Carta ao CC, ao CM, ao CP(1*) e aos Membros Bolcheviques dos Sovietes de Petrogrado e Moscovo[N210]

V. I. Lénine

1 (14) de Outubro de 1917

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Primeira Edição: Publicado pela primeira vez em 1921 nas Obras de N. Lenine (V. Uliánov), t. XIV, parte II.

Fonte: Obras Escolhidas em Três Tomos, 1978, t2, pp 366-367, Edições Avante! - Lisboa, Edições Progresso - Moscovo.
Tradução: Edições "Avante!" com base nas Obras Completas de V. I. Lénine, 5.ª ed. em russo, t. 34, pp. 340-341.
HTML: Fernando A. S. Araújo
Direitos de Reprodução: © Direitos de tradução em língua portuguesa reservados por Edições "Avante!" - Edições Progresso Lisboa - Moscovo, 1977.


capa

Queridos camaradas, os acontecimentos prescrevem-nos tão claramente a nossa tarefa que a demora se converte positivamente num crime.

O movimento agrário cresce. O governo intensifica a repressão selvagem, entre as tropas crescem as simpatias por nós (99% dos votos dos soldados a nosso favor em Moscovo, as tropas finlandesas e a esquadra contra o governo, o testemunho de Dubássov acerca da frente em geral).

Na Alemanha é evidente o começo da revolução, principalmente depois do fuzilamento dos marinheiros. As eleições em Moscovo — 47% bolcheviques — são uma gigantesca vitória. Juntamente com os socialistas-revolucionários de esquerda somos uma clara maioria no país.

Os ferroviários e os empregados dos Correios estão em conflito com o governo. Em vez do congresso para 20 de Outubro, os Liberdan[N185] já falam de congresso por volta do dia 20, etc, etc.

Em tais condições, «esperar» é um crime.

Os bolcheviques não têm o direito de esperar pelo congresso dos Sovietes, devem tomar o poder imediatamente. Deste modo salvarão tanto a revolução mundial (pois, de outra forma, existe a ameaça de um arranjo entre os imperialistas de todos os países, que, depois dos fuzilamentos na Alemanha, serão complacentes uns com os outros e unir-se-ão contra nós) como a revolução russa (de outro modo, uma vaga de verdadeira anarquia pode tornar-se mais forte do que nós) e a vida de centenas de milhares de homens na guerra.

A demora é um crime. Esperar pelo congresso dos Sovietes é um jogo infantil ao formalismo, um vergonhoso jogo áo formalismo, uma traição a revolução.

Se não é possível tomar o poder sem insurreição, é preciso ir para a insurreição imediatamente. É muito provável que precisamente agora se possa tomar o poder sem insurreição: por exemplo, se o Soviete de Moscovo tomasse o poder imediatamente e se proclamasse governo (juntamente com o Soviete de Petrogrado). Em Moscovo, a vitória está assegurada e não há ninguém que possa lutar. Em Petrogrado, é possível esperar. O governo nada pode fazer e não tem salvação, render-se-á.

Pois o Soviete de Moscovo, ao tomar o poder, os bancos, as fábricas, o Rússkoe Slovo[N211], obterá uma base e uma força gigantescas, fazendo agitação perante toda a Rússia e colocando assim a questão: amanhã proporemos a paz se o bonapartista Kérenski se render (e se não se render, derrubá-lo-emos). A terra aos camponeses imediatamente, concessões aos ferroviários e empregados dos Correios imediatamente, etc.

Não é obrigatório «começar» em Petrogrado. Se Moscovo «começar» sem derramamento de sangue, apoiá-la-ão seguramente:

  1. o exército na frente com a sua simpatia,
  2. os camponeses em toda a parte,
  3. a esquadra e as tropas finlandesas irão para Petrogrado.

Mesmo se Kérenski tiver perto de Petrogrado um ou dois corpos de cavalaria, será obrigado a render-se. O Soviete de Petrogrado pode esperar, fazendo agitação a favor do governo soviético de Moscovo. Palavra de ordem: o poder aos Sovietes, a terra aos camponeses, paz aos povos, pão aos famintos.

A vitória está assegurada, e há nove probabilidades em dez de ser sem derramamento de sangue.

Esperar é um crime perante a revolução.

Saudações N. Lenine

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Notas de rodapé:

(1*) Comité Central, Comité de Moscovo, Comité de Petrogrado. (N. Ed.) (retornar ao texto)

Notas de fim de tomo:

[N185] Liberdan: nome irónico dado aos dirigentes mencheviques Líber e Dan e aos seus partidários depois da publicação no jornal bolchevique de Moscovo Sotsial-Demokrat de um artigo satírico de Demián Bédni intitulado "Liberdan". (retornar ao texto)

[N210] Esta carta de V. I. Lenine foi discutida em 5 (18) de Outubro de 1917 numa reunião do Comité de Petrogrado do POSDR(b) presidida por M. I. Kalínine. Na reunião V. Volodárski e M. Lachevitch pronunciaram-se contra a directiva de Lenine sobre a insurreição armada. A maioria dos participantes na reunião interveio em apoio da directiva sobre a insurreição armada exposta na carta de Lenine.
Em Moscovo a carta foi discutida no Comité de Moscovo do POSDR(b) numa assembleia de funcionários dirigentes do Partido. No dia 7 (20) de Outubro o Comité de Moscovo adoptou uma resolução na qual colocava a tarefa de começar imediatamente a luta pelo poder. Em conformidade com esta decisão, em 10 (23) de Outubro a Conferência bolchevique da cidade de Moscovo adoptou uma resolução na qual encarregava o Comité de Moscovo de tomar medidas para «pôr as forças revolucionárias prontas para o combate». (retornar ao texto)

[N211] Rússkoe Slovo (A Palavra Russa): diário que se publicou em Moscovo de 1895 a 1917. Formalmente sem partido, na realidade o jornal defendia os interesses da burguesia russa a partir de uma posição liberal moderada. (retornar ao texto)

Inclusão 19/02/2011