Um Ano de História(1*)

António Gramsci

16 de Março de 1918


Primeira Edição: : Il Grido del Popolo, 16 Março de 1918.

Fonte: Um año de historia, em: Revolución rusa y Unión Soviética, Ed. R. Torres, Barcelona, 1976, págs. 35-39.

Tradução para o português da Galiza: José André Lôpez Gonçâlez. Junho, 2007.

HTML de: Fernando A. S. Araújo, Julho, 2007.

Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.


Já passou um ano sobre o dia em que o povo russo obrigou o czar Nicolau II a abdicar e a partir para o exílio. A comemoração do aniversário é pouco alegre. Dor, ruína, aparente dissolução, contra-ofensiva burguesa com as baionetas e as metralhadoras alemãs.

Terá acabado a revolução russa? Terá fracassado na Rússia o proletariado na maior das tentativas de insurreição que jamais tentara na história? As aparências são desanimadoras: os generais alemães chegaram a Odessa, segundo se diz, os japoneses, estão prontos a intervir; cinquenta milhões de cidadãos foram afastados da revolução, e com eles as terras mais férteis, as saídas para o mar, as estradas da civilização e da vida económica. A revolução, nascida da dor e do desespero, continua na dor e no sofrimento, oprimida por um anel de potências inimigas, mergulhada num mundo económico refractário aos seus ideais, aos seus objectivos.

Em Março de 1917, o telégrafo anunciou-nos que um mundo ruíra na Rússia: um mundo já efêmero, inanimado espectro dum poder que nascera, fortalecera-se e deixara-se arrastar pola violência sangrenta, pola opressão dos espíritos, pola tortura das carnes dilaceradas.

Deste poder manara uma grande máquina estatal: 170 milhões de seres humanos viram-se obrigados a esquecer a sua humanidade, a sua espiritualidade, para servir. A quem? A idéia do Império Russo, do Grande Estado Russo, que devia chegar aos mares quentes e abertos de modo a assegurar à actividade económica portos seguros, a salvo de toda a concorrência, a salvo de toda a surpresa bélica. O Império Russo era uma monstruosa necessidade do mundo moderno; para viver, para se desenvolver, para garantir vias de actividade, 10 raças, 170 milhões de seres humanos tinham de ser submetidos a uma feroz disciplina estatal, obrigados a renunciar a sua humanidade e a serem puro instrumento do poder. Séculos de martírio e de sacrifício, e o martírio é tanto mais agudo quanto mais se afirma a civilização e sensibiliza a consciência. A necessidade de independência, de autonomia, torna-se cada vez mais pungente, mas a razão de Estado tem de sufocá-la, tem de exterminar milhares, centenas de milhares de indivíduos para conservar a unidade, para manter cingidos num feixe esses 170 milhões de seres que só com o número resiste a concorrência capitalista, contrabalança as forças adversas da concorrência mundial. Os indivíduos perdem toda a sua autonomia, toda a sua liberdade, para que o Estado possa ser autónomo e livre entre os outros Estados. Foi assim que os indivíduos atingiram na sua consciência os cimos de espiritualidade não atingidos em qualquer outro país. A literatura russa é a testemunha dolorosa duma consciência interior que não tem igual; nunca se registrara tal procura de valores humanos, tal pesquisa interior, tal consciência da personalidade. A literatura russa é um documento único na história, porque não tinha igual a dor, a humilhação a que os homens eram submetidos na Rússia. Os corpos curvam-se sob o peso da cadeia social, e as almas, a quem é subtraída a visão do mundo exterior, voltam-se para si mesmas, e eleva-se um canto sublime e sobre-humano, canto de dor recôndita, de desespero, de purificação, que só nos profetas do povo de Israel se pode encontrar uma pálida semelhança.

Em Março de 1917 a máquina monstruosa desmorona-se, apodrecida, desfeita pola sua congênita impotência.

Os homens põem-se em pé, olham-se olhos nos olhos. Todos os valores humanos impõem-se, a exterioridade já não tem valor; já fez mal demais, provocou grandes dores, derramou demasiado sangue. Começa a verdadeira história. Cada qual quer ser senhor do seu destino, quer-se que a sociedade seja plasmada em obediência de espírito e não vice-versa. A organização da convivência civil deve ser expressão de humanidade, deve respeitar toda a autonomia, todas as liberdades. Começa a nova história da sociedade humana, começa a experiência nova da história do espírito humano, que coincide com as expressões que o ideal socialista dera às necessidades elementares dos homens. Os socialistas, como núcleo político sobem ao poder sem grandes dificuldades: as palavras da sua fé coincidem coma as aspirações confusas e vagas do povo russo. Os socialistas terão de fazer a nova organização, ditar as novas leis, estabelecer o novo ordenamento.

O passado continua a substituir, embora desagregado. Persiste o espectro da ruína, da desordem, da confusão. Parece que se voltou à sociedade da barbárie, isto é, à não sociedade. O passado continua a substituir para além do território da liberdade, e pressiona, quer a desforra. A ordem nova tarda a realizar-se. Tarda?  Não tarda, não, homens cépticos e perversos, porque não se refaz uma sociedade num fiat, porque o mal do passado não é um edifício de papelão que arda num instante. A vida é um doloroso esforço, luita tenaz contra os costumes, contra a animalidade e contra o instinto primitivo que ladra continuamente. Não se cria uma sociedade humana em seis meses, quando três anos de guerra deixaram um país exausto, privado dos meios mecánicos necessários à vida civil. Não se organizam dum momento para outro milhões e milhões de homens em liberdade, simplesmente, quando tudo é adverso e apenas subsiste o espírito indomável. A história da revolução russa não está encerrada e não se encerrará com o aniversário do seu início. Tal como um canto existe no imaginário do poeta antes de existir no papel impresso, assim a nova organização social existe nas consciências e nas vontades. Os homens mudam, eis o que importa. Quer-se a exterioridade, o papel impresso. Grita-se por causa de qualquer fracasso, por qualquer tropeço aparente; exige-se aos russos o que os historiadores não pediram nunca às revoluções passadas: a súbita criação duma ordem nova. Pressupõem-se propósitos que jamais existiram, esperanças que nunca foram sonhadas. E essas esperanças e esses propósitos põem-se em paralelo com a realidade actual, para se concluir polo fracasso, pola ruína. Com a realidade que diz saía dum ano da nova história, quando é que tem origem em séculos de brutal opressão do homem na história. Pede-se o impossível, como nunca se pedira aos homens do passado. Quantas vezes viu a Revolução Francesa a sua capital ocupada polos inimigos? E a ocupação deu-se depois de Napoleão ter organizado autoritariamente as forças revolucionárias e conduzido os exércitos franceses de vitória em vitória. E a França era cousa bem pequena se a compararmos com a Rússia imensa. Não, as forças mecânicas não prevalecem nunca na história; são os homens, é a consciência, é o espírito que plasma a aparência exterior e acaba sempre por triunfar. Está encerrado um ano de história, mas a história continua. (Seis linhas censuradas.)

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Inclusão 11/10/2007