Declaro-me Marxista-Leninista

Manoel Lisboa

16 de Agosto de 1965


Fonte: "A Vida e a Luta do Comunista Manoel Lisboa - Depoimentos" Edições Centro Cultural Manoel Lisboa, 2000.
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo.
Direitos de Reprodução: Licença Creative Commons licenciado sob uma Licença Creative Commons.

Em todo o mundo, os povos oprimidos despertam para a sua libertação. O século XX tem sido clareado pelo relampejar das idéias novas na consciência das massas populares, determinando, desta forma, uma luta titânica entre o velho que agoniza e o novo que surge.

Assim sendo, desta contradição fundamental, móvel da História, contradição esta que não poderá desaparecer, pois é uma condição objetiva e, como tal, está fora da nossa consciência, não depende de nós, vêm aparecendo e desaparecendo movimentos e regimes, sem que ninguém possa deter a marcha implacável do determinismo histórico. Vários foram os regimes que desapareceram e deram lugar a outros que possuíam naquele momento, condições reais mais favoráveis, mais condizentes com a realidade estrutural em que se apoiavam. Vêm se processando assim o desaparecimento e o aparecimento dos regimes pelos quais a terra já passou: Comunal, Primitivo, Escravagista, Feudal, Capitalista e Socialista. Com todos eles, aconteceu este mesmo processo, e fatalmente acontecerá ao socialismo, embora mude um pouco a sua maneira de ser.

Nota-se que todo esse "emaranhado" de transformações se faz sem que nós possamos impedi-lo de acontecer. Será então uma força misteriosa, divina, que rege isso? Não!

Sabemos que, quando as relações de produção e o caráter das forças produtivas não mais se coadunam, completam-se, é inevitável tal transformação. Não há sicrano nem beltrano que possam impedi-la!

Todos aqueles que durante sua época compreenderam, analisaram e tomaram uma posição ao lado do novo regime que "invisivelmente" brotava das carcomidas estruturas do velho regime, foram vilipendiados, e poucos foram os que tiveram reconhecido seu lugar histórico naquele momento.

Então, todo o processo histórico obedece ao determinismo e o homem não tem papel algum neste processo? Não, dizer semelhante aberração é o mesmo que querer tapar o sol com uma peneira. O homem toma papel ativo e decisivo nas questões sociais, mas isso só acontece quando as condições materiais da sociedade (condição objetiva anteriormente citada) despertam-no para a compreensão do processo histórico e de qual o seu papel no mesmo. A isso, chamamos de condições subjetivas. O despertar da consciência humana para os problemas sociais, para o problema de milhões de explorados, é um sentimento que desencadeia em cada pessoa uma série de transformações para melhor e uma acertada conduta de vida pessoal. Mas será que é um homem só, sem ligação com seus semelhantes poderá operar transformações?

A experiência mostra que não. Os trogloditas já chegaram a esta conclusão em sua batalha contra a natureza, e o homem de hoje, formado na evolução de milhares de anos e com experiência de tal monta, não poderia nem pode contestá-la e, mesmo que o quisesse, não chegaria a fazê-lo, pois ele é o produto da união de dois outros. Daí a inegável necessidade de união.

Mas em que bases deverá ocorrer tal fato? A união verdadeira decorre da semelhança de ideias, do pensamento semelhante, das mesmas opiniões sobre a vida. Assim, pois, exploradores unem-se com exploradores, explorados unem-se a explorados. Do choque de interesses entre ambos surgem as organizações com a finalidade de defender as aspirações e os anseios que eles representam. Enquanto existirem oprimidos e opressores, enquanto existirem escravos e senhores, existirão as organizações e os partidos. Só quando da total falta de exploração poder-se-á deixar de pensar nestes agrupamentos de pessoas, reunidas em torno desse interesse. Essa é a origem das organizações partidárias.

Da reunião dessas condições objetivas mais subjetivas, sairá um movimento capaz de acabar com os males da sociedade brasileira ou outra qualquer que esteja na mesma etapa que a nossa.

Depois deste pequeno delineamento do meu pensamento sobre as questões sociais e que serve de depoimento e esclarecimento de minhas posições, declaro-me marxista-leninista e membro do Partido Comunista do Brasil.

O meu despertar para as questões sociais apareceu quando eu tinha a idade de dezessete anos. Iniciei-me nesses estudos à medida que ia vendo os erros cometidos pela administração dos governos daquela época.

Paralelamente, tive a curiosidade despertada para o marxismo, em virtude do alarde que sempre se fez em torno do socialismo, como sendo um perigo. Por outro lado, o avanço das ideias do socialismo no mundo atual é um fato bastante comprovado. Os livros que falavam do assunto acima referido infestavam todas as livrarias. Desta forma, foi fácil obter material marxista. À medida que ia tomando conhecimento do conteúdo dessas obras, ia relacionando-o com os fatos cotidianos e chegando à conclusão de que nada de perigoso e tremendo ali existia, mas sim uma análise profunda e bem feita dos fatos econômico- sociais, pela qual passou o homem até àquela data.

Continuei meus estudos e aos dezenove anos considerei-me marxista-leninista. Tomei conhecimento das divergências do campo socialista e do aparecimento do revisionismo. Em 1964 fui indiciado por vender livros e revistas em uma pequena livraria. Apresentei-me em janeiro deste ano; fui libertado após 15 dias de prisão. Comecei a preparar-me para fazer um vestibular, possivelmente Economia. Pensei então em formar um grupo de estudos em qualquer organização a fim de esclarecer a quem não havia despertado para os problemas sociais.

Mas isso não foi muito para diante e do jornal que tiramos com muito sacrifício, só saiu um número.

Faltavam-nos todas as condições para nos movimentar, principalmente financeiras, onde arranjar dinheiro? Assim foi tudo andando para trás, até eu ser preso em 12 de agosto de 1965.

Recife, 16 de agosto de 1965
(Depoimento de Manoel Lisboa de Moura,
quando de sua prisão em 1965)

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Inclusão 14/05/2014