Réplica a Lênin sobre o problema do abstencionismo

Amadeu Bordiga

2 de agosto de 1920


Fonte: Marxismo Heterodoxo. Editora Brasiliense: 1981. Organizado por Maurício Tragtenberg.

Tradução: Beatriz Berg.

Transcrição: Thiago Paulino.

HTML: Lucas Schweppenstette.


As teses abstencionistas de Bordiga já foram ilustradas nos artigos publicados nas páginas precedentes. Portanto, no que diz respeito à discussão sobre este problema no II congresso da Internacional, damos aqui somente à breve réplica à intervenção polêmica de Lenine sobre a questão, réplica que recoloca à típica contraposição bordiguiana entre princípios e tática (permanente, quando entre estes dois planos há contraste), acrescentando-lhe uma única consideração de fundo: a de que a aceitação da não-identidade entre estratégia e tática pode, segundo Bordiga, levar da luta pela revolução àquela pela nova maioria parlamentar; o que foi admitido taticamente, já em 22 e 23, e também muito tempo depois... O problema era, portanto, real, mas não solucionável definitivamente (ao menos enquanto permanecem protagonistas de classe na história).

As objeções do companheiro Lênin às teses por mim apresentadas e aos meus argumentos levantam questões de grande interesse, que não pretendo aqui nem de longe tocar e que se relacionam com o problema geral da tática marxista.

Sem dúvida, os acontecimentos parlamentares e as crises ministeriais estão estreitamente relacionados com o desenvolvimento da revolução e da crise da ordem burguesa. Mas, para chegar a estabelecer de que forma a ação política proletária deve intervir-nos acontecimentos, é preciso que sejam retomadas certas considerações de método da mesma natureza daquelas que, já antes da guerra, levaram a esquerda marxista do movimento socialista internacional a excluir a participação ministerial e o apoio parlamentar aos ministérios burgueses, se bem que estes sejam, sem dúvida, meios para intervir no desenvolvimento dos acontecimentos.

É a própria necessidade de unificação das forças revolucionárias do proletariado e de sua organização no sentido do objetivo final do comunismo, que impõe uma tática baseada em certas regras gerais de ação, ainda que aparentemente muito simples e muito pouco elásticas.

Penso que nossa atual missão histórica nos deu uma tática nova e bem definida, isto é, a recusa à participação parlamentar, por não ser mais um meio de influir sobre os acontecimentos no sentido revolucionário.

O argumento de que se deve resolver o problema prático de uma ação

parlamentar comunista rigorosamente disciplinada pelo partido porque, num período pós-revolucionário, esta necessitará saber e poder organizar instituições de qualquer espécie com material humano proveniente de ambientes burgueses e semiburgueses, poderia ser invocado, no mesmo sentido, para sustentar a utilidade de se ter ministros socialistas no regime de dominação burguesa.

Mas não é este o momento de aprofundar este tema, e eu me limito a declarar que mantenho as minhas ideias sobre a questão que ora nos ocupa. Estou mais do que convencido de que a Internacional comunista não conseguirá concretizar uma ação que seja ao mesmo tempo parlamentar e verdadeiramente revolucionária.

Enfim, desde que se reconheceu que as teses por mim propostas apoiam-se em princípios puramente marxistas e não têm nada em comum com os argumentos anarquistas e sindicalistas contra o parlamentarismo, espero que sejam votadas apenas pelos companheiros antiparlamentaristas que as aceitam em bloco e no seu espírito, endossando as considerações marxistas que lhes servem de base.


Inclusão: 04/08/2023