dadas algumas condições específicas para Baku (uma certa possibilidade de reunir-se, a administração não completamente destruída, a existência das comissões de poço e de oficina), o organismo de Baku encontra-se numa situação favorável em confronto com a que existe em outras partes da Rússia. Além disso, o trabalho é facilitado pela existência das denominadas possibilidades legais. O organismo tem portanto laços assaz numerosos. Mas estes laços permanecem inutilizados por insuficiência

de forças e de meios. É necessária a agitação oral e sobretudo a agitação por meio da imprensa, em língua tártara, armênia e russa; mas por insuficiência de meios (e de forças) devemos limitar-nos à língua russa, embora os operários muçulmanos, por exemplo, tenham um lugar importante na produção (extração) e sejam relativamente mais numerosos que os russos e os armênios. O Bakinski Proletari (órgão do Comitê de Baku), editado em russo, não sai há três meses, principalmente por falta .de meios. Em sua última reunião, o Comitê de Baku aceitou a proposta do comitê de Tiflís no sentido de publicar um órgão comum, possivelmente em três ou quatro línguas (russa, tártara, georgiana, armênia). Em nosso organismo não existem mais de 300 membros (no sentido rigoroso da palavra). A união com os camaradas mencheviques (cerca de 100 membros) não está ainda na fase de realização. Por ora formulam-se só votos, mas, vede, unicamente com os votos não se liquida ainda a cisão... A propaganda é promovida somente nos círculos superiores, chamados por nós “seminários”. Usa-se o sistema das conferências. É grandemente sentida a falta de publicações de propaganda sérias... O desligamento do Partido, a falta absoluta de notícias acerca dos organismos partidários na Rússia têm uma influência negativa sobre a massa do Partido. Um órgão para toda a Rússia, conferências regularmente organizadas e inspeções sistemáticas dos membros do C.C. poderiam melhorar as coisas. Dentre as decisões de caráter orgânico geral tomadas pelo Comitê de Baku, as mais importantes são as duas seguintes: sobre a conferência geral do Partido e sobre o jornal para toda a Rússia(5). Acerca da primeira questão, o Comitê de Baku julga ser necessário convocar, dentro do prazo mais breve possível, uma conferência para resolver acima de tudo os problemas orgânicos, já maduros. O Comitê de Baku julga também que é necessário convocar, paralelamente a essa conferência, a conferência dos bolcheviques, para pôr um paradeiro à situação anormal criada nestes últimos tempos na fração. Acerca da segunda questão, o Comitê de Baku, constatando que os organismos estão separados uns dos outros, que somente um jornal para toda a Rússia, editado na Rússia, poderia reunir os organismos partidários num todo único, propõe ao Partido ocupar-se com a organização de tal jornal.

As possibilidades legais”

Se o nosso organismo venceu de modo relativamente fácil a crise, se nunca interrompeu suas atividades e enfrentou de uma maneira ou de outra os problemas do dia, deve-o em grande parte às “possibilidades legais”, de que já se pôde valer e que continuam perdurando. Por sua vez, naturalmente, as “possibilidades legais” devem sua existência às condições particulares da indústria petrolífera, à função particular desta última na economia nacional. Mas não é disso que se trata agora... Entre as “possibilidades legais” existentes em Baku, são particularmente importantes as comissões de oficina e de poço. Essas comissões são eleitas por todos os operários de uma firma, sem exceção, sem distinções de nacionalidade e de credo político. Sua função é promover negociações, em nome dos operários, com a administração da firma, acerca dos problemas que interessam aos poços e às oficinas. Não são elas organizações legais no verdadeiro sentido da palavra, mas indiretamente e de fato são plenamente legais, uma vez que existem na base do “contrato de dezembro”, impresso por inteiro na “caderneta de pagamento” emitida com a permissão das autoridades. A importância das comissões de poço e de oficina para o nosso organismo é compreensível: através dessas comissões o nosso organismo tem a possibilidade de influir de modo organizado em toda a massa dos operários da indústria petrolífera; só uma coisa é necessária: que as comissões apoiem diante das massas as decisões do organismo. É verdade que as comissões não possuem mais a importância de antes, porque os industriais do petróleo já não as levam em conta alguma, mas as “levam em conta” os operários, e isso vale para nós mais que tudo...

Além das comissões existem ainda os sindicatos, e precisamente dois sindicatos: o dos “operários da indústria petrolífera” (cerca de 900 membros) e o dos “operários mecânicos” (cerca de 300 membros). Pode-se não levar em conta o sindicato “dos operários dedicados à extração”, porque sua importância é mínima. Não iremos falar nos sindicatos de outras categorias que não têm relação direta com a indústria petrolífera, e nem tampouco do sindicato ilegal dos marinheiros (cerca de 200 membros), influenciado pelos social-revolucionários, se bem que tenha importância para a indústria petrolífera. Dos dois sindicatos supracitados, o primeiro (influenciado pelos bolcheviques) é particularmente popular entre os operários. É organizado segundo o princípio da produção e une os operários de todas as categorias da indústria petrolífera (extratores, perfuradores, mecânicos, refina- dores, serventes). Esse tipo de organização é determinado pelas condições em que se desenrola a luta, que tornariam irracional uma greve, por exemplo, dos mecânicos, da qual não participassem os operários dedicados à extração, etc. Os operários compreenderam-no(3) e as massas começaram a abandonar o sindicato dos “operários mecânicos”. O fato é que o sindicato dos “operários mecanicos" (influenciado pelos mencheviques) é organizado em base profissional, repele o princípio da produção e propõe, em vez de um único sindicato geral, três sindicatos distintos: dos mecânicos, dos extratores e dos refinadores. Mas em Baku o princípio da organização por profissões ou categorias foi há muito tempo repelido pela prática. Justamente esses fato, entre outras coisas, explica a progressiva decadência do sindicato dos “operários mecânicos”. De resto o reconhecem os próprios dirigentes, os quais admitem no sindicato também os operários não mecânicos, faltando dessa maneira ao seu próprio princípio. Sem o falso amor próprio dos supra- ditos dirigentes, o sindicato dos “operários mecânicos” ter-se-ia há muito tempo fundido com o dos “operários da indústria petrolífera”, reconhecendo abertamente o seu erro.

A respeito da fusão. Há dois anos que se efetuam “negociações” no sentido da fusão dos sindicatos, mas por ora não se concluiu coisa alguma, porque: 1.°) — os dirigentes mencheviques dificultam de caso pensado a fusão temendo virem a afundar-se na maioria bolchevique; 2.°) — as frações, sob cuja influência agem os sindicatos, por agora ainda não se uniram. E depois, com quem unir-se? Os 80 a 100 “membros” com que contam, talvez, os mencheviques no momento não estão ainda eles próprios unidos. Pelo menos nos últimos oito meses, não tivemos conhecimento nem sequer de um volante, de uma intervenção da parte do “colégio dirigente” dos mencheviques, se bem que nesse período os distritos petrolíferos tenham passado através de campanhas tão importantes como aquelas em favor da greve geral, dos zemstvos, contra o alcoolismo, etc. O organismo menchevique está de fato ausente, está liquidado. Em palavras singelas: não há com quem unir-se. E tal estado de coisas naturalmente dificulta a obra de fusão dos sindicatos...

Os dois sindicatos são apartidistas. Mas isso não os impede de manter os liames mais estreitos com o organismo do Partido.

A influência dos sindicatos sobre as massas não é pouca, especialmente do sindicato dos “operários da indústria petrolífera”. E isso facilita por si só 0 agrupamento dos elementos mais ativos em torno de nosso organismo.

Entre as outras “possibilidades legais” dignas de atenção existem os círculos (influenciados pelos social- democratas) e a cooperativa de consumo “Trabalho”(6) (influenciada pelos social-revolucionários e pelos social-democratas), porque são os centros de agrupamento dos elementos mais ativos do proletariado de Baku. Pelas suas relações com o organismo, especialmente quanto ao círculo “Ciência é força”(7), que funciona em todos os distritos petrolíferos (o círculo “Ciência” funciona só na cidade), pode-se repetir tudo quanto se disse com relação aos sindicatos...

As duas últimas semanas foram tomadas pela campanha antialcoólica que empenhou quase todos os Aparatos legais. A posição do Comitê de Baku sobre essa questão é expressa numa resolução, em que o alcoolismo é considerado um mal inevitável no regime capitalista, mal que só pode ser destruído com a queda do capitalismo e a vitória do socialismo. Além disso, a atual ordem feudal aristocrática, reduzindo os operários e camponeses à situação de escravos sem nenhum direito e tirando-lhes a possibilidade de satisfazerem às próprias necessidades culturais, contribui em grandíssima medida para a difusão do alcoolismo entre as camadas trabalhadoras. Sem falar ainda no fato de que os representantes do “poder” encorajam diretamente a embriaguez, porque é uma fonte que enche as arcas do Tesouro. Considerando tudo isto, o Comitê de Baku afirma que nem os sermões dos “liberais”, que organizam o congresso pela luta contra o alcoolismo é as “ligas contra o alcoolismo”, nem a obra de persuasão dos padres podem fazer diminuir, e muito menos eliminar, o alcoolismo, produto da dissolução geral e da exasperação da ordem autocrática. Nos limites da ordem burguesa é possível e necessária uma luta que apenas tenha por fim, não eliminar a embriaguez, mas reduzi-la ao mínimo. Mas a fim de que essa luta tenha um desfecho favorável é necessário primeiro que tudo abater o poder tzarista e conquistar a república democrática, que dá a possibilidade de desenvolver livremente a luta de classes e de organizar o proletariado nas cidades e nos campos, de elevar o seu nível cultural e de preparar amplamente as suas forças para a grande luta em prol do socialismo. O Comitê de Baku considera próximo o congresso pela luta contra o alcoolismo(8) como um meio adaptado à agitação das reivindicações democráticas e socialistas do proletariado russo e confere mandato ao nosso delegado no sentido de lutar contra os representantes oportunistas, os quais ocultam os objetivos de classe do proletariado...

Publicado pela primeira vez no “Sotzial Demokrat”, n.° 11. 13 (26) de fevereiro de 1910.
Assinado: K. S.
O parágrafo “As possibilidades legais” foi escrito em 20 de dezembro de 1909.
Assinado: K. Stéfin.

Leia a carta II - Tiflís


Notas de rodapé:

(1*) Mas não compreendeu ainda Dimitrov, o qual,em seu livro "Da prática do movimento sindical", baseando-se na "análise" não das condições em que se desenrola a luta dos operários da indústria petrolífera, mas ... sobre a técnica do trabalho, "demonstra" a necessidade de três sindicatos: os misteres são diversos; portanto, os sindicatos também devem ser diversos... (retornar ao texto)

Notas de fim de tomo:

(1) As Cartas do Cáucaso foram escritas em novembro- dezembro de 1909 para o Proletari ou o Sotzial-Demokrat. Uma vez que naquela época o Proletari cessou a publicação, as Cartas foram passadas ao Sotzial-Demokrat, órgão central do P.O.S.D.R. Os redatores mencheviques do jornal opuseram-se à sua publicação, porque elas continham uma crítica severa do liquidacionismo. Foram pois publicadas no Diskussiónni Listók (Folha de Discussão) (suplemento do Sotzial-Demokrat). (retornar ao texto)

(2) Zemstvos: organismos de auto-administração local na Rússia tzarista. Os zemstvos ocupavam-se exclusivamente com os assuntos locais concernentes à população dos campos (construção de estradas, hospitais, escolas), etc. Os proprietários fundiários liberais ali tiveram uma influência preponderante. (retornar ao texto)

(4) O regulamento sobre os zemstvos de 1864 foi substituído, pelo governo tzarista, pelo de 12 de junho de 1890. O novo regulamento, que fixava os assentos de acordo com a casta e não baseado na propriedade, assegurava aos nobres a maioria absoluta na maior parte dos zemstvos de distrito. (retornar ao texto)

(5) Bakinski Proletari (O Proletário de Baku), jornal ilegal bolchevique; publicou-se em Baku de 20 de junho de 1907 a 2 de agosto de 1909. Saíram sete números. O primeiro número saiu como órgão do distrito de Balakhani do organismo do P.O.S.D.R. de Baku; o segundo como órgão dos distritos de Balakhani e de Tchernogorod; do terceiro número em diante tornou-se o órgão do comitê de Baku. O jornal era dirigido por Stálin. Após o quinto número foi forçado a cessar a sua publicação. Recomeçou-se a 1.° de agosto de 1909, quando Stálin fugiu da deportação e retornou a Baku. O último número, o 7.°, saiu a 27 de agôsto de 1909. O corpo de redação do Bakinski Proletari estava estreitamente ligado ao do Proletari e do Sotzial-Demokrat. (retornar ao texto)

(6) Cooperativa de consumo dos operários de Baku e dos distritos petrolíferos, organizada em princípios de 1908. A cooperativa tinha 1.200 associados e várias sucursais. Em 1909 publicou um semanário, Trudovói Golos (A Voz do Trabalho). Os bolcheviques participaram ativamente do trabalho da cooperativa. (retornar ao texto)

(7) Os círculos “Ciência é força” e “Ciência” tinham por objetivo ajudar os operários da indústria petrolífera a formar uma cultura. Organizavam cursos técnicos e de instrução geral, círculos de estudo e conferências. Tiravam os meios das quotas e dos proventos de conferências e espetáculos. O círculo “Ciência é força” era dirigido pelos bolcheviques, o círculo “Ciência” pelos mencheviques. (retornar ao texto)

(8) O Congresso em prol da luta contra o alcoolismo inaugurou-se em Petersburgo a 28 de dezembro de 1909. Estavam presentes ao congresso 510 delegados. O grupo era composto de 43 pessoas, entre as quais dois operários de Baku. Uma parte dos delegados operários foi presa logo após o congresso. (retornar ao texto)

Transcrição
pcr
Inclusão 23/10/2019