Camaradas, recebi hoje as teses de Alexander Slepkov(1) sobre o tema da autocrítica, e soube que foram discutidas no círculo de vocês. Fui informado por membros do círculo que essas teses estavam sendo apresentadas não como uma crítica à linha do Comitê Central, mas sim como um documento para fundamentá-la.
Seria um erro negar o direito dos membros do Partido de criticarem a linha do Comitê Central. Indo mais além, reconheço que os membros do círculo de vocês têm o direito de, no seu grupo mais restrito, até mesmo contrapor posições e teses próprias às do Comitê Central. Contudo, é evidente que as teses de Slepkov não têm como objetivo criticar a linha do Comitê Central ou propor algo novo em oposição a ela, mas sim explicar e justificar a posição do Comitê Central. É provável que seja por isso que as teses de Slepkov ganharam certa circulação nos círculos partidários de Moscou.
No entanto, ou exatamente por isso, considero meu dever declarar que as teses de Slepkov:
a) Não coincidem com a posição do Comitê Central sobre a palavra de ordem da autocrítica.
b) Elas “corrigem”, “complementam” e, naturalmente, pioram a posição do Comitê Central, visando agradar aos elementos burocráticos de nossas instituições estatais e organizações partidárias.
1. A abordagem das teses de Slepkov estão, antes de tudo, incorretas. As teses de Slepkov se parecem com teses sobre a autocrítica apenas superficialmente. Na realidade, elas são teses sobre os perigos da autocrítica. Sem dúvida, toda palavra de ordem revolucionária carrega em si a possibilidade de ser distorcida na prática, e essa possibilidade se aplica, é claro, também à autocrítica. Entretanto, colocar essas possibilidades como o ponto central do debate, como a base das teses sobre autocrítica, significa inverter completamente a situação. Isso mina o significado revolucionário da autocrítica e acaba ajudando os burocratas que tentam se esquivar dela, alegando os “perigos” que ela implica. Não tenho dúvidas de que os elementos burocráticos em nossas organizações partidárias e soviéticas lerão as teses de Slepkov com uma certa satisfação.
Afinal, essa abordagem tem algo em comum com a posição do Comitê Central sobre a autocrítica, como expressa na Resolução da Plenária de Abril do Comitê Central e da Comissão Central de Controle sobre o Processo de Shakhty(2), ou à Circular de Junho do Comitê Central(3) sobre o mesmo tema?
Acredito que não.
2. O conteúdo interno das teses de Slepkov também está incorreto. Um dos fatores mais sérios que torna a autocrítica inevitável, e, ao mesmo tempo, um dos objetos mais importantes dela, é o burocratismo em nossas organizações.
Podemos avançar sem combater o burocratismo em nosso aparato estatal soviético partidário? Não.
Podemos organizar o controle das massas, elevar sua iniciativa e autoatividade, e envolver milhões de pessoas na construção socialista sem travar uma luta decisiva contra o burocratismo de nossas organizações? Não.
Podemos minar, enfraquecer e desmascarar o burocratismo sem implementar a palavra de ordem da autocrítica? Não.
É possível que teses dedicadas à autocrítica, que buscam fundamentar a posição do Comitê Central, ignorem a questão do burocratismo como um fator negativo na construção socialista e como um dos principais alvos da crítica? Claramente, não.
Como, então, podemos explicar o fato de Slepkov ter conseguido, em suas teses, silenciar sobre este tema tão vital? Como é possível, em teses sobre autocrítica que visam justificar a posição do Comitê Central, esquecer a tarefa mais importante da autocrítica: a luta contra o burocratismo? E, no entanto, este é o fato: nas teses de Slepkov não há uma única palavra (literalmente, nenhuma palavra!) sobre o burocratismo em nossas organizações, sobre os elementos burocráticos dentro delas, ou sobre as distorções burocráticas no trabalho do nosso aparato estatal soviético e partidário.
É possível conciliar essa atitude mais do que leviana em relação à questão fundamental da luta contra o burocratismo com a posição do Comitê Central sobre a autocrítica, tal como expressa em documentos do Partido como a Resolução da Plenária de Abril do Comitê Central e da Comissão Central de Controle sobre o Processo de Shakhty, ou a Circular de Junho do Comitê Central sobre a importância e papel autocrítica? Eu penso que não é possível.