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O Capital
Crítica da Economia Política
Karl Marx

Livro Primeiro: O processo de produção do capital

Quarta Secção: A produção da mais-valia relativa
Décimo segundo capítulo. Divisão do trabalho e manufactura


1. Dupla origem da manufactura


capa

A cooperação assente na divisão do trabalho cria para si a sua figura clássica na manufactura. Como forma característica do processo capitalista de produção, ela predomina durante o período manufacturareiro propriamente dito que, grosseiramente avaliado, dura de meados do século XVI até ao último terço do dezoito.

A manufactura brota de duplo modo.

Ou se reúnem numa oficina, sob o comando do mesmo capitalista, operários de diversas espécies de ofícios autónomos, por cujas mãos um produto tem de passar até ao seu acabamento último. P. ex., um coche era o produto global dos trabalhos de um grande número de artesãos independentes, tais como segeiros, seleiros, costureiros, serralheiros, correeiros, torneiros, passamaneiros, vidraceiros, pintores, envernizadores, douradores, etc. A manufactura de coches reúne todos estes diversos artesãos numa mesma oficina onde estes trabalham simultaneamente [passando o produto] uns aos outros em mão. De facto, não se pode dourar um coche antes de estar feito. Contudo, se muitos coches forem feitos constantemente, uma parte pode então continuamente estar a ser dourada, enquanto uma outra parte percorre uma fase anterior do processo de produção. Por enquanto achamo-nos ainda no terreno da cooperação simples que encontra o seu material já pronto em pessoas e coisas. No entretanto, muito em breve se dá uma transformação essencial. O costureiro, serralheiro, correeiro, etc, que se ocupa apenas em fazer coches, com o hábito perde também, a pouco e pouco, a capacidade de exercer o seu antigo ofício em toda a sua extensão. Por outro lado, o seu agir unilateralizado recebe agora a forma mais adequada àquela esfera restringida de acção. Originariamente a manufactura de coches apareceria como uma combinação de ofícios autónomos. Ela torna-se a pouco e pouco divisão da produção de coches nas suas operações especiais diversas, cada uma das quais se cristaliza em função exclusiva de um operário e cuja totalidade é executada pela união destes operários parcelares. Do mesmo modo, da combinação de diversos ofícios sob o comando do mesmo capital surgiu a manufactura do pano e toda uma série de outras manufacturas(1*).

Mas a manufactura brota também por contraposto caminho. São simultaneamente ocupados pelo mesmo capital, na mesma oficina, muitos artesãos que fazem o mesmo ou algo da mesma espécie, p. ex., papel ou tipos de imprensa ou agulhas. Isto é cooperação na forma mais simples. Cada um destes artesãos (talvez com um ou dois oficiais) faz a mercadoria toda e completa, pois, por ordem, as diversas operações requeridas para a sua fabricação. Ele continua a trabalhar ao seu velho modo artesanal. No entanto, circunstâncias exteriores logo levam a desfrutar diferentemente da concentração dos operários no mesmo espaço e da simultaneidade dos seus trabalhos. Deve, p. ex., fornecer-se um maior quantum de mercadoria pronta num determinado prazo de tempo. O trabalho é então repartido. Em vez de fazer executar as diversas operações pelo mesmo artesão, numa sequência temporal, estas são desligadas umas das outras, isoladas, colocadas contiguamente no espaço, cada uma das mesmas consignada a um outro artesão e todas juntas simultaneamente efectuadas pelos cooperantes. Esta repartição casual repete-se, mostra as suas vantagens peculiares e ossifica-se a pouco e pouco em divisão sistemática do trabalho. De produto individual de um artesão autónomo, que faz todo o género de coisas, a mercadoria transforma-se no produto social de uma união de artesãos, cada um dos quais apenas continuamente cumpre uma e a mesma operação parcelar. As mesmas operações, que fluíam como execuções sucessivas no papeleiro alemão pertencente a uma corporação, na manufactura holandesa do papel autonomizaram-se em operações parcelares, contiguamente decorrentes, de muitos operários cooperantes. O agulheiro de Nuremberga pertencente a uma corporação forma o elemento fundamental da manufactura de agulhas inglesa. Mas enquanto aquele agulheiro percorria uma série de talvez 20 operações consecutivas, aqui 20 agulheiros executavam logo contiguamente cada um apenas uma das 20 operações que, em consequência de experiências, ainda se vieram muito mais a cindir, isolar e autonomizar em funções exclusivas de operários singulares.

O modo de origem da manufactura, a sua proveniência do artesanato, é portanto dupla. Ela parte, por um lado, da combinação de ofícios autónomos, de diversa espécie, que são desautonomizados e unilateralizados até ao ponto em que formam apenas operações parcelares, complementares entre si, no processo de produção de uma e a mesma mercadoria. Parte, por outro lado, da cooperação de artesãos da mesma espécie, decompõe o mesmo ofício individual nas suas diversas operações particulares e isola e autonomiza estas até ao ponto em que cada uma das mesmas se torna função exclusiva de um operário particular. Assim, por um lado, a manufactura introduz, ou desenvolve ainda mais, a divisão do trabalho num processo de produção; por outro lado, ela combina ofícios anteriormente separados. Qualquer que seja porém o seu particular ponto de partida, a sua figura conclusiva é a mesma — um mecanismo de produção, cujos órgãos são pessoas.

Para o correcto entendimento da divisão do trabalho na manufactura é essencial reter os seguintes pontos: primeiramente, a análise do processo de produção nas suas fases particulares coincide aqui perfeitamente com a decomposição de uma actividade artesanal nas suas diversas operações parcelares. Composta ou simples, a execução permanece artesanal e portanto dependente de força, destreza, rapidez, segurança do operário singular no manejo do seu instrumento. O artesanato permanece a base. Esta base técnica estreita exclui uma análise realmente científica do processo de produção, uma vez que cada processo parcelar que o produto perfaz tem de ser executável como trabalho parcelar artesanal. Precisamente porque a destreza artesanal permanece assim a base do processo de produção, cada operário é exclusivamente apropriado a uma função parcelar e a sua força de trabalho é transformada no órgão vitalício desta função parcelar. Por fim, esta divisão do trabalho é uma espécie particular de cooperação e muitas das suas vantagens brotam da essência geral, não desta forma particular de cooperação.

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Notas de rodapé:

(1*) Para introduzir um exemplo mais moderno desta espécie de formação da manufactura, eis a seguinte citação. A fiação e a tecelagem de seda de Lyon e Nimes «é toda ela patriarcal; emprega muitas mulheres e crianças, mas sem as esgotar nem as corromper; deixa-as nos seus belos vales do Drôme, do Var, do Isère, de Vaucluse, para aí criar bichos-da-seda e dobar os seus casulos; [...] jamais chega a ser uma fábrica verdadeira. Para ser tão bem observado... o princípio da divisão do trabalho reveste-se aí de um carácter especial. Há sem dúvida dobadoras, torcedores, tintureiros, encoladores, e depois tecelãos; mas não estão reunidos num mesmo estabelecimento, não dependem de um mesmo patrão; são todos eles independentes.» (A. Blanqui, Cours d'écon. industrielle, recueilli par A. Blaise, Paris, 1838-1839, p. 79(2*).)
Desde que Blanqui ejscreveu isto, os diversos operários independentes foram em parte reunidos em fábricas. {À 4.a ed. — E desde que Marx escreveu o sobredito, o tear mecânico introduziu-se nestas fábricas e rapidamente suplantou o tear manual. A indústria da seda de Krefeld também tem uma história a contar acerca disto. — F. E.} (retornar ao texto)

(2*) Na edição francesa: pp. 78, 79. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

Inclusão 12/04/2012