Discurso Pronunciado na XV Conferência Provincial do Partido em Moscou(1)

J. Stálin

14 de Janeiro de 1927


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Primeira Edição: Publicado no Jornal "Pravda" N.º 13, de 16 de Janeiro de 1927.
Fonte: Problemas - Revista Mensal de Cultura Política nº 36 - Set-Out de 1951.
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo.
Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.


CAMARADAS! Eu não tencionava intervir. Não tencionava porque tudo o que era necessário dizer na Conferência já foi dito pelos demais camaradas, não há nada de novo a acrescentar e não tem sentido repetir o que já foi dito. Não obstante, ante as exigências de uma série de delegações, cabe-me dizer algumas palavras.

O que é fundamental e característico na situação de nosso país se considerarmos o problema do ponto de vista da administração do país, do ponto de vista da direção de todo o nosso trabalho de construção?

O elemento principal e característico reside em que o Partido soube encontrar uma política justa — a linha básica do Partido revelou-se justa e as suas diretrizes revelaram-se plenas de vitalidade.

Lênin afirmou:

Dez — vinte anos de uma política justa em relação ao campesinato e nossa vitória estará assegurada.

O que significa isso? Significa que no momento histórico atual a questão das relações recíprocas entre o proletariado e o campesinato constitui para nós o problema fundamental. E eis que a nossa prática, o nosso trabalho, o trabalho do Partido, demonstra que este soube encontrar uma solução justa para esse problema.

O que se exige para que a política do Partido seja justa em relação a esse problema fundamental?

Para isso exige-se, em primeiro lugar, que a política do Partido garanta uma sólida aliança, a união entre a classe operária e o campesinato.

Para isso exige-se, em segundo lugar, que a política do Partido assegure a direção do proletariado dentro dessa união, dentro desta sólida aliança.

Para se garantir uma sólida aliança é necessário que a nossa política financeira em geral e a nossa política tributária, em particular, correspondam aos interesses das massas trabalhadoras, que a nossa política de preços seja justa, que atenda aos interesses da classe operária e do campesinato e que a organização cooperativa crie raízes tanto na cidade como, particularmente, no campo, de maneira sistemática, dia a dia.

Penso que nesse sentido, nos mantemos no caminho certo. Em caso contrário estaríamos nos defrontando com seriíssimas dificuldades.

Não direi que não estejamos encontrando dificuldades nesse setor. Há dificuldades, e muito sérias. Estamos, porém, superando-as. E as superamos porque a nossa política em geral é justa.

E o que é necessário para se garantir para o proletariado a direção do campesinato? Para isso é necessária a industrialização do país. Para isso é necessário que a nossa indústria socialista progrida e se consolide. Para isso é necessário que a nossa crescente indústria socialista arraste a agricultura.

Lênin afirmou:

cada nova fábrica, cada nova usina fortalece tanto, as posições da classe operária no sentido da direção do campo que nenhum elemento pequeno-burguês nos atemoriza.

Lênin afirmou isso em 1921. Desde então decorreram cinco anos. Durante esse período a nossa indústria progrediu, surgiram novas fábricas e novas usinas. E eis que se verifica que cada nova fábrica, cada nova usina constitui uma nova fortaleza nas mãos do proletariado, que lhe garante a direção das massas de milhões do campesinato.

Verifica-se que também nesse setor o Partido soube encontrar uma política justa.

Não direi que não deparamos com dificuldades nesse setor. Há, evidentemente, dificuldades, mas não as tememos e as superamos porque a nossa política é justa no fundamental.

Afirma-se que o poder Soviético é o poder mais sólido entre todos os governos existentes no mundo. Isso é verdade. E como se explica isso? Explica-se pelo fato de que a política do poder Soviético é a única política justa.

Basta, porém, somente uma política justa para se vencer todas e quaisquer dificuldades que surgem no nosso caminho?

Não, não basta.

Para isso são ainda necessárias, no mínimo, duas condições.

Primeira condição. É necessário, em primeiro lugar, que uma política justa, elaborada pelo Partido, seja realmente levada à prática, seja realmente realizada de maneira integral e completa.

Possuir uma política justa — é, evidentemente, o primeiro passo. Se, porem, essa política não é levada à prática, se é desfigurada na prática, ao se lhe dar vida — então que sentido há em tal política? Há ocasiões na vida em que uma política é justa mas não é levada à prática ou não é realizada da maneira como é necessário realizá-la. Temos atualmente muitos casos dessa espécie. Lênin se referiu precisamente a esses casos, quando afirmou em seu último informe(2) apresentado ao XI Congresso:

A nossa política é justa, mas isso é insuficiente e por isso atualmente se apresenta o problema de se por em ordem a escolha acertada dos homens e organizar o controle da execução.

A escolha dos homens e o controle da execução — em seu último informe Lênin frisava a importância desse problema. Penso que agora devemos manter em vista essa indicação de Lênin e por todo o período de nosso trabalho de construção. Para se dirigir a construção é insuficiente que se possua diretrizes justas, para isso é ainda necessário colocar nos postos dirigentes de nosso trabalho de instrução, seja no setor dos Soviéts, no econômico, no cooperativo ou em qualquer outro, os homens que compreendem o sentido e a significação dessas diretrizes, que sejam capazes de levar à prática essas diretrizes de modo honesto e consciente e que não considerem a realização dessas diretrizes como uma simples formalidade mas como uma questão de honra, uma questão do cumprimento do mais elevado dever perante o Partido e o proletariado.

É assim que se deve compreender a palavra de ordem de Lênin: uma escolha acertada dos homens e o controle da execução das tarefas.

As vezes, porém, acontece entre nós algo diametralmente oposto. Admite-se, na aparência, as indicações dos órgãos superiores do Partido e do Poder Soviético, mas na prática essas diretrizes são esquecidas na gaveta e se continua a realizar uma política inteiramente diferente. Não é verdade que às vezes certos dirigentes de alguns aparelhos, econômicos, cooperativos e outros, arquivam as justas indicações do Partido e continuam a marchar pela velha estrada rotineira? Se, por exemplo, os órgãos centrais do Partido e do Poder Soviético decidem que a tarefa imediata de nossa política é a baixa dos preços a varejo, e toda uma serie de trabalhadores das cooperativas e do comércio em geral desprezam essas resoluções, preferindo ignorar a sua existência — qual é a denominação que se deve dar a esse procedimento? O que representa senão menoscabo de uma política justa, de cujo cumprimento consciencioso depende o destino da sólida aliança, a sorte da união entre os operários e os camponeses, os destinos do Poder Soviético?

Lênin referia-se precisamente a esses casos quando afirmou:

A nossa linha é justa, mas a máquina não marcha no sentido que se pretende.

E onde está a explicação desse desacordo entre a linha e a máquina? Está no fato de que a composição dessa máquina, a composição desse aparelho nem sempre é de boa qualidade.

É por esse motivo que a seleção acertada dos trabalhadores e o controle da execução constituem atualmente uma das tarefas imediatas do Partido e do Poder Soviético.

É por esse motivo que o Partido deve zelar com perspicácia no sentido de que os principais trabalhadores de nossa atividade de construção sejam selecionados sob o ponto de vista da realização conscienciosa da política do Partido e do Poder Soviético.

Segunda condição. Tudo isso, evidentemente, não esgota o assunto. É necessário, além disso, que se consiga elevar a qualidade da direção partidária das massas e facilitar, assim, a integração das amplas massas dos operários e também dos camponeses em todo o nosso trabalho de construção. Assegurar a direção pelo proletariado — é, evidentemente, a primeira tarefa. O proletariado, porém, manifesta a sua vontade de direção através do Partido.

Quando um Partido ruim se acha à frente dos trabalhos de construção torna-se impossível dirigi-los. Para que o proletariado possa dirigir, é necessário que o seu Partido esteja à altura de sua qualidade de dirigente máximo das massas. E o que é necessário para isso? Para isso se exige que a direção do Partido não seja formal, burocrática, mas real. Para isso se exige que a direção do Partido possua o máximo de flexibilidade.

Afirma-se que não podemos conquistar a vitória na frente de nossa construção sem pôr em ação as amplas massas da classe operária. Não há dúvida alguma a esse respeito. Porém, o que significa isso? Significa que para que as amplas massas sejam integradas na tarefa de nossa construção é necessário que essas massas sejam dirigidas de maneira justa, com flexibilidade e não de maneira irrefletida. E quem deve dirigir as massas? O Partido deve dirigir as massas. O Partido, porém, não pode dirigir as massas se não levar em conta as transformações que se verificaram nos últimos anos entre os operários e os camponeses. Atualmente já não é possível dirigir à maneira antiga, por meio apenas de ordens e indicações. Já se passou a época em que se podia dirigir dessa maneira. Atualmente uma direção simples e formal só pode provocar irritação. E por que? Porque aumentou a atividade da classe operária, aumentaram as exigências da classe operária, aumentou a sensibilidade dos operários em relação às debilidades de nosso trabalho e os operários se tornaram mais exigentes.

Trata-se de um bom sintoma? É evidente que sim. Sempre nos esforçamos no sentido de alcançar esse resultado. Conclui-se daí, porém, que a direção da classe operária se torna mais complexa, e a própria direção deve assumir um caráter mais flexível. Antigamente acontecia às vezes que não se prestava atenção às exigências dos operários e nada acontecia. Atualmente, porém, isso não pode acontecer, camaradas! Atualmente exige-se o máximo de atenção até mesmo em relação às minúcias mais insignificantes uma vez que as condições de vida dos operários se formam justamente do conjunto dessas minúcias.

O mesmo se deve dizer dos camponeses. O camponês de hoje não é igual ao de dois ou três anos atrás. Tornou-se também mais sensível e consciente. Lê artigos dos chamados dirigentes, discute-os, analisa até à medula a atuação de cada dirigente e elabora sobre o mesmo a sua própria opinião. Não se pode julgar que o camponês seja estúpido, como às vezes o imaginam certas pessoas que se julgam sabichões. Não, camaradas, o camponês é mais inteligente do que muitos sabichões da cidade. E acontece que deseja que o tratem com um pouco mais de atenção. Aqui, da mesma forma como em relação os operários, não podemos nos limitar a resoluções apenas. Aqui, a mesma forma como em relação aos operários, é preciso explicar as diretrizes do Partido e do Poder Soviético, explicá-las de maneira paciente e atenciosa para que compreendam o que o Partido quer e em que sentido encaminha o pais. Se não compreenderem hoje — explicar mais claramente amanhã. Se não compreenderem amanhã — explicar mais claramente depois de amanhã. Sem isso não haverá e não pode haver atualmente nenhuma direção.

Isto não quer dizer, evidentemente, que se deva deixar de dirigir. Não, não é disso que se trata. A massa não pode respeitar o Partido se este abandona a direção, se deixa de dirigir. As próprias massas querem que sejam dirigidas e as massas procuram uma direção firme. as massas, porém, querem que a direção não seja formal, burocrática mas real, compreensível. E justamente por isso que se torna necessário explicar pacientemente os objetivos e as tarefas, as diretrizes e as indicações do Partido e do Poder Soviético. Não se pode abandonar a direção da mesma forma como não se pode enfraquecê-la. Pelo contrario, a direção deve ser reforçada. Porém, para se reforçar a direção é necessário que a própria direção se torne mais flexível e o Partido se arme do máximo de sensibilidade em relação às exigências das massas.

Termino, camaradas. A nossa política é justa e nisso se encontra a nossa força. Porém, para que a nossa política não fique no ar são necessárias, no mínimo, duas condições. Em primeiro lugar uma justa seleção dos militantes e o controle do cumprimento das diretivas do Partido. Em segundo lugar, a flexibilidade na direção das massas e o máximo de sensibilidade em relação às reivindicações das massas, sensibilidade e uma vez mais sensibilidade. (Calorosos e prolongados aplausos e ovações de toda a sala; todos os presentes se levantam e cantam a "Internacional".)

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Notas:

(1) a XV Conferência Provincial de Moscou do PC (b) da URSS se realizou de 8 a 15 de Janeiro de 1927. A Conferência debateu os problemas relativos à situação externa e interna da URSS, o informe relativo às tarefas imediatas da Comissão Central de Controle e da Inspeção Operária e Camponesa, o relatório apresentado pelo Comitê de Moscou do PC (b) da URSS e outros problemas. J. V. Stálin falou a 14 de Janeiro, por ocasião da sessão noturna da Conferência. Esta aprovou a política do CC leninista do PC (b) da URSS. (retornar ao texto)

(2) — Vide V. I. Lênin, t. XXVII, pgs. 255-259, 3.a edição russa. (retornar ao texto)

 

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Inclusão 05/11/2009