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O Capital
Crítica da Economia Política
Karl Marx

Livro Primeiro: O processo de produção do capital

Quarta Secção: A produção da mais-valia relativa
Décimo segundo capítulo. Divisão do trabalho e manufactura


2. O operário parcelar e a sua ferramenta


capa

Se formos agora mais ao particular, torna-se claro antes de mais que um operário que toda a sua vida executa uma e a mesma operação simples transforma todo o seu corpo em órgão automaticamente unilateral desta e portanto gasta para isso menos tempo do que o artesão que alternadamente efectua toda uma série de operações. O operário total combinado, que forma o mecanismo vivo da manufactura, consiste todavia, pura e simplesmente, em tais operários parcelares unilaterais. Em comparação com o artesanato autónomo, produz-se assim mais em menos tempo ou sobe-se a força produtiva do trabalho(1*). Também o método do trabalho parcelar se aperfeiçoa desde que é autonomizado em função exclusiva de uma pessoa. A constante repetição do mesmo agir limitado e a concentração da atenção nesse limitado por experiência ensinam a alcançar o efeito último almejado com o dispêndio de força mínimo. Mas uma vez que diversas gerações de operários sempre vivem simultaneamente juntas e operam conjuntamente nas mesmas manufacturas, os truques técnicos, assim adquiridos, logo se consolidam, acumulam e transmitem(2*).

A manufactura produz, de facto, a virtuosidade do operário de detalhe [Detailarbeiter], na medida em que reproduz no interior da oficina e impele sistematicamente até ao extremo a separação natural dos ofícios que encontrou já pronta na sociedade. Por outro lado, a sua transformação do trabalho parcelar na vocação de vida de uma pessoa corresponde ao impulso de sociedades mais antigas para tornar hereditários os ofícios, petrificá-los em castas ou ossificá-los em corporações, no caso de determinadas condições históricas gerarem uma variabilidade do indivíduo que contradiz o sistema de castas. Castas e corporações brotam da mesma lei natural que regula a separação de plantas e animais em espécies e subespécies, só que a um certo grau de desenvolvimento a hereditariedade das castas ou a exclusividade das corporações é decretada como lei social(3*).

«As musselinas de Dacca em finura, os calicós e outras peças de mercadorias de Coromandel em cores brilhantes e duráveis jamais foram ultrapassados. No entanto são produzidos sem capital, maquinaria, divisão de trabalho, ou quaisquer desses meios que dão tais facilidades ao interesse manufactureiro da Europa. O tecelão é meramente um indivíduo separado, trabalhando uma tela quando encomendada por um cliente, e com um tear da mais grosseira construção, consistindo por vezes em alguns ramos ou barras de madeira rudemente ligados. Nem sequer há qualquer recurso para enrolar a urdidura; o tear tem, por isso, de ser conservado esticado a todo o seu comprimento e torna-se tão inconvenientemente largo que não se pode conter dentro da cabana do manufactor, que é por isso forçado a exercer o seu ofício ao ar livre, onde é interrompido por cada vicissitude do clima.»(4*)

É apenas a destreza especial, acumulada de geração em geração e herdada de pai para filho, que confere esta virtuosidade tanto ao hindu como à aranha. E, porém, um tecelão indiano destes executa trabalho muito complicado, comparado com a maioria dos operários da manufactura.

Um artesão que efectua os diversos processos parcelares consecutivamente na produção de uma obra [Machwerk] tem de mudar ora de lugar ora de instrumentos. A passagem de uma operação para a outra interrompe o fluxo do seu trabalho e forma, de certo modo, poros no seu dia de trabalho. Esses poros comprimem-se desde que ele execute, todo o dia, uma e a mesma operação continuadamente, ou: eles desaparecem na medida em que a mudança da sua operação diminui. A subida da produtividade deve-se aqui quer ao crescente dispêndio de força de trabalho num dado lapso de tempo, portanto a uma crescente intensidade do trabalho, quer a uma diminuição do consumo improdutivo de força de trabalho. Nomeadamente, o excesso de dispêndio de força, que toda a passagem do repouso ao movimento requer, é compensado por uma mais longa duração da velocidade normal uma vez atingida. Por outro lado, a continuidade de um trabalho uniforme destrói a elasticidade e a força expansiva dos espíritos vitais que na mudança da própria actividade encontram o seu descanso e o seu estímulo.

A produtividade do trabalho depende não só da virtuosidade do operário, mas também da perfeição das suas ferramentas. Ferramentas da mesma espécie, como instrumentos para cortar, furar, bater, golpear, etc, são usadas em diversos processos de trabalho; e, no mesmo processo de trabalho, o mesmo instrumento serve para diversas execuções. Contudo, desde que as diversas operações de um processo de trabalho sejam desligadas umas das outras e cada operação parcelar ganhe, na mão do operário parcelar, uma forma o mais correspondente possível, e portanto exclusiva, tornam-se necessárias transformações das ferramentas que antes serviam para diversos fins. A direcção da sua mudança de forma resulta da experiência das dificuldades particulares que a forma não-transformada coloca no caminho. A diferenciação dos instrumentos de trabalho, pela qual instrumentos da mesma espécie adquirem formas fixas particulares para cada aplicação particular útil, e a sua especialização, pela qual cada instrumento especial destes opera, em todo o seu alcance, apenas na mão de operários parcelares específicos, caracterizam a manufactura. Só em Birmingham produz-se algo como 500 variedades de martelos, dos quais cada um serve não só para um processo particular de produção, como uma quantidade de variedades [serve] muitas vezes apenas para diversas operações no mesmo processo. O período manufactureiro simplifica, melhora e multiplica as ferramentas de trabalho através da adaptação destas às funções especiais exclusivas dos operários parcelares(6*). Ele cria com isso simultaneamente uma das condições materiais da maquinaria, que consiste numa combinação de instrumentos simples.

O operário de detalhe e o seu instrumento formam os elementos simples da manufactura. Viremo-nos agora para a sua figura total.

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Notas de rodapé:

(1*) «Quanto mais uma manufactura de grande variedade for distribuída e consignada a diferentes artistas, o mesmo tem de necessariamente ser feito melhor e com maior expediente, com menor perda de tempo e trabalho.» (The Ad-vantages of the East India Trade, Lond., 1720, p. 71.) (retornar ao texto)

(2*) «Trabalho fácil é [...] destreza transmitida.» (Th. Hodgskin, Popular Political Economy, p. 48.) (retornar ao texto)

(3*) «Também as artes... entre os egípcios alcançaram com esforço a conveniente perfeição [τελος]. Com efeito, só entre eles estão todos os artesãos impedidos de participar de um trabalho ou de uma classe política, que não os estipulados pelas leis e transmitidos pelos pais... Entre todos os outros [povos], vê-se os artífices dispersar a mente por muitas coisas... Com efeito, uns ligam-se à agricultura, outros associam-se no comércio, outros entregam-se a duas ou três artes; nas cidades democráticas, muitos acorrem às assembleias... Entre os egípcios, porém, se algum dos artífices participar na política ou exercer várias artes incorre em grandes penas [...] E assim dedicam-se exclusivamente ao seu trabalho próprio... Além disso, assim como detêm dos seus antepassados muitas regras, também pensam diligentemente descobrir novas vantagens.» (Diodorus Siculus: Historische Bibliothek, 1. I, c. 74 [, 6-7. — Nota da edição portuguesa].) (retornar ao texto)

(4*) Historical and Descriptive Account of Brit. India, etc, by Hugh Murray, James Wilson, etc, Edinburgh, 1832, v. II, pp. 449, 450(5*). O tear indiano é de alto liço, i. é, a cadeia encontra-se esticada verticalmente. (retornar ao texto)

(5*) Nas edições inglesa e francesa: p. 449. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(6*) Darwin nota na sua obra, que fez época, Sobre a Origem das Espécies no respeitante aos órgãos naturais das plantas e dos animais: «Enquanto um e o mesmo órgão tiver diferentes tipos de trabalho a realizar, um motivo para a sua mutabilidade pode possivelmente ser encontrado no facto de a selecção natural preservar ou suprimir toda a pequena variação de forma menos cuidadosamente do que se esse órgão fosse destinado apenas a um propósito especial. Assim, as facas que estão adaptadas a cortar todo o tipo de coisas podem, no seu todo, ser de uma forma; mas um instrumento destinado a ser usado exclusivamente de um modo tem de ter uma forma diferente para todo o uso diferente.» [On the Origin of Specíes by Means of Natural Selection, London, 1859, p. 149. — Nota da edição portuguesa.] (retornar ao texto)

Inclusão 14/04/2012