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O Capital
Crítica da Economia Política
Karl Marx

Livro Primeiro: O processo de produção do capital

Primeira Seção: Mercadoria e dinheiro

Terceiro capítulo. O dinheiro ou a circulação de mercadorias


1. Medida dos valores


capa

Nesta obra, por uma razão de simplificação, irei sempre pressupor o ouro como a mercadoria-dinheiro.

A primeira função do ouro consiste em fornecer ao mundo das mercadorias o material para a expressão do seu valor ou em manifestar os valores das mercadorias como magnitudes homónimas, qualitativamente iguais e quantitativamente comparáveis. Ele funciona, pois, como medida universal dos valores e só através desta função é que o ouro, a mercadoria equivalente específica, começa por se tornar dinheiro.

Não é através do dinheiro que as mercadorias se tornam comensuráveis. É o inverso. Uma vez que todas as mercadorias, como valores, são trabalho humano objectivado e, por isso, comensuráveis em si e por si, elas podem medir os seus valores, em comum, na mesma mercadoria específica e transformá-la por isso na sua medida comum de valor ou dinheiro. O dinheiro como medida de valor é a forma fenoménica necessária da medida de valor imanente das mercadorias, do tempo de trabalho(1*).

A expressão de valor de uma mercadoria em ouro — x de mercadoria A = y de mercadoria-dinheiro — é a sua forma-dinheiro ou o seu preço. Uma equação isolada, como 1 tonelada de ferro = 2 onças de ouro, basta agora para manifestar o valor do ferro de modo socialmente válido. A equação já não precisa de enfileirar com as equações de valor das outras mercadorias, porque a mercadoria-equivalente, o ouro, possui já o carácter de dinheiro. Assim, a forma-valor relativa universal das mercadorias tem agora de novo a figura da sua forma-valor relativa original, simples ou singular. Por outro lado, a expressão de valor relativa desdobrada ou a série infinita de expressões de valor relativas torna-se na forma-valor especificamente relativa da mercadoria-dinheiro. Mas agora esta série está já dada socialmente nos preços das mercadorias. Leiam-se as cotações de um boletim de preços de trás para a frente e encontrar-se-á a magnitude de valor do dinheiro manifestada em todas as mercadorias possíveis. O dinheiro, em contrapartida, não tem nenhum preço. Para participar desta forma-valor relativa unitária das outras mercadorias, ele teria de se relacionar consigo mesmo como seu próprio equivalente.

O preço ou forma-dinheiro das mercadorias é, como a sua forma-valor em geral, uma forma diversa da sua forma corpórea palpavelmente real e, portanto, apenas uma forma ideal ou representada. O valor do ferro, do tecido de linho, do trigo, etc, existe, embora invisivelmente, nestas próprias coisas; ele é representado pela sua igualdade com o ouro — uma relação com o ouro que, por assim dizer, só existe, como fantasma, nas suas cabeças. Assim, o guardião das mercadorias tem de pôr a sua língua na cabeça delas ou de pendurar nelas um letreiro de papel para participar os seus preços ao mundo exterior(2*). Como a expressão dos valores das mercadorias em ouro é ideal, nesta operação também se pode aplicar um ouro apenas representado ou ideal. Todo o guardião de mercadorias sabe que ainda falta muito para ter as suas mercadorias transformadas em ouro quando ele dá ao seu valor a forma de preço ou a forma-ouro representada e que não precisa nem de um bocadinho de ouro real para avaliar em ouro milhões de valores de mercadorias. Portanto, na sua função de medida de valor, o dinheiro serve portanto apenas como dinheiro representado ou ideal. Esta circunstância ocasionou as mais extravagantes teorias(3*). Embora só dinheiro representado sirva para a função de medida de valor, o preço depende totalmente do material real do dinheiro. O valor, i. é, o quantum de trabalho humano que está contido, p. ex., numa tonelada de ferro, expressa-se num quantum representado da mercadoria-dinheiro que contém o mesmo trabalho. Assim, conforme sejam o ouro, a prata ou o cobre a servir para medida de valor, o valor da tonelada de ferro adquire expressões de preço totalmente diversas ou é representado em quantidades totalmente diversas de ouro, prata ou cobre.

Assim, se duas mercadorias diversas, p. ex. o ouro e a prata, servirem simultaneamente como medidas de valor, então todas as mercadorias possuem duas expressões de preço diversas, preços em ouro e preços em prata, que correm calmamente lado a lado enquanto a relação de valor entre a prata e o ouro se mantiver inalterada, p. ex. = 1:15. Porém, qualquer alteração desta relação de valor afecta a relação entre os preços em ouro e os preços em prata das mercadorias e assim demonstra, facticamente, que a duplicação da medida de valor contradiz a sua função(4*).

As mercadorias de preço determinado manifestam-se todas na forma: a de mercadoria A = x de ouro, b de mercadoria B = z de ouro, c de mercadoria C = y de ouro, etc, onde a, b, c representam determinadas massas das espécies de mercadorias A, B, C e x, z, y determinadas massas de ouro. Assim, os valores das mercadorias são transformados em quanta de ouro representados de diversas magnitudes, ou seja, apesar da confusa variedade dos corpos das mercadorias, são transformados em magnitudes homónimas, magnitudes de ouro. Sendo, assim, quanta de ouro diversos elas comparam-se e medem-se entre si, pelo que, tecnicamente, se desenvolve a necessidade de as relacionar com um quantum fixo de ouro como sua unidade de medida. Esta unidade de medida desenvolve-se ela própria ulteriormente, através da sua subdivisão em partes alíquotas, em padrão. Antes de se tornarem dinheiro, o ouro, a prata e o cobre possuem já esses padrões nos seus pesos metálicos, de modo que, p. ex., uma libra serve como unidade de medida e, de seguida, é, por um lado, subdividida em onças, etc, e, por outro lado, agrupada em quintais, etc.(6*). Por isso, em toda a circulação metálica, os nomes do padrão de peso preexistentes constituem também os nomes originais do padrão do dinheiro ou do padrão dos preços.

Como medida dos valores e como padrão dos preços, o dinheiro cumpre duas funções totalmente diversas. Ele é medida dos valores como encarnação social do trabalho humano e é padrão dos preços como um peso metálico fixo. Como medida de valor, ele serve para transformar os valores das mais diversas mercadorias em preços, em quanta de ouro representados; como padrão dos preços, ele mede esses quanta de ouro. Pela medida dos valores medem-se as mercadorias como valores; o padrão dos preços, em contrapartida, mede quanta de ouro por um quantum de ouro e não o valor de um quantum de ouro pelo peso de outro. Para padrão dos preços tem de ser fixado um determinado peso de ouro como unidade de medida. Aqui, como em todas as outras determinações de medida de magnitudes homónimas, a fixidez das relações de medida é decisiva. Assim, o padrão dos preços cumpre a sua função tanto melhor quanto mais inalteradamente um e um só quantum de ouro servir como unidade de medida.O ouro só pode servir como medida dos valores porque ele próprio é um produto de trabalho, portanto, em potência, um valor alterável(7*).

Antes de mais é claro que uma mudança do valor do ouro não afecta de modo nenhum a sua função como padrão dos preços. Como quer que mude o valor do ouro, diversos quanta de ouro mantêm sempre a mesma relação de valor entre si. Se o valor do ouro caísse 1000%, 12 onças de ouro possuiriam, tal como antes, 12 vezes mais valor do que uma onça de ouro, e, nos preços, apenas se trata da relação entre diversos quanta de ouro entre si. Como, por outro lado, uma onça de ouro de modo nenhum altera o seu peso com a descida ou subida do seu valor, tão-pouco se altera o peso das suas partes alíquotas, e assim o ouro, como padrão fixo dos preços, presta sempre o mesmo serviço, por muito que o seu valor mude.

A mudança de valor do ouro também não impede a sua função como medida de valor. Ela atinge todas as mercadorias simultaneamente e, portanto, caeteris paribus, deixa inalterados os valores que as relacionam entre si, embora todas elas passem a exprimir-se em preços em ouro superiores ou inferiores aos de antes.

Tal como na manifestação do valor de uma mercadoria no valor de uso de outra mercadoria qualquer, também na avaliação das mercadorias em ouro apenas se pressupõe que, num dado tempo, a produção de um determinado quantum de ouro custa uma dado quantum de trabalho. Relativamente ao movimento dos preços das mercadorias em geral vigoram as leis anteriormente desenvolvidas da expressão de valor relativa simples.

Os preços das mercadorias apenas podem subir generalizadamente, mantendo-se o valor do dinheiro igual, se os valores das mercadorias subirem; mantendo-se iguais os valores das mercadorias, se o valor do dinheiro descer. Inversamente, os preços das mercadorias só podem descer generalizadamente, mantendo-se igual o valor do dinheiro, se os valores das mercadorias descerem; mantendo-se iguais os valores das mercadorias, se o valor do dinheiro subir. Daqui não se segue, de modo nenhum, que um valor crescente do dinheiro implique uma queda proporcional dos preços das mercadorias e um valor decrescente do dinheiro uma subida proporcional dos preços das mercadorias. Isto apenas vale para mercadorias de valor inalterado. Essas mercadorias, como, p. ex., aquelas cujo valor suba proporcionalmente e simultaneamente com o valor do dinheiro, mantêm os mesmos preços. Se o seu valor subir mais lenta ou mais rapidamente que o valor do dinheiro, então a subida ou descida dos seus preços é determinada pela diferença entre o movimento do seu valor e o do dinheiro, e assim por diante.

Regressemos agora à consideração da forma-preço.

Os nomes monetários dos pesos metálicos afastam-se pouco a pouco dos seus nomes originais de peso por diversas razões, entre as quais são historicamente decisivas:

  1. a introdução de dinheiro estrangeiro em povos menos desenvolvidos; p. ex., na Roma antiga as moedas de prata e ouro começaram por circular como mercadorias estrangeiras. Os nomes deste dinheiro estrangeiro são diferentes dos nomes dos pesos locais.
  2. Com o desenvolvimento da riqueza, o metal menos nobre é afastado pelo mais nobre da função de medida de valor. O cobre pela prata, a prata pelo ouro, por muito que esta sequência possa contradizer toda a cronologia poética(10*)[N43]. A libra era, p. ex., o nome monetário de uma libra em prata real. Logo que o ouro suplanta a prata como medida de valor, o mesmo nome fica ligado talvez a 1/15, etc, de libra em ouro, conforme a relação de valor entre ouro e prata. A libra como nome monetário e a libra como nome de peso habitual do ouro estão agora separadas(11*).
  3. A falsificação do dinheiro prosseguida durante séculos pelos príncipes, a qual, de facto, do peso original das moedas apenas conservou o nome(13*).

Estes processos históricos tornam a separação entre o nome monetário dos pesos metálicos e o nome habitual do seu peso num hábito popular. Como o padrão do dinheiro é, por um lado, puramente convencional e, por outro lado, necessita de validade geral, ele acaba por ser regulamentado por lei. Uma determinada parte de peso do metal nobre, p. ex., uma onça de ouro, é oficialmente dividida em partes alíquotas que recebem nomes de baptismo legais, como libra, táler, etc. Essa parte alíquota, que vale então como unidade de medida propriamente dita do dinheiro, subdivide-se em outras partes alíquotas com nomes de baptismo legais tais como xelim, dinheiro [penny], etc.(14*). Tal como antes, determinados pesos metálicos continuam a ser o padrão do dinheiro metálico. O que se alterou foi a subdivisão e a denominação.

Portanto, os preços ou os quanta de ouro em que valores das mercadorias são idealmente transformados, exprimem-se agora nos nomes monetários ou nos nomes de conta legalmente válidos do padrão de ouro. Assim, em vez de se dizer que um quarter de trigo é igual a uma onça de ouro dir-se-ia, em Inglaterra, que ele é igual a 3 lib. esterl., 17 sh. e 10 1/2 d. Deste modo, as mercadorias exprimem nos seus nomes monetários aquilo que valem e o dinheiro serve como dinheiro de conta sempre que se trate de fixar uma coisa como valor e, portanto, na forma-dinheiro(15*).

O nome de uma coisa é totalmente exterior à sua natureza. Não sei nada do homem se souber que um homem se chama Jacobus. Do mesmo modo, nos nomes monetários libra, táler, franco, ducado, etc, desaparece qualquer vestígio da relação de valor. A confusão sobre o sentido secreto destes sinais cabalísticos torna-se maior porque os nomes monetários exprimem o valor das mercadorias e, simultaneamente, partes alíquotas de um peso metálico, do padrão de dinheiro(16*). Por outro lado, é necessário que o valor, diferentemente dos corpos variados do mundo das mercadorias, evolua para esta forma coisal desprovida de conceito, mas, também, simplesmente social(18*).

O preço é o nome monetário do trabalho objectivado na mercadoria. A equivalência da mercadoria e do quantum de dinheiro cujo nome é o seu preço é, assim, uma tautologia(20*), como em geral a expressão de valor relativa de uma mercadoria é sempre a expressão da equivalência de duas mercadorias. Porém, se o preço, como expoente da magnitude de valor da mercadoria, é o expoente da sua relação de troca por dinheiro, isso não implica que, inversamente, o expoente da sua relação de troca por dinheiro seja necessariamente o expoente da sua magnitude de valor. Suponhamos que um trabalho socialmente necessário de igual magnitude se manifesta em 1 quarter de trigo e em 2 lib. esterl. (cerca de 1/2 onça de ouro). As 2 lib. esterl. são a expressão monetária da magnitude de valor do quarter de trigo, ou o seu preço. Se as circunstâncias lhe permitirem cotá-lo em 3 lib. esterl. ou obrigarem a cotá-lo em 1 lib. esterl., então 1 lib. esterl. e 3 lib. esterl., como expressões da magnitude de valor do trigo, são demasiado pequenas ou demasiado grandes, mas de qualquer modo são preços do mesmo, pois, em primeiro lugar, são a sua forma-valor, dinheiro, e, em segundo lugar, expoentes da sua relação de troca por dinheiro. Mantendo-se iguais as condições de produção ou a força produtiva [Produktivkraft] do trabalho, continua a ser necessário despender, para a reprodução do quarter de trigo, a mesma quantidade de tempo de trabalho social. Esta circunstância não depende da vontade nem do produtor de trigo nem dos outros possuidores de mercadorias. Portanto, a magnitude de valor da mercadoria exprime uma relação necessária, imanente ao seu processo de formação, com o tempo de trabalho social. Com a transformação da magnitude de valor em preço, esta relação necessária aparece como relação de troca de uma mercadoria com a mercadoria-dinheiro existente fora dela. Porém, nesta relação, tanto pode exprimir-se a magnitude de valor da mercadoria como o mais ou o menos em que, em dadas circunstâncias, ela é alienável. Assim, a possibilidade de incongruência quantitativa entre preço e magnitude de valor, ou o desvio do preço em relação à magnitude de valor, reside na própria forma-preço. Isto não constitui qualquer defeito desta forma, antes a torna, inversamente, na forma adequada a um modo de produção em que a regra apenas se consegue impor como lei média da ausência de regra, actuando cegamente.

No entanto, a forma-preço não só permite a possibilidade de incongruência quantitativa entre magnitude de valor e preço, i. é, entre a magnitude de valor e a sua própria expressão monetária, como também pode albergar uma contradição qualitativa, de tal forma que o preço em geral deixa de ser expressão de valor, embora o dinheiro seja apenas a forma-valor das mercadorias. As coisas que em si e por si não são mercadorias, como a consciência, a honra, etc, podem ser postas à venda pelos seus possuidores por dinheiro e assim, através do seu preço, obterem a forma-mercadoria. Portanto, uma coisa pode ter formalmente um preço sem ter um valor. A expressão de preço torna-se aqui imaginária, como certas magnitudes da matemática. Por outro lado, também a forma-preço imaginária, como p. ex., o preço de um terreno inculto, que não tem nenhum valor uma vez que nele não está objectivado nenhum trabalho humano, pode esconder uma real relação de valor ou uma relação derivada dela.

Tal como a forma-valor relativa em geral, o preço exprime o valor de uma mercadoria, p. ex., de uma tonelada de ferro, através do facto de um determinado quantum do equivalente, p. ex., uma onça de ouro, ser imediatamente trocável por ferro, mas de modo nenhum, inversamente, pelo facto de o ferro, por seu lado, ser imediatamente trocável por ouro. Assim, para exercer na prática o efeito de um valor de troca, a mercadoria tem de despojar-se do seu corpo [Leib] natural, transformar-se de ouro apenas representado em ouro real, embora esta transubstanciação lhe possa ser mais «amarga» do que ao «conceito» hegeliano a transição da necessidade para a liberdade ou do que a uma lagosta fazer saltar a sua carapaça ou a Jerónimo, Padre da Igreja, desfazer-se do velho Adão(21*). Além da sua figura real, p. ex. ferro, a mercadoria pode possuir, no preço, uma figura de valor ideal ou uma figura-ouro representada, mas ela não pode ser ao mesmo tempo ferro real e ouro real. Para se lhe atribuir um preço, basta igualá-la a ouro representado. Para prestar ao seu possuidor o serviço de um equivalente geral, ela tem de ser substituída por ouro. Se o possuidor do ferro, p. ex., se encontrasse com o possuidor de uma mercadoria mundana e lhe indicasse o preço do ferro como sendo forma-dinheiro, o mundano responderia como São Pedro no céu respondeu a Dante, quando este lhe recitou o credo[N46]:

«Assai bene è trascorsa
D'esta moneta già la lega e 'l peso,
Ma dimmi se tu l'hai nella tua borsa.» (22*)

A forma-preço inclui a alienabilidade das mercadorias contra dinheiro e a necessidade dessa alienação. Por outro lado, o ouro apenas funciona como medida de valor ideal porque já circulava no processo de troca como mercadoria-dinheiro. Assim, por trás da medida ideal dos valores espreita o dinheiro sonante.


Notas de rodapé:

(1*) A questão de porque o dinheiro não representa imediatamente o próprio tempo de trabalho, de tal modo que, p. ex., uma nota de papel represente x horas de trabalho, conduz muito simplesmente à questão de porque é que, com base na produção de mercadorias, os produtos de trabalho têm de se manifestar como mercadorias, pois a manifestação da mercadoria inclui a sua duplicação em mercadoria e em mercadoria-dinheiro. Ou à questão de porque não pode o trabalho privado ser tratado, como o seu contrário, como trabalho imediatamente social. Em outro local abordei pormenorizadamente (1. c, pp. 61 sqq.) o utopismo superficial de um «dinheiro-trabalho» com base na produção de mercadorias. Observe-se ainda aqui que, p. ex., o «dinheiro-trabalho» de Owen é tão pouco dinheiro como um bilhete de teatro. Owen pressupõe um trabalho imediatamente socializado, uma forma de produção diametralmente oposta à produção de mercadorias. O certificado de trabalho constata apenas a participação individual do produtor no trabalho comum e o seu direito individual à parte do produto comum destinada ao consumo. Mas não ocorre a Owen pressupor a produção de mercadorias e, não obstante, querer contornar as suas condições necessárias através de sarrafaçaduras monetárias. (retornar ao texto)

(2*) O selvagem ou semi-selvagem usa a língua de outra maneira. O capitão Parry, p. ex., observa acerca dos habitantes da costa ocidental da baía de Baffin: «Neste caso» (na troca de produtos) «... eles lambiam-no» (aquilo que se lhes oferecia) «duas vezes com a língua, depois do que pareciam considerar o negócio concluído com satisfação.»[N42] Do mesmo modo, entre os esquimós orientais, o trocador lambia sempre o artigo ao recebê-lo. Se, no Norte, a língua é assim usada como órgão de apropriação, não admira que, no Sul, a barriga valha como órgão da propriedade acumulada e o cafre avalie a riqueza de um homem segundo a sua pança. Os cafres são tipos espertos, pois enquanto o relatório de saúde oficial britânico de 1864 lastima a carência em substâncias gordas de uma grande parte da classe operária, um certo Dr. Harvey — que todavia não é o mesmo que o que descobriu a circulação do sangue — fazia no mesmo ano a sua felicidade graças a receitas de choque que prometiam à burguesia e aristocracia libertá-las do fardo do excesso de gordura. (retornar ao texto)

(3*) Ver Karl Marx, Zur Kritik, etc, «Teorias sobre a unidade de medida do dinheiro», pp. 53 sqq. (retornar ao texto)

(4*) Nota à 2.ª ed. «Onde ouro e prata subsistem a par legalmente como dinheiro, i. é, como medida de valor, sempre se fez a tentativa vã de tratá-los como uma e a mesma matéria. Se se supuser que o mesmo tempo de trabalho tem de se objectivar invariavelmente na mesma proporção de ouro e prata, supõe-se então, de facto, que prata e ouro são a mesma matéria e que determinada massa do metal menos valioso, a prata, constitui a fracção invariável de uma determinada massa de ouro. Do reinado de Eduardo III até aos tempos de Jorge II, a história do sistema monetário inglês processa-se numa constante série de perturbações, provenientes da colisão entre a fixação legal da relação de valor entre ouro e prata e as suas reais oscilações de valor. Ora o ouro era avaliado demasiado alto, ora a prata. O metal avaliado demasiado abaixo foi retirado da circulação, refundido e exportado. A relação de valor de ambos os metais foi então novamente modificada legalmente, mas o novo valor nominal em breve entrou no mesmo conflito com a real relação de valor do que o antigo. — No nosso próprio tempo, a queda muito fraca e passageira do valor do ouro contra a prata, em consequência da procura indo-chinesa de prata, gerou em França, na maior escala, o mesmo fenómeno: exportação de prata e a sua retirada da circulação a favor do ouro. Durante os anos 1855, 1856, 1857, o excesso de importação de ouro para França sobre a exportação de ouro para fora de França ascendeu a 41 580 000 lib. esterl., enquanto que o excesso de exportação de prata sobre a importação de prata ascendeu a 34 704 000(5*) lib. esterl. De facto, em países onde ambos os metais são medidas de valor legais, portanto ambos têm de ser aceites em pagamento, cada um podendo pagar em prata ou em ouro conforme deseje, o metal que cresce em valor rende um ágio e mede, como qualquer outra mercadoria, o seu preço no metal sobrevalorizado, enquanto que somente este último serve de medida de valor. Toda a experiência histórica neste domínio se reduz simplesmente a que, onde legalmente duas mercadorias desempenham a função de medida de valor, facticamente apenas sempre só uma ocupa como tal esse lugar.» (Karl Marx, 1. c, pp. 52, 53.) (retornar ao texto)

(5*) Da 2.ª à 4.ª edição: 14 704 000 (Nota da edição alemã) (retornar ao texto)

(6*) Nota à 2.ª ed. A particularidade de a onça de ouro, em Inglaterra, não estar dividida, como unidade do padrão do dinheiro, em partes alíquotas explica-se como segue: «Originalmente, a nossa cunhagem apenas estava adaptada ao uso de prata, e daí que uma onça de prata possa sempre ser dividida num certo número adequado de moedas; mas, como o ouro foi introduzido num período ulterior numa cunhagem apenas adaptada à prata, uma onça de ouro não pode ser cunhada num número alíquota de moedas.» (Maclaren, History of the Currency, London, 1858, p. 16.) (retornar ao texto)

(7*) Nota à 2.ª ed. Em obras inglesas é indescritível a confusão acerca da medida dos valores (measure of value(8*)) e padrão dos preços (standard of value(9*)). As funções e, por isso, os seus nomes são constantemente trocados. (retornar ao texto)

(8*) Em inglês no texto: medida de valor. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(9*) Em inglês no texto: padrão de valor. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(10*) De resto, ela também não tem validade histórica universal. (retornar ao texto)

(11*) Nota à 2.ª ed. Assim, a libra inglesa designa menos de um terço do seu peso original, a libra escocesa de antes da Union[N44] apenas 1/36, a livre francesa 1/74, o maravedi espanhol menos de 1/1000, o real(12*) português uma proporção ainda muito menor. (retornar ao texto)

(12*) No original: rei. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(13*) Nota à 2.ª ed. «As moedas que hoje são ideais são as mais antigas de cada nação e um tempo houve em que todas foram reais e, porque eram reais, era com elas que se contava.» (Galiani, Della Moneta, 1. c, p. 153.) (retornar ao texto)

(14*) Nota à 2.ª ed. O senhor David Urquhart, nas suas Familiar Words, chama a atenção para a monstruosidade (!) de, hoje em dia, uma libra (£ esterl.), a unidade do padrão do dinheiro inglês, ser igual a aproximadamente 74 de onça de ouro. «Isto é falsificar uma medida, não estabelecer um padrão.» [p. 105] Nesta «falsa denominação» do peso do ouro, como em tudo o resto, ele vê a mão falsificadora da civilização. (retornar ao texto)

(15*) Nota à 2.ª ed. «Perguntado a Anacársis para que precisavam os helenos do dinheiro, respondeu: para contar.» (Aten[eu], Deipn., 1. IV, 49, v. 2 [p. 120], ed. Schweighäuser, 1802 [IV, 159 c. — Nota da edição portuguesa].) (retornar ao texto)

(16*) Nota à 2.ª ed. «Porque o ouro(17*) aparece, como padrão dos preços, sob os mesmos nomes de conta que os preços das mercadorias — assim, p. ex., uma onça de ouro é expressa tal como o valor de uma tonelada de ferro por 3 lib. esterl., 17 sh. e 10 1/2 d. — chamou-se a este seu nome de conta o seu preço monetário. Surgiu então a representação maravilhosa de que o ouro (ou prata) seria avaliado no seu próprio material e, diferentemente de todas as mercadorias, receberia do Estado um preço fixo. Confundiu-se a fixação de nomes de conta de determinados pesos de ouro com a fixação do valor destes pesos.» (Karl Marx, 1. c, p. 52.) (retornar ao texto)

(17*) Da 2.ª edição: dinheiro. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(18*) Cf. «Teorias sobre a unidade de medida do dinheiro» in Zur Kritik der Pol Oekon., etc, pp. 53 sqq(19*). As fantasias acerca da elevação ou abaixamento do «preço monetário» — que consistem em transferir, por [decisão] do Estado, os nomes monetários legais de partes de peso em ouro ou prata legalmente fixadas para partes de peso maiores ou menores, e em conformidade também em cunhar porventura com um 1/4 de onça de ouro, em vez de 20 sh., futuramente 40 sh. — destas fantasias, desde que não tenham como finalidade inábeis operações financeiras contra credores estatais e privados, mas «curas milagrosas» económicas, tratou Petty tão exaustivamente em Quantulumcunque Concerning Money. To the Lord Marquis of Halifax, 1682, que já os seus sucessores imediatos, Sir Dudley North e John Locke, para não falar de mais tardios, apenas o puderam trivializar. «Se a riqueza de uma nação», diz ele entre outras coisas, «pudesse ser decuplicada por uma proclamação, seria estranho que tais proclamações não tivessem sido feitas desde há muito pelos nossos Governantes.» (L. c, p. 36.) (retornar ao texto)

(19*) Igualmente p. 59 e segs. (Nota da edição alemã.) (retornar ao texto)

(20*) «Ou então tem de se aceitar dizer que um valor de um milhão em dinheiro vale mais do que um valor igual em mercadorias.» (Le Trosne, 1. c, p. 919); ou seja, «que um valor vale mais do que um valor igual.» (retornar ao texto)

(21*) Se, na sua juventude, Jerónimo teve muito que lutar com a carne material, como mostra a sua luta no deserto com belas imagens de mulheres, também na velhice teve de lutar com a carne espiritual. «Julgava-me», diz ele, p. ex., «em espírito perante o Juiz Universal». «Quem és tu?», perguntou uma voz. «Sou um cristão.» «Mentes», trovejou o Juiz Universal. «Tu és apenas um ciceroniano!»[N45] (retornar ao texto)

(22*) Em italiano no texto: «Já se passou em revista muito bem / Desta moeda a liga e o peso, / Mas diz-me se a tens na tua bolsa.» (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

Notas de fim de tomo:

[N42] [William Edward Parry,] Journal of a Voyage for the Discovery of a North-West Passage from the Atlantic to the Pacific; Performed in the Years 1819-20, in His Majesty's Ships Hecla and Griper, under the Orders of William Edward Parry. London, 1821. Na segunda edição deste livro, publicada em Londres também em 1821, o trecho citado encontra-se nas pp. 277-278. (retornar ao texto)

[N43] Na mitologia clássica a história da humanidade dividia-se em cinco períodos. As idades do ouro e da prata constituíam os dois primeiros desses cinco períodos. Na idade mais feliz, a do ouro, os homens viveriam sem conhecerem quaisquer adversidades e só nas idades posteriores a vida se tornou diferente. A quinta e última das idades — a do ferro — está cheia de injustiças, de violências e de assassínios. A lenda das cinco idades é reproduzida na obra do poeta grego Hesíodo e do poeta lírico romano Ovídio. (retornar ao texto)

[N44] Trata-se da união anglo-escocesa de 1707, de acordo com a qual a Escócia foi definitivamente ligada à Inglaterra. Em consequência desse acto, que dissolveu o Parlamento escocês, foram também eliminadas todas as barreiras económicas existentes entre os dois países. (retornar ao texto)

[N45] Marx cita a carta a Eustóquio de São Jerónimo, também conhecida por De conservanda virginitate (Da conservação da virgindade). (retornar ao texto)

[N46] Dante, A Divina Comédia, «O Paraíso», canto XXIV. (retornar ao texto)

Inclusão 05/12/2011