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O Capital
Crítica da Economia Política
Karl Marx

Livro Primeiro: O processo de produção do capital

Quarta Secção: A produção da mais-valia relativa
Décimo segundo capítulo. Divisão do trabalho e manufactura


5. O carácter capitalista da manufactura


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Uma superior quantidade de operários sob o comando do mesmo capital forma o ponto de partida natural, tanto da cooperação em geral como da manufactura. Inversamente, a divisão manufactureira do trabalho desenvolve em necessidade técnica o crescimento do número de operários empregues. O mínimo de operários que um capitalista singular tem de empregar é-lhe agora prescrito pela presente divisão do trabalho. Por outro lado, as vantagens de ulterior divisão são condicionadas por ulterior aumento da quantidade de operários, que no entanto só é exequível por múltiplos. Com a parte componente variável tem, porém, também de crescer a parte componente constante do capital; a par do volume das condições comuns de produção, tais como edifícios, fornos, etc, tem nomeadamente que crescer também, e muito mais rapidamente do que a quantidade de operários, a matéria-prima. A sua massa, consumida em dado tempo através de dado quantum de trabalho, cresce na mesma proporção que a força produtiva do trabalho em consequência da sua divisão. Volume mínimo crescente de capital na mão dos capitalistas singulares ou crescente transformação dos meios de vida sociais e dos meios de produção em capital é, portanto, uma lei que brota do carácter técnico da manufactura(1*).

Tal como na cooperação simples, também na manufactura o corpo funcionante de trabalho é uma forma de existência do capital. O mecanismo social de produção, composto de muitos operários parcelares individuais, pertence ao capitalista. A força produtiva que brota da combinação dos trabalhos aparece, pois, como força produtiva do capital. A manufactura propriamente dita não só submete o operário, anteriormente autónomo, ao comando e à disciplina do capital, como cria além disso uma articulação hierárquica entre os próprios operários. Enquanto a cooperação simples deixa, genericamente, inalterado o modo de trabalho de cada um, a manufactura revoluciona-o desde o fundo e atinge a força individual de trabalho na sua raiz. Ela estropia o operário transformando-o numa anormalidade ao fomentar, como em uma estufa, a sua destreza de detalhe [Detailgeschik] por repressão de um mundo de disposições e impulsos produtivos — tal como nos Estados de la Plata se abate um animal inteiro para se lhe tirar a pele ou o sebo. Os trabalhos parcelares particulares não só são repartidos entre diversos indivíduos, mas o próprio indivíduo é dividido, transformado no propulsor automático de um trabalho parcelar(4*) e realiza a fábula absurda de Menénio Agripa[N120] que apresenta um ser humano como mero fragmento do seu próprio corpo(5*). Se o operário vende originariamente a sua força de trabalho ao capital porque lhe faltam os meios materiais para a produção de uma mercadoria, a sua própria força de trabalho individual deixa agora de lhe servir se não for vendida ao capital. Ela funciona apenas numa conexão que só existe depois da sua venda, na oficina do capitalista. Incapacitado, pela sua constituição natural, de fazer algo de autónomo, o operário da manufactura desenvolve actividade produtiva apenas como acessório da oficina do capitalista(6*). Assim como na fronte do povo eleito estava escrito que ele era propriedade de Jeová, também a divisão do trabalho imprime no operário da manufactura um cunho, que o marca a ferro como propriedade do capital.

Os conhecimentos, a inteligência e a vontade — que o artesão ou o camponês autónomo desenvolvem, ainda que em pequena escala, assim como o selvagem exerce toda a arte da guerra como astúcia pessoal — já só são agora requeridos para o todo da oficina. As potências espirituais da produção alargam a sua escala de um lado porque desaparecem de muitos lados. O que os operários parcelares perdem concentra-se, face a eles, no capital(7*). É um produto da divisão manufactureira do trabalho colocar face a eles as potências espirituais do processo material de produção como propriedade estranha e poder que os domina. Este processo de cisão começa na cooperação simples onde o capitalista, perante os operários singulares, representa a unidade e a vontade do corpo de trabalho social. Desenvolve-se na manufactura, que mutila o operário em operário parcelar. Completa-se na grande indústria, que separa a ciência — enquanto potência autónoma de produção — do trabalho e a espreme ao serviço do capital(8*).

Na manufactura, o enriquecimento do operário total — e portanto do capital — em força produtiva social é condicionado pelo empobrecimento do operário em forças produtivas individuais.

«A ignorância é a mãe da indústria assim como da superstição. Reflexão e fantasia estão sujeitas a errar; mas o hábito de mexer a mão ou o pé é independente de cada uma delas. Em conformidade, as manufacturas prosperam mais onde a mente é menos consultada e onde a oficina pode [...] ser considerada como um motor cujas partes são homens».(9*)

De facto, em meados do século XVIII, algumas manufacturas empregavam, de preferência, gente meio idiota para certas operações simples, que constituiam porém segredos fabris(10*).

«O entendimento da maior parte dos homens», diz A. Smith, «é necessariamente formado pelos seus empregos ordinários. O homem cuja vida inteira é gasta a realizar algumas operações simples... não tem ocasião de exercitar o seu entendimento... Ele torna-se geralmente tão estúpido e ignorante quanto é possível uma criatura humana tornar-se.»

Depois de A. Smith ter descrito a estupidez do operário parcelar, continua:

«A uniformidade da sua vida estacionária corrompe naturalmente a coragem da sua mente... Corrompe até a actividade do seu corpo e torna-o incapaz de exercitar a sua força com vigor e perseverança em quaisquer outros empregos para além daqueles para que foi parido. A sua destreza no seu ofício particular parece desta maneira ser adquirida à custa das suas virtudes intelectuais, sociais e marciais. Mas, em toda a sociedade desenvolvida e civilizada, é este o estado em que necessariamente tem de cair o pobre que trabalha (the labouring poor) ou seja, a grande massa do povo.»(11*)

Para impedir o completo definhamento da massa popular, que brota da divisão do trabalho, A. Smith aconselhava o ensino popular por conta do Estado, ainda que em doses prudentemente homeopáticas. De um modo consequente polemiza contra isso o seu tradutor francês e comentador, G. Garnier, que, no Primeiro Império francês, se metamorfoseou naturalmente em senador. Ensino popular ia contra as primeiras leis da divisão do trabalho e com ele «seria proscrito todo o nosso sistema social».

«Como todas as outras divisões do trabalho», dizia ele, «a que existe entre o trabalho mecânico e o trabalho intelectual(14*) acentua-se duma maneira mais forte e mais cortante à medida que a sociedade» (ele emprega correctamente esta expressão para o capital, a propriedade fundiária e o seu Estado) «avança para um estado mais opulento. Esta divisão, como todas as outras, é um efeito dos progressos passados e uma causa dos progressos vindouros... Deverá pois o governo trabalhar para contrariar esta divisão do trabalho e retardá-la na sua marcha natural? Deverá ele empregar uma porção da receita pública para tentar confundir e misturar duas classes de trabalho que tendem por si mesmas a dividir-se?»(15*)

Um certo estropiamento espiritual e corporal é inseparável mesmo da divisão do trabalho no conjunto da sociedade. Uma vez, porém, que o período manufactureiro leva muito mais longe esta fissão social dos ramos de trabalho e que, por outro lado, só com a divisão que lhe é peculiar atinge o indivíduo na sua raiz vital, ela é também a primeira a fornecer o material e o estímulo para a patologia industrial(17*).

«Subdividir um homem é executá-lo, se ele merece a sentença; assassiná-lo, se a não merece... A subdivisão do trabalho é o assassínio de um povo.»(19*)

A cooperação assente em divisão do trabalho, ou a manufactura, é, nos seus começos, um produto natural. Assim que ela adquiriu alguma consistência e amplitude de existência, tornou-se forma consciente, planificada e sistemática do modo de produção capitalista. A história da manufactura propriamente dita mostra como a divisão do trabalho — que lhe é peculiar — adquire primeiro experimentalmente — como que atrás das costas das pessoas que agem — as formas convenientes, mas depois — à semelhança do ofício corporativo — aspira a manter tradicionalmente a forma alguma vez encontrada e mantêm-na em casos singulares durante séculos. Se esta forma se modifica, modifica-se sempre apenas em consequência de uma revolução dos instrumentos de trabalho, excepto em coisas secundárias. A manufactura moderna — não falo aqui da grande indústria assente em maquinaria — ou encontra já prontos — como, p. ex., a manufactura do vestuário nas grandes cidades, onde ela surge — os disjecta membra poetae[N123] e tem apenas de recolhê-los da sua dispersão; ou o princípio da divisão está patente, sendo simplesmente as diversas execuções da produção artesanal (p. ex. na encadernação) exclusivamente apropriadas a operários particulares. Não chega a custar sequer uma semana de experiência para encontrar em tais casos o número proporcional entre os braços precisos para cada função(20*).

A divisão manufactureira do trabalho cria — através de análise da actividade artesanal, da especificação dos instrumentos de trabalho, da formação dos operários parcelares, do seu agrupamento e combinação num mecanismo total — a articulação qualitativa e proporcionalidade quantitativa de processos sociais de produção, portanto, uma determinada organização de trabalho social, e desenvolve com isso simultaneamente nova força produtiva social do trabalho. Como forma especificamente capitalista do processo social de produção — e sobre as bases dadas ela não se poderia desenvolver senão na forma capitalista — ela é apenas um método particular de gerar mais-valia relativa ou de elevar a autovalorização do capital — a que se chama riqueza social, «wealth of nations(21*)», etc. — à custa dos operários. Ela não só desenvolve a força produtiva social do trabalho para o capitalista, em vez de para o operário, como o faz por estropiamento do operário individual. Ela produz novas condições de dominação do capital sobre o trabalho. Se ela, portanto, por um lado, aparece como progresso histórico e momento necessário de desenvolvimento no processo económico de formação da sociedade, aparece também, por outro lado, como um meio de exploração civilizada e refinada.

A economia política, que só no período manufactureiro se implanta como ciência própria, considera a divisão social do trabalho em geral apenas do ponto de vista da divisão manufactureira do trabalho(22*), como meio de produzir mais mercadoria com o mesmo quantum de trabalho, de embaratecer portanto as mercadorias e de acelerar a acumulação do capital. Na mais rigorosa oposição a esta acentuação da quantidade e do valor de troca, os escritores da Antiguidade Clássica detêm-se exclusivamente na qualidade e no valor de uso(23*). Em consequência da cisão dos ramos sociais de produção, as mercadorias são mais bem feitas, os diversos impulsos e talentos dos homens escolhem para si esferas de acção que lhe correspondam(24*), e, sem limitação em parte alguma algo de signifi cativo se pode realizar(25*). Portanto, produto e produtor são melhora dos pela divisão do trabalho. Se ocasionalmente também aludem ao crescimento da massa de produtos, [fazem-no] apenas por referência a uma maior abundância de valores de uso. Não dizem uma palavra acerca do valor de troca ou do embaratecimento das mercadorias. Este ponto de vista do valor de uso domina tanto em Platão(28*), que trata a divisão do trabalho como base da cisão social dos estados [Stände], como em Xenofonte(31*), que com o seu instinto caracteristicamente burguês já se aproxima da divisão do trabalho no interior de uma oficina. A república de Platão[N127], na medida em que nela se desenvolve a divisão do trabalho como o princípio configurador do Estado, é apenas uma idealização ateniense do sistema egípcio de castas — passando o Egipto por ser, como também para outros dos seus contemporâneos, p. ex. para Isócrates(32*), país industrial modelo, e conservando ainda este mesmo significado para os gregos da era imperial romana(33*).

Durante o período manufactureiro propriamente dito, i. é, o período em que a manufactura é a forma dominante do modo de produção capitalista, a plena efectuação das suas tendências próprias depara-se com impedimentos multifacetados. Embora a manufactura, como vimos, crie, a par da articulação hierárquica dos operários, uma cisão simples entre operários especializados e não especializados, o número destes últimos permanece muito limitado pela influência preponderante dos primeiros. Embora ela adapte as operações especiais ao diverso grau de maturidade, força e desenvolvimento dos seus órgãos de trabalho vivos e imponha, portanto, a exploração produtiva de mulheres e crianças, esta tendência fracassa grosso modo ante os hábitos e a resistência dos operários masculinos. Embora a desagregação da actividade artesanal baixe os custos de formação e, portanto, o valor dos operários, continua a ser preciso para trabalhode detalhe mais difícil um tempo de aprendizagem mais longo e mesmo quando é supérfluo é zelosamente mantido pelos operários. Encontramos, p. ex. em Inglaterra, as laws of apprenticeship(34*), com o seu tempo de aprendizado de sete anos, em pleno vigor até ao fim do período manufactureiro e só deitadas fora pela grande indústria. Uma vez que a destreza artesanal permanece a base da manufactura e o mecanismo global que nela funciona não possui qualquer esqueleto objectivo, independente dos próprios operários, o capital luta constantemente com a insubordinação dos operários.

«Pela fraqueza da natureza humana», exclama o amigo Ure, «acontece que, quanto mais especializado o operário é, tanto mais apto é para se tornar obstinado e intratável e certamente tanto menos ajustado para se tornar uma componente de um sistema mecânico no qual... ele pode causar grande prejuízo ao todo.»(35*)

A queixa sobre a falta de disciplina dos operários percorre, pois, todo o período manufactureiro(36*). E se não tivéssemos os testemunhos de escritores coevos, os simples factos de, do século XVI até à época da grande indústria, o capital não ter conseguido apoderar-se de todo o tempo disponível de trabalho dos operários manufactureiros, de as manufacturas terem vida curta e de, com a imigração ou emigração dos operários, terem de abandonar a sua instalação num país e de a montar noutro, falariam por bibliotecas inteiras. «A ordem tem, duma maneira ou doutra, de ser estabelecida», exclama em 1770 o autor repetidamente citado do Essay on Trade and Commerce. Ordem, volta a ecoar 66 anos mais tarde pela boca do Dr. Andrew Ure — faltava «ordem» na manufactura assente no «dogma escolástico da divisão do trabalho», e «Arkwright criou a ordem».

Simultaneamente, a manufactura não podia nem atingir a produção social em todo o seu volume, nem revolucioná-la na sua profundidade. Como obra de arte económica ela erguia-se sobre a base ampla do artesanato citadino e da indústria domiciliária. A sua base técnica estreita, própria, num certo grau de desenvolvimento, entrou em contradição com as necessidades de produção por ela própria criadas.

Um dos seus produtos mais acabados foi a oficina para a produção dos próprios instrumentos de trabalho, e nomeadamente, também, dos aparelhos mecânicos mais complicados então já empregues.

« [...] uma tal oficina oferecia à vista a divisão dos trabalhos nas suas numerosas gradações: a lima, a verruma, o torno, tinham cada um os seus operários por ordem de habilidade.»[N128] (37*)

Este produto da divisão manufactureira do trabalho produzia por seu lado — máquinas. Elas suprimem a actividade artesanal como o princípio regulador da produção social. Assim, por um lado, a razão técnica da anexação vitalícia do operário a uma função parcelar é removida. Por outro lado, caem as barreiras que o mesmo princípio ainda impunha à dominação do capital.

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Notas de rodapé:

(1*) «Não basta que se verifique que o capital necessário à subdivisão dos ofícios» (devia dizer-se, os meios de vida e de produção precisos para isso) «exista na sociedade; é ainda preciso que ele esteja acumulado nas mãos dos empresários em porções suficientemente consideráveis para os pôr em condições de formar empresas... A medida [...] que a divisão aumenta, a ocupação constante de um mesmo número de trabalhadores exige um capital cada vez mais considerável em utensílios, etc.» (Storch, Cours d'écon. polit., edição de Paris, t. I, pp. 250, 251(2*).) «A concentração dos instrumentos de produção e a divisão do trabalho são tão inseparáveis uma da outra como o são, no regime político, a concentração dos poderes públicos e a divisão dos interesses privados.» (Karl Marx, 1. c, p. 134(3*).) (retornar ao texto)

(2*) Na edição francesa: p. 250. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(3*) Ver Karl Marx, Miséria da Filosofia, Edições «Avante!», Lisboa, 1991, p. 123. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(4*) Dugald Stewart chama aos operários da manufactura «autómatos vivos... empregues nos detalhes do trabalho.» (L. c, p. 318.) (retornar ao texto)

(5*) No caso dos corais, cada indivíduo forma de facto o estômago para todo o grupo. Leva-lhe, porém, matéria de nutrição em vez de lha tirar, como o patrício romano [fazia]. (retornar ao texto)

(6*) «O operário que tem nos braços todo um ofício pode ir a toda a parte exercer a sua indústria e encontrar meios de subsistir; o outro» (o operário manufactureiro) «não passa de um acessório que, separado dos seus confrades, já não tem nem capacidade, nem independência, e se acha forçado a aceitar a lei que se julgue conveniente impor-lhe.» (Storch, 1. c, édit. Pétersb., 1815, t. I, p. 204.) (retornar ao texto)

(7*) A. Ferguson, 1. c, p. 281: «O primeiro pode ter ganho o que o outro perdeu.» (retornar ao texto)

(8*) «O homem de conhecimento e o trabalhador produtivo acabam por ficar largamente divididos um do outro, e o conhecimento, em vez de permanecer [...] na mão do trabalhador para aumentar os poderes produtivos deste [...], em quase toda a parte se mobilizou a si mesmo contra o trabalho...» O conhecimento torna-se um instrumento capaz de ser separado do trabalho e a ele contraposto. (W. Thompson, An Inquiry into the Principies of the Distribution of Wealth, London, 1824, p. 274.) (retornar ao texto)

(9*) A. Ferguson, 1. c, p. 280. (retornar ao texto)

(10*) J. D. Tuckett, A History of the Past and Present State of the Labouring Population, London, 1846, v. I, p. 148. (retornar ao texto)

(11*) A. Smith, Wealth of Nations, 1. V, ch. I, art. II. Como discípulo de A. Ferguson, que tinha desenvolvido as consequências desvantajosas da divisão do trabalho, A. Smith era completamente claro sobre este ponto. Na introdução da sua obra, onde a divisão do trabalho é ex professo(12*) celebrada, ele alude a ela apenas de passagem como fonte das desigualdades sociais. Só no livro V, sobre as receitas do Estado, ele reproduz Ferguson. Na Misère de la philosophie referi o que era preciso acerca da relação histórica de Ferguson, A. Smith, Lemontey e Say na sua crítica da divisão do trabalho e também aí pela primeira vez apresentei a divisão do trabalho à maneira da manufactura como forma específica do modo de produção capitalista. (L. c, p. 122 sq.(13*)) (retornar ao texto)

(12*) Em latim no texto: declaradamente. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(13*) Ver Karl Marx, Miséria da Filosofia, Edições «Avante!», Lisboa, 1991, p. 115 e segs. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(14*) Ferguson já diz, 1. c, p. 281: «E o próprio pensar, nesta era de separações, pode tornar-se num ofício peculiar.» (retornar ao texto)

(15*) G. Garnier, t. V da sua tradução, pp. 4-5(16*). (retornar ao texto)

(16*) Na edição francesa: pp. 2, 4, 5. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(17*) Ramazzini, professor de medicina prática em Pádua, publicou em 1713 a sua obra De morbis artificum, traduzida para francês em 1777, de novo impressa em 1841 na Encyclopédie des sciences médicales, 7me div. Auteurs classiques. O período da grande indústria aumentou naturalmente muito o seu catálogo de doenças dos operários. Ver, entre outros, Hygiène physique et morale de Vouvrier dans les grandes villes en general, et dans la ville de Lyon en partiçulier. Par le Dr. A. L. Fonteret, Paris, 1858, e [R. H. Rohatzsch,] Die Krankheiten, welche verschiednen Ständen, Altern und Geschlechtern eigenthumlich sind, 6 volumes, Ulm, 1840. No ano de 1854, a Society of Arts[N121] nomeou uma comissão de investigação sobre patologia industrial. A lista dos documentos reunidos por esta comissão encontra-se no catálogo do Twickenham Economic Museum. Muito importantes são os Reports on Public Health oficiais. Ver também Eduard Reich, M. D.(18*), Über die Entartung des Menschen, Erlangen, 1868. (retornar ao texto)

(18*) Abreviatura de medicinae doctor, doutor em medicina, médico. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(19*) «To subdivide a man is to execute him, if he deserves the sentence, to assassinate him, if he does not... The subdivision of labour is the assassination of a people.» (D. Urquhart, Familiar Words, London, 1855, p. 119.) Hegel tinha opiniões muito heréticas sobre a divisão do trabalho. «Por homens cultos pode antes de mais entender-se os que podem fazer tudo o que outros fazem», diz ele na sua Filosofia do Direito[N122] (retornar ao texto)

(20*) A benevolente fé no génio inventivo que o capitalista singular exerceria a priori na divisão do trabalho, apenas já só se a encontra entre professores alemães, como o senhor Roscher, p. ex., que dedica em agradecimento «diversos salários» ao capitalista, de cuja cabeça de Júpiter a divisão do trabalho brotaria já pronta. O maior ou menor emprego da divisão do trabalho depende do tamanho da bolsa, não da grandeza do génio. (retornar ao texto)

(21*) Em inglês no texto: «riqueza das nações». (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(22*) Mais do que A. Smith, escritores mais antigos, como Petty, como o autor anónimo das Advantages of the East-India Trade, etc, fixam o carácter capitalista da divisão manufactureira do trabalho. (retornar ao texto)

(23*) Entre os modernos, constituem excepção alguns escritores do século XVIII que, com respeito à divisão do trabalho, quase apenas repetem os antigos, como Beccaria e James Harris. Assim, Beccaria: «Cada um comprova por experiência que, aplicando a mão e o engenho sempre ao mesmo género de obras e de produtos, obterá resultados mais fáceis, mais abundantes e melhores do que se cada um isoladamente só fizesse todas as coisas necessárias para si... Dividindo-se de tal maneira os homens em várias classes e condições para utilidade comum e privada.» (Cesare Beccaria, Elementi di Econ. Publica, ed. Custodi, Part. Moderna, t. XI, p. 28.) James Harris, mais tarde Conde de Malmesbury, famoso pelos Diaries sobre a sua embaixada a Petersburgo, afirma ele próprio numa nota do seu Dialogue Concerning Happiness, London, 1741[N124], mais tarde novamente impresso em Three Treatises, etc, 3.a ed., Lond. 1772: «Todo o argumento para provar que a sociedade é natural» (a saber, através da «divisão das ocupações») «é tirado do segundo livro da República de Platão.» (retornar ao texto)

(24*) Assim na Odisseia, XIV, 228: «Pois outro homem em outras obras se deleita» e Arquíloco, em Sextus Empiricus: «Outro em outra obra aquece o coração»[N125]. (retornar ao texto)

(25*) «grego»(26*) — O ateniense sentia-se, como produtor de mercadorias, superior ao espartano, porque este, na guerra, podia certamente dispor de homens, mas não de dinheiro, como Tucídides faz dizer a Péricles no discurso em que ele instiga os atenienses para a guerra do Peloponeso: «De entre os homens, os que trabalham por si mesmos estão mais dispostos a fazer guerra com o corpo do que com o dinheiro» (Tuc, 1.1, c. 141.) No entanto, também na produção material, a grego(27*), que se contrapõe à divisão do trabalho, permaneceu para ele um ideal pois «nesta encontra-se o bem-estar, e naquela também o autárcico». Perante isto, tem de mencionar-se que ainda no tempo do derrube dos trinta tiranos[N126] nem 5000 atenienses sem propriedade fundiária havia. (retornar ao texto)

(26*) Em grego no texto: «Sabia muitos ofícios, mas sabia-os todos mal». (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(27*) Em grego no texto: autarcia. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(28*) Platão desenvolve a divisão do trabalho no inteiro da comunidade a partir da multilateralidade das necessidades e da unilateralidade das disposições dos indivíduos. Ponto de vista principal para ele é que o operário tinha de se reger pelo trabalho [Werk], não o trabalho pelo operário, o que é inevitável se ele executa simultaneamente diversas artes, portanto uma ou outra como trabalho acessório. «Com efeito [...] o que há a fazer não pode esperar pelo lazer do agente, mas é necessário que o agente persiga o que há a fazer, e não como uma função parcial acessória. — É necessário. — Resultam então daí coisas mais numerosas, de um modo mais belo e mais fácil, quando cada um faz, segundo a natureza e em tempo oportuno, uma [só] coisa, libertando-se de todas as outras.» (De Republica, II, 2.a ed., Baiter, Orelli, etc. [II, 370bc. — Nota da edição portuguesa].) De modo semelhante em Tucídides, 1. c, c. 142 [I, 142, 9. — Nota da edição portuguesa]: «A náutica, com efeito, é uma arte como outra qualquer; e não admite ser exercida, à sorte, como [actividade] acessória; antes, além dela, [não admite] que haja outra [actividade] acessória.» Diz Platão que se o trabalho tiver de esperar pelo operário, então frequentemente deixar-se-á passar o ponto crítico da produção e obra perder-se-á, «grego»(29*). A mesma ideia platónica se acha de novo no protesto dos possuidores de branquearias ingleses contra a cláusula da lei fabril que fixa uma determinada hora de refeição para todos os operários. O seu negócio não se poderia reger pelos operários, pois «nas várias operações de chamuscar, lavar, branquear, acetinar, calandrar e tingir, nenhuma delas pode ser parada num dado momento sem risco de prejuízo... impor a mesma hora de almoço para todos os trabalhadores podia ocasionalmente sujeitar bens valiosos ao risco de perigo por operações incompletas.» Le platonisme ou va-t-il se nicher!(30*) (retornar ao texto)

(29*) Em grego no texto: «perde-se o tempo oportuno da obra». Platão, República, II, 370b. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(30*) Em francês no texto: Onde se vai anichar o platonismo! (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(31*) Conta Xenofonte que não só era uma honra comer à mesa do rei da Pérsia, como essa comida era muito mais saborosa do que as outras. «E, de certo, não há nada de espantoso em que seja assim. Com efeito, assim como as outras artes são cultivadas de modo diferente nas grandes cidades, da mesma maneira a comida do rei é confeccionada de um modo muito diferente. Ora, nas cidades pequenas [são] os mesmos [que] fazem a cama, a porta, o arado, a mesa — muitas vezes, ainda é o mesmo que constrói a casa, e ele próprio fica feliz por encontrar gente suficiente que, dando-lhe trabalho, lhe dê de comer; é impossível, então, que um homem que exerça muitas artes faça todas as coisas bem feitas. Nas grandes cidades, porém, como muitos precisam de cada coisa, uma só arte basta para dar de comer. — E, muitas vezes, nem mesmo uma arte toda: um faz sapatos de homem, outro de mulher; por vezes um tem [de] que comer apenas cosendo sapatos, outro cortando, outro apenas talhando solas, outro não fazendo nenhuma destas coisas, mas reunindo as [peças]. E então necessário que aquele que passa o tempo com um trabalho mais pequeno esteja forçado a fazê-lo do modo mais excelente. Isto mesmo acontece com as coisas em torno da alimentação.» (Xen., Cyrop, 1. VIII, c. 2 [, 5-6. — Nota da edição portuguesa].) A boa qualidade a atingir do valor de uso é aqui fixada de modo exclusivo, embora já Xenofonte soubesse que as escalas da divisão do trabalho dependem do volume do mercado. (retornar ao texto)

(32*) Busiris «dividiu-os separadamente» em castas particulares, «ordenou que as mesmas tarefas fossem postas na mão dos mesmos, sabendo que aqueles que mudam de actividade nem num só trabalho têm acribia, enquanto os que permanecem continuamente nas mesmas tarefas levam a cabo superiormente cada uma. Eis por que descobrimos que, nas artes, eles [os egípcios] se distinguem em muito dos que se dedicam às mesmas ciências, como os outros artesãos profissionais dos leigos; e que quanto à organização pela qual conservam a realeza e as outras instituições politicas tão bem se houveram que os filósofos que tratam disso e nisso são mais reputados decidiram louvar as instituições políticas do Egipto. (Isokr., Busiris, c. 8 L»15 e 16-17. — Nota da edição portuguesa].) (retornar ao texto)

(33*) Cf. Diod. Sic. (retornar ao texto)

(34*) Em inglês no texto: leis de aprendizado. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(35*) Ure, 1. c, p. 20. (retornar ao texto)

(36*) O afirmado no texto vale muito mais para a Inglaterra do que para a França, e mais para o França do que para a Holanda. (retornar ao texto)

(37*) Tal como Marx faz aqui, traduzimos esta citação da edição francesa da obra de Ure citada, t. I, p. 31. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

Notas de fim de tomo:

[N120] Segundo a lenda, o patrício romano Menénio Agripa convenceu os plebeus revoltados em 494 a. n. e. a submeterem-se contando-lhe a fábula das partes do corpo humano revoltadas contra o estômago. Menénio Agripa comparou a sociedade do seu tempo a um organismo vivo, cujas mãos eram os plebeus, que alimentavam o estômago desse organismo — os patrícios. E dado que a separação entre as mãos e o estômago implica a inevitável morte do organismo vivo, também, por analogia, a recusa dos plebeus de cumprirem as suas obrigações equivaleria à morte do Estado romano. (retornar ao texto)

[N121] Society of Arts and Trades (Sociedade das Artes e Ofícios) — sociedade burguesa cultural e filantrópica fundada em 1754 em Londres. A sociedade proclamava como seu objectivo a promoção das «artes, dos ofícios e do comércio» e a recompensa de todos aqueles que contribuíssem para «dar ocupação aos pobres, alargar o comércio e aumentar as riquezas do país», etc. Tentou desempenhar o papel de intermediário entre os operários e os empresários. Marx chamava-lhe «Sociedade das Artes e Embustes» («Society of Arts and Tricks». Ver MEW, Bd. 10, S. 63). (retornar ao texto)

[N122] Hegel, Grundlinien der Philosophie des Rechts, oder Naturrecht und Staatswissenschaft im Grundrisse. Werke. Zweite Auflage, Bd. 8. Berlin, 1840, § 187, Zusatz. (retornar ao texto)

[N123] Disjecta membra poetae (os membros dispersos do poeta) — palavras das Sátiras de Horácio, livro I, sátira 4. (retornar ao texto)

[N124] Marx comete aqui uma imprecisão. Na realidade o autor da obra Dialogue Concerning Happiness não é o diplomata James Harris, que publicou o livro Diaries and Correspondence, mas o pai deste, James Harris. (retornar ao texto)

[N125] Marx cita esta expressão de Arquíloco segundo a obra de Sextus Empiricus Adversus mathematicos, livro XI, 44. — II, 419. (retornar ao texto)

[N126] Tempo do derrube dos trinta tiranos — período do final do século V a. n. e. em que foi restabelecida em Atenas a democracia escravista em substituição do regime de terror dos trinta oligarcas. Foi em Atenas um período de desenvolvimento comercial e do capital usurário. (retornar ao texto)

[N127] A república de Platão — tipo ideal de Estado escravista descrito nas obras do filósofo grego Platão, cujo princípio fundamental devia ser a estrita divisão do trabalho entre as categorias de cidadãos livres. Assim, a função da governação era atribuída aos filósofos, os militares deviam participar nas guerras, defender a vida e os bens dos cidadãos, os agricultores, artesãos e comerciantes deviam produzir e fornecer ao povo os meios de subsistência. (retornar ao texto)

[N128] Citação da p. 31 da edição francesa da obra de A. Ure (The Philosophy of Manufactures: or, An Exposition of the Scientific, Moral and Commercial Economy of the Factory System of Great Britain. London, 1835, p. 406. Ou: Andrew Ure, Philosophie des manufactures ou économie industrielle de la fabrication du coton, de la laine, du lien et de la soie. Trad. sous les yeux de l'auteur. T. 2. Paris, 1836, pp. 197-198.). Cf. edição inglesa, p. 21. (retornar ao texto)

Inclusão 26/04/2012