Para Relatar Sobre N. P. Dubinin

Evald Vasilievich Ilienkov

31 de Janeiro de 1979


Fonte: Notas preparatórias para a apresentação no Seminário Anual do Instituto de Genética da Academia de Ciências da U.R.S.S., em 31 de janeiro de 1979, dirigido por Nikólai Dubinin, um renomado geneticista soviético, que, junto com Ilienkov, foi coautor do prefácio do livro A superação do erro no conhecimento científico, de P. S. Zabotin. Traduzido para o espanhol por Víctor Antonio Carrión Arias, a partir da versão publicada como anexo do livro Evald Vasilievich Ilienkov (2008), e publicado como parte do livro La dialéctica leninista y la metafísica del positivismo de Evald Iliénkov (2014). Essa tradução tem permissão da editora Edithor e do tradutor Víctor Antonio Carrión Arias. Disponível em russo no Lendo Ilienkov (Читая Ильенкова) [http://caute.ru/ilyenkov/].
Tradução do espanhol: Marcelo José de Souza e Silva(1)
HTML: Fernando A. S. Araújo.
Direitos de Reprodução: Licença Creative Commons licenciado sob uma Licença Creative Commons.


1) Idealista não é quem nega o mundo exterior (e materialista não é quem o reconhece). Idealista é quem não quer, não sabe ou não pode fazer da tese sobre a existência deste mundo exterior a premissa da qual parte sua teoria do conhecimento. E materialista, correspondentemente, é quem situa o reconhecimento da objetividade do mundo exterior (da natureza e da história), dado a nós nas sensações, na base de toda sua teoria do conhecimento, na base da solução de todos os problemas ligados com o conhecimento, com a conscientização, com a compreensão dos fatos dados a nós nas sensações, no experimento, na experiência.

Por isso é que o problema fundamental da filosofia como ciência é justamente um problema gnosiológico (teórico-cognoscitivo): o problema sobre a relação da consciência (do pensamento, da psique, da ciência) com o mundo exterior.

Por isso é que Lenin coloca um sinal de igualdade entre filosofia e teoria do conhecimento, utilizando essas palavras como sinônimos plenos.

2) Isso também é importante compreender, antes de tudo, para não se dirigir à filosofia com perguntas sobre as quais ela não tem direito nem capacidade de dar resposta. (< Como na conhecida anedota: > Aqui temos carne, pescado tem na tenda em frente)(2).

Se dirigir à filosofia com outras perguntas é tão absurdo, como, por exemplo, tentar encontrar em um químico ou em um fisiólogo a responda da pergunta “o que é essa taxa de desconto” ou “a renda da terra”. A pergunta foi feita na direção errada. (Existem ou não os genes? – Ano 1949).

E à filosofia se dirigem com frequência com tais perguntas. Ou o que é pior, quando sobre ela recai a obrigação de resolver qual das teorias científico-naturais concretas é correta, e qual não.

E se a filosofia se ocupa de responder a tais perguntas, se assemelha justamente aquele químico que consentiu em contestar a pergunta “o que é dinheiro?”.

3) Lenin não diz uma palavra sobre Mach o físico. É assunto dos físicos julgar no que ele está certo e no que se equivoca como físico. Em troca, Lenin julga com severidade e categoricamente Mach o filósofo, o teórico que se ocupou não de seu assunto, e sem da abordagem e solução dos problemas da gnosiologia, da lógica do conhecimento científico em geral.

A filosofia é também uma ciência, e para expressar ao seu interior juízos suficientemente qualificados, é necessário estar no nível contemporâneo, no topo de seu desenvolvimento. Saber o que foi feito nela antes de ti. De outra forma inventarás a água morna. Isso aconteceu com Mach. Ele descobriu novamente o sistema de Berkeley.

(Se eu chegasse diante dos físicos e dissesse: tudo é um disparate, me escutem, eu deduzirei para vocês toda vossa física de minha própria experiência pessoal...)

4) Mas porque, sobre que fundamento eu – o filósofo – me arrisco a entrar na discussão sobre quais características do ser humano foram herdadas através dos genes, e quais não se podem herdar por princípio através de biomecanismos? – Dados da psicologiaHarlow.

5) Fisiologia e psicologia.

Pavlov foi um fisiólogo genial. Mas isso não impediu que ele continuasse sendo um ingênuo amador, quando o assunto acabou sendo não da fisiologia e sim um problema de ordem sócio-histórico: da economia política, da história, da psicologia. E nem sempre teve cuidado.

A “psicologia pavloviana” é uma analogia plena da “corrente michuriniana na biologia”.

O genial selecionista, o Burkank russo, foi convertido em autoridade suprema naquela área onde ele era um amador, na área da genética.

Coisa similar fizeram em seu tempo com Pavlov. E ele não conheceu e não reconheceu qualquer outra psicologia, salvo a escola introspectiva na moda em sua época (mas teoricamente muito atrasada e reacionária).

(A ele se refere também sua tese sobre “os desenhos psicológicos na trama da fisiologia do cérebro”. A psicologia aqui se considerava como pré-científica, um estado literário do desenvolvimento da ciência sobre a alma, e uma compreensão “científica” que a mesma lhe dá, supostamente, só a fisiologia e a psicologia orientada fisiologicamente.

Por isso ele acabou sendo aliado de Tchelpanov contra Vigotski, que tomou o caminho do esclarecimento da natureza sócio-histórica da psique humana.)

E um mal serviço prestam à memória de Pavlov aqueles fisiólogos que até hoje voltam a repetir seus juízos imprudentes na área da psicologia humana.

E estes são os mesmos fisiólogos que interpretam a genética na busca de genes especiais de “altruísmo e egoísmo”, de “agressividade e afabilidade”, genes de “talentos matemáticos e musicais”, genes artísticos e genes do pensamento teórico, genes de colecionador e genes de “liberdade”, etc., etc.

6) E encerraremos a discussão nos referindo à tese totalmente ilógica da natureza dual – bio-social – do homem. Porque é ruim essa tese? Sim, porque conduz a uma situação na qual quando o mestre fica gripado, a aspirina é dada a seu cão; tratam as enfermidades sociais com procedimentos medicinais, e os padecimentos orgânicos procuram curar com meios de ordem política...

Porque somente sócio-bio? Porque não seguem?

Um golpe dos bioquímicos por trás de Azratyan.

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Notas de rodapé:

(1) Possui graduação em farmácia pela UFPR e é mestre em educação pela UFPR. Participa dos Grupos de Pesquisa: Núcleo de Pesquisa Educação e Marxismo (NUPE-Marx/UFPR), na linha Trabalho, Tecnologia e Educação; e Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva (NESC/UFPR), na linha Estudos Marxistas em Saúde. Contato: marcelojss @ gmail.com (retornar ao texto)

(2) [Ilienkov se refere a uma anedota de tempos soviéticos, na qual uma pessoa se aproxima de uma matança e pergunta “Diz pra mim, não tem pescado?” e o encarregado responde “Não, temos carne, pescado tem na tenda em frente” – V.A.] (retornar ao texto)

Inclusão 31/07/2014