Carta a V. I. Lênin

J. V. Stálin

4 de Agosto de 1918


Primeira Edição: em 1931, em "Lêninski sbórnik ("A Coletânea de Lênin), XVIII.
Fonte: J.V. Stálin – Obras – 4º vol., Editorial Vitória, 1954 – traduzida da edição italiana da Obras Completas de Stálin publicada pela Edizioni Rinascita, Roma, 1949.
Tradução: Editorial Vitória
Transcrição: Partido Comunista Revolucionário
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Fernando A. S. Araújo, setembro 2006.
Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.

capa

A situação no sul não é das mais fáceis. O conselho militar herdou tudo na mais completa desorganização, devida em parte à inércia do ex-chefe militar, em parte ao complô das pessoas que ele fez entrar nas várias seções do distrito militar. Foi necessário recomeçar tudo desde o início. Reorganizaram-se os abastecimentos, constituiu-se uma seção operativa, foram estabelecidas comunicações com todos os setores da frente, anularam-se as velhas, isto é, as "ordens criminosas, e só depois se iniciou uma ofensiva sobre Kalatch e em direção ao sul, procedente de Tikhorétskaia. A ofensiva foi conduzida na esperança de que os setores setentrionais de Mirónov e de Kikvidze, entre os quais o de Póvorino, estivessem seguros. Em vez disso, evidenciou-se que tais setores eram os mais débeis e precários. Sabeis que Mirónov e os outros se retiraram para o nordeste, que os cossacos conquistaram toda a linha férrea de Lipok a Aléxikov, que destacamentos isolados de guerrilheiros cossacos deslocaram-se rapidamente em direção ao Volga e tentaram interromper as comunicações sobre o Volga, entre Kamíchin e Tzarítzin.

Por outro lado, na frente de Rostov e noutros pontos, os grupos de Kálnin, devido à falta de projéteis e cartuchos, perderam sua estabilidade e cederam Tikhorétskaia, Torgóvaia, e, presumivelmente, estão sofrendo um processo de completa desagregação (digo "presumivelmente" porque até hoje não conseguimos obter notícias precisas sobre o grupo de Kálnin).

Já não falo da crítica situação em que ficaram Kizliar, Briánskoie e Baku. A orientação anglófila foi definitivamente derrotada, mas as coisas vão muito mal na frente. Kizliar, Prokhládnaia, Novo-Gueorguiévskoie e Stávropol estão em mãos dos cossacos insurretos. Só Briánskoie, Petrovsk, Minerálnie Vodí, Vladikavkaz, Piatigorsk e, ao que parece, Iekaterinodar, ainda se mantêm.

Criou-se desse modo uma situação em que as comunicações com o sul e com suas regiões produtoras de trigo se interromperam e a própria zona de Tzarítzin, que une o Centro com o Cáucaso Setentrional, está por sua vez cortada, ou quase, pelo centro.

Exatamente por isso decidimos cessar as operações ofensivas em direção a Tikhorétskaia e assumir posição defensiva, reunir algumas unidades dos setores da frente de Tzarítzin e com esses elementos constituir um destacamento de assalto de seis mil soldados e enviá-lo para o norte, ao longo da margem esquerda do Don, até ao rio Khopior. O objetivo dessa operação é limpar bem a linha Tzarítzin-Póvorino, apanhar o inimigo pela retaguarda, desorganizá-lo e empurrá-lo para trás. Temos uma série de razões positivas para contar com a execução desse plano em futuro muito próximo.

O estado de coisas desfavorável que acima descrevo, explica-se:

1.°) — Pelo fato de que o combatente na frente, o "camponês abastado", que em outubro bateu-se pelo Poder Soviético, revoltou-se contra esse Poder (ele odeia com toda a alma o monopólio do trigo, os preços fixos, as requisições, a luta contra as pequenas especulações).

2.°) — Pelo fato de que os exércitos de Mirónov são compostos de cossacos (os destacamentos cossacos, que se dizem soviéticos, não podem, não querem combater decididamente a contra-revolução cossaca; os cossacos, através de regimentos inteiros, passaram-se para o lado de Mirónov para receberem armas, conhecerem diretamente as posições de nossos destacamentos e levarem depois consigo regimentos inteiros para o lado de Krasnov; Mirónov foi três vezes cercado por unidades cossacas que conheciam todos os segredos do seu setor e, naturalmente, foi derrotado).

3.°) — Pela organização em pequenos destacamentos das unidades de Kikvidze, que tornava impossível a ligação e coordenação das operações.

4.°) — Pelo isolamento, devido a tudo isso, das unidades de Sivers, que tinha perdido o apoio em seu flanco esquerdo.

É preciso reconhecer que na frente de Tzarítzin-Gachiun constitui um fato positivo ter-se sabido eliminar a confusão que reinava nos destacamentos e afastar no momento necessário os chamados especialistas (em parte sustentáculos fervorosos dos cossacos, em parte dos anglo-franceses), o que nos permitiu atrair para nós as simpatias das unidades militares e estabelecer nessas unidades uma disciplina férrea.

A situação dos abastecimentos alimentares depois da interrupção das comunicações com o Cáucaso Setentrional tornou.-se desesperada. Mais de setecentos vagões estão prontos no Cáucaso Setentrional, mais de meio milhão de puds foi entregue, mas não há nenhuma possibilidade de transportar toda essa carga devido à interrupção das comunicações, tanto ferroviárias quanto marítimas (Kizliar e Briánskoie não estão em nossas mãos). Nas regiões de Tzarítzin, Kotélnikov e Gachiun o trigo não escasseia mas ainda se encontra nos campos, enquanto o Comitê Extraordinário Regional de Aprovisionamento até agora não foi e continua não sendo capaz de providenciar a colheita. É preciso ceifar, prensar e transportar para um único local o feno, mas o Comitê Extraordinário Regional de Aprovisionamento não dispõe de prensas. É necessário organizar em vasta escala a ceifa do trigo, mas os organizadores do Comitê mostraram-se ineptos. O resultado é que as entregas vão muito mal.

Com a tomada de Kalatch tivemos algumas dezenas de milhares de puds de trigo. Enviei a Kalatch doze caminhões e, logo que seja possível fazê-los chegar à linha férrea, enviarei o trigo a Moscou. A colheita, bem ou, mal, vai marchando igualmente. Espero nos próximos dias ter algumas dezenas de milhares de puds de trigo que mandarei, também. Aqui existe gado à vontade, mas o feno é muito escasso e uma vez que sem feno não se pode efetuar o transporte, um envio de gado em vasta escala permanece impossível. Seria bom instalar uma fábrica de carne enlatada, construir um matadouro, etc. Infelizmente, porém, ainda não consegui encontrar pessoas capacitadas e dotadas de espírito de iniciativa. Encarreguei o delegado de Kotélnikov de organizar a salga da carne em grandes proporções; a coisa iniciou-se e deu algum resultado. Se continuar a desenvolver-se, no inverno teremos bastante carne (só na região de Kotélnikov foram reunidas 40.000 reses). Em Astracã a quantidade de animais não é menor que em Kotélnikov, mas o Comissariado local para o aprovisionamento não faz nada. Os representantes do Centro de Coleta de Produtos Agrícolas dormem profundamente, podendo-se adiantar que não providenciarão sobre as entregas da carne. Enviei para lá o delegado Zalmaiev a fim de serem feitas as entregas da carne e do peixe, mas até agora não recebi notícias suas.

Quanto aos aprovisionamentos, pode-se depositar muito mais esperanças nas províncias de Sarátov e Samara, onde o trigo é abundante e o grupo dos Iakubov, creio eu, saberá obter meio milhão de puds de trigo e até mais.

De modo geral, é preciso dizer que enquanto as comunicações com o Cáucaso Setentrional não forem restabelecidas, não se poderá contar (de modo particular) com o setor de Tzarítzin (no que se refere aos aprovisionamentos).

Vosso
J. Stálin.
Tzarítzin, 4 de agosto de 1918.

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Inclusão 29/01/2008