Nascimento de um Exército

Vo Nguyen Giap


Fonte: Primeira Linha em Rede
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo.

Índice:

1. Cao Bang: Ho Chi Minh volta ao seu país

2. O movimento arma-se

3. A marcha para o Sul

4. O terror branco em Cao-Bac-Lang

5. No sentido da luita armada

6. O destacamento de propaganda do Exército de Libertaçom do Vietname

 

1. Cao Bang: Ho Chi Minh volta ao seu país

O movimento revolucionário implantou-se rapidamente na província de Cao Bang. A partir de 1929, a Associaçom da Juventude Revolucionária contava aí vários grupos. Mais tarde, quando o Partido Comunista Indochinês foi criado, Cao Bang também tivo as suas células. As organizaçons de base do Partido conseguírom manter-se lá, apesar do terror branco, até a época da Frente popular, em que a chama revolucionária se apoderou das massas. O Congresso Nacional do Partido foi saudado com diversos comícios, enquanto os mineiros de Tính Tuc davam o sinal de luitas reivindicativas. Quando estalou a Segunda Guerra mundial, os colonialistas franceses cedêrom, em toda a linha, perante os fascistas japoneses, mas lançárom o melhor das suas forças contra o movimento revolucionário. Cao Bang conheceu a repressom. Os nossos quadros e os nossos militantes remetêrom-se à clandestinidade e conseguírom, no meio de enormes dificuldades, manter as organizaçons de base e sustentar o movimento.

Nessa hora crítica, o Presidente Ho Chi Minh chegou à regiom fronteiriça sino-vietnamita; encontrou-se lá com um pequeno grupo de emigrados, que incluía os camaradas Phung Chi Kien, Pham Van Dong, Hoang Van Hoan, Vu Anh e eu próprio. Depois do armistício de 1940, em França, o Tio Ho decidira que o essencial, para nós, era reentrar imediatamente no país, para tomar contacto com o Comité central e espalhar a nossa rede. O que se fijo. Nos primeiros tempos, acantonamo-nos, provisoriamente, em algumhas localidades chinesas, próximas da fronteira. Era umha regiom por onde já passara o Exército vermelho chinês, que lá tinha efectuado um trabalho político muito eficaz. A populaçom revelou-se acolhedora desde que soubo com quem tratava. Fijo mesmo todo para nos auxiliar.

Um certo número de quadros e militantes de Cao Bang — os camaradas Le Quang Ba, Hoang Sam, Bang Giap, etc...— tivérom de se refugiar na China, para escapar às perseguiçons. Tivérom a sorte de encontrar o Tio Ho, que decidira juntá-los ao nosso grupo, para completarem a formaçom política, antes de passarem a fronteira e irem estabelecer as primeiras bases da organizaçom da Liga Viet Minh no país. Este curso político acelerado tivo lugar numha aldeia chinesa, próxima da fronteira. O Tio Ho dedicou-lhe um cuidado meticuloso. Fijo-nos discutir o programa, que foi adoptado em comum. Dividiu, depois, a redacçom de seis ou sete liçons. Tínhamos, previamente, de compor o plano pormenorizado de cada umha destas exposiçons e submetê-lo à discussom colectiva, antes de o desenvolver por escrito. O texto definitivo devia ser reexaminado em comum, no decurso de umha reuniom. O Tio Ho exigia que estas liçons fossem adaptadas ao nível de massas: claras no conteúdo e simples nos termos. Estes cursos viriam a ser impressos, mais tarde, sob o título "O Caminho da Libertaçom".

Este primeiro curso de formaçom política da Liga Viet Minh foi um grande sucesso. Estava-se na véspera da Festa do Tet (Ano Novo lunar. Os militantes franquearam a fronteira, com umha confiança transbordante. Depois do Tet, foi a vez do Tio Ho voltar ao país. Estabeleceu o seu P.C. Na gruta do Pac Bo, no seio de um maciço montanhoso, de dous a três quilómetros de largura por cinco ou seis de comprimento, a um quilómetro apenas da fronteira. As minorias Nung, que povoam esta regiom, disseminam-se em minúsculos aglomerados empoleírados no flanco das montanhas ou aninhados nos vales que elas formam. Nom faltava pitoresco ao sítio, com os seus talhons dos arrozais, encastoados na selva espessa, e as montanhas abruptas. Umha vegetaçom luxuriante mascarava quase completamente a entrada da caverna: mesmo de perto, era difícil dar por ela. Muito profunda, esta caverna encerrava um riacho encantador, cujas águas formavam, a pouca distáncia, umha pequena bacia, como que um lago miniatural. O riacho seguia o seu curso através de umha profusom de rochedos caprichosos, onde grossas estalactites mergulhavam sobre blocos enormes, arredondados pola erosom. Era para lá que o Tio Ho se dirigia, dia após dia, para trabalhar, a menos que nom fosse dar um curso político em qualquer aldeia dos arredores. Para as refeiçons, voltava à gruta. Reinava lá um frio cortante; à noite, felizmente, era possível, serem risco de se ser descoberto, acender umha pequena fogueira.

O Tio Ho, que ligava umha importáncia extrema à vigiláncia, diligenciava sempre que cada um de nós guardasse um segredo absoluto sobre todo o que dizia respeito ao P.C. Ao menor indício de perigo, dava imediatamente ordem de mudar de lugar. Umha vez, mandárom-nos dizer que o inimigo enviara espions para a regiom. O nosso P. C. mergulhou, acto contínuo, ainda mais profundamente na floresta. A nova localizaçom oferecia umha grande segurança. Para a atingir era preciso subir um curso de água, atravessar algumhas cascatas e escalar diversas escarpas. A sede do P.C. Nom passava de umha cabana bem escondida, sob umha profusom de lianas e de grandes raízes. Infelizmente, era tam sombria, mesmo em pleno dia, que, para trabalhar, tínhamos de trepar ao alto da montanha. Mais tarde, sempre por precauçom, o nosso P.C. mudou-se para outra gruta, extremamente exígua, que mal podia abrigar três ou quatro camas. Nos dias de grande chuva, as serpentes e outros animais faziam-nos companhia.

Esta vida de clandestinos acossados era extremamente dura. Para conservar umha boa saúde, condiçom primordial de um bom trabalho, o Tio Ho observava regras muito estritas. Levantava-se muito cedo. Todos os dias era ele, invariavelmente, quem nos acordava. Fazíamos, em conjunto, alguns movimentos de cultura física; depois começava o dia de trabalho. A noite, carecidos de petróleo para os candeeiros, reuníamo-nos em volta de umhas achas a arder. As horas das refeiçons eram também escrupulosamente respeitadas, mas o passadio era bem escasso. A nossa ementa só de longe em longe comportava um pequeno prato de carne, que tínhamos baptizado de "carne à Viet Minh"; eis a receita: um quarto de carne grelhada, cortada e passada, e três quartos de sal grosso. Algumhas vezes, organizávamos umha pescaria para melhorar o rancho.

Bebíamos água da fonte, passada por um filtro improvisado, feito de carvom, calhaus e areia. Apesar destas precauçons, ninguém escapou ao paludismo. O Tio Ho sofria freqüentemente ataques de febre. No momento das crises, recusava repousar, apesar das nossas instáncias, e continuava a presidir às reunions.

Mais tarde, quando o movimento tomou envergadura, o nosso P. C. deslocou-se para Lam Son, perto de Nuoc Hai, no fundo de um vale encastoado numha cadeia de montanhas, de acesso extremamente difícil.

Chamávamos a esse lugar o "Blockaus vermelho", porque estava rodeado de montanhas avermelhadas e servia há muito tempo de ponto de encontro dos revolucionários. O Tio Ho conservava sempre o mesmo modo de vida, todo simplicidade e frugalidade. A estadia nas grutas e na selva minara-lhe a saúde. Quando a situaçom evoluía favoravelmente, o abastecimento melhorava e a nossa vida material tornava-se quase satisfatória. Mas quando o inimigo intensificava a repressom, o nosso P. C. mergulhava mais profundamente na floresta e o abastecimento tornava-se difícil. Aconteceu-nos, mais que umha vez, refugiarmo-nos entre as minorias "Man Brancos" que, por carência de arroz, só se aumentavam de milho. Nós próprios, durante longos meses, comemos sopa de milho. A saúde do Tio Ho declinava visivelmente. Mas, durante toda esta permanência no Viet Bac, nunca o Tio Ho esteve tam doente como depois do golpe de força dos japoneses em 1945. Já tínhamos libertado umha vasta zona, que se alargava constantemente. Tínhamos descido com o Tio Ho de Cao Bang até Tan Trao. Era no mês de Julho de 1945, no período febril de preparaçom do Congresso nacional, decidido polo Comité central. O P.C, do comando provisório da zona libertada, encontrava-se instalado numha casa sobre estacas da aldeia de Tan Trao, perto de umha grande "figueira da índia", que haveria de ficar histórica. Eu era responsável pola permanência do P.C. O Tio Ho habitava umha pequena cabana aninhada no flanco da montanha, na proximidade da aldeia.

A longa marcha que o Tio Ho tivera de efectuar para ir de Cao Bang a Tan Trao devia-o ter esgotado. Caiu gravemente doente, após um período de grande abatimento; a febre nom o abandonara. A princípio, ainda podia engolir um pouco de sopa de arroz. Depois, foi ficando reduzido à farinha de arroz dissolvida na água. Algumhas vezes delirava. Ainda que a nossa provisom de medicamentos tivesse melhorado, só possuíamos, em última análise, alguns comprimidos de quinino e umhas ampolas de óleo canforado. Dia após dia, eu apresentava-me na cabana para fazer o meu relatório. O seu estado angustiava-me. Mas cada vez que me preocupava com a sua saúde, ele tranquilizava-me e insistia em que voltasse para o P. C, para dar andamento aos assuntos operantes. No sétimo dia da doença, encontrei-o pior. Despediu-me, como de costume, depois de eu apresentar o relatório. Pretextando que nom tinha qualquer assunto urgente à espera, insisti em ficar com ele. Sem dúvida que tinha consciência do estado em que se encontrava — aceitou. Durante a noite, acordou várias vezes, chamando-me de cada vez. Tivem a confusa percepçom que me queria comunicar cousas capitais, antes que fosse demasiado tarde ...

Com a sua voz calma, destacando cada palavra, disse-me:

"Neste momento, a conjuntura nacional e internacional é-nos extremamente favorável. O nosso Partido nom deve deixar passar a ocasiom. Devemos tomar a direcçom da luita nacional para a conquista da independência, custe o que custar, mesmo que toda a cordilheira vietnamita tenha de ser pasto de chamas."

Interrompeu-se um momento para retomar fôlego e prosseguiu:

— Quando o movimento revolucionário ganha terreno, como hoje, é nessa altura, precisamente, que é necessário velar pola consolidaçom dos alicerces: reforçar ideologicamente os elementos seguros, formar os quadros, é preciso abrir cursos acelerados, a fim de formar a tempo os militantes locais e preocuparmo-nos particularmente em organizar células, de forma a poder manter o movimento nas horas críticas. Quanto à luita armada, desde que as circunstáncias se tornem favoráveis, será necessário prossegui-la resolutamente e ampliá-la, sem esquecer a consolidaçom das bases, para fazer face a qualquer eventualidade.

Estas recomendaçons soavam como últimas vontades. Figem imediatamente um relatório pormenorizado sobre o estado do Tio Ho ao Comité central. Pedia, ao mesmo tempo, a todos os camaradas que consultassem a populaçom local. Os velhos da aldeia acorrêrom em nosso socorro. Dérom-nos o endereço de um médico tradicional, reputado pola cura deste gênero de febre. Nessa mesma noite enviou-se um emissário ao médico, que chegou no dia seguinte, de manhá. Tomou o pulso do doente e foi à floresta, onde desenterrou umha espécie de tubérculo. Mandou-o queimar e deitar as cinzas numha tijela de sopa de arroz, que obrigou o doente a engolir. O Tio Ho nom tardou em sentir-se melhor e, alguns dias depois, estava completamente restabelecido.

Pode-se calcular a nossa alegria. Mas nunca chegamos a saber o nome do tubérculo miraculoso que curou tam rapidamente o Tio Ho.

Voltemos agora a Cao Bang, na altura em que o Presidente permanecia em Pac Bo. Os camaradas Phung Chi Kien e Vu Anh já lá se encontravam. O camarada Lam (nome de guerra de Pham Van Dong), o camarada Li (nome de guerra de Hong Van Hoan) e eu próprio, em missom em Tsin Si (China), fazíamos a ligaçom entre esta cidade e Kuei Lin. íamos, freqüentemente, a Pac Bo para apresentar os nossos relatórios ao Tio Ho e receber instruçons. De tempos a tempos, ele vinha ao nosso encontro, acompanhado do camarada Phung Chi Kien, num sftio situado a meio caminho entre Bac Bo e a nossa residência. Resistente como era, podia percorrer dezenas de quilómetros a pé, numha só tirada. Certa vez, encontrámo-lo. conforme o combinado, no nosso ponto de encontro, situado num mercado da China. Um dos nossos camaradas, que acabava de atravessar a fronteira, anunciou-lhe:

— O camarada X foi preso!

Sem parecer preocupar-se com a notícia, o Tio Ho convidou-nos para entrar numha locanda e mandou vir a refeiçom. Foi somente depois de ter comido que deu início à reuniom projectada. Tomou a palavra, em primeiro lugar, dirigindo-se ao mensageiro:

— fai agora o teu relatório. Aconteça o que acontecer, nom se deve perder o sangue frio.

Todas as vezes que voltávamos ao P. C. Para encontrar o Tio Ho tínhamos sempre a sensaçom de estar em casa.

— O Partido, dizia ele muitas vezes, é a grande família dos comunistas.

Nas horas de impulso do movimento, os militantes que traziam consigo a ebuliçom febricitante dos órgaos de base encontravam junto dele a atmosfera serena, que lhes fazia lembrar imediatamente que a luita ainda seria longa. Nas horas sombrias, quando o inimigo semeava o terror entre a populaçom em pánico, eles continuavam a encontrar nesse lugar, ao regressarem das respectivas missons, essa mesma atmosfera serena, da qual emanava umha confiança inquebrantável. Liçom preciosa: nas horas tristes, nada de pessimismo, nas horas do triunfo, nada de optimismo eufórico. O Tio Ho conseguiu, maravilhosamente, comunicar-nos a sua própria e inabalável fá na vitória da revoluçom.

— Fazer a revoluçom, dizia ele, é um trabalho de largo fôlego, um trabalho que exige tenacidade e perseverança. Qualquer decisom pede madura reflexom e nom deve ser tomada de ánimo leve.

Nesta conformidade, em geral, à volta das missons, se nom havia soluçom urgente a tomar, observávamos a seguinte regra de trabalho: o Tio Ho punha o problema em debate e concedia-nos um determinado tempo de reflexom. Em seguida, tinham lugar o conselho e as discussons. As suas directivas eram sempre muito precisas e muito práticas. E quando, após minuciosas discussons, adoptávamos as resoluçons finais, exigia que as realizássemos a todo o custo. Insistia também em controlar efectivamente o nosso plano de trabalho, qualquer que fosse a sua importáncia. Da minha permanência junto dele, retive este ensinamento: para fixar a linha da revoluçom é necessário ter umha noçom do conjunto e de longe, mas, no momento de passar à execuçom, é preciso prestar umha grande atençom aos mínimos detalhes de ordem prática. Negligenciar os pormenores é comprometer as grandes linhas.

Assim que o P. C. se estabeleceu em Pac Bo, o Tio Ho deu imediatamente ordem para fazer aparecer o Viet Lap (Vietname Independente). Este jornal saía clandestinamente umha vez por semana, em duas páginas de formato pequeno. Os artigos, curtos e simples, eram impressos em grandes caracteres, em litografia. Como os julgássemos demasiado curtos e demasiado simplistas, propusemos enriquecer-lhes o conteúdo e utilizar caracteres mais pequenos para melhorar a apresentaçom e aumentar o número dos artigos. Mas o Tio Ho tomou a defesa da preferência por artigos curtos, em caracteres grandes. Com a experiência, nom tardamos a constatar a eficácia do Viet Lap no nosso trabalho de propaganda e organizaçom. A influência do jornal nom provinha só da justeza da linha política mas também da simplicidade da forma: a primeira condiçom para despertar a consciência das massas e fazê-las progredir era abordar os problemas que as tocassem profundamente, em termos que elas pudessem compreender.

Com a continuaçom, o jornal fijo progressos, apareceu com quatro páginas e melhor apresentaçom. Estava destinado a alcançar um grande sucesso junto da populaçom.

O Tio Ho ligava umha grande importáncia à formaçom ideológica dos quadros. Traduzira para vietnamita a História do Partido Comunista (bolchevik) da U.R.S.S. Ele próprio dactilografara esta traduçom em alguns exemplares, que nos serviam como documentos para os nossos estudos.

Ele continuava, todavia, em estreito contacto com a populaçom local; ia freqüentemente visitar os velhos e ensinar a ler os mais jovens. Gostava muito de crianças. Com a sua veste anilada, à moda das minorias "Tho", poderia ser tomado por um camponês da regiom. O povo chamava-lhe respeitosamente "ong ke", qualificaçom reservada aos anciaos da aldeia.

No mês de Março de 1941, o Tio Ho presidiu, em Pac Bo, à 8.ª Conferência ampliada do Comité central. Esta reuniom viria a tomar decisons históricas. Ao definir a linha do Partido, ela fijo da libertaçom nacional o objectivo n.° 1 para todo o povo. Decidiu igualmente a organizaçom da Liga para a Independência do Vietname (Viet Minh) e escolheu as duas bases de Bac Son-Vu Nhaí e de Cao Bang, como centros de preparaçom para a insurreiçom armada no Viet Bac.

2. O movimento arma-se

Com o andar do tempo, as nossas actívidades na China foram assinaladas polos agentes do Kuomingtang. Recebemos ordem de regressar ao país para umha nova missom.

Nos fins de 1941, eu e o camarada Tong (um dos pseudônimos de Pham Van Long) atravessamos a fronteira. O movimento em Cao Bang estava bem lançado, em muitos outros sítios começava a despontar apenas.

A Liga Víet Minh atingia já numerosos distritos. As minorias Trio e Nung aderiam com entusiasmo às Associaçons para a salvaçom nacional. Rapazes e raparigas constituíam-se em vanguarda, tanto para a propaganda e organizaçom como para o treino militar. As mulheres nom eram as menos resolutas. Em numerosas regions as crianças também se alistavam e serviam como agentes de ligaçom ou como vigias. As células do Partido ganhavam terreno nas comunas, onde o movimento era particuíarmente poderoso. Algumhas comunas, a cem por cento, começaram a aparecer a pouco e pouco, mais tarde cantons e distritos.

Nessas comunas, o Comité Viet Minh substituía-se inteiramente às autoridades legais para dirigir todos os assuntos, desde a celebraçom dos casamentos até às querelas por causa dos arrozais. A maioria dos notáveis aliavam-se à nossa causa, uns por simpatia com o movimento, outros militando abertamente no seio das associaçons para a salvaçom nacional. Os raros elementos reaccionários que sobravam, encontravam-se politicamente isolados e sob estreita vigiláncia. Estabelecia-se na base umha espécie de poder de dupla face: os notáveis, antes de irem ao distrito ou à província, vinham pedir as dírectivas ao Comité Viet Minh e, mal regressavam à aldeia, apresentavam-lhe um relatório pormenorizado.

Passava-se o mesmo com os milicianos. Na sua maioria, estavam aglutinados por nós, se é que nom eram mais ou menos simpatizantes. Para travar a escalada revolucionária, as autoridades superiores tinham dado ordem de reforçar a vigiláncia aos escalons subalternos. Cada aldeia possuía dous a três pontos de guarda. Mas como os milicianos e a populaçom local estavam do nosso lado, os postos de guarda do inimigo tornavam-se, de facto, os nossos próprios postos, e um certo número deles servia de passagem nas nossas lides clandestinas de ligaçom.

O movimento atingira igualmente as alturas habitadas pola minoria dos "Man Brancos". Estes montanheses viviam umha vida das mais miseráveis, em regions áridas, dificilmente acessíveis. Estas montanhas escarpadas eram escaladas por raras veredas, muito acidentadas. Os Man, sob a pressom dos colonialistas franceses e dos seus lacaios, mandarins e notáveis, só esperavam umha ocasiom para se revoltar. Manifestaram umha intensa alegria quando vírom pola primeira vez quadros do Viet Minh. Ficaram impressionados ao ver os Kinh, os Tho e os Man, que a política colonialista francesa tinha lançado, outrora, uns contra os outros, unirem-se fraternamente assim que passavam a militar no seio das associaçons para a salvaçom nacional. A organizaçom do Partido eclodiu rapidamente entre eles.

A uniom nacional era um dos traços mais vincados do movimento. Logo nos primeiros dias da luita clandestina, em Cao Bang, organizámos, com êxito, vários encontros amigáveis entre os delegados das diferentes minorias Tho, Man, Mung, Kinh, Chinesa, etc. Algumhas delegaçons de Man tinham efectuado visitas de cortesia no vale. Todas recebêrom um acolhimento caloroso por parte da populaçom local. De volta, essas delegaçons relatavam fielmente as suas impressons de viagem aos compatriotas. Periodicamente, nos vales e nas terras altas, organizávamos pequenas exposiçons de fotografias e gravuras sobre os crimes dos colonialistas franceses e dos fascistas japoneses e sobre a escalada das forças revolucionárias. Nessa ocasiom, mostrávamos as armas e a bandeira da Revoluçom e dávamos-lhes a conhecer a U. R. S. S. e a revoluçom mundial.

Algum tempo depois, o Comité provincial de Cao Bang foi reorganizado. No princípio de Novembro de 1942, tivo lugar o Congresso da Liga Viet Minh de Cao Bang, no decurso do qual foi eleito o Comité provincial. O aparelho de organizaçom da Liga estava a postos, doravante, do escalom da comuna ao da província, passando polo cantom e polo distrito. Nos cantons e distritos "a cem por cento" organizárom-se eleiçons democráticas a partir do escalom comunal. Após o que se formou o Comité interprovincíal de Ca-Bac-Lang (províncias de Cao Bang, Lang Son e Bac San).

Ligávamos a maior importáncia à educaçom política, para disseminar o movimento.

— É preciso primeiro conquistar o povo, dizia o Tio Ho, antes de abordar o problema da insurreiçom.

Para alargar e consolidar as organizaçons de base, abriram-se numerosos cursos de formaçom política acelerada nos diversos distritos. Mas os militantes de base gostavam pouco de abandonar as suas vilas e aldeias: isso prejudicava os trabalhos nos campos, sem contar que se arriscavam a ficar "queimados". Para superar estas dificuldades, os "instrutores" foram organizados em equipas móveis. Cada localidade tinha de preparar um centro clandestino, fonge da aldeia, onde os militantes fossem, por turnos, com víveres, para seguir cursos, durante cinco a sete dias. Ao fim de um certo tempo, quase todos os militantes das aldeias tinham passado por estes estágios. O Comité interprovincial decidiu abrir novos cursos a nível superior destinados a receber rapazes e raparigas que nom figessem parte dos Comités executivos das organizaçons de base. Eram numerosos os elementos de confiança que, nas associaçons para a salvaçom nacional, pediam para frequentar estes cursos. No final de cada estágio, invariavelmente, organizávamos umha pequena festa de amizade, para a qual eram convidados os delegados de todas as camadas da populaçom: cantava-se, dançava-se, hauriam-se novas forças para as tarefas futuras.

O Tio Ho ensinava directamente aos militantes e, às vezes, aos camponeses, na vizinhança do P. C. Os militantes locais, à parte um pequeno número, nom conheciam a língua vietnamita. As mulheres, sobretudo, ignoravam-na completamente. O Tio Ho recomendou-nos, portanto, com a maior instáncia, que aprendêssemos o Tho. Com os Man Brancos tínhamos mesmo de recorrer ao desenho para fazer compreender as nossas ideias. Para fazer compreender que franceses e japoneses exploravam o nosso povo, representávamos um francês o um japonês batendo em vietnamitas ou um camponês esmagado sob o peso dos impostos e dos trabalhos. Desenhávamos também um Kinh, um Man e um Tho caminhando de mao dada, para sublinhar a necessidade da uniom nacional contra o invasor. Só mais tarde é que as minorias Man tivérom a sua própria escrita. O conteúdo destes cursos era muito simples: depois da exposiçom sumária da situaçom nacional e internacional, nós explicávamos por que razom devíamos travar a luita contra os franceses e os japoneses; falamos depois da preparaçom para a insurreiçom armada, da organizaçom das associaçons para a salvaçom nacional, dos destacamentos de autodefesa, e, por fim, dos cinco pontos do trabalho clandestino. Ensinávamos, assim, a maneira de presidir às reunions, de usar da palavra em público, etc. ...

Eu era responsável por um desses grupos de instrutores. O nosso campo de actividades estendia-se sobre as regions de Hoa An e Nguyen Binh, povoadas de minorias Man Brancos. Todos estes cursos políticos obtivérom um grande sucesso. Aconteceu-me, todavia, um acidente de que sempre me recordarei. Julguei proceder bem, explicando aos militantes, fora do programa habitual, as quatro contradiçons da conjuntura internacional. Depois da última liçom, um dos melhores elementos, a que dávamos o nome de De Tham, levantou a mao para pedir a palavra:

— Pido-lhe que me autorize a retirar-me da Associaçom.

— Mas entom porquê, camarada?

— Eu estou pronto para fazer na Liga todo o que me for pedido. Mas esses estudos som muito difíceis. Nom consigo meter todo isso na cabeça e tenho receio de nom estar à altura.

Eu acabava de receber umha boa liçom: tinha-me esforçado por compor um programa de fácil compreensom, que correspondesse ao nível dos meus alunos, e eis que o camarada De Tham pedia para nos abandonar, porque eu tinha acrescentado ao meu curso... as quatro contradiçons...

Por fins de 1941, o Tio Ho deu ordem, de Pac Bo, para organizar o primeiro destacamento armado de Cao Bang. O grupo compreendia os camaradas Hoang Sam, Bang Giang, Le Tie Thung, Duc Thanh, Tho An, etc..., sob o comando do camarada Le Quang Ba. O destacamento tinha por missom assegurar a protecçom do P. C, consolidar e manter a rede de comunicaçons, ao mesmo tempo que participava na formaçom militar dos milicianos de autodefesa e dos milicianos de choque.

Nas regions conquistadas polo movimento revolucionário, a populaçom, que aderia em massa às associaçons para a salvaçom nacional, organizou entre os jovens alguns destacamentos de autodefesa. O problema da formaçom militar punha-se imperiosamente. De todos os lados se reclamavam quadros militares, de que carecíamos cruelmente. Aqueles de entre nós que possuíam alguns rudimentos tivérom, portanto, de participar nesse trabalho. Tal foi o caso dos camaradas Triet Hung, Le Quang Ba, Hoang Sam e Cap. Foi preciso pensar em escrever umhas brochuras. O Tio Ho redigiu um texto sobre a táctica de guerrilha, em termos simples, fáceis de compreender. O Comité interprovincial, por sua parte, deu ordem para compor o programa de formaçom militar e decidiu adoptar instruçons unificadas. Nom era umha tarefa fácil, porque era inteiramente nova para nós. Quando, por falta de prática de comando, o simples facto de escandir "um, dous" embaraça os monitores, que dizer entom da tropa?

O movimento do treino militar tomou um grande impulso. Cada período durava de cinco a sete dias, sempre que os trabalhos do campo o permitiam. Assim que as organizaçons de autodefesa recebêrom todas a instruçom militar, levantárom-se destacamentos de autodefesa e de assalto, cujos membros foram escolhidos entre os milicianos mais corajosos. Pode-se dizer que nas aldeias "a cem por cento" todos os jovens, praticamente, entrárom nas formaçons de autodefesa e seguírom um ou mesmo dous períodos de treino. Cada aldeia contava umha ou duas secçons de autodefesa e de assalto, bem organizadas e bem treinadas.

Ao mesmo tempo, o Comité interprovincial organizava cursos para formaçom de quadros militares. Estes cursos duravam, em geral, um mês, com cinqüenta a sessenta alunos em cada promoçom.

Apesar de todos os entraves nascidos do próprio facto da clandestinidade, as escolas edificadas na floresta nom eram isentas de envergadura. Qual nom foi a estupefacçom do inimigo quando conseguiu descobrir a localizaçom da escola militar da terceira promoçom do cantom de Kim Ma; encontrou grandes edifícios, cobertos de folhas de palmeira, bastante vastos para abrigar centenas de pessoas. Nom faltava nada: anfiteatro, dormitórios, refeitórios, salas de armas, terrenos de exercícios de cinqüenta, sessenta lances... No fim de 1943, na regiom de Nuoc Nai, no distrito de Hon An, pôde-se assistir em pleno dia a revistas de tropas e a manobras que compreendiam quatrocentos e quinhentos combatentes, às vezes mesmo mil, numha regiom que englobava vários cantons. Este rápido crescimento das Forças Armadas traduz bem o ambiente entusiástico que preludiava a insurreiçom geral.

O abastecimento de armas e muniçons punha um problema de nom menor gravidade. Cada miliciano da autodefesa devia arranjar a sua própria arma: sabre, punhal, carabina de caça ou espingarda. Em certos sítios, era a própria populaçom que, através de peditórios, comprava na China mosquetes de fabrico local. Cada miliciano também se devia munir com um rolo de corda para se treinar na captura dos traidores. O Comité interprovincial decidiu instalar umha forja para experimentar fabricar granadas e minas. Esta oficina, colocada sob a responsabilidade do camarada Cap, agrupava cinco ou seis operários. As matérias-primas eram fornecidas pola populaçom local, que enviava pratos de cobre, marmitas de ferro fundido ou bacias de folha. A escolha de localizaçom foi delicada: decidimo-nos, por fim, por um vale encaixado atrás da cadeia do Blockhaus Vermelho, o que abafava os ruídos dos martelos na bigorna. Depois de alguns meses de experiências arrazantes, a primeira mina viu a luz do dia. Na experiência, cada umha das partes que a constituía, tomada separadamente, revelou-se plenamente satisfatória. No dia J. os camaradas Vu Anh e Tong convidárom-me para vir ver explodir a mina. O local escolhido era próximo da forja, num circo de altas falésias rochosas. A mina foi colocada numha cavidade, no sopé da montanha, enquanto que os espectadores se instalavam nos cimos, atrás de grandes rochedos, para se proteger dos estilhaços. Umha corda de cem metros comandava a explosom. Nós esperávamos, com o coraçom palpitante. O camarada Cap gritou: "Fogo!" Nós tínhamos os olhos fixados na mina. Libertou-se um pouco de fumo... depois, mais nada... Nem a menor explosom.

Um camarada das minorias Tho desatou a rir e gritou no seu dialecto: "Te nang du Ty" (continua sentada no sítio).

Assim falhou o nosso primeiro ensaio.

Mas o camarada Cap nom se desencorajou. Continuou encarniçadamente as pesquisas e acabou por conseguir.

Esta famosa forja funcionou até à Revoluçom de Agosto e foi ampliada com o andar do tempo: tornou-se a oficina de armamento Sam Lon, que prestou imensos serviços durante a resistência, fornecendo regularmente a frente com armas e muniçons. A forja do Blockhaus Vermelho foi, por assim dizer, a nossa primeira oficina de armamento.

3. A marcha para o Sul

Desde o seu regresso ao país, na regiom fronteiriça, o tio Ho preocupara-se constantemente em conservar o contacto com o Comité Central que se encontrava no delta. Quando a oitava Sessom do Comité Central decidiu a formaçom de duas bases revolucionárias no Viet Bac, a ligaçom entre Cao Bang e a regiom de Bac Son-Vu Nhai tornou-se umha necessidade imperiosa.

Além da nossa rede de ligaçom clandestina, era-nos necessário urgentemente organizar entre Cao Bang e o delta outras numerosas ramificaçons nas populaçons locais. Assim, em caso de repressom, poderíamos conservar o contacto e preservar as possibilidades de contra-ataque.

Para estabelecer a ligaçom em direcçom do delta, tínhamos de passar por regions habitadas polos Tho e os "Man de sapecas". Começamos um trabalho de agitaçom entre estes últimos. Tal como os Man Brancos, os "Man de sapecas" som honestos e leais. Também eles estavam saturados com o imperialismo e prontos para a insurreiçom. A hospitalidade e a ajuda mútua eram de tradiçom entre eles. Entusiasmárom-se com a ideia de se juntar numha liga para expulsar os colonialistas e fascistas, mas só concediam a sua confiança após a prestaçom de um juramento solene, segundo os ritos tradicionais. Para lhes provar a nossa boa fé, tomamos parte nessas cerimónias. Juramos sobre as nossas cabeças unirmo-nos como irmaos no seio de umha mesma família para expulsar das nossas aldeias os japoneses e os franceses, em nome da Pátria, segundo o programa da Liga Viet Minh; juramos conservarmo-nos solidários nos momentos mais críticos e nunca trair a Liga, nem mesmo sob a tortura. Para selar os nossos juramentos, mergulhávamos um pau de incenso aceso na água ou cortávamos a cabeça de um frango com um golpe seco de machete.

A partir da altura em que o movimento assumiu maior envergadura, o inimigo desencadeou a repressom. Unidades de Ngan Son, Nguyen Binh e Cao Bang subírom até ao cantom de Kim Ma, que cercaram. Bloquearam todas as vias de comunicaçom, estradas e pistas, para dar caça aos militantes e deitar a mao aos nossos serviços clandestinos. Polo meu lado, eu estava em vias de abrir um curso político com o camarada Thiet Hung e, ainda por cima, sofria de umha crise de paludismo. A populaçom aconselhou-nos a abandonar a regiom: "Desta vez é umha grande operaçom. A tropa chegou até aqui para os prender, seria melhor suspenderem por um momento as actividades da liga e retirarem-se para a floresta." Assim que soubérom a notícia, o Tio Ho e o Comité inter-provincial enviárom-nos emissários para que voltássemos ao P.C., mas nós pensamos que, em tais circunstáncias, a nossa partida acarretava o desmembramento das organizaçons de base. Pedimos para ficar.

No mesmo dia, o inimigo entregou-se a umha caçada sem quartel. Guiados polos camaradas Khan e Lac, marchamos em linha recta, sob umha chuva diluviana, através da selva e dos campos, evitando as pistas, durante umha noite inteira. Até de manhá, escalamos cristas e galgamos encostas. De madrugada, o nevoeiro era tam espesso que nom se via a mais de três metros. Polo meio da manhá, quando a neblina se levantou, encontramo-nos no alto de um cabeço escalvado, nas proximidades de umha aldeia que os atiradores repescavam casa por casa. Deitamo-nos de barriga para baixo e rastejamos durante mais de um quilómetro para atingir a orla da floresta, onde retomamos a marcha. Ao meio dia, estávamos esgotados, ao ponto de nom conseguirmos pôr um pé adiante do outro, e foram os camaradas da regiom que, tomando-nos pola mao, nos figérom marchar até ao crepúsculo. Nessa altura, tínhamos atingido o local previsto, no cume de umha montanha muito elevada. Após a construçom, à pressa, de umha cabana para nos abrigar, arquitectamos um plano para retomar contacto com a populaçom e dirigir a acçom contra a repressom.

Depois desta marcha movimentada, eu e o camarada Thiet Hung fomos abalados pola febre durante dous meses e meio. Como medicamento, só tínhamos infusons de raízes "cu ao". Alguns dos nossos militantes, inquietos polo nosso estado de saúde, revestírom a túnica anilada das minorias Cho para ir implorar ao feiticeiro a nossa cura. Mas que podia o feiticeiro? Tivemos de esperar que a ligaçom fosse restabelecida. O camarada Cap, que véu do P.C. Para retomar o contacto conosco, trouxo-nos alguns comprimidos de quinino que nos aliviárom.

Na realidade, esta busca ainda nom passava de umha operaçom de pequena envergadura. Mas como era a primeira na regiom, nom deixou de nos causar sérias dificuldades. O movimento conheceu um recuo durante um certo tempo. Todavia, a propaganda e os cursos políticos continuavam. Depois, todo retomou. As associaçons para a salvaçom nacional, as organizaçons de autodefesa tinham-se retemperado na provaçom. No vale de Kim Ma, ressoou novamente o eco entusiástico dos comícios, preparando a insurreiçom. Depressa foi convocada a primeira Conferência dos Delegados das Minorias Man, que decidiu a criaçom da zona Quang Trung. O movimento retomara o seu fôlego. Por ocasiom do aniversário da Revoluçom de Outubro, os representantes dos cantons de Nguyen Binh e Ngan Son efectuaram umha conferência preparatória com vista à insurreiçom armada, com a participaçom de alguns trezentos delegados e de umha dezena de destacamentos de choque que figérom umha demonstraçom militar.

Para facilitar a nossa propaganda, pusemos em verso o programa da Liga Viet Minh. Eu traduzi-o, igualmente em verso, para o dialecto dos "Man de sapecas" e dos Man Brancos. Adaptamos novas letras sobre árias folclóricas para exaltar a revoluçom. O programa da Liga pro-pagava-se, assim, muito rapidamente e penetrava em profundidade nas massas. Ao chegar a umha aldeia que tínhamos ganho para a nossa causa, tive um dia a surpresa de ouvir raparigas e crianças recitar de cor os versos do programa da Liga, ao mesmo tempo que pilavam o arroz e cerdavam o algodom.

Quanto mais terreno a "marcha para o Sul" ganhava, mais quadros exigia. Correspondendo ao apelo do Comité interprovincial, umha centena de rapazes e de raparigas de Cao Bang abandonavam os seus lares para formar grupos de assalto armados. Arranjaram, polos seus próprios meios, armas, mosquetes ou granadas. O camarada Thiet Hung possuía um revólver caprichoso que falhava um tiro em cada dois. Quanto a mim, tinha umha granada fora de uso que pendurava do cinturom: um apoio moral nunca é para desprezar. Em estreita cooperaçom com os militantes locais, os grupos de assalto armados repartiram-se em diversas formaçons que se dirigírom para o sul em missom de propaganda. O grupo de assalto encarregado de dar início à operaçom partia em primeiro lugar.

Contactava os militantes locais para um trabalho de inquérito e de propaganda e depois levantava organizaçons de base. Vinha depois o grupo encarregado de consolidar os primeiros resultados. Fazia a escolha entre os simpatizantes dos elementos seguros e abria em sua intençom cursos políticos acelerados. Os quadros assim formados tornavam-se o fulcro da expansom do movimento.

Para acelerar o trabalho, em lugar de abordar simplesmente as aldeias pola ordem topográfica, dávamos às vezes um salto em frente. Quando as condiçons o permitiam, nom hesitávamos em enviar para longe um grupo de assalto, que se deslocava clandestinamente, para ir organizar umha aldeia onde as massas já estivessem mais ou menos consciencializadas. Este grupo alargava-se e estabelecia, pouco a pouco, o contacto com as antigas bases. Baptizamos este método de "táctica de paraquedismo".

No decurso da nossa marcha para o Sul, aconteceu-nos um incidente que merece ser relatado:

Acompanhando os progressos do movimento, eu descera, pouco a pouco, do cantom de Kim Ma até Agan Son para controlar o trabalho e abrir cursos de formaçom para os quadros regionais. Estava sobre umha montanha, nas proximidades da capital do distrito de Ngan Son, quando recebi umha carta urgente do camarada Tong: convocaçom imediata para o P. C. Voltei à pressa para Cao Bang. Assim que cheguei, os camaradas Tong e Vu Anh anunciárom-me que o Tio Ho tinha sido preso durante umha missom na China e que acabava de morrer de doença na prisom.

Eu estava a cem léguas de esperar umha tal notícia. todo começou a girar à minha volta. O Tio Ho já nom existia! Que perda para o nosso Partido, para o nosso povo! Discutimos a redacçom de um relatório para informar o Comité Central e a organizaçom de umha cerimónia em sua memória. O camarada Tong ficava encarregado de pronunciar a oraçom fúnebre. O camarada Cap trouxo a mala de verga do Tio Ho, onde pensávamos encontrar alguns objectos para conservar como recordaçom. Projectamos também enviar o camarada Cap à China para tentar localizar o túmulo.

Alguns dias mais tarde, eu retomava o caminho para continuar a minha missom. Nunca esquecerei aquela noite em que, em companhia de um camarada de "marcha para o Sul", atravessei montanhas desertas, cobertas de capim. Fazia um frio cortante. Comprimia-me umha tristeza infinita. Sentia-me como que abandonado. De lágrimas nos olhos, olhava as estrelas na imensidade do céu.

Aigum tempo depois, recebemos um jornal enviado da China. À margem, algumhas linhas em caracteres chineses. Eram do punho do Tio Hol

"Para todos, boa saúde e muita coragem no trabalho. Aqui, todo vai bem".

Seguiam alguns versos:

"As nuvens abraçam os montes
os montes estreitam as nuvens
O rio é um espelho que nada embacia
Sobre a crista dos montes do Oeste
Solitário, caminho, emocionado
Perscruto, ao longe, o céu do Sul
E penso nos meus amigos."

A nossa alegria foi inenarrável.

Fomos mostrar o jornal ao camarada Cap:

— Entom, que quer isto dizer?

— Eu mesmo nom percebo nada, respondeu-nos ele. Foi o próprio governador de Kuomintang que me anunciou, quando eu estava na China, que Nguyen Ai Quoc tinha morrido.

Nós pressionávamos Cap com perguntas:

— Tenta lembrar-te. Que disse ele exactamente em chinês?

Cap acabou por se recordar: o governador chinês, ao falar do Tio Ho, pronunciara as palavras "su lo, su lo" que significam "bem, bem" mas o nosso camarada tinha-as interpretado mal porque basta umha mudança no acento tónico da primeira palavra para que a expressom signifique "já morto, já morto".

Fomos sacudidos por um louco ataque de riso. Mas o facto é que tínhamos carregado este peso no coraçom durante meses e meses.

Por volta de Agosto de 1943, a estrada para o Sul estava aberta. Foi essa que tomei para me dirigir ao delta, a fim de lá encontrar o camarada Ba, isto é, Chu Van Tan.

Tínhamos conseguido organizar as massas num sector bastante vasto. A nossa pista atravessava várias cadeias de montanhas e diversos vales, ao passar polas aldeias das minorias Tho, "Man de sapecas" e Man vermelhos.

Por toda a parte, à minha passagem, reinava umha atmosfera febril de preparativos para a insurreiçom. O moral da populaçom era excelente. As minorias Tho, tal como as minorias Man, estavam ganhas para a nossa causa. Elas reservavam aos revolucionários um acolhimento dos mais calorosos. Todas as aldeias Man que se escalonavam na estrada em direcçom ao cume do Monte Phia Booc (um dos cumes mais elevados da regiom, no qual nom cessa de chuviscar, ao longo de todo o ano, mesmo quando fai bom tempo no vale) trabalhavam para o Viet Minh; as mulheres e as crianças sabiam de cor os versos do programa da Liga em língua Man, bem como várias cançons revolucionárias. Quando os denunciantes subiam até lá, a populaçom fazia todo para esconder e proteger os revolucionários. Nom hesitava mesmo, em caso de necessidade, em nos arranjar esconderijos seguros sob o próprio altar dos génios tutelares, que som lugares absolutamente tabus para os estrangeiros.

Depois de quinze dias de marcha, cheguei perto de Cho Chu por um carreiro montanhoso que passava por cima do posto de Coe. Mais alguns passos e estaria no ponto de encontro. Encontrei o camarada Chu Van Tan num "ray" , em plena selva. Torna-se inútil relatar a nossa alegria! Convocamos imediatamente um certo número de quadros de Bac Son que se encarregavam da agitaçom no local e outros da marcha "para o Sul" para umha troca de impressons. Seguidamente, organizamos umha festa íntima; quando a noite caiu, dormimos ao ar livre sob as folhas da latánia.

O camarada Tan traçou-nos um quadro da situaçom em Thsi Nguyen e no delta. As nossas organizaçons de base tinham-se implantado fortemente em Bac Son e Vu Nhai e o movimento ganhava as regions de Cho Chu e Dai Tu. O inimigo prosseguia na sua politica de repressom. O camarada Tan contou-nos ainda que tinha sido enviado um relatório ao Comité Central, que nos ia enviar imediatamente um dos seus membros. Anunciavam-nos a sua chegada iminente para cada dia; mas decorrêrom duas semanas sem que o víssemos aparecer. A repressom era tam intensa que nenguma pista se revelava segura. Tive de voltar para Cao Bang, tal como fora previsto a princípio. Eu tinha aproveitado estes dias de espera para escrever umha brochura sobre "A experiência da Liga Viet Minh no Viet Bac", destinada a ser enviada para o delta.

Cheguei a Cao Bang, na véspera da festa do Têt. No último dia do ano lunar, a maioria dos quadros e umha vintena de destacamentos de assalto armados da "marcha para o Sul" reuniram-se para festejar os nossos sucessos. A Liga Viet Minh e a Federaçom do Partido em Cao-Bac-Lang enviárom-nos um galhardete que trazia bordadas as palavras "Assalto vitorioso".

Nesse preciso momento, o inimigo desencadeava o terror branco.

4. O terror branco em Cao-Bac-Lang

Durante os anos de 1942-1943, o movimento da Liga Viet Minh tomara, nas províncias do Cao-Bac-Lang, umha envergadura sem precedentes.

Três dos nove distritos do Cao Bang eram "distritos a cem por cento" (Ha Quang, Hoa An e Nguyen Binh) e tínhamos, aliás, bases por toda a parte. No Bac Can, o movimento estendera-se a quatro distritos. Do lado de Lang Son, já atingia That Khe. E era particularmente forte nas regions Man, particularmente entre os Man Brancos, na regiom de Thien Thuat, e entre os "Man de sapecas", na zona Quang Trung.

Eis algumhas cifras, por exemplo, em relaçom ao distrito de Ha Quang, cuja populaçom muito disseminada è constituída na sua maior parte por minorias Nung. Em 1941 havia 1.053 membros das Associaçons para a Salvaçom Nacional; em 1942, eram 3.096, dos quais 1.049 eram elementos de confiança, aos quais se juntavam 235 milicianos de autodefesa e de assalto; nessa data, o distrito tinha organizado seis cursos de formaçom política e três cursos de formaçom militar acelerada. Em 1943, toda a populaçom tinha aderido às Associaçons para a salvaçom nacional, havia 1.004 milicianos de autodefesa e de assalto repartidos em 15 destacamentos; o distrito tinha aberto onze cursos de formaçom política e 26 cursos de formaçom militar, e a populaçom criara dez escolas de alfabetizaçom.

Umha grande parte dos rapazes e das raparigas participava nas formaçons de milicianos de choque e seguira vários períodos de treino militar. Foram organizadas, por diversas vezes, revistas e manobras militares. As manobras que se desenrolaram na aldeia de Hong Viet, em Julho de 1943, pugérom em acçom mais de mil homens, entre os quais milicianos, quadros da Liga Viet Minh à escala comunal e elementos de confiança das organizaçons para a salvaçom nacional. Visava-se, desta forma, ensinar os quadros a comandar e a empreender o treino dos destacamentos de milicianos de choque. Por outro lado, estas manifestaçons de força acabavam por dar confiança às massas revolucionárias, ajudavam a conquistar os elementos indecisos e intimidavam os reaccionários locais. Mas um tal método expunha-nos facilmente ao risco de descobrir as nossas forças, desvendar os nossos segredos e provocar a repressom.

Havia também a preocupaçom de armazenar víveres. Cada distrito tinha os seus celeiros de arroz e milho, com vista à insurreiçom. Os camponeses cavavam abrigos no mais profundo da floresta; faziam queimadas para secar e endurecer a terra, revestiam os buracos de madeira e instalavam fá estacas de bambu; a umha dada altura fechavam a cofragem com pranchas e estacas e recobriam todo de terra. As compras de armas tinham tomado as proporçons de um movimento de massas. Cada família procurava, por todos os meios, comprar armas de contrabando aos soldados das forças de Chang Kai-Chek, em risco de vender arroz ou um búfalo para as pagar. Em diversos locais, instalárom-se forjas para reparar as espingardas de pederneira, as carabinas de caça e fabricar armas brancas, catanas, sabres, punhais, etc... Os nossos compatriotas correspondiam magnificamente e em massa às colectas de ferro, de cobre, de socos de charrua, de bacias e pratos de cobre, ferragens, etc...

Os colonialistas franceses, vendidos de momento aos fascistas japoneses, punham em acçom todos os meios de que dispunham, na esperança de sufocar no ovo a insurreiçom armada. Eles conduziam a par umha repressom feroz e manobras demagógicas: a cenoura e o chicote. Procuravam, em primeiro lugar, liquidar as nossas organizaçons de base e cortar as vias de abastecimento dos quadros clandestinos. A seguir, desencadeavam operaçons militares para deitar a mao aos P.C. secretos do Viet Minh.

Eu acabava de abandonar o camarada Chu Van Tran, na regiom limítrofe de Cho Chu e Cho Don, para voltar a Cao Bang. A meio caminho, perto da cabeça de cantom de Bac Can, tive ensejo de constatar as primeiras manifestaçons deste terror branco. Chegado a Na Lum, aldeia isolada no cume do monte Phia Booc, cujo nome significa "arrozal abandonado", recebi umha carta do camarada Duc Xuan, chefe do Destacamento de Propaganda de assalto da "marcha para o Sul", assinalando-me um avanço do movimento e propondo-me vir participar num comício no vale. Duc Xuan era um excelente propagandista, muito activo e valente, que compunha belas cançons populares. Eu já chegara a umha aldeia, no sopé da montanha, quando soubem que o inimigo tinha enviado tropas contra a nossa base, perto de Phu Thông. Por falta de vigiláncia, o camarada Duc Xuan tinha sido surpreendido e abatido em plena reuniom. O inimigo tinha-lhe cortado a cabeça e os braços para os expor no mercado.

A nossa estrada encontrava-se cortada, portanto a populaçom estava em pánico.

Dei meia volta e, através de pistas que atravessavam a cadeia de Phia Booc, alcancei Cao Bang. Também aí o inimigo intensificava a repressom. Interessava-se particularmente polas regions onde se tinham desenrolado grandes manobras militares.

O P.C. do Comité interprovincial, que se encontrava no vale de Lam Son, tinha sido cercado pola tropa diversas vezes. Um dia, o inimigo abriu um fogo nutrido de morteiros sobre a sede do jornal Viet Nam Independente, mas sem qualquer resultado. Aliás, os atiradores que enviavam contra nós pouco brilhavam pola coragem. Bastava que um dos rapazes do P. C. gritasse: "Ao assalto!" para os fazer dar às pernas a grande velocidade.

De resto, o inimigo experimentava a astúcia. Colava proclamaçons, juntava a populaçom e recomendava-lhe que tratasse tranquilamente das suas ocupaçons, sem se deixar influenciar polos "rebeldes Viet Minh". O mesmo inimigo declarava que garantia a todos os que se tinham aliado à resistência a liberdade de voltar para casa e convidava os quadros clandestinos a passar para o serviço do "Governo". Resultado: um fiasco completo! Nengum dos nossos caiu na armadilha: os nossos partidários tinham sido preparados para essa eventualidade.

Perante estes reveses, eles prosseguírom a repressom. Reforçaram a sua rede de denunciantes, instalaram torres de vigia nos pontos nevrálgicos e nas localidades mais revolucionárias. Criaram novos "Bang ta" (notáveis das minorias), aumentaram os efectivos da guarda indígena e organizaram tropas francas móveis. Procuravam e prendiam os quadros revolucionários, incluindo os próprios pais. Toda a família que possuía quadros entre os seus membros ou que era suspeita de manter relaçons com os resistentes arriscava-se a ver a sua casa incendiada e os seus bens confiscados. Em muitas localidades, os celeiros onde se ocultavam os víveres fôrom descobertos e incendiados. Numerosas aldeias fôrom arrasadas implacavelmente. Quem quer que fosse encontrado na posse de documentos Viet Minh era imediatamente passado polas armas, decapitado e mutilado, com a cabeça e os braços expostos no mercado. A cabeça dos nossos militantes estava a prémio. A menos cara valia 1.000 piastras e umha tonelada de sal; algumhas eram cotadas até 20.000, mesmo 30.000 piastras.

Tirando a experiência do terror branco em Bac Son e Vu Nhai, o inimigo deu ordem de concentrar as aldeias. Todos os habitantes de povoados de menos de vinte casas recebêrom ordem de se reagrupar em pontos determinados. As casas eram desmanteladas. Quantas vezes, do alto da montanha, com o coraçom oprimido, fomos as testemunhas impotentes dos incêndios que destruíam, no vale, as casas dos nossos camaradas. De umha ponta à outra da zona de Cao-Bac-Lang, só havia ruína e desolaçom.

Nos novos centros de concentraçom, a populaçom levava umha vida das mais miseráveis. Toda a aldeia importante devia ser cercada por umha tripla barreira de bambus e assegurar a vigiláncia nocturna. O controlo de identidade tinha lugar todos os dias. Recolher das 6 da tarde às 6 da manhá. Proibiçom absoluta de trazer arroz para fora da aldeia. Alguns camponeses foram fusilados no próprio local, polo simples facto de transportarem um saco de rebentos de arroz para acautelarem as sementeiras, ou por levarem um cesto de arroz para o mercado.

Alguns agentes infiltrárom-se nas nossas fileiras. Nom se passava um único dia sem que a tropa figesse irrupçom nas aldeias para massacrar, pilhar, incendiar, obrigar a populaçom a executar tarefas forçadas ou a assinar papéis polos quais se comprometia a nom voltar a seguir o Viet Minh.

Perante esta situaçom, o Comité interprovincial do Cao Bac Lang decidiu mobilizar as massas para reagir. As células do Partido, os Comités Viet Minh de aldeia, deviam organizar o seu "comité de assalto antiterrorista" com os membros do Partido e os melhores elementos das Organizaçons para a Salvaçom Nacional. Paralelamente, reforçamos as medidas contra as infiltraçons de reaccionários nas organizaçons patrióticas. A populaçom nom se deixava abater. Todas as vezes que a tropa entrava na aldeia para a saquear, os nossos jovens militantes, rapazes e raparigas, espalhavam-se polas casas para levantar o moral das pessoas. No entanto, as atrocidades do inimigo nom deixárom de provocar localmente algumhas flutuaçons. Houvo aldeias onde a populaçom propujo suspender as actividades da Liga. Noutra parte, uns cinqüenta rapazes e raparigas refugiárom-se nas florestas.

O comité interprovincial do Cao-Bac-Lang forneceu directivas aos quadros que viviam ainda na legalidade: reforçar a vigiláncia para nom cair nas maos do inimigo, preparar-se para passar à clandestinidade, nom dormir à noite em casa; durante o dia, fazer-se acompanhar polos guardas de corpo, ter à mao um vasto "stock" de víveres para dous ou três meses, conservar o contacto com os responsáveis para poder passar à clandestinidade em caso de alerta. O número dos clandestinos aumentava rapidamente. O Comité interprovincial decidiu organizá-los em "núcleos clandestinos", encarregados de manter o movimento. Cada "núcleo clandestino" agrupava os camaradas de umha ou duas comunas, na sua maior parte membros do Partido que tinham tido de fugir de casa para se esconder nas florestas. Tinha o seu P.C. Numha pequena cabana insignificante -algumhas esteiras de bambu para dormir, um tecto de ervas secas ou folhas de bananeira- no alto da montanha, em plena selva. A vereda que levava ao meu P.C. seguia o leito de um ribeiro que descia em cascatas: impossível passar sem ser com a corrente, o que apresentava a vantagem de apagar qualquer vestígio; mas cada vez que chegávamos à cabana estávamos encharcados.

Um "núcleo clandestino" agrupava, em geral, quatro a cinco pessoas, por vezes mesmo dez, que viviam de acordo com umha estrita disciplina. O emprego do tempo seguia um programa rigoroso, repartido entre a agitaçom de massas, o estudo político e o treino militar. O dia era consagrado aos estudos e aos trabalhos agrícolas. Comia-se cedo, por volta das três ou quatro horas da tarde. Ao cair da noite, os clandestinos safam da selva. Tinham umha palavra de passe ou um grito combinado para se fazerem reconhecer polos membros do Partido ou polos elementos de confiança das nossas organizaçons que, com desprezo da própria vida, lhes vinham trazer víveres, fazer o ponto da situaçom e pedir directivas para travar a repressom, que incidia sobre esta ou aquela localidade, este ou aquele lugarejo. Pola noite adiante, eles dormiam algumhas horas ao ar livre, quando o tempo o permitia. Ao alvorecer, retomavam o caminho do P.C. Para nom causar aborrecimentos à localidade, era necessário atingir a selva a todo o custo, antes que a bruma matinal se levantasse. Esta vida, cheia de perigos e privaçons, esta vontade tenaz de permanecer em contacto com as organizaçons de base da populaçom insuflou umha poderosa combatividade às massas revolucionárias.

O inimigo via bem a impossibilidade de cortar a ligaçom entre o Partido e as massas, entre os núcleos clandestinos e os povoados. Intensificava a repressom, implantando postos por toda a parte; cercava os maciços montanhosos e penetrava na selva, impelindo diante das suas colunas a populaçom civil dos vales. De noite, enviava patrulhas armar emboscadas na confluência dos rios. Em pleno Verao, algumhas patrulhas nom hesitárom em incendiar florestas suspeitas. Um dia, pouco nos faltou para sermos queimados vivos: um abrigo, perto de um riacho, tinha sido descoberto. Vários P.C. de núcleos clandestinos foram cercados subitamente. A regiom de Bac Can era visada particularmente. Aconteceu-me ficar bloqueado, com o camarada Hoang Sam e dous militantes locais, três dias seguidos, no cume de umha montanha, no cantom Hoang Hoa Tham. Ficamos reduzidos a recolher a água dos bambus e a seiva de certas lianas para fazer o nosso arroz. Mas tivemos mais sorte que muitos dos nossos camaradas que caíram sob os golpes da repressom. Todas as vezes que o inimigo descobria um P.C. clandestino arrasava as aldeias das proximidades. No cantom Hoang Hoa Tham, onde o movimento se desenvolvera poderosamente, dous terços da populaçom tinham abandonado as aldeias para se refugiarem na selva.

Registava-se um recuo provisório do movimento das massas. Evidentemente que o sentimento nom mudara, mas as pessoas estavam tam aterrorizadas que chegavam a dizer: "No dia da insurreiçom, nós havemos de levantar-nos para esmagar o inimigo, mas, até lá, nom contem connosco. Basta contactar um clandestino para fazer arrasar a aldeia toda". Mas se as nossas bases nas massas se desmoronavam, coma poderíamos algumha vez desencadear a insurreiçom?

Era necessário manter, a todo o custo, as nossas organizaçons nas massas. Foi isso que explicamos em todas as células do Partido, a todos os quadros e militantes de base. Fossem quais fossem as dificuldades, devíamos manter a ligaçom com as massas. A repressom devia dar azo a seleccionar os elementos de confiança.

Após a reuniom, os quadros dos núcleos clandestinos partiam, cada um para o seu sector, com um fardo de arroz. Eles tomavam contacto com a populaçom a caminho do mercado ou nos campos. Davam-lhe a conhecer as vitórias da U.R.S.S. e dos Aliados, a subida impetuosa da revoluçom no delta, explicavam que a repressom seria impotente e traçavam planos com as pessoas para prosseguir as actividades da Liga. Na reuniom seguinte, começávamos por fazer a chamada: havia fortes possibilidades de se registar umha ausência, se nom mais. Em geral, os que faltavam nos prazos previstos tinham caído no exercício da sua missom.

Em certas regions, tínhamos de nos contentar, durante meses, com milho ou farinha de arroz; noutras, desenterravam-se tubérculos para substituir o arroz. No meu sector, comemos, durante meses, arroz com folhas de bananeira selvagem. Púnhamo-las a cozer em água salgada até que desaparecesse todo o vestígio de um sumo negro e viscoso, particularmente acre: mesmo assim, queimava-nos o estômago. Com um tal regime, quase nom tínhamos força sequer para galgar as encostas das montanhas e as nossas pernas tremiam.

5. No sentido da luita armada

Se os ataques lançados polo inimigo tinham reduzido as nossas bases, por outro lado tinham-lhes dada têmpera. Algum tempo depois, em várias regions, o movimento reavivou-se e começou a orientar-se para a luita armada. O Comité interprovincial do Cao-Bac-Lang deu, aos núcleos clandestinos, ordem para se "militarizarem", isto é, para se proverem de armas e muniçons, e intensificarem o treino militar; as actividades militares deviam emparceirar com as actividades políticas. Os núcleos clandestinos receberam, portanto, a ordem de "viver como guerrilheiros", isto é, em alerta permanente, as bagagens ao alcance da mao, prontos a partir ao primeiro sinal.

Os distritos formavam destacamentos armados de sete a doze combatentes, livres de qualquer trabalho de produçom e, onde as condiçons o permitiam, formavam umha secçom. Estas unidades regionais encarregavam-se da propaganda armada, executavam os reaccionários mais perigosos, teciam emboscadas às patrulhas para conservarem o controlo das montanhas e das florestas. Entretanto, para evitar represálias à populaçom, o seu campo de actividade mantinha-se afastado o mais possível das organizaçons de base e, por esse simples facto, achava-se muito limitada.

A nossa "estrada para o Sul" fora cortada em diversos pontos. Nós enviávamos grupo de assalto sobre grupo de assalto para os sectores ameaçados, a fim de apoiar a populaçom local e manter as nossas organizaçons de base, mas sem obter senom resultados parciais. No princípio de 1944, a ligaçom com o delta tornou-se umha necessidade imperiosa. Por ordem do Partido, reagrupamos vários destacamentos armados locais para formar a Secçom da "Marcha para o Sul". Foi decidido avançar no mais absoluto segredo, através da seiva, para restabelecer a ligaçom com as nossas organizaçons de base no sopé do monte Phia Booc.

No nosso caminho, várias aldeias tinham sido arrasadas. A vigiláncia, nos povoados controlados polos postos, era das mais severas. A partir de Kim Ma, a nossa secçom tomou a direcçom do Sul, marchando de noite, descansando durante o dia. O avanço era penoso. Chovia sem tréguas. As águas faziam transbordar os ribeiros, que inundavam os caminhos. Encharcados até aos ossos, detínhamo-nos por vezes nas grutas, onde acendíamos um pequeno lume para nos aquecermos e secar as roupas. Depois, a marcha retomava. Por volta das seta ou oito horas da manhá, procurávamos um local bem abrigado, onde repousávamos das nossas fadigas, estendidos sobre folhas de latánia. Algumhas vezes, para atingir umha das bases, tínhamos de caminhar durante duas ou três noites ininterruptamente, através de aldeias inteiramente controladas por reaccionários, onde a única pista a seguir passava nas proximidades dos postos de guarda. Avançávamos entom com precauçom, evitando o menor ruído, o chapinhar de um passo na lama, o choque de um pau numha pedra.

Após oito ou nove dias de marcha, ultrapassamos Cho Ra e atingimos o ponto de contacto. Junto do monte Phia Borc. Um certo número de militantes que acompanhavam a secçom armada tinham trazido umha pedra litográfica, papel e tinta, para fazer aparecer um jornal ali mesmo, depois da tomada de contacto com as organizaçons de base e depois de consolidado o movimento na regiom e estabelecido o P.C. Se bem que arrasados pola fadiga, ardíamos de entusiasmo; em lugar de repousar, começamos a abater árvores para construir as cabanas; por essa altura, encarreguei o camarada Thank Quang, cuja família se encontrava em Cho Ra, de ir contactar as organizaçons de maior confiança da regiom. Voltou à noite, com tristes notícias; nas aldeias em redor, todas as organizaçons tinham sido desmanteladas e incendiadas numerosas casas de militantes. A populaçom prevenira-o para que se acautelasse, desenroiava-se umha grande busca e os atiradores batiam a floresta. Estabelecemos quartos de sentinela à volta do acampamento provisório e, após umhas horas de sono, retomamos o caminho para Cao Bang. Como nom previra mos a eventualidade de um recuo, tivemos de nos contentar com sopa de arroz no caminho da volta. No fim da viagem, todos nós cairíamos doentes.

Esta grande campanha de repressom causou-nos muitas dificuldades, mas as provaçons temperam os militantes e as massas e inculcam-lhe um espírito de sacrifício muito desenvolvido. Ora essa era precisamente umha das condiçons essenciais da insurreiçom.

No mês de Junho de 1944, o terror branco desencadeado polos franceses atingiu o paroxismo. Todos os dias se ouvia o eco da fusilaria. O povo esperava com impaciência os primeiros tiros da revoluçom. Toda a regiom do Cap-Bac-Lang nom passava de um barril de pólvora prestes a explodir.

No mesmo momento, no plano internacional, o fascismo caminhava para a derrota. Na Europa, após Estalinegrado e a contra-ofensiva geral do Exército soviético, os Aliados tinham aberto a segunda Frente. No Pacífico, a iniciativa das operaçons tinha escapado das maos dos japoneses, cujas bases navais mais importantes no ultramar caíam umhas após outras.

No princípio de Julho de 1944 deu-se a queda do Governo de Pétaín. De Gaulle reentrava em França na esteira das tropas anglo-americanas e formava o novo Governo. Na Indochina, esta evoluçom da situaçom acabou de cavar as contradiçons entre fascistas japoneses e colonialistas franceses. Impunha-se a perspectiva de um golpe de força nipónico.

O movimento revolucionário ganhava terreno por todo o país. A organizaçom da Liga Viet-Minh alarga-se de dia para dia. A opiniom pressentia e desejava umha grande convulsom.

Cerca do fim de Julho de 1944, o Comité interprovincial de Cao-Bac-Lang convocou umha conferência de quadros a fim de discutir o problema da insurreiçom armada. Todos os responsáveis do Sector estavam presentes. Ao passar em revista os nossos efectivos, podíamos constatar que os esforços dos imperialistas nom tinham sido muito eficazes: todos os nossos dirigentes tinham podido escapar ao terror branco.

A conferência desenrolou-se numha vasta gruta, em plena selva. A sala de reunions tinha sido arranjada com cuidado: arco de triunfo, grande mastro para a bandeira, filas de mesas para as delegaçons, camarata e refeitório. Em redor, à passagem de cada garganta do caminho, tinha-se disposto umha tríplice rede de sentinelas; ao lado dos militantes Man locais, alguns destacamentos armados tinham vindo dos distritos para reforçar o dispositivo de segurança. Após meses de umha luita encarniçada, meses passados a roçar pola morte, encon-trávamo-nos, enfim, reunidos para debater o problema que mais profundamente nos tocava. Pode calcular-se a nossa alegria. Nela se misturava um pouco de orgulho, orgulho polo nosso povo e polo nosso Partido; era de toda a evidência que a repressom nunca poderia bater a revoluçom.

O relatório político apresentado à conferência achava que "a conjuntura nacional e internacional e a situaçom do movimento no Cao-Bac-Lang tinham criado as condiçons para o desencadeamento da guerrilha nas três províncias".

As discussons que se seguírom chegárom rapidamente à resoluçom de fazer eclodir a insurreiçom o mais cedo possível, para corresponder à tensom criada polo "terror branco". Todos os delegados aclamárom esta decisom.

No dia seguinte, a conferência discutiu o sentido da palavra "insurreiçom" e decidiu substituí-lo por "desencadeamento da guerrilha", a fim de evitar equívocos na interpretaçom. Foi fixado um prazo para ultimar todos os preparativos.

Segundo o plano do Comité interprovincial, todas as regions deviam pôr de pé umha nova promoçom de chefes de destacamentos e de comissários políticos para atingir o montante previsto. Por outro lado, importava formar um certo número de quadros de reserva: todos os militantes clandestinos dos dous sexos, se a saúde lho permitia, deviam fazer um estágio para esse efeito. Incumbia ao Comité interprovincial organizar cursos de formaçom de chefes de secçons e de comandantes de companhia.

Abrimos, de urgência, nas regions sob o nosso controlo, cursos políticos em intençom dos militantes locais. Estes militantes eram escolhidos entre os elementos mais seguros e estimados da populaçom. Preparámo-los tanto para a guerrilha contra os japoneses como para a administraçom, a fim de que, no momento preciso, eles instaurassem o poder popular provisório.

As diversas localidades deviam aplicar o plano do Comité interprovincial para o recrutamento dos militantes de choque nas unidades de guerrilheiros. Estes homens repartiam-se em dous grupos: o primeiro, recrutado imediatamente ao momento da eclosom da guerrilha, enquanto que o outro constituiria o corpo da reserva. Divididos em grupos e secçons, recebiam um treino acelerado e deviam conservar-se prestes a entrar em campanha de um momento para o outro.

Era preciso, urgentemente, comprar e fabricar mais armamento, granadas em primeiro lugar. Cada espingarda de repetiçom devia conter cinqüenta cargas. As reservas de víveres, das quais umha parte composta de alimentos secos, deviam permitir resistir durante seis meses, para passar o período intercalar entre a apanha de arroz do ano em curso e a de milho do ano seguinte.

Os Comités de distrito deviam reorganizar a rede clandestina de ligaçom, os serviços de batedores, e ensinar à populaçom algumhas noçons sobre o trabalho de informaçons.

Desde há muito tempo que nós ensináramos a populaçom a criar o vácuo face ao inimigo e, em diversas localidades, tinham-se cavado silos para esconder os rebentos do arroz. Só nos faltava generalizar esta prática em todos os cantons, para bem acautelar as reservas de víveres. No que di respeito à evacuaçom da populaçom, insistíamos neste princípio: enquadrar e organizar sempre os evacuados de forma a que podam, ao mesmo tempo, prosseguir os trabalhos agrícolas e dar umha ajuda eficaz na frente.

A fim de estimular o movimento e preparar o desencadear da guerrilha, foi dada ordem aos destacamentos armados para repelir todos os ataques e garantirem-nos assim o controlo das florestas e das montanhas.

Todos os quadros e membros do Partido se lançárom desvairadamente nestes preparativos, desenvolvendo umha actividade intensa mas silenciosa, característica de toda a actividade clandestina. Viam-se velhas vender quase todo o que possuíam para comprar armas para os filhos. Em diversos distritos, velhos adoptárom resoluçons intimando os jovens dos dous sexos a alistarem-se no exército, ao primeiro apelo de mobilizaçom. O povo vivia na esperança e na ánsia febril das vésperas da insurreiçom.

Os nossos quadros organizavam reunions públicas para explicar à populaçom que o desencadear da guerrilha nom implicava forçosamente numha vitória fulminante, que era preciso contar com sacrifícios e, localmente, com alguns reveses de momento. Depois da eclosom da guerrilha, esperavam-nos muitos perigos e provocaçons. Todo este trabalho de explicaçom foi muito bem conduzido.

Setembro de 1944!

Terminava a colheita.

O plano dos preparativos tinha-se cumprido em grande parte. Já tínhamos aberto fogo em várias localidades. A atmosfera era de tensom. Todos aguardavam...

6. O destacamento de propaganda do Exército de Libertaçom do Vietname

Para decidir a hora da insurreiçom, o Comité interprovincial projectava organizar umha última conferência. Foi nessa altura que nos chegou a notícia da volta iminente do Tio Ho, que conseguiu sair das prisons do Kuomintang.

Ao chegar a Pac-Bo, ele escutou o relatório sobre a situaçom e a resoluçom sobre o desencadeamento da guerrilha e, a seguir, reuniu os quadros responsáveis para analisar a situaçom. Sublinhou que a resoluçom adoptada incidia unicamente sobre a situaçom do Cao-Bac-Lange, nom sobre o país no seu conjunto; por outras palavras, ocupávamo-nos com umha parte, abstraindo do todo. Em tais condiçons, fazer eclodir a guerrilha em larga escala nas perspectivas da resoluçom do Comité interprovincial, era ir, fatalmente, ao encontro das grandes dificuldades. No país interior, mais nenguma regiom reunia as condiçons requeridas para nos apoiar: o inimigo poderia reagrupar todos os efectivos contra nós. Do ponto de vista militar, a resoluçom nom correspondia ao princípio da concentraçom das forças: os quadros e o armamento estavam dispersos, faltava umha força de base.

O Tio Ho considerou que mesmo que a etapa do desenvolvimento pacífico tivesse sido ultrapassada, nom tínhamos por esse facto chegado à fase da insurreiçom geral. Limitarmo-nos a actividades puramente políticas já nom bastaria para fazer progredir o movimento; mas desencadear imediatamente a insurreiçom seria colocarmo-nos numha situaçom embaraçosa. Era necessário, portanto, passar do campo político para a luita armada, deixando, no imediato, a acçom política ter ainda a precedência sobre a luita armada.

Era necessário encontrar umha fórmula apropriada para dar novo estímulo ao movimento e foi no decurso dessa reuniom que o Presidente preconizou a criaçom do "Destacamento de propaganda do Exército e Libertaçom" que nom devia passar, de momento, de umha formaçom. Ele tinha por missom mobilizar e chamar o povo ao combate. Mas, para começar, devia ligar maior importáncia ao trabalho político que à luita armada, tendo a missom de propaganda a primazia sobre o combate propriamente dito.

Esta análise da situaçom convenceu-nos a todos, e o novo programa foi aprovado por unanimidade. Foi assim que nasceu o Destacamento de Propaganda do Exército de Libertaçom do Vietname.

Segundo o método de trabalho que lhe era caro, o Tio Ho orientou-nos na elaboraçom das medidas a aplicar: organizaçom do Destacamento para composiçom, recrutamento, abastecimento em armas e víveres, futuras relaçons com as autoridades e as populaçons locais.

Passámos, em seguida, um dia inteiro a elaborar o projecto do plano. Pola noite adiante, continuaríamos a debater os nossos pontos de vista. Já sobre a tarde, o Tio Ho ainda pesava os prós e os contras. Na manhá do dia seguinte, o projecto era submetido à colectividade.

Para desencadear a luita armada, segundo a nova orientaçom, o Tio Ho insistiu particularmente em dous pontos:

Além disto, o Presidente ligava extrema importáncia aos princípios da clandestinidade. íamos encetar o caminho que ele nos recomendava ainda:

"Nom sejam subjectivos, nom revelem as vossas forças, actuem em segredo, um absoluto segredo. Que o inimigo ignore todo sobre vós. Que ele vos julgue fraco quando sodes fortes. Que de nada suspeite mesmo na véspera de lançarem o ataque."

Foi com o coraçom transbordante de confiança que voltamos ao Comité interprovincial. As ordens fôrom aplicadas com celeridade. Os quadros e o armamento fôrom reunidos imediatamente. O destacamento compreendia, à data da formaçom, trinta e quatro combatentes escolhidos entre os chefes de secçons, chefes de grupos e soldados de elite e que se tivessem distinguido pola sua coragem nos destacamentos armados regionais ou nos grupos de milicianos de choque. A unidade tinha sido também reforçada por alguns quadros que acabavam de terminar os seus estudos militares na China. A partir de entom passavam a existir no Cao-Bac-Lang três tipos de formaçom armados: o destacamento de propaganda constituía o elemento de choque, em volta do qual se agrupavam os destacamentos armados regionais e, depois, os destacamentos de autodefesa paramilitares. Ainda que à escala de guerrilha, estas formaçons actuassem, todavia, em estreita coordenaçom. Recordo-me nitidamente desta característica: foi para mim umha cousa completamente nova que me impressionou muito.

Na véspera da formaçom do Destacamento, recebi as directivas do Tio Ho, transcritas num pedacinho de papel, escondido num maço de cigarros. dous dias depois, o Destacamento de Propaganda começava a aplicá-las, alcançando as suas duas primeiras vitórias em Phay Khat e Na Ngan. O Viet Lap publicou imediatamente o respectivo comunicado. Ao mesmo tempo, o Comité interprovincial lançava um apelo à populaçom, convidando-a a intensificar o seu auxílio ao exército. A influência do Departamento aumentava. Os elementos indecisos começárom a juntar-se-nos. Os traidores começárom a tremer e o inimigo moderou o seu ardor na caça aos militantes. Numerosas organizaçons de base foram postas em actividade e vinhérom aumentar rapidamente os seus efectivos. O movimento subia. A populaçom trazia ao exército cabazes repletos de formas de cereal e bolas de arroz. Em certos sítios, chegavam a oferecer-nos búfalos, bois e porcos. Assistiu-se ao aparecimento de poemas T. T..., do arroz T. T das caixas T. T.... para a compra de armas... (T. T. som as iniciais das palavras vietnamitas "Tuyên Truyên" — propaganda —, com as quais se designava o Departamento).

Um poderoso movimento de partida para a libertaçom ia-se apoderando da juventude, que aumentava rapidamente as nossas fileiras.

De Phay Khat, Ma Ngan, o Destacamento de Propaganda do Exército de Libertaçom do Vietname marchou directamente sobre a zona Thien Thuat, a fim de se constituir em companhia. Os nossos recrutas, chegados das pequenas unidades regionais, chegárom muito depressa ao centro da convocaçom. Em diversos sítios, os destacamentos locais já tinham os efectivos de umha secçom. Umha parte das armas tomadas ao inimigo foi-lhes distribuída, o que muito agradou à tropa. (Nessa época, dous ou três mosquetes bastavam para despertar o entusiasmo dos combatentes). Todos se preparavam febrilmente, em todos os sectores, para novos combates e reclamava-se o envio de tropas regulares.

Depois de nos termos constituído em companhias, deixamos umha parte dos nossos efectivos em Kim Ma, Tinh Tuc e Phia Mac para a propaganda armada, enquanto o grosso das tropas, para desorientar o inimigo, subia em direcçom da regiom de Dong Mu-Bao-Loc, na fronteira sino-vietnamita. Assim que chegamos ao sector, dirigíamo-nos, em absoluto segredo, à regiom limítrofe das províncias de Cao Bang e Bac Can. Nós pensávamos dirigirmo-nos para o Sul, tam depressa o movimento consolidasse. Polo caminho, a populaçom reservava-nos um acolhimento extremamente caloroso. Em certos sítios, ainda que à escassa distáncia de dous ou três quilómetros do posto, acendiam tochas para vir ao nosso encontro. Estávamos quase na época de Têt. Em certas localidades, a juventude preparara um autêntico festim, colocara mesas e cadeiras nas bermas da estrada e tinha esperado umha noite inteira para nos festejar. No cantom de Houng Hoa Tham, por exemplo, éramos aguardados na floresta por um autêntico acampamento de palhotas, bastante vasto para alojar toda a companhia, com um campo de treino e umha importante reserva de árvores.

Apesar da sua extrema penúria, a populaçom ajudava sem limites o exército da revoluçom. Durante os três dias de Têt, jovens e velhos abandonavam os seus lares para passar a festa connosco. Quando hoje penso nisso, ainda pergunto a mim próprio qual a forma de pagar a dívida que, na altura, contraímos com o povo.

Foi nessa época que os grupos de assalto restabelecêrom as nossas linhas de ligaçom com Thai Neguyon, cortadas pola repressom. Prosseguimos preparativos intensos para marchar para o Sul. Os camaradas Tong e Vu Anh juntárom-se a nós na floresta Tran Hung Dao, para fazer umha visita à tropa e elaborar um plano de marcha para o Sul. Mal nos deixaram, rebentou o golpe de força de 9 de Março. A situaçom evoluía favoravelmente. O Destacamento de propaganda do Exército de Libertaçom do Vietname abandonou as matas para umha marcha, em pleno dia, no vale de Kim Ula. Em cada aldeia, a populaçom, em delírio, tinha arvorado bandeiras vermelhas com a estrela dourada. Sempre me recordarei do espectáculo que entom se ofereceu aos nossos olhos. Todas estas bandeiras vermelhas que tornavam o céu mais vasto e mais azul. Os homens e a natureza como que desabrochados, transfigurados. As primeiras lufadas de independência que nos embriagavam.

Seguidamente, o grosso da companhia dirigiu-se para o Sul, estabelecendo à sua passagem o poder revolucionário, desarmando as guarniçons inimigas e levantando novas unidades.

No Cao-Bac-Lang, a direcçom do Partido fornecera a tempo as directivas para a formaçom do poder popular no campo, o desencadear da guerrilha, e o alistamento de novos recrutas. No dia imediato ao do golpe de força japonês, foram constituídas umhas vinte novas companhias do Exército de Libertaçom. Abríamos, por toda a parte, agências de recrutamento. Perto de Nuoc Hai, alistárom-se voluntariamente mais de três mil jovens. Em toda a regiom do Cao-Bac-Lang os campos formavam umha vasta zona livre.

Nesse preciso momento, no centro Bac Son-Vu-Nhai, as tropas da Salvaçom Nacional revoltárom-se também, inauguravam a guerrilha, instauravam o poder popular e aumentavam os efectivos. Algum tempo depois, as tropas da Salvaçom Nacional e o Exército da Libertaçom operavam a respectiva junçom. A Conferência Militar de Tonquim, realizada na Hieh Hoa, decidia a unificaçom de todas as forças armadas revolucionárias, sob a designaçom de "Exército de Libertaçom do Vietname". A zona libertada foi formada depois, englobando as províncias de Cao Bang, Bac Can, Long Son, Ha Giang, Thai Nguyen, Tuyen Quang e umha parte das províncias de Bac Giang e Vinh Yen.

A situaçom evoluía rapidamente. O movimento contra os japoneses, pola Salvaçom Nacional, subia como umha maré alta. O Congresso nacional do Partido e o Congresso dos Delegados da naçom cedo se passárom a reunir em Tan Trao. Entrementes, ocorreu a capitulaçom do Japom. Rebentou a revoluçom de Agosto. A República Democrática do Vietname nasceu, enfim!

Relato recolhido por Tran Cu.

Compartilhe este texto:
Início da página
 
Visite o MIA no Facebook
 

logo
Inclusão 05/10/2013