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O Capital
Crítica da Economia Política
Karl Marx

Livro Primeiro: O processo de produção do capital

Quarta Secção: A produção da mais-valia relativa
Décimo segundo capítulo. Divisão do trabalho e manufactura


3. As duas formas fundamentais da manufactura — manufactura heterogénea e manufactura orgânica


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A articulação da manufactura possui duas formas fundamentais que, apesar de eventual entrelaçamento, formam duas espécies essencialmente diversas e [que] nomeadamente também na ulterior transformação da manufactura em grande indústria, accionada com máquinas, desempenham um papel totalmente diverso. Este carácter duplo brota da natureza da própria obra feita. Esta ou é formada através de composição meramente mecânica de produtos parcelares autónomos ou deve a sua figura pronta a uma sequência de manipulações e processos conexos.

Uma locomotiva, p. ex., consiste em mais de 5000 partes autónomas. Ela não pode, porém, valer como exemplo da primeira espécie da manufactura propriamente dita, porque é um produto da grande indústria. Mas sim o relógio, com o qual também William Petty ilustra a divisão manufactureira do trabalho. De obra individual de um artesão de Nuremberga, o relógio transforma-se no produto social de um sem número de operários parcelares, tais como fazedor do mecanismo em tosco, molas de relógio, mostradores, molas espirais, cavidades para a pedra e alavancas de rubi, ponteiros, caixas, parafusos, douradores; com muitas subdivisões, tais como p. ex. fabricante de rodas (rodas de latão e de aço [são] novamente distintas), fazedor de carretos, de engrenagens dos ponteiros, acheveur de pignon (fixa as rodas nos carretos, pule as facettes(1*), etc), fazedor da peça onde está seguro o ponteiro dos minutos [Zapfenmacher], planteur definissage (coloca diversas rodas e carretos no mecanismo), finisseur de barillet (talha dentes, faz as cavidades à largura correcta, aperta registo e travão), fazedor do escapo; no escapo de cilindro novamente fazedor de cilindros, rodas de encontro, balanceiros, raquette(2*) (mecanismo de deslocação pelo qual o relógio é regulado), planteur d'échappement (fazedor do escapo, propriamente dito); depois o repasseur de barillet (apronta totalmente tambor da mola e registo), polidor de aço, de rodas, de parafusos, pintor de números, fazedor de placas (derrete o esmalte sobre o cobre), fabricant de pendants (faz meramente as argolas da caixa), finisseur de charnière (enfia a haste de latão no meio da caixa), faiseur de secret (faz as molas que na caixa fazem saltar a tampa), graveur, ciseleur, polisseur de boite(3*), etc, etc, finalmente o repasseur, que monta todo o relógio e o entrega a funcionar. Apenas poucas partes do relógio passam por diversas mãos e todos estes membra disjecta[N118] só se reúnem na mão que por fim os liga num todo mecânico. Esta relação exterior do produto pronto com os seus elementos de diversa espécie deixa aqui ao acaso — como em obra semelhante — a combinação dos operários parcelares na mesma oficina. Os trabalhos parcelares podem eles mesmos novamente ser empreendidos como ofícios independentes entre si, como nos cantões Vaud e Neuchâtel, enquanto em Genebra, p. ex., existem grandes manufacturas de relógios, i. é, tem lugar cooperação imediata dos operários parcelares sob o comando de um capital. Também neste último caso raramente se aprontam na própria manufactura os mostradores, as molas e as caixas. A empresa manufactureira combinada só é aqui lucrativa em condições excepcionais porque a concorrência entre os operários que querem trabalhar em casa é a maior possível, a fragmentação da produção numa massa de processos heterogéneos permite menos utilização de meios de trabalho comunitários e o capitalista na fabricação dispersa poupa as despesas em edifícios de trabalho, etc.(4*) No entanto, também a posição destes operários de detalhe que trabalham em casa, mas para um capitalista (fabricante, établisseur(5*)) é totalmente diversa da do artesão autónomo que trabalha para os seus próprios fregueses(6*).

A segunda espécie de manufactura, a sua forma acabada, produz obras que percorrem fases de desenvolvimento conexas, uma sequência de processos gradativos, como, p. ex., o fio metálico na manufactura das agulhas de coser que percorre mãos de 72 e mesmo 92 operários parcelares específicos.

Na medida em que tal manufactura combina originariamente ofícios dispersos, ela diminui a separação espacial entre as fases particulares de produção da obra. O tempo da sua passagem de um estádio para o outro é encurtado, assim como o trabalho que medeia essas passagens(7*). Em comparação com o artesanato, ganha-se assim força produtiva e, precisamente, este ganho brota do carácter cooperativo geral da manufactura. Por outro lado, o princípio — que lhe é próprio — da divisão do trabalho condiciona um isolamento das diversas fases da produção que são autonomizadas entre si como outros tantos trabalhos parcelares artesanais. O estabelecimento e conservação da conexão entre as funções isoladas requer constante transporte da obra de uma mão para a outra e de um processo para o outro. Do ponto de vista da grande indústria, isto manifesta-se como uma limitação característica, dispendiosa e imanente ao princípio da manufactura(8*).

Se se considerar um determinado quantum de matéria-prima, p. ex. de trapos na manufactura do papel ou de fio metálico na manufactura das agulhas, ele percorre nas mãos dos diversos operários parcelares uma gradativa sequência temporal de fases de produção até à sua figura conclusiva. Se se considerar, pelo contrário, oficina como um mecanismo total, então a matéria-prima acha-se simultaneamente e de uma vez em todas as suas fases de produção. Com uma parte das suas muitas mãos, armadas de instrumentos, o operário total combinado a partir dos operários de detalhe puxa o fio metálico, enquanto com outras mãos e ferramentas simultaneamente o estica, com outras o corta, afia, etc. Os diversos processos gradativos são transformados de uma continuidade temporal numa contiguidade espacial. Portanto, entrega de mais mercadoria pronta no mesmo lapso de tempo(9*). Essa simultaneidade brota, com efeito, da forma cooperativa geral do processo total, mas a manufactura não só encontra já as condições da cooperação como as cria em parte primeiro através da decomposição da actividade artesanal. Por outro lado, ela alcança esta organização social do processo de trabalho apenas através de um soldar do mesmo operário ao mesmo detalhe [Detail].

Uma vez que o produto parcelar de cada operário parcelar é simultaneamente apenas um particular grau de desenvolvimento da mesma obra, um operário fornece ao outro, ou um grupo de operários ao outro, a sua matéria-prima. O resultado do trabalho de um forma o ponto de partida para o trabalho do outro. Um operário ocupa portanto aqui imediatamente o outro. O tempo de trabalho necessário para a consecução do almejado efeito útil em cada processo parcelar é experimentalmente fixado e o mecanismo total da manufactura assenta no pressuposto de que em dado tempo de trabalho se atinge um dado resultado. Apenas neste pressuposto podem os diversos processos de trabalho que se completam uns aos outros proceder ininterrupta, simultânea e espacialmente de modo contíguo. É claro que esta dependência imediata dos trabalhos, e portanto dos operários uns dos outros, força cada um a utilizar apenas o tempo necessário para a sua função e assim se gera toda uma outra continuidade, uniformidade, regularidade, ordem(10*) e nomeadamente também intensidade do trabalho, diferentes das do ofício independente ou mesmo das da cooperação simples. Que numa mercadoria apenas se empregue o tempo de trabalho socialmente necessário para a sua fabricação, aparece na produção de mercadorias em geral como coacção externa da concorrência porque, exprimido superficialmente, cada produtor singular tem de vender a mercadoria ao seu preço de mercado. Pelo contrário, na manufactura, fornecimento de dado quantum de produtos em dado tempo de trabalho torna-se lei técnica do próprio processo de produção(11*).

Diversas operações precisam, porém, de comprimentos de tempo desiguais e fornecem portanto, em lapsos de tempo iguais, quanta desiguais de produtos parcelares. Se, portanto, o mesmo operário houver de executar diariamente sempre e apenas a mesma operação, têm então de ser empregues diversos números proporcionais de operários para diversas operações: p. ex., 4 fundidores e 2 desmoldadores para um polidor numa manufactura de tipos tipográficos, onde o fundidor funde por hora 2000 tipos, o desmoldador desmolda 4000 e o polidor esfrega 8000 até brilhar. Regressa aqui o princípio da cooperação na sua forma mais simples, ocupação simultânea de muitos que fazem algo da mesma espécie, mas agora como expressão de uma relação orgânica. A divisão manufactureira do trabalho simplifica e multiplica, portanto, não só os órgãos qualitativamente distintos do operário total social, mas cria também uma relação matematicamente fixa para o volume quantitativo destes órgãos, i. é, para o número de operários relativo ou magnitude relativa dos grupos de operários em cada função especial. Ela desenvolve, com a articulação qualitativa, a regra e proporcionalidade quantitativas do processo de trabalho social.

Se o mais adequado número proporcional dos diversos grupos de operários parcelares for experimentalmente fixado para uma determinada escala da produção, então essa escala só se pode estender na medida em que se emprega um múltiplo de cada grupo de operários particular(12*). A isto se acrescenta que o mesmo indivíduo efectua certos trabalhos do mesmo modo tanto num escalão maior como num menor, p. ex. o trabalho da supervisão, o transporte dos produtos parcelares de uma fase de produção para outra, etc. A autonomização destas funções ou a sua atribuição a operários particulares só se torna pois vantajosa com aumento do número de operários ocupados, mas esse aumento tem logo de atingir todos os grupos proporcionalmente.

O grupo singular, uma quantidade de operários que executam a mesma função parcelar, consiste em elementos homogéneos e forma um órgão particular do mecanismo total. Contudo, em diversas manufacturas, o próprio grupo é um corpo articulado de trabalho, enquanto o mecanismo total se forma através da repetição ou multiplicação destes organismos elementares produtivos. Tomemos, p. ex., a manufactura de garrafas de vidro. Ela divide-se em três fases essencialmente distintas. Primeiro, a fase preparatória, como preparo da composição do vidro, mistura da areia, cal, etc, e fusão desta composição numa massa de vidro líquida(13*). Na primeira fase são ocupados diversos operários parcelares, assim como na fase conclusiva, na remoção das garrafas dos fornos de secagem, a sua selecção, embalagem, etc. Entre ambas as fases, no meio, encontra-se o fabrico propriamente dito de vidro ou elaboração da massa de vidro líquida. Na mesma boca de um forno de vidro trabalha um grupo a que em Inglaterra se chama o «hole» (buraco) e é composto de um bottle maker ou finisher, de um blower, de um gatherer, de um putter up ou whetter off e de um taker in(14*). Estes cinco operários parcelares formam outros tantos órgãos especiais de um único corpo de trabalho que apenas pode operar como unidade, portanto apenas através de cooperação imediata dos cinco. Se faltar um membro do corpo de cinco partes, este fica então paralisado. O mesmo forno de vidro tem, porém, diversas aberturas; em Inglaterra, p. ex., 4-6, cada uma das quais alberga um cadinho de fundição em barro com vidro líquido e cada uma das quais ocupa um grupo de operários próprio com a mesma formação de cinco membros. A articulação de cada grupo singular assenta aqui imediatamente na divisão do trabalho, enquanto o vínculo entre os diversos grupos da mesma espécie é cooperação simples, que mais economicamente consome um dos meios de produção, aqui o forno de vidro, através de consumo comum. Um tal forno de vidro, com os seus 4-6 grupos, forma uma fundição de vidro, e uma manufactura de vidro engloba uma pluralidade de tais fundições, simultaneamente com os dispositivos e operários para as fases de produção introdutórias e conclusivas.

Por fim, a manufactura pode desenvolver-se numa combinação de diversas manufacturas, tal como ela em parte brota da combinação de diversos ofícios. As maiores fundições de vidro inglesas, p. ex., fabricam elas mesmas os seus cadinhos de fundição em barro porque o êxito ou inêxito do produto depende essencialmente da sua boa qualidade. A manufactura de um meio de produção é aqui associada à manufactura do produto. Inversamente, a manufactura do produto pode ser associada a manufacturas em que ele próprio serve novamente como matéria-prima ou com cujos produtos ele mais tarde será composto. Assim se encontra, p. ex., a manufactura do cristal combinada com a esmerilagem do vidro e a fundição de latão, esta última para a guarnição metálica de múltiplos artigos de vidro. As diversas manufacturas combinadas formam depois departamentos de uma manufactura total, mais ou menos separados espacialmente, processos de produção simultaneamente independentes entre si, cada um com divisão do trabalho própria. Apesar de muitas vantagens que a manufactura combinada oferece, não é pela sua base própria que adquire qualquer unidade realmente técnica. Esta apenas surge na sua transformação em empresa mecanizada.

O período manufactureiro, que logo enuncia como princípio consciente(15*) a redução do tempo de trabalho necessário para a produção de mercadorias, desenvolve esporadicamente também o uso de máquinas, nomeadamente para certos primeiros processos simples que há que efectuar massivamente e com grande dispêndio de força. Assim, p. ex., já na manufactura do papel, o triturar dos trapos é levado a cabo por moinhos de papel e, na metalurgia, o esmagar dos minérios pelos chamados moinhos de triturar(16*). A forma elementar de toda a maquinaria fora-nos transmitida pelo império romano no moinho de água(17*). O período do artesanato legou-nos as grandes invenções da bússola, da pólvora, da imprensa e do relógio automático. Genericamente, a maquinaria desempenha porém aquele papel acessório que Adam Smith lhe atribui ao lado da divisão do trabalho(20*). Muito importante foi o emprego esporádico da maquinaria no século XVII, já que esta ofereceu aos grandes matemáticos daquele tempo pontos de apoio práticos e meios de estímulo para a criação da mecânica moderna.

A maquinaria específica do período manufactureiro permanece o próprio operário total combinado a partir de muitos operários parcelares. As diversas operações que o produtor de uma mercadoria alternadamente executa, e que se entrelaçam no todo do seu processo de trabalho, solicitam-no de diversos modos. Numa, ele tem de desenvolver mais força; noutra, mais desembaraço; na terceira, mais atenção de espírito, etc, e o mesmo indivíduo não possui estas propriedades em grau igual. Depois da separação, autonomização e isolamento das diversas operações, os operários são divididos, classificados e agrupados segundo as suas propriedades preponderantes. Se as suas particularidades naturais formam a base sobre a qual se enxerta a divisão do trabalho, a manufactura, uma vez introduzida, desenvolve forças de trabalho que por natureza apenas servem de função especial unilateral. O operário total possui agora todas as propriedades produtivas em grau igualmente elevado de virtuosidade e despende-as simultaneamente do modo mais económico, na medida em que emprega todos os seus órgãos, individualizados em operários ou grupos de operários particulares, exclusivamente para as funções específicas daquelas(21*). A unilateralidade e até a imperfeição do operário parcelar devem sua perfeição como membro do operário total(22*). O hábito a uma função unilateral transforma-o no órgão dela, operante de modo seguro e natural, enquanto a conexão do mecanismo total o coage a operar com a regularidade de uma parte de máquina(23*).

Uma vez que as diversas funções do operário total são mais simples ou mais compostas, mais baixas ou mais altas, os seus órgãos — as forças de trabalho individuais — requerem graus muito diversos de formação e possuem, portanto, valores muito diversos. A manufactura desenvolve, pois, uma hierarquia das forças de trabalho à qual corresponde uma escala dos salários. Se, por um lado, o operário individual é apropriado e vitaliciamente anexado a uma função unilateral, também as diversas execuções de trabalho são adaptadas àquela hierarquia das habilidades naturais e adquiridas(25*). Cada processo de produção condiciona, no entanto, certos manejamentos simples, de que todo o homem é capaz do mesmo modo que anda ou está de pé. Também estes são agora desprendidos da sua conexão fluída com os momentos mais substanciais da actividade e ossifica-dos em funções exclusivas.

A manufactura gera, pois, em cada ofício que atinge, uma classe de chamados operários não especializados que a empresa artesanal estritamente excluía. Se ela desenvolve em virtuosidade a especialidade completamente unilateralizada à custa de toda a faculdade de trabalho, começa já também a tornar numa especialidade a falta de qualquer desenvolvimento. Para junto da gradação hierárquica entra a separação simples dos operários em especializados e não especializados. Para estes últimos, suprimem-se totalmente os custos de aprendizagem, para os primeiros, descem, em comparação com o artesão, em consequência de função simplificada. Em ambos os casos, desce o valor da força de trabalho(26*). Há uma excepção na medida em que a desagregação do processo de trabalho gera novas funções abrangentes que na empresa artesanal não aconteciam de modo algum ou não no mesmo volume. A relativa desvalorização da força de trabalho que brota da supressão ou da diminuição dos custos de aprendizagem implica imediatamente valorização mais elevada do capital, pois tudo o que encurta o tempo necessário para a reprodução da força de trabalho prolonga os domínios [Domãne] do sobretrabalho.

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Notas de rodapé:

(1*) Em francês no texto: facetas. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(2*) Na edição alemã: requette, devendo todavia tratar-se de gralha uma vez que raquette é o nome da agulha que comanda a regulação do relógio. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(3*) Em francês no texto: gravador, cinzelador, polidor de caixa. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(4*) Genebra produziu, no ano de 1854, 80 000 relógios, menos de uma quinta parte da produção de relógios do cantão de Neuchâtel. Chaux-de-Fonds, que se pode considerar como uma única manufactura de relógios, fornece sozinha anualmente o dobro do que Genebra. De 1850 a 1861, Genebra forneceu 720 000 relógios. Ver «Report from Geneva on the Watch Trade», in Reports by H. M.'s Secretaries of Embassy and Legation on the Manufactures, Commerce, etc, n.° 6, 1863. Se a falta de conexão dos processos, em que a produção de obras apenas montadas se divide, já dificulta muito em si e por si a transformação de tais manufacturas na empresa mecanizada da grande indústria, no caso do relógio acrescentam-se ainda outros dois impedimentos: a pequenez e delicadeza dos seus elementos e o seu carácter de luxo, portanto a sua variedade, de modo que, p. ex. nas melhores casas londrinas, durante todo o ano dificilmente se faz uma dúzia de relógios que pareçam semelhantes. A fábrica de relógios de Vacheron & Constantin que emprega com êxito maquinaria, fornece também, no melhor dos casos, 3-4 diversas variedades de grandeza e forma. (retornar ao texto)

(5*) Em francês no texto: empresário. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(6*) No fabrico de relógios, este exemplo clássico da manufactura heterogénea, pode-se estudar muito exactamente a diferenciação e especialização dos instrumentos de trabalho, acima mencionadas, que brotam da desagregação da actividade artesanal. (retornar ao texto)

(7*) «Numa coabitação tão estreita do povo, o transporte tem necessariamente de ser menor.» (The Advantages of the East India Trade, p. 106.) (retornar ao texto)

(8*) «O isolamento dos diferentes estádios da manufactura, decorrente do emprego do trabalho manual, aumenta imensamente o custo da produção, surgindo a perda sobretudo das meras remoções de um processo para outro.» (The Industry of Nations, Lond., 1855, part II, p. 200.) (retornar ao texto)

(9*) «Ela» (a divisão do trabalho) «produz também uma economia de tempo ao separar o trabalho nos seus diversos ramos, todos eles podendo ser postos em execução no mesmo momento... Executando simultaneamente todos os diferentes processos, que um indivíduo havia de ter executado separadamente, torna-se possível produzir uma enorme quantidade de alfinetes completamente acabada no mesmo tempo em que um só alfinete podia ter sido cortado ou afiado.» (Dugald Stewart, 1. c, p. 319.) (retornar ao texto)

(10*) «Quanto maior variedade de artistas houver para cada manufactura... tanto maior será a ordem e regularidade de todo o trabalho [work], o mesmo tem necessariamente de ser feito em menos tempo, o trabalho [labour] tem de ser menor.» (The Advantages, etc, p. 68.) (retornar ao texto)

(11*) No entanto, a empresa manufactureira, em muitos ramos, apenas imperfeitamente alcança este resultado, pois ela não sabe controlar com segurança as condições físicas e químicas gerais do processo de produção. (retornar ao texto)

(12*) «Quando (segundo a natureza peculiar do produto de cada manufactura) se apura o número de processos em que é mais vantajoso dividi-lo, assim como o número de indivíduos a serem empregues, então todas as outras manufacturas que não empregam um múltiplo directo deste número produzirão o artigo com um custo maior... Daqui surge uma das causas da grande dimensão de estabelecimentos manufactureiros.» (Ch. Babbage, On the Economy of Machinery, Lond., 1832, ch. XXI, pp. 172, 173.) (retornar ao texto)

(13*) Em Inglaterra, o forno de fundição está separado do forno de vidro em que o vidro é elaborado; na Bélgica, p. ex., o mesmo forno serve para ambos os processos. (retornar ao texto)

(14*) Em inglês no texto, respectivamente: fazedor de garrafas, acabador, soprador, o que recolhe na extremidade da cana, o que coloca no molde ou estira, o que faz a colheita. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(15*) Pode-se ver isto a partir, entre outros, de W. Petty, John Bellers, Andrew Yarranton, The Advantages of the East-India Trade e J. Vanderlint. (retornar ao texto)

(16*) Ainda pelos finais do século XVI, a França se serve de almofarizes e peneiras para triturar e lavar os minérios. (retornar ao texto)

(17*) Pode-se seguir toda a história do desenvolvimento da maquinaria pela história dos moinhos de cereais. À fábrica ainda se chama em inglês mill(18*). Em escritos tecnológicos alemães dos primeiros decénios do século xix encontra-se ainda a expressão Mühle(19*) não só para toda a maquinaria accionada por forças naturais, mas até mesmo para todas as manufacturas que empregam aparelhos mecânicos. (retornar ao texto)

(18*) Moinho. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(19*) Moinho. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(20*) Como se verá mais pormenorizadamente no livro quarto desta obra, A. Smith não estabeleceu nenhum princípio novo sobre a divisão do trabalho. O que porém o caracteriza como o economista político que resume o período manufactureiro é o acento que ele põe na divisão do trabalho. O papel subordinado que ele atribui à maquinaria provocou, no começo da grande indústria, a polémica de Lauderdale e, numa época ulterior, a de Ure. A. Smith confunde também a diferenciação dos instrumentos, na qual os operários parcelares da própria manufactura foram muito activos, com a invenção de máquinas. Não são os operários da manufactura, mas sábios, artesãos, mesmo camponeses (Brindley), etc., que aqui desempenham um papel. (retornar ao texto)

(21*) «O patrão manufactureiro, ao dividir o trabalho a ser executado em diferentes processos, requerendo cada um diferentes graus de destreza ou de força, pode comprar exactamente essa precisa quantidade de ambas que é necessária para cada processo; considerando que, se todo o trabalho fosse executado por um operário, essa pessoa teria de possuir destreza suficiente para realizar a mais difícil [das operações] e força suficiente para executar a mais laboriosa das operações nas quais o artigo é divido.» (Ch. Babbage, 1. c, ch. XIX.) (retornar ao texto)

(22*) P. ex., desenvolvimento muscular unilateral, deformação óssea, etc. (retornar ao texto)

(23*) O sr. Wm. Marshall, general manager(24*) de uma manufactura de vidro, responde muito correctamente à pergunta do comissário de investigação sobre como se conservava a laboriosidade entre os jovens que ocupava: «Eles não podem propriamente negligenciar o seu trabalho; depois de terem começado têm de continuar; eles são exactamente o mesmo que partes de uma máquina.» (Child. Empl. Comm., Fourth Report, 1865, p. 247.) (retornar ao texto)

(24*) Em inglês no texto: director geral. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(25*) O Dr. Ure, na sua apoteose da grande indústria, apercebe-se mais agudamente dos caracteres peculiares da manufactura do que economistas anteriores, que não tinham o seu interesse polémico, e mesmo do que os seus contemporâneos, p. ex. Babbage, que por sinal lhe é superior como matemático e mecânico, mas porém concebe a grande indústria propriamente apenas do ponto de vista da manufactura. Ure observa: «Esta apropriação» dos operários a cada operação especial «forma a essência própria da divisão do trabalho.» Por outro lado, ele designa esta repartição como «adaptação do trabalho aos diversos talentos dos homens» e caracteriza por fim todo o sistema manufactureiro como «um sistema para a divisão ou graduação do trabalho», como «a divisão do trabalho em graus de destreza», etc. (Ure, Philos. of Manuf, pp. 19-23 passim.) (retornar ao texto)

(26*) «Sendo cada artesão... capacitado a aperfeiçoar-se a ele próprio pela prática num ponto, tornou-se... um operário mais barato.» (Ure, 1. c, p. 19.) (retornar ao texto)

Notas de fim de tomo:

[N118] Disjecta membra poetae (os membros dispersos do poeta) — palavras das Sátiras de Horácio, livro I, sátira 4. (retornar ao texto)

Inclusão 17/04/2012