As Reservas do Imperialismo

J. V. Stálin

16 de Março de 1919


Primeira Edição: "Izvéstia" ("As Notícias"), n.° 58, 16 de março de 1919.
Fonte: J.V. Stálin – Obras – 4º vol., Editorial Vitória, 1954 – traduzida da edição italiana da Obras Completas de Stálin publicada pela Edizioni Rinascita, Roma, 1949.
Tradução: Editorial Vitória
Transcrição: Partido Comunista Revolucionário
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Fernando A. S. Araújo, setembro 2006.
Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.

capa

A guerra entre imperialismo e socialismo continua. O "liberalismo" nacional e a "proteção" dos pequenos povos, o "amor à paz" da Entente e a "renúncia" à intervenção, o pedido de "desarmamento" e a declaração de "estarem prontos" a negociar, as "atenções" para com o "povo russo" e o "desejo" de "ajudá-lo" por todos os "meios possíveis", tudo isso e muitas outras coisas desse quilate são somente um biombo que oculta o intensificado envio de tanques e material bélico aos inimigos do socialismo, não são mais que normais maquinações diplomáticas tendentes a esconder ao mundo as "pesquisas" de novas formas "aceitáveis" para a "opinião pública" e adequadas a sufocar o socialismo, a sufocar os "pequenos" povos, as colônias e as semicolônias.

Há quatro meses, o imperialismo aliado, após haver vencido os seus rivais austro-alemães, colocou de maneira nítida e precisa a questão da intervenção armada (intervenção!) nos "assuntos russos". Nada de negociações com a Rússia "anarquista"! Transferir parte das tropas "que se tornaram disponíveis" para o território da Rússia, introduzi-las nas unidades de guardas brancos dos Skoropadski e dos Krasnov, dos Deníkin e dos Bitcherákhov, dos Koltchak e dos Tchaikovski, e fechar num "círculo de ferro" o foco da revolução, a Rússia Soviética: esse era o plano dos imperialistas. Mas as ondas da revolução despedaçaram esse plano. Os operários da Europa, arrastados para o movimento revolucionário, abriram uma encarniçada campanha contra a intervenção armada. As "tropas que se tornaram disponíveis" evidenciaram-se claramente inadequadas à luta armada contra a revolução. Mais ainda: entrando em contato com os operários insurgidos, elas próprias "se infectaram" com o bolchevismo. A entrada das tropas soviéticas em Khersón e em Nikoláiev, onde os soldados da Entente se recusaram a fazer guerra aos operários, é uma prova evidente disso. Quanto ao pré-estabelecido "círculo de ferro", este não só não veio a ser "mortal", como foi rompido em muitos pontos. O plano da intervenção direta, aberta, apareceu, assim claramente "não adequado ao objetivo". São exatamente essas as circunstâncias que explicam as últimas declarações de Lloyd George e de Wilson sobre a "admissibilidade" de negociações com os bolcheviques e sobre a "não intervenção" nos assuntos internos da Rússia, o envio à Rússia da Comissão de Berna[N70], e, enfim, o projetado convite (repetido!) a todos os governos "de fato" da Rússia para a conferência da paz"[N71].

Mas o abandono da intervenção aberta não foi ditado somente por essas circunstâncias. Isso se explica também pelo fato de que no curso da luta foi imaginada uma nova combinação, uma forma de intervenção armada nova, mascarada, mais complexa, é verdade, que a intervenção aberta, mas também mais "cômoda" para a "civilizada" e "humana" Entente. Referimo-nos à união dos governos burgueses da Rumânia, da Galícia, da Polônia, da Alemanha, da Finlândia, engendrada apressadamente pelo imperialismo contra a Rússia Soviética. Esses governos, é verdade, ainda ontem brigavam entre si pelos interesses "nacionais" e pela "liberdade" nacional. É verdade que ainda ontem se invocava a plenos pulmões a "guerra patriótica" da Rumânia contra a Galícia, da Galícia contra a Polônia, da Polônia contra a Alemanha. Mas, que valor possui a "pátria" em confronto com o saco de dinheiro da Entente, que ordenava se pusesse fim à "guerra intestina"? A Entente ordenava a formação de uma frente única contra a Rússia Soviética: como poderiam, esses mercenários do imperialismo, deixar de tomar lugar "na frente"? Até o governo alemão, ultrajado e arrastado na lama pela Entente, até ele, tendo perdido o senso elementar da dignidade pessoal, solicitou a obtenção do direito de tomar parte na cruzada contra o socialismo, no interesse. . . da própria Entente! Acaso não é claro que a Entente tem todos os motivos para alegrar-se, quando tagarela sobre a "não intervenção" nos assuntos russos e sobre as negociações "pacíficas" com os bolcheviques? Por que recorrer à intervenção aberta, "perigosa" para o imperialismo, e que além disso requer grandes sacrifícios, se existe a possibilidade de organizar, às expensas de outros, às expensas dos "pequenos" povos, uma intervenção mascarada com a bandeira nacional e "absolutamente segura"? Guerra da Rumânia, da Galícia, da Polônia e da Alemanha contra a Rússia? Acaso não é esta uma guerra pela "existência nacional", pela "defesa da fronteira oriental", contra o "imperialismo" bolchevique, uma guerra travada "só" pelos romenos e galicianos, polacos e alemães? Que tem então que ver com isso a Entente? É verdade que esta última abastece-os com dinheiro e armamentos, mas se trata de uma simples operação financeira, consagrada pelo direito internacional do mundo "civilizado". Acaso não é claro que a Entente é pura como uma pomba, que ela é "contra" a intervenção ?. . .

Assim o imperialismo foi obrigado a passar, da política da ameaça armada, da política da intervenção aberta, à política da intervenção mascarada, à política dirigida no sentido de atrair para a luta contra o socialismo as pequenas e grandes nações dependentes.

A política da intervenção aberta sofreu uma derrota em conseqüência do desenvolvimento do movimento revolucionário na Europa, da simpatia dos operários de todos os países para com a Rússia Soviética. Essa política foi utilizada plenamente pelos social-revolucionários para mascarar o imperialismo.

Não há dúvida de que a política do recurso às últimas reservas, aos chamados "pequenos" povos, a política dirigida no sentido de atrair estes últimos para a luta contra o socialismo, terminará bem no fim também com uma derrota. Não só porque a revolução que se desenvolve no Ocidente corrói em qualquer caso as bases do imperialismo, e não só porque no seio dos próprios "pequenos" povos o movimento revolucionário está em contínuo desenvolvimento, mas também porque o contato das "forças armadas" desses povos com os operários revolucionários da Rússia os "infectará" inevitavelmente com o bacilo do bolchevismo. O socialismo tudo fará para abrir os olhos dos operários e camponeses desses povos sobre o caráter bandidesco das "atenções paternais" do imperialismo.

A atração dos "pequenos" povos para a esfera da revolução, a ampliação da base do socialismo, tal é o inevitável resultado da política imperialista de intervenção mascarada.

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Notas de fim de tomo:

[N70] Da comissão designada pela Conferência social-chovinista de Berna "para as indagações sobre a situação social e política da Rússia" faziam parte Kautsky, Hilferding, Longuet e outros. À solicitação da comissão no sentido de poder entrar na Rússia, o governo soviético respondeu em 19 de fevereiro de 1919 que, se bem julgasse que a Conferência de Berna não era socialista e não representava em absoluto a classe operária, contudo concedia a permissão solicitada. A viagem dos "ilustres inspetores de Berna", como Lênin chamou os membros da comissão, não se realizou. (retornar ao texto)

[N71] A imprensa inglesa lá por fins de fevereiro de 1919 havia difundido a notícia de que o Conselho da Entente tencionava renovar convite para a Conferência de Prinkipo. (retornar ao texto)

pcr
Inclusão 03/03/2008
Última alteração 08/05/2009