O Novo Ataque da Entente Contra a Rússia

J. V. Stálin

26 de Maio de 1920


Primeira Edição: "Pravda" ("A Verdade"), n.° 111 e 112, 25 e 26 de maio de 1920.
Fonte: J.V. Stálin – Obras – 4º vol., Editorial Vitória, 1954 – traduzida da edição italiana da Obras Completas de Stálin publicada pela Edizioni Rinascita, Roma, 1949.
Tradução: Editorial Vitória
Transcrição: Partido Comunista Revolucionário
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Fernando A. S. Araújo, setembro 2006.
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Não há dúvida de que o ataque dos senhores poloneses contra a Rússia operária e camponesa é, em substância, um ataque da Entente. Não se deve considerar somente o fato de que a Sociedade das Nações, que é dirigida pela Entente e da qual a Polônia faz parte, evidentemente aprovou o ataque da Polônia contra a Rússia. Trata-se sobretudo do fato de que sem o apoio da Entente, a Polônia não teria podido organizar o seu ataque contra a Rússia, de que a França em primeiro lugar, e também a Inglaterra e a América sustentam por todas as maneiras a ofensiva da Polônia com armas, equipamentos, dinheiro, instrutores. As dissenções existentes no seio da Entente a respeito da questão polonesa não mudam as coisas,, uma vez que as dissensões se referem só às formas que o apoio à Polônia deve assumir, e não, de um modo geral, ao apoio em si mesmo. Não mudam as coisas tampouco a correspondência diplomática de Curzon com o camarada Tchitchérin[N104] e os artigos bombásticos da imprensa inglesa contra a intervenção, porque todo esse barulho visa a um único, objetivo: jogar areia nos olhos dos políticos ingênuos e esconder sob frases acerca da paz com a Rússia a suja tramóia da efetiva intervenção armada organizada pela Entente.

I - Situação geral

O atual ataque da Entente é o terceiro por ordem de tempo.

O primeiro ataque foi desfechado na primavera de 1919. Tratava-se de um ataque combinado, porque previa a agressão simultânea de Koltchak, de Deníkin, da Polônia, de Iudénitch e dos destacamentos mistos anglo-russos do Turquestão e de Arkhángel; o centro de gravidade do ataque estava na zona de Koltchak.

Nesse período a Entente, unida e coesa, é pela intervenção aberta: a debilidade do movimento operário no Ocidente, o grande número de inimigos da Rússia Soviética e a plena confiança na vitória sobre a Rússia permitem aos dirigentes da Entente praticar uma descarada política de intervenção aberta.

Nesse período a Rússia atravessava um momento crítico, uma vez que ela, separada das regiões produtoras de trigo (Sibéria, Ucrânia, Cáucaso Setentrional) e das fontes de combustíveis (Bacia do Donetz, Grózni, Baku) era obrigada a bater-se em seis frentes. A Entente o via e já prelibava a vitória. O Times exultava.

Todavia a Rússia felizmente superou, aquela crise e o inimigo mais forte, Koltchak, foi posto fora de combate. O fato é que a retaguarda da Rússia e, portanto, também o seu exército, demonstraram ser mais resistentes e mais flexíveis que os dos seus adversários.

O segundo ataque da Entente foi desfechado no outono de 1919. Também esse ataque era um ataque combinado, porque previa a agressão simultânea de Deníkin, da Polônia e de Iudénitch (Koltchak foi tirado do cálculo). O centro de gravidade do ataque dessa vez estava no sul, na zona de Deníkin.

Nesse período se manifestam, pela primeira vez, dissensões no seio da Entente, pela primeira vez esta começa a moderar o seu, tom insolente, tenta declarar-se contra a intervenção aberta, afirma admitir negociações com a Rússia, principia a retirar suas tropas do norte: o desenvolvimento do movimento revolucionário no Ocidente e a derrota de Koltchak evidentemente tornam perigosa para a Entente a política anterior de intervenção aberta. A Entente já não ousa mais falar claramente de intervenção aberta.

Nesse período a Rússia atravessa de novo um momento crítico, apesar da vitória sobre Koltchak e da reconquista de uma das regiões produtoras de trigo (Sibéria), uma vez que o inimigo principal, Deníkin, está às portas de Tula, fonte principal dos abastecimentos de cartuchos, fuzis e metralhadoras para o nosso Exército. Não obstante, sai a Rússia novamente salva da crise. O motivo ainda é o mesmo: maior estabilidade e maior elasticidade da nossa retaguarda, e portanto do nosso Exército.

O terceiro ataque da Entente tem início numa situação totalmente nova. A começar pelo fato de que, diferentemente dos anteriores, este ataque não pode ser chamado combinado, porque não só desapareceram os velhos aliados da Entente (Koltchak, Deníkin e Iudénitch), como também os novos aliados (se é que existem) ainda não se manifestaram em carne e osso, se excetuarmos o ridículo Petliura e as "suas" ridículas "tropas". Por ora, a Polônia está sozinha contra a Rússia, sem aliados militares de importância.

Além disso, o famigerado bloco foi despedaçado não só moral e praticamente, mas também formalmente. A Entente teve que se adaptar à necessidade de estabelecer relações diplomáticas com a Rússia e de tolerar representantes oficiais desta última no Ocidente. O movimento revolucionário de massa nos países europeus, que fez suas as palavras de ordem da III Internacional, e os novos êxitos das tropas soviéticas no Oriente tornam mais grave a cisão no seio da Entente, elevam o prestígio da Rússia nos países neutros e limítrofes, tornam utópica a política de isolamento da Rússia seguida pela Entente. A Estônia, aliada "natural" da Polônia, está neutralizada. A Letônia e a Lituânia, aliadas militares da Polônia até ontem, hoje entabulam negociações de paz com a Rússia. A mesma coisa pode-se dizer da Finlândia.

Enfim, a situação interna da Rússia no momento do terceiro ataque da Entente deve ser considerada como radicalmente modificada para melhor. A Rússia não só abriu caminho para as regiões produtoras de trigo e de combustíveis (Sibéria, Ucrânia, Cáucaso Setentrional, bacia do Donetz, Grózni, Baku), como reduziu o número das frentes de seis para duas, obtendo dessa maneira a possibilidade de concentrar as tropas no oeste.

Ao que se disse é preciso acrescentar um fato de grande importância: a Polônia, que rejeitou as propostas de paz da Rússia, é a agressora, ao passo que a Rússia se defende, o que confere a esta última uma enorme, inestimável vantagem moral.

Todas essas circunstâncias criam uma situação nova, novas possibilidades de vitória para a Rússia, que não existiam nos períodos anteriores do primeiro e do segundo ataque da Entente contra ela.

Assim, principalmente, se deve também explicar o tom desanimado e cético da imprensa imperialista do Ocidente ao avaliar os êxitos das tropas polonesas.

II - A Retaguarda. A Zona do Ataque

Nenhum exército no mundo pode vencer (pretendemos falar, naturalmente, de uma vitória durável e estável), se não possuir uma sólida retaguarda. A retaguarda é para a frente a coisa mais importante, porque ela, e somente ela, alimenta a frente não só de abastecimentos de toda a espécie, mas também de homens, de combatentes, do apoio moral e de idéias. Uma retaguarda instável e até mesmo hostil transforma necessariamente o melhor e o mais coeso dos exércitos numa massa instável e amorfa. A debilidade de Koltchak e de Deníkin explica-se pelo fato de que eles não tinham a "sua" retaguarda, e que, embebidos de tendências puramente russas, próprias de grande potência, foram obrigados a constituir a frente, abastecê-la e completá-la em grande parte às expensas de elementos não russos hostis a essas tendências, obrigados enfim a operar em regiões notoriamente hostis às suas tropas. É natural que tropas destituídas de unidade interna, nacional, e, o que é pior, de classe, circundadas por uma atmosfera hostil, se hajam desmoronado ao primeiro golpe forte que lhes vibraram as tropas soviéticas.

A retaguarda dos exércitos poloneses difere consideravelmente, desse ponto de vista, da de Koltchak e Deníkin, para grande vantagem da Polônia. Diferentemente da retaguarda de Koltchak e Deníkin, a das tropas polonesas é homogênea e de uma única nacionalidade. Daí sua unidade e sua estabilidade. No espírito de suas populações predomina o "sentimento patriótico", que se transmite à frente polonesa por numerosos canais, gerando nos destacamentos a unidade nacional e a firmeza. Daí a resistência das tropas polonesas. Naturalmente, a retaguarda da Polônia não é homogênea (e não pode sê-lo!) do ponto de vista de classe, mas os conflitos entre as classes ainda não atingiram uma força tal que abale o sentimento da unidade nacional e contagie a frente, se bem que esta seja heterogênea do ponto de vista de classe. Se as tropas polonesas operassem no território da Polônia propriamente dita, seria sem dúvida difícil combater contra elas.

Mas a Polônia não quer limitar-se ao próprio território, ela manda avançarem suas tropas, submetendo a Lituânia e a Bielorrússia, penetrando profundamente na Rússia e na Ucrânia. Essa circunstância modifica radicalmente a situação, para grande desvantagem da estabilidade das tropas polonesas.

Lançando-se além das fronteiras da Polônia e penetrando nas regiões adjacentes, as tropas polonesas afastam-se da sua retaguarda nacional, debilitam sua ligação com esta, vêm a se encontrar num ambiente étnico estranho a elas e, mais que isso, hostil. Mas há coisa pior ainda. Essa hostilidade é aprofundada pelo fato de que a grande maioria da população dessas regiões (Bielorrússia, Lituânia, Rússia, Ucrânia) é constituída de camponeses não poloneses que suportam o jugo dos latifundiários poloneses, de que esses camponeses consideram a ofensiva das tropas polonesas como uma guerra pelo poder dos senhores poloneses, como uma guerra contra os camponeses não poloneses oprimidos. Esse fato explica exatamente por que a palavra de ordem das tropas soviéticas "Abaixo os Senhores Poloneses!" encontra uma forte ressonância entre a maioria da população das regiões mencionadas acima, por que os camponeses dessas regiões acolhem os soldados soviéticos como libertadores que os subtraem ao jugo dos latifundiários, por que eles, aguardando as tropas soviéticas, se levantam na primeira ocasião propícia, desferindo golpes na retaguarda das tropas polonesas. Com esse fato se explica o incomparável entusiasmo das tropas soviéticas, verificado por todos os nossos dirigentes militares e políticos.

Tudo isso não pode deixar de criar no seio das tropas polonesas uma atmosfera de precariedade e de incerteza, não pode deixar de destruir sua fortaleza de ânimo, a fé na justeza de sua causa, sua fé na vitória, não pode deixar de transformar a unidade nacional das tropas polonesas, de fator positivo em fator negativo.

E quanto mais elas avançarem (se de um modo geral ainda avançarem), tanto mais esses fatores negativos do ataque polonês se farão sentir.

Pode a Polônia, em semelhantes circunstâncias, desenvolver uma poderosa, potente ofensiva, de modo a abrir a perspectiva de êxitos duráveis?

Em semelhantes condições, acaso não virão as tropas polonesas a encontrar-se numa situação análoga à em que vieram a se encontrar em 1918, na Ucrânia, as tropas alemãs, desligadas de sua retaguarda?

Agora passemos à questão relativa ao ponto onde devemos golpear. Na guerra em geral, e na guerra civil em particular, o êxito, a vitória decisiva, dependem freqüentemente da feliz escolha da zona onde golpear, da feliz escolha da zona da qual se tenciona golpear o adversário e desenvolver ulteriormente o golpe principal. Um dos erros crassos de Deníkin consistiu no fato de que ele escolheu como zona onde desferir o seu golpe principal o trecho da bacia do Donetz-Khárkov-Vorónej-Kursk, vale dizer, uma zona notoriamente insegura para Deníkin e hostil a ele, na qual não podia criar nem uma sólida retaguarda, nem um ambiente favorável ao avanço das suas tropas. Os êxitos dos exércitos soviéticos na frente de Deníkin explicam-se, entre outras coisas, pelo fato de que o comando soviético desferiu oportunamente seu golpe principal, ao invés de no setor de Tzarítzin (zona desfavorável), na bacia do Donetz (zona bastante favorável), onde a população acolheu entusiàsticamente as tropas soviéticas e de onde era facílimo romper a frente de Deníkin, cortá-la em duas e avançar até Rostov.

Esse fator, não raro descurado pelos velhos militares, tem muitas vezes na guerra civil uma importância decisiva.

É preciso salientar que a esse respeito — a zona principal onde golpear — para a Polônia as coisas não poderiam ir pior. O fato é que, pelos motivos acima expostos, nem uma sequer das regiões adjacentes à Polônia pode ser definida como região favorável aos exércitos poloneses, como zona para desferir o golpe, nem para o seu desenvolvimento ulterior: em qualquer direção que avancem as tropas polonesas, encontrarão por toda a parte oposição do mujik ucraniano, russo, bielorrusso, que espera das tropas soviéticas libertar-se dos latifundiários poloneses.

E, pelo contrário, as tropas soviéticas a esse respeito acham-se numa situação inteiramente favorável: para elas todas as regiões são, por assim dizer, "adequadas", porque avançando não reforçam, mas derrubam o poder dos senhores poloneses e libertam do jugo destes os camponeses.

III - Perspectivas

Por ora, a Polônia combate sozinha contra a Rússia. Mas seria ingenuidade pensar que ela fique sozinha. Pretendemos referir-nos aqui não só ao apoio de todo o gênero que indubitavelmente a Entente dará à Polônia, como também àqueles aliados militares da Polônia que em parte já foram encontrados pela Entente (por exemplo, os restos das tropas de Deníkin) e em parte serão encontrados, segundo todas as probabilidades, para maior glória da "civilização" européia. Não é por acaso que a ofensiva polonesa teve início durante a conferência de San Remo[N105], à qual não foram admitidos os representantes da Rússia. Não é tampouco por acaso que a Rumânia se esquivou de tratar da questão das negociações de paz com a Rússia. . . Por isso é inteiramente possível que a ofensiva polonesa, que à primeira vista parece uma aventura, pressuponha de fato um plano de ataque combinado, concertado de modo amplo, a ser realizado pouco a pouco.

É preciso todavia dizer que se a Entente, organizando o terceiro ataque contra a Rússia, contou vencê-la, fez mal os seus cálculos, porque as possibilidades de derrotar a Rússia em 1920 são menores, muito menores, que as existentes em 1919.

Falamos, acima, das possibilidades de vitória que tem a Rússia, dissemos que elas aumentam e continuarão a aumentar, mas isso naturalmente não quer dizer que já estamos com a vitória no bolso. As possibilidades de vitória a que se aludiu só podem ter um valor real se as outras condições forem iguais, isto é, com a condição de que agora empenhemos nossas forças como antes, no tempo da ofensiva de Deníkin, com a condição de que nossas tropas receiam abastecimentos e reservas a tempo e de maneira regular, que nossos agitadores eduquem os soldados do Exército Vermelho com triplicada energia que nossa retaguarda seja depurada de toda a podridão e seja consolidada com todas as nossas forças, por todos os meios.

Só nessas condições a vitória pode ser considerada segura.


Notas de fim de tomo:

[N104] Em 11 de abril de 1920 houve uma troca de notas diplomáticas em conseqüência da nota enviada por lord Curzon, ministro inglês dos negócios exteriores, a Tchitchérin, Comissário do Povo para os Negócios Exteriores da R.S.F.S.R. Nessa nota, Curzon oferecera ao governo soviético a capitulação total de Wrángel e de suas tropas na Criméia, sob a condição de que fosse concedida uma anistia. (Acerca dessa correspondência, vide também no presente volume, p. 318). (retornar ao texto)

[N105] A Conferência de San Remo dos Estados da Entente verificou-se de 19 a 26 de abril de 1920. Na Conferência foram discutidos o cumprimento do tratado de paz de Versalhes por parte da Alemanha, o projeto do tratado de paz com Turquia e outras questões. (retornar ao texto)

 

pcr