Wilson e os Maximalistas Russos(1*)

António Gramsci

2 de Março de 1918


Primeira Edição: : Il Grido del Popolo, 2 de Março de 1918.

Fonte: Wilson y los maximalistas rusos, em: Revolución rusa y Unión Soviética, Ediciones R. Torres, Barcelona, 1976, págs. 29-33.

Tradução para o português da Galiza: José André Lôpez Gonçâlez. Julho, 2007.

HTML de: Fernando A. S. Araújo, Julho, 2007.

Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.


Existe na história uma lógica superior aos factos contingentes, superior à vontade dos indivíduos isolados, à actividade dos grupos particulares, ao contributo da laboriosidade das nações. Isto não significa que estas vontades, estas actividades, estes contributos sejam esforços vãos, tentativas falazes de iludidos que julgam poder subtrair-se e até impor-se à fatalidade dos acontecimentos.

A eficácia criadora da vontade e das iniciativas humanas está condicionada no espaço e no tempo. O que aparece diante nossa frequentemente não é senão a imagem vã da vida. As nossas paixões e desejos empurram-nos a interpretar os acontecimentos particulares duma maneira e não de outra. E que estas interpretações tornam-se por sua vez determinantes da história, suscitadoras de laboriosidade activa, mesmo quando numa zona restrita e com pequenos factos. Entretanto, no colossal embate de tantas actividades contrastantes, que se elidem ou se integram, a vida prossegue, implacável, segundo uma linha resultante destas elisões e interrogações. Só depois podemos julgar, e este depois é mais ou menos futuro quanto mais extensas e grandes são as forças que entrechocam, quanto mais fundos são os estratos de humanidade que participam na actividade social.

Há na história derrotas que mais tarde aparecem como luminosas vitórias, presumíveis mortos que depois têm feito falar de si fragorosamente, cadáveres de cujas cinzas a vida renasceu mais intensa e produtora de valores.

Os homens em particular, os grupos particulares podem ser derrotados, podem morrer, até pode desaparecer a recordação deles. Porém não morre a sua actividade positiva, não morre o seu pensamento se interpretou uma aspiração racional da consciência humana. Antes se difunde, torna-se energia de multidões, transforma-se em costume. E vence, afirma-se vitorioso.

Frequentemente, quem parecia ter compreendido e vencido, torna-se herdeiro do adversário, substitui-o inconscientemente na sua missão. O Medievo cristão foi-se revelando progressivamente como integrador e continuador da civilização romana a quem, não obstante, os literatos consideravam como seu execrável coveiro.

Uma grande afirmação de cultura não se realiza num ano, em seis meses. Devem renunciar por isso os seus fautores à acção? A história tem tanta necessidade de mártires e vencidos como de triunfadores. Alimenta-se com o sangue dos heróis e com o sacrifício anónimo das multidões. Quem pode julgar duma olhadela, uma derrota e uma vitória, um sacrifício e uma imbecilidade? Mas no mundo há mais levianos e imbecis do que de pessoas inteligentes e homens sérios. E o hoje, a necessidade do hoje, obriga à injustiça, ao torpor, à malícia. É inútil qualquer reprovação. Só lhe reconhecemos o mérito depois do facto consumado. Muitos burgueses amaldiçoam ainda o jacobinismo francês da Grande Revolução, e não estão convencidos ainda de que sem aquela violência, sem aquelas monstruosas injustiças, sem aquele correr sangue, mesmo sangue inocente, eles ainda seriam servos e as suas mulheres as meretrizes dos senhores feudais, antes de serem as suas mulheres.

Formaram-se novas harmonias, sínteses de vida mais elevada e humana. Transformaram-se as opiniões sob o aguilhão de imperiosas necessidades, aproximam-se duma idéia já desprezada, ora porque não entendida, ora porque não politicamente ambientada. Dão-se conversões sem provas lógicas da passagem.

Primeiro, são poucos os indivíduos que vibram sob as correntes ideais que a grande massa não acolhe. Mas, esses poucos vão-se multiplicando, disseminados no grande espaço do mundo civil; pressionam grupos e partidos. Dão-se oscilações de opinião até que todo um estrato social, uma classe, uma camada difusa se eleva a compreensão, apropria-se duma idéia. Revelam-se novas relações entre as ideologias e a economia. Camadas produtivas que tinham sido sacrificadas, reprimidas, em benefício dos grupos dominantes, reforçam-se, transformam-se em plataforma duma nova orientação política, desenvolvem-se, absorvem a acção e dão consistência a novas realidades.

A comoção de idéias, provocada pola guerra, revelou duas forças novas: o presidente Wilson e os maximalistas russos. Ambos representam o último elo lógico das ideologias burguesas e proletárias.

O presidente Wilson arrecada nestes dias os testemunhos da maior simpatia. É ele um homem do facto consumado. A sua obra é de correcção, de integração dos valores burgueses. É um chefe de Estado, dirige um organismo social que existia já antes da guerra, que se reforçou e se disciplinou mais na guerra.

No entanto o reconhecimento da sua utilidade demorou três anos a afirmar-se. Os seus programas foram escarnecidos, vituperaram-no, chamaram-lhe hipócrita, oco. Agora começa a revisão das opiniões. Um formoso livro de Daniel Halévy,(2*) que recolhe documentos do seu pensamento e da sua actividade política, é ocasião para a publicação de elogiosos artigos. As qualidades que ontem eram negativas são hoje prova de solidez. Giovanni Papini(3*) (e o seu testemunho tem valor, pois Papini, com os seus caprichos, as suas desigualdades, com o seu bizarro engenho, que tanto produz agudíssimas e precursoras verdades como banais remendas de palavras, está perto do burguês médio italiano, antecipa a opinião media burguesa italiana) teria chamado a Wilson há dous anos, “suíço por escolha”, “castrado”, fastidioso orador, tal como chamou a Romain Rolland,(4*) tão próximo espiritualmente do presidente americano. Agora, Papini exalta em Wilson o puritanismo, o ser professor, pregador de princípios e de máximas morais, e aproxima-o dos maiores homens de Estado da história: do magnífico Lourenço de Médici, de Marco Aurélio, de Frederico o Grande, de Júlio César, homens de pensamento e acção, ideólogos e realizadores.

O reconhecimento da utilidade histórica dos maximalistas russos, ou melhor, do maximalismo russo, desde logo, não podia vir já, imediatamente; provavelmente não virá sequer no decurso da guerra nem logo após o advento da paz. No entanto sentimos que acontecerá sem dúvida, que a história reserva ao maximalismo russo um lugar de primeira ordem, tanto mais superior ao dos jacobinos franceses quanto o socialismo é superior às ideologias burguesas.

O maximalismo russo é a Rússia mártir, é o sacrifício duma nação a uma idéia, para que esta não morra e salve a humanidade. O martírio da Rússia esclareceu já muitas mentes, elevou o nível político das nações, fez triunfar já alguns daqueles princípios com os quais os Estados terão que contar quando se fizer a paz. O futuro das nações e dos povos ficará a dever aos maximalistas russos as maiores garantias de paz que certamente estarão asseguradas. Os maximalistas russos encontraram uma nação esgotada, desorganizada, desfeita completamente. Em seis meses afirmaram as ruínas, fizeram com que a humanidade russa desse o que só podia dar: uma deslumbrante luz ideal, que revigorou muitos espíritos e fez reencontrar a consciência a multidões perdidas na cegueira do frenesi bélico. O programa de Wilson, a paz das nações, concretizar-se-á só polo sacrifício da Rússia, polo martírio da Rússia. Entre as ideologias médias da burguesia italiana, francesa, inglesa, alemã e o maximalismo russo há um abismo; mas a distancia foi encurtada, aproximou-se do último elo lógico burguês, do programa do presidente Wilson. O presidente Wilson será o triunfador da paz; mas para triunfar foi necessário o martírio da Rússia. Wilson sentiu-o e prestou-lhes homenagem a aqueles que, no entanto, são também os seus adversários.

(Onze linhas censuradas).

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Notas:

(1*) O texto não foi assinado. (retornar ao texto)

(2*) Daniel Halévi (1872-1962) foi historiador e ensaísta francês. Autor de La Fin des notables e La République des ducs. (retornar ao texto)

(3*) Giovanni Papini (1881-1956), escritor italiano fundador com Giuseppe Prezzolini, Giovanni Vailati e Mario Calderoni da revista Il Leonardo onde verteu muitas das suas idéias filosóficas e estéticas. Entre as suas obras são de destaque: O Demo (Il diavolo), Gog, coleção de contos filosóficos que, na opinião da crítica européia a sua melhor obra, História de Cristo (Storia di Cristo) e a sua autobiografia Um Homem Acabado (Un uomo finito). Aderido ao fascismo em 1935, obtém a cátedra de literatura italiana da Universidade de Bolónia e publica o primeiro e único volume da História da Literatura Italina (Storia della letteratura italiana) que dedica ao Duce, amico della poesia e dei poeti.  (retornar ao texto)

(4*) Romain Rolland (1866 - 1944) novelista, biógrafo e músico.francês. Prémio Nobel de Literatura em 1915. Escreveu biografias: Vie de Beethovem, 1903; Mahatma Ganghi, 1924, e dous ciclos de romances: Jean-Christophe em dez volumes, 1904-1912, L'Âme enchantée em sete volumes, 1922-1934.   (retornar ao texto)

Inclusão 10/10/2007
Última alteração 30/04/2014