Carta ao Comité Central do POSDR(b)

V. I. Lénine

19 de Outubro (1 de Novembro) de 1917

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Primeira Edição: Publicado pela primeira vez a 1 de Novembro de 1927 no n.º 250 do Pravda.
Fonte: Obras Escolhidas em três tomos, tomo 2, pp. 383 a 386, Edições "Avante!", 1978.
Tradução: Edições "Avante!" com base nas Obras Completas de V. I. Lénine, 5.ª ed. em russo, t. 34, pp. 423-427.
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo
Direitos de Reprodução: © Direitos de tradução em língua portuguesa reservados por Edições "Avante!" - Edições Progresso Lisboa - Moscovo, 1978.

capa

Queridos camaradas!

Um partido que se respeite a si mesmo não pode tolerar no seu seio actos de fura-greves nem fura-greves. Isto é evidente. E quanto mais se medita na intervenção de Zinóviev e Kámenev na imprensa não partidária tanto mais indiscutível se torna que a sua conduta representa o mais completo acto de fura-greves. A evasiva de Kámenev na reunião do Soviete de Petrogrado é algo de verdadeiramente baixo; ele está, não vedes, completamente de acordo com Trótski. Mas será difícil compreender que Trótski não podia, não tinha o direito, não devia dizer diante dos inimigos mais do que disse? Será difícil compreender que o dever do partido, que escondeu ao inimigo a sua decisão (da necessidade da insurreição armada, sobre o seu pleno amadurecimento, sobre a preparação em todos os aspectos, etc), que esta decisão obriga nas intervenções públicas a imputar ao adversário não só a «culpa» mas também a iniciativa? Só crianças poderiam não compreender isto. A evasiva de Kámenev é simplesmente uma fraude. O mesmo deve dizer-se da evasiva de Zinóviev. Pelo menos da sua carta «justificativa» (parece que ao Órgão Central), carta que é tudo o que eu vi (pois eu, membro do CC até agora não vi a opinião particular, a «pretensa opinião particular» que tanto apregoa a imprensa burguesa). Dos «argumentos» de Zinóviev: Lenine enviou as suas cartas «antes da adopção de quaisquer decisões», e vós não protestastes. Assim escreve literalmente Zinóviev, ele próprio sublinhando com quatro traços a palavra antes. Será difícil compreender que antes da decisão pelo centro da questão da greve se pode fazer agitação tanto a favor como contra, mas que depois da decisão a favor da greve (depois da decisão suplementar de a esconder ao inimigo), depois disso fazer agitação contra a greve é um acto de fura-greves? Qualquer operário entenderá isto. A questão da insurreição armada foi discutida no centro em Setembro. Eis quando Zinóviev e Kámenev podiam e deviam ter intervido por escrito para que todos, vendo os seus argumentos, para que todos apreciassem a sua completa confusão. Ocultar as suas opiniões ao partido durante todo um mèsantes da adopção da decisão e difundir uma opinião particular depois da decisão significa ser fura-greves.

Zinóviev finge não compreender esta diferença, não compreender que depois da decisão sobre a greve, da decisão do centro, só os fura-greves podem fazer agitação perante as instâncias inferiores contra a decisão. Qualquer operário entenderá isto.

E Zinóviev fez precisamente essa agitação e torpedeou a decisão do centro tanto na reunião de domingo[N221], onde ele e Kámenev não conquistaram nem um voto, como na sua carta de agora. Pois Zinóviev tem a desvergonha de afirmar que «o partido não foi consultado» e que tais questões «não são decididas por dez pessoas». Imaginai. Todos os membros do CC sabem que à reunião decisiva assistiram mais de dez membros do CC que assistiu a maioria dos membros, que o próprio Kámenev, nessa reunião, declarou: «Esta reunião é decisiva», que, quanto aos membros do CC ausentes, se sabia perfeitamente que na sua maioria não estavam de acordo com Zinóviev e Kámenev. E eis que, depois de uma decisão do CC numa reunião que também Kámenev considerou decisiva, um membro do CC tem o descaramento de escrever: «O partido não foi consultado.» «Tais questões não são decididas por dez»; isto é o mais completo acto fura-greves. Até ao congresso do partido decide o CC. O CC decidiu. Kámenev e Zinóviev, que não intervieram por escrito antes da decisão, começaram a contestar a decisão do CC depois de ter sido tomada.

Isto é o mais completo acto de fura-greves. Depois da adopção de uma decisão é inadmissível qualquer contestação, uma vez que se trata da preparação imediata e secreta para uma greve. Zinóviev tem agora o descaramento de nos imputar a «advertência ao inimigo». Onde está o limite da desvergonha? Quem, na realidade, prejudicou a causa, sabotou a greve com a «advertência-ao inimigo», se não aqueles que intervieram na imprensarão partidária?

Intervir contra uma disposição «decisiva» do partido num jornal que nesta questão está de acordo com toda a burguesia.

Se tolerar isto, o partido será impossível, o partido será destruído.

Chamar «opinião particular» àquilo de que Bazárov toma conhecimento e imprime num jornal não partidário — isso significa escarnecer do partido.

A intervenção de Kámenev e Zinóviev na imprensa não partidária foi particularmente infame ainda porque a sua caluniosa mentira não pode ser refutada abertamente pelo partido: não conheço as decisões sobre a data, escreve e publica Kámenev no seu próprio nome e no de Zinóviev. (Depois de tal declaração, Zinóviev é plenamente responsável por toda a conduta e pela intervenção de Kámenev.)

Como pode o CC refutar isto?

Não podemos dizer a verdade perante os capitalistas, a saber: que decidimos a greve e decidimos ocultar a escolha do momento para ela.

Não podemos refutar a caluniosa mentira de Zinóviev e Kámenev sem prejudicar a causa ainda mais. A infinita infâmia, a verdadeira perfídia destes dois homens consiste precisamente em que eles denunciaram perante os capitalistas o plano dos grevistas, pois, uma vez que nos calamos na imprensa, todos adivinham como estão as coisas.

Kámenev e Zinóviev denunciaram a Rodzianko e a Kérenski a decisão do CC do seu partido sobre a insurreição armada e sobre a dissimulação ao inimigo da preparação da insurreição armada, da escolha da data para a insurreição armada. Isto é um facto. Este facto não pode ser refutado com nenhuma evasiva. Dois membros do CC, com uma caluniosa mentira, denunciaram perante os capitalistas a decisão dos operários. A resposta a isto só pode e deve ser uma: uma decisão imediata do CC:

«Considerando que a intervenção de Zinóviev e de Kámenev na imprensa não partidária é um completo acto de fura-greves, o CC exclui ambos do partido.»

É-me difícil escrever isto a propósito de dois ex-camaradas íntimos, mas consideraria um crime as vacilações neste caso, pois, de outro modo, um partido de revolucionários que não puna destacados fura-greves perecerá.

A questão da insurreição armada, mesmo se os fura-greves a adiaram por muito tempo com a denúncia a Rodzianko e Kérenski, não foi retirada, não foi retirada pelo partido. Como é possível prepararmo-nos para a insurreição armada e prepará-la tolerando entre nós «destacados» fura-greves? Quanto mais destacados, tanto mais perigosos, tanto mais indignos de «perdão». On n'est trahi que par les siens, dizem os franceses. Só pode ser traidor um homem nosso.

Quanto «mais destacados» são os fura-greves, tanto mais obrigatório é puni-los imediatamente com a exclusão.

Só assim é possível sanear o partido operário, depurar-se de uma dúzia de intelectuaizinhos sem carácter, cerrar as fileiras dos revolucionários, ir ao encontro de grandes e grandíssimas dificuldades, ir com os operários revolucionários.

Não podemos publicar a verdade: que depois da reunião decisiva do CC Zinóviev e Kámenev tiveram o descaramento de exigir uma revisão na reunião de domingo, que Kámenev gritou sem vergonha: «O CC fracassou, pois nada fez durante a semana» (eu não podia refutar, pois não é possível dizer o que se fez exactamente), e Zinóviev, com ar inocente, propôs uma resolução rejeitada pela reunião:

«Não agir até à conferência com os bolcheviques que terão de chegar a 20 para o congresso dos Sovietes.»

Imaginai: depois de o centro ter decidido a questão da greve, propor a uma reunião de base que seja adiada e transferida (para o congresso do dia 20, mas o congresso foi depois adiado ... os Zinóviev confiam nos Liberdan[N185]), que seja transferida para um organismo que os estatutos do partido não conhecem, que não tem poderes sobre o CC, que não conhece Petrogrado.

E depois disto Zinóviev ainda tem o descaramento de escrever: «Assim dificilmente se reforçará a unidade do partido.»

Como chamar a isto outra coisa que não ameaça de cisão?

Eu a tal ameaça respondo que irei até ao fim, que obterei liberdade de palavra perante os operários e, custe o que custar, estigmatizarei o fura-greves Zinóviev como fura-greves. A ameaça de cisão respondo com a declaração de guerra até ao fim, pela exclusão de ambos os fura-greves do partido.

Depois de um mês de debates, a direcção de um sindicato decidiu: a greve é inevitável e amadureceu, esconderemos a data aos patrões. Depois disso, dois da direcção vão à base contestar a decisão e fracassam. Então, os dois vão à imprensa perante os capitalistas e denunciam por meio de uma mentira caluniosa a decisão da direcção, sabotando com isto a greve numa boa metade ou protelando-a até piores tempos, advertindo o inimigo.

Eis o mais completo acto de fura-greves. E eis porque exijo a exclusão de ambos os fura-greves, reservando para mim o direito (dada a sua ameaça de cisão) de tudo publicar, quando for possível publicar.

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Notas de fim de tomo:

[N185] Liberdan: nome irónico dado aos dirigentes mencheviques Líber e Dan e aos seus partidários depois da publicação no jornal bolchevique de Moscovo Sotsial-Demokrat de um artigo satírico de Demián Bédni intitulado "Liberdan". (retornar ao texto)

[N221] Aqui e mais adiante, Lenine refere-se à reunião alargada do CC do POSDR(b) realizada no dia 16 (29) de Outubro de 1917, em que Zinóviev e Kámenev se pronunciaram contra a resolução sobre a insurreição armada aprovada na Reunião do CC de 10 (23) de Outubro. (retornar ao texto)

Inclusão 14/02/2011