Onde Está o Poder e Onde Está a Contra-Revolução

V. I. Lénine

18 de Julho de 1917

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Escrito: em 5 (18) de Julho de 1917.
Primeira edição: Publicado em 19 (6) de Julho de 1917 no Listok «Právdi».
Fonte: Obras Escolhidas em Três Tomos, 1977, Edições Avante! - Lisboa, Edições Progresso - Moscovo

Tradução: Edições "Avante!" com base nas Obras Completas de V. I. Lénine, 5.ª ed. em russo, t. 32, pp. 410-417.

Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo, junho 2006

Direitos de Reprodução: © Direitos de tradução em língua portuguesa reservados por Editorial "Avante!" - Edições Progresso Lisboa - Moscovo, 1977.


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A esta questão responde-se habitualmente de modo muito simples: a contra-revolução não existe em absoluto, ou não sabemos onde está. Mas sabemos muito bem onde está o poder: está nas mãos do Governo Provisório, controlado pelo Comité Executivo Central (CEC) do Congresso dos Sovietes de deputados operários e soldados de toda a Rússia. Tal é a resposta habitual.

A crise política de ontem[N94], como a maioria das crises de todo o género que arrasam tudo o que é convencional, que destroem todas as ilusões, deixou como herança atrás de si as ruínas das ilusões expressadas nas respostas habituais, que acabamos agora de citar, às questões fundamentais de cada revolução.

Existe um ex-membro da II Duma de Estado, Aléxinski, que os socialistas-revolucionários e os mencheviques, os partidos dirigentes nos Sovietes de deputados operários, soldados e camponeses, se negaram a admitir no Comité Executivo do Soviete de deputados operários e soldados enquanto não se reabilitar, isto é, enquanto não restabelecer a sua honra.

Que significa isso? Por que é que o Comité Executivo, pública e formalmente, negou confiança a Aléxinski e exigiu dele o restabelecimento da honra, ou seja, considerou-o desonesto?

Porque Aléxinski se tornou tão famoso pelas suas calúnias que, em Paris, os jornalistas dos partidos mais diversos o qualificaram de difamador. Aléxinski não quis restabelecer a sua honra perante o Comité Executivo e preferiu esconder-se no jornal de Plekhánov, Edinstvo, colaborando nele, a princípio com as iniciais, e depois — recuperada a ousadia — também abertamente.

Ontem, 4 de Julho, à tarde, alguns bolcheviques foram prevenidos por conhecidos de que Aléxinski tinha comunicado ao comité de jornalistas de Petrogrado não se sabe que nova infâmia caluniosa. A maioria dos notificados não prestaram nenhuma atenção a este aviso, tratando com desprezo e repugnância Aléxinski e o seu «trabalho». Mas um bolchevique, Djugachvíli (Stáline), membro do Comité Executivo Central, que conhecia de há muito, por ser social-democrata georgiano, o camarada Tchkheídze, falou com ele na reunião do CEC sobre esta nova campanha infame, caluniosa, de Aléxinski.

Isto aconteceu muito tarde na noite, mas Tchkheídze declarou que o CEC não assistiria indiferente à difusão de calúnias por pessoas que temem o julgamento e as investigações por parte do CEC. Em seu nome, como presidente do CEC, e em nome de Tseretéli, como membro do Governo Provisório, Tchkheídze dirigiu-se imediatamente pelo telefone a todas as redacções, com a proposta de se absterem de publicar as calunias de Aléxinski. Tchkheídze disse a Stáline que a maioria dos jornais se mostraram prontos a cumprir o seu pedido e que unicamente o Edinstvo e o Retch «se esquivaram a uma resposta» por um momento (não vimos o Edinstvo, e o Retch não reproduziu a calúnia). Em resultado, a calúnia apareceu somente nas páginas de um pequeno jornal amarelo, totalmente desconhecido para a maioria das pessoas cultas, o Jivóe Slovo,n.° 51 (404), cujo redactor-editor assina com o nome de A. M. Umánski.

Agora os caluniadores responderão diante dos tribunais. Neste aspecto, o assunto é simples e não tem complicações.

O absurdo da calúnia salta à vista: um tal Ermólenko, alferes do 16.° Regimento Siberiano de Atiradores, foi «transferido» (?) «em 25 de Abril para a retaguarda da frente do VI Exército para fazer agitação a favor de uma rápida conclusão da paz separada com a Alemanha». Visivelmente, é um sujeito que fugiu do cativeiro, sobre o qual o «documento» publicado no Jivóe Slovo acrescenta:

«Ermólenko aceitou esta missão por insistência dos camaradas.»

Por aqui já se pode julgar que confiança merece tal sujeito, suficientemente desonesto para aceitar semelhante «missão»!... A testemunha é um homem desonesto. Isto é um facto. E que declarou esta testemunha?

Declarou o seguinte:

«Os oficiais do Estado-Maior General alemão Schiditzki e Lúbers comunicaram-lhe que realiza na Rússia o mesmo género de agitação o agente do Estado-Maior General alemão e presidente da secção ucraniana da 'União de Libertação da Ucrânia'[N96], A. Skóropis-Ioltukhóvski, e Lénine. Lénine foi encarregado de utilizar todas as suas forças para minar a confiança do povo russo no Governo Provisório.»

Assim, os oficiais alemães, para incitar Ermólenko à sua acção desonesta, mentiram-lhe descaradamente sobre Lénine, que, como todos sabem, como oficialmente declarou todo o partido bolchevique, rejeitou sempre e incondicionalmente a paz em separado com a Alemanha da forma mais decidida e irrevogável!! A mentira dos oficiais alemães é tão clara, grosseira, absurda, que nenhuma pessoa que saiba ler poderia duvidar um minuto sequer de que é mentira. E uma pessoa com conhecimentos políticos duvidará tanto menos quanto a comparação de Lénine com um tal Ioltukhóvski (?) e com a «União de Libertação da Ucrânia» é um absurdo que salta particularmente à vista, pois tanto Lénine como todos os internacionalistas declararam publicamente muitas vezes precisamente durante a guerra não ter nada que ver com esta suspeita «União» social-patriota.

A grosseira mentira de Ermólenko, subornado pelos alemães, ou dos oficiais alemães, não mereceria a menor atenção se o «documento» não acrescentasse certas «informações recentemente recebidas» — não se sabe por quem, como, de quem, quando — segundo as quais «o dinheiro para a agitação» «é recebido» (por quem? o «documento» teme dizer directamente que se acusa ou se suspeita de Lénine!! o documento silencia por quem «é recebido»!) «por meio de» «pessoas de confiança»: os «bolcheviques» Fürstenberg (Hanecki) e Kozlóvski. Sobre isto haveria também dados relativos ao envio de dinheiro através de bancos, e «a censura militar verificou uma incessante (!) troca de telegramas de carácter político e pecuniário entre os agentes alemães e os líderes bolcheviques»!!

De novo uma mentira tão grosseira que o seu absurdo salta à vista. Se houvesse nisso apenas uma palavra de verdade, como poderia acontecer então, 1) que Hanecki há muito pouco tempo entrasse livremente na Rússia e livremente saísse dela? 2) que nem Hanecki nem Kozlóvski tenham sido presos antes do aparecimento nos jornais das informações sobre os seus crimes? Acaso o Estado-Maior General, se realmente tivesse tido nas mãos quaisquer informações que merecessem o mínimo de confiança sobre envios de dinheiro, sobre telegramas, etc, permitiria a difusão de rumores sobre isto através dos Aléxinski e da imprensa amarela, não prendendo Hanecki e Kozlóvski? Não está claro que temos diante de nós um torpe trabalho de jornalistas caluniadores da mais baixa espécie, e nada mais do que isso?

Acrescentemos que nem Hanecki nem Kozlóvski são bolcheviques, mas membros do Partido Social-Democrata Polaco, que Hanecki é um membro do seu CC, que conhecemos desde o Congresso de Londres (1903)[N97], do qual se retiraram os delegados polacos, etc. Os bolcheviques não receberam nenhum dinheiro de Hanecki nem de Kozlóvski. Tudo isso é a mais grosseira, a mais completa das mentiras.

Em que reside o seu significado político? Em primeiro lugar, em que os adversários políticos dos bolcheviques não podem prescindir de mentiras e calúnias. A tal ponto são vis e baixos estes adversários.

Em segundo lugar, em que nós obtemos a resposta à pergunta colocada no título do artigo.

O relatório sobre os «documentos» foi remetido a Kérenski já em 16 de Maio. Kérenskié membro tanto do Governo Provisório como do Soviete, isto é, de ambos os «poderes». De 16 de Maio até 5 de Julho passou muito tempo. O poder, se fosse o poder, poderia e deveria ele mesmo investigar os «documentos», interrogar as testemunhas, prender os suspeitos. O poder, ambos os «poderes», tanto o Governo Provisório como o CEC, podiam e deviam tê-lo feito.

Ambos os poderes permanecem inactivos. E verifica-se que o Estado-Maior General tem certas relações com Aléxinski, que, por ser caluniador, não foi admitido no Comité Executivo do Soviete. O Estado-Maior General, exactamente no momento da retirada dos democratas-constitucionalistas — por casualidade, seguramente — permitiu a entrega dos seus documentos oficiais a Aléxinski para publicação!

O poder permanece inactivo. Nem Kérenski, nem o Governo Provisório, nem o Comité Executivo do Soviete pensam sequer em prender Lénine, Hanecki e Kozlóvski, se é que são suspeitos. Ontem, 4 de Julho, à noite, tanto Tchkheídze como Tseretéli pediram aos jornais que não publicassem essa calúnia evidente. E, ao mesmo tempo, mais tarde, de madrugada, Pólovtsev envia cadetes[N98] e cossacos assaltar o Pravda, impedir a sua saída, prender os editores, apoderar-se dos livros (aparentemente para investigar se neles figura o dinheiro suspeito), e, ao mesmo tempo, no amarelo, baixo, sujo pasquim Jivóe Slovo, foi publicada esta vil calúnia para excitar as paixões, para sujar os bolcheviques, para criar uma atmosfera de pogrome, para dotar de uma justificação plausível o acto de Pólovtsev, dos cadetes e cossacos que assaltaram o Pravda.

Quem não fechar os seus olhos para não ver a verdade não pode permanecer no erro. Quando é necessário agir, ambos os poderes permanecem inactivos — o CEC porque «confia» nos democratas-constitucionalistas e teme irritá-los, e os democratas-constitucionalistas não agem como poder porque preferem agir nos bastidores.

A contra-revolução dos bastidores — ei-la bem visível: são os democratas-constitucionalistas, certos círculos do Estado-Maior General («os altos comandos do exército», como diz a resolução do nosso partido) e a imprensa suspeita, semi-cem-negrista". Eis os que não permanecem inactivos, os que «trabalham» em conjunto; eis o meio do qual se alimenta o ambiente de pogromes, as tentativas de pogromes, os disparos sobre os manifestantes, etc, etc.

Quem não fechar deliberadamente os seus olhos para não ver a verdade não pode permanecer mais tempo no erro.

Não há nem haverá poder enquanto a sua passagem para as mãos dos Sovietes não tiver lançado uma base para a sua criação. A contra-revolução aproveita-se da ausência de poder, unindo os democratas-constitucionalistas com conhecidos altos comandos do exército e com a imprensa cem-negrista. Tal é a triste realidade, mas realidade.

Operários e soldados! De vós exige-se serenidade, firmeza, vigilância.

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Notas de fim de tomo:

[N92] Trata-se da manifestação organizada pelo Partido Bolchevique e que teve lugar no dia 18 de Junho (1 de Julho) de 1917. No princípio de Junho a situação em Petrogrado tornou-se mais tensa. A insistência obstinada cio Governo Provisório em continuar a guerra, os preparativos da ofensiva na frente, a escassez de víveres, tudo isto causava a indignação dos operários e dos soldados. As massas dispunham-se espontaneamente a descer à rua. Com o propósito de evitar provocações e vítimas desnecessárias, em 8 (21) de Junho, numa reunião de membros do CC do Comité de Petrogrado e da Organização Militar com representantes de operários dos bairros e das unidades militares, foi resolvido, por proposta de V. I. Lénine, realizar em 10 (23) de Junho uma manifestação pacífica e organizada. A resolução do CC do Partido Bolchevique sobre a manifestação foi saudada pelas massas e provocou uma grande preocupação tanto no governo como entre os mencheviques e socialistas-revolucionários que decidiram frustrá-la. O I Congresso dos Sovietes de Toda a Rússia, dirigido por eles, na sua reunião da noite de 9 (22) de (unho resolveu proibir durante três dias todas as manifestações de rua. O CC do Partido Bolchevique não quis opor-se à resolução do Congresso dos Sovietes e, por proposta de V. I. Lénine, decidiu, na sua reunião da noite de 9 para 10 de Junho, anular a manifestação. Dois dias mais tarde, a direcção socialista-revolucionária-menchevique do Congresso dos Sovietes aprovou uma resolução sobre a realização de uma manifestação no dia 18 de Junho (1 de Julho), isto é, o dia em que as tropas russas iriam começar a ofensiva; os dirigentes dos partidos conciliadores pretenderam demonstrar a confiança das massas no Governo Provisório. Na manifestação do dia 18 de Junho (1 de Julho) participaram aproximadamente 500 000 operários e soldados de Petrogrado. A maioria esmagadora dos manifestantes desfilou com as palavras de ordem revolucionárias do Partido Bolchevique. Só pequenos grupos levavam as palavras de ordem dos partidos conciliadores exprimindo confiança no Governo Provisório. A manifestação evidenciou o crescente espírito revolucionário das massas e a influência e prestígio do Partido Bolchevique. Ao mesmo tempo, ela mostrou o completo fracasso dos partidos conciliadores pequeno-burgueses que apoiavam o Governo Provisório. (retornar ao texto)

[N94] Lénine refere-se às manifestações de massas realizadas em Petrogrado em 3-4 (16-17) de Julho de I 9 17. Estes acontecimentos foram o reflexo de uma profundíssima crise política ao país. No dia 3(16) de Julho, começou uma manifestação que esteve muito próximo de se converter num levantamento armado contra o Governo Provisório por este ter lançado as tropas numa ofensiva que ia manifestamente malograr-se (ver nota 92). O Partido Bolchevique era naquela altura contra o levantamento armado porque não considerava oportuno o momento, uma vez que a crise revolucionária no país ainda não amadurecera. Na reunião do Comité Central realizada em 3 (1 6) de Julho foi decidido não empreender qualquer acção. A mesma decisão foi também tomada na Conferência dos bolcheviques da cidade de Petrogrado. Os delegados à Conferência foram para as fábricas e para os bairros da cidade com o propósito de impedir que as massas se lançassem à acção. Mas esta já fora iniciada e revelou-se impossível conter o movimento. O Comité Central, em conjunto com o Comité de Petrogrado e com a Organização Militar, considerando o estado de espírito das massas, decidiu, na sua reunião da noite de 3 (16) de Julho, participar na manifestação de 4 (17) de Julho com o fim de lhe comunicarem um carácter pacífico e organizado. Mais de 500 000 pessoas participaram na manifestação do dia 4 (17) de Julho, que decorreu sob as palavras de ordem bolcheviques de «Todo o Poder aos Sovietes!», etc. Os manifestantes exigiram que o Comité Executivo Central (CEC) dos Sovietes tomasse o poder no país, mas os dirigentes socialistas-revolucionários e mencheviques recusaram-se a tomar o poder. O Governo Provisório, com conhecimento e consentimento do CEC menchevique-socialista-revolucionário, lançou contra a manifestação pacífica destacamentos de cadetes e cossacos contra-revolucionários, que abriram fogo sobre os manifestantes. Na reunião dos membros do CC e do Comité de Petrogrado realizada na noite de 4 para 5 de Julho e dirigida por V. 1. Lénine, foi decidido suspender organizadamente a manifestação. Os mencheviques e os socialistas-revolucionários juntaram-se aos partidos burgueses nos ataques ao Partido Bolchevique. Começaram o desarmamento dos operários, as prisões, as rusgas e os pogromes. Após os acontecimentos de Julho, o poder no país passou inteiramente para as mãos do Governo Provisório contra-revolucionário. Os Sovietes transformaram-se num simples apêndice dele. Terminou a dualidade de poderes e também a fase pacífica da revolução. (retornar ao texto)

[N96] União de Libertação da Ucrânia (Spilka Vizvolénia Ucraíni): organização nacionalista burguesa criada em 1914, no início da Primeira Guerra Mundial, por um grupo de nacionalistas burgueses ucranianos. A Spilka, contando com a derrota da Rússia tsarista na guerra, colocou-se a tarefa de conseguir a separação da Ucrânia da Rússia e de criar uma monarquia ucraniana de latifundiários e burgueses sob protectorado alemão. (retornar ao texto)

[N97] Congresso de Londres: II Congresso do POSDR, realizado de 17 (30) de Julho a 10 (23) de Agosto de 1 903. As primeiras 13 sessões do Congresso decorreram em Bruxelas, mas depois, devido a perseguições policiais, resolveu-se continuar o Congresso em Londres. O facto de os sociais-democratas polacos, que tinham voto consultivo, se retirarem do II Congresso do POSDR deveu-se ao seu desacordo com o ponto do programa do POSDR sobre o direito das nações à autodeterminação. Os sociais-democratas polacos, considerando erradamente que este ponto favorecia os nacionalistas polacos, propuseram na reunião da comissão do programa que ele fosse eliminado. Não se pronunciaram abertamente em defesa do seu ponto de vista nas reuniões do Congresso mas, não concordando com a sua decisão, abandonaram o Congresso. (retornar ao texto)

[N98] Cadetes (em russo junkers): alunos das escolas militares de preparação de oficiais. (retornar ao texto)

Inclusão 23/02/2008