O Materialismo Histórico em 14 Lições

L. A.Tckeskiss


Lição X: A Luta de Classes Como Força Propulsora da História e a Formação da Psicologia de Classe


Na lição anterior vimos como estrutura da sociedade, — a divisão em classes, é resultante da divisão social do trabalho e conseqüência das relações de produção numa dada sociedade. As relações em que assentam as classes em oposição se expressam sob forma de luta, — em relação de luta.

As outras formas de luta na sociedade como as lutas de raças, a luta nacional, nascem da luta econômica entre as classes. A diferença entre luta nacional e luta econômica consiste somente no fato das lutas internacionais representarem, a principio, uma luta contra forças externas; somente com a evolução toma ela um nítido caráter de luta de classes. Quando a burguesia de uma nação (já então dividida em classes) não pode mais satisfazer-se com a exploração do proletário nacional, procura então estender seu domínio sobre outros povos atrasados ou concorrentes. O caráter externo de luta entre nações depende do estado das forças produtivas das mesmas.

Assim por exemplo a luta entre a Inglaterra e a China, como luta entre um pais desenvolvido e outro atrasado (no sentido econômico), traz mais abertamente o caráter de luta feroz entre o mais forte e o mais fraco, as passo que a luta entre a Alemanha e a França — luta entre países igualmente desenvolvidos — é disfarçada, trazendo o caráter de luta entre duas “civilizações” diferentes, onde uma é apresentada como justa e “civilizada” e a outra como bárbara. As formas de luta, de fato, são diversas, mas o seu conteúdo é sempre o mesmo.

Na historia da evolução social, — na historia da luta de classes, notamos que a classe oprimida evolui sempre juntamente com a evolução das forças produtivas. Coube sempre a ela o papel de força propulsora do progresso e de todo o bem estar da humanidade.

Com efeito, vejamos em que consistem as forças produtivas e como as classes estão ligadas a elas.

Falando das forças produtivas da sociedade devemos tomar em consideração as três espécies seguintes: 1ª, as forças da natureza, como a terra, os montes, os rios, os minerais, etc.; 2ª, o meio artificial — a união do trabalho humano com as forças da natureza em intima ligação (instrumentos); 3ª, a força do trabalho, a totalidade do trabalho humano na sociedade. Essas três espécies se acham intimamente ligadas ente si. Elas são imprescindíveis à existência e evolução da sociedade humana, que necessita forçosamente do meio natural, do meio artificial e da força do trabalho humano. Tentai aniquilar uma só dessas três forças e a sociedade inteira perecerá.

Analisada separadamente cada uma dessas espécies de forças, notamos que, quanto à natureza, é ela um fator constante, que sem a intervenção do homem, por si só, muito pouco se modifica. Certamente operam-se na natureza acontecimentos como inundações, erupções vulcânicas, erosões, terremotos, etc. Mas, de um modo geral, a natureza permanece ou se apresenta sempre com o mesmo aspecto, e sua ação sobre o homem, é por isso também mais ou menos a mesma. As mutações na natureza (no clima, no mundo dos seres inferiores, dos vegetais, na flora e fauna) se opera muito lentamente em relação à historia da humanidade e por isso não podem ser elas tomadas em consideração.

O meio artificial, — a técnica, ao contrario, se modifica, evolui e passo a passo com ela desenvolve também a força do trabalho que a ela está ligada, e é determinada pela técnica em desenvolvimento. Quanto mais se desenvolve a técnica, tanto mais diferenciado se torna o trabalho, dividido socialmente, e ao mesmo tempo a sociedade é igualmente dividida em classes e grupos com interesses econômicos opostos.

A primeira forma de divisão do trabalho aparece no terreno da distinção entre o trabalho dirigente e o de execução. Essa divisão traz consigo, desde logo, desigualdades entre os membros da sociedade. Desigualdades que se acentuam ao ser criado o instituto da propriedade privada e cria mais tarde o “domínio” dos “dirigentes” e a opressão exercida sobre os executores.

Vamos agora observar a evolução das forças produtivas em relação à divisão de classes. Estudando a historia do desenvolvimento econômico notamos que a classe dirigente desempenhou durante algum tempo um papel positivo na vida social e em certo sentido uma função produtiva, indispensável. Na fase posterior da evolução, deixa ela, porem, de ter esse papel, para se converter em elemento parasitário cuja existência deixa de ser útil à sociedade. Quanto à classe executora, isto é, a classe produtora, se estiola sob a pressão das classes dirigentes, sem poder desenvolver-se, a sociedade toda degenera então, ou é dominada por outra sociedade que explora, deixando assim aquela de ser independente. Mas isso não se dá quando a classe dirigente deixa de desempenhar o seu papel positivo. Esse fato não acarreta a queda da sociedade toda, porque devido ao desenvolvimento das forças produtivas nasce outra força dirigente; os executores destacam a si próprios novo grupo de dirigentes que assume papel organizador na sociedade e dá assim oportunidade ás forças produtoras de continuarem a se desenvolver.

Devido á evolução da sociedade, criam-se, às vezes, condições tais, que são verdadeiros obstáculos ao desenvolvimento das classes produtoras ou executoras e não tendo estas possibilidades de continuar o seu desenvolvimento, são condenadas a degenerar e a perecer. E neste caso a sociedade inteira estará condenada a desaparecer. Um, tal momento encontramos na historia das sociedades construídas na base de escravidão. Os escravos eram elementos produtores. Criou-se porem uma situação tal, que a forma de produção escravocrata já não podia permitir o desenvolvimento das forças produtoras e então essa sociedade teve que desaparecer ou degenerar.

A sociedade feudal foi uma sociedade de organização feudal da agricultura e os senhores feudais desempenharam ate certo ponto o necessário papel da atividade social. Mais tarde porem, quanto mais prossegue o desenvolvimento de novas forças produtoras na própria sociedade feudal, não agrícolas, mas industriais, tanto mais começam os elementos dirigentes da nova indústria, — a burguesia, a lutar contra a anterior organização feudal da produção agrícola. E vencem, porquanto a evolução das forças produtivas e especialmente da técnica e da indústria, já se acha bastante entravada, pela regulamentação feudal e o pelo sistema senhorial da administração tributaria.

O mesmo também se da com o sistema capitalista. As condições burguesas na produção e nos transportes, as relações de propriedade burguesas, numa palavra, a sociedade burguesa moderna, que criou, como por um condão mágico, tais meios de produção e transporte, assemelha-se ao mágico que já não pode sozinho dominar as forças provocadas com seus próprios passes. A historia da indústria e do comercio dos últimos tempos pode resumidamente ser considerada como abalo(1), como uma revolução das modernas forças produtivas contra as atuais relações de produção, contra as atuais relações de propriedade, que são ao mesmo tempo as condições devida da burguesia e de sua dominação. E isso, porque as condições dominantes na produção impedem o crescimento impetuoso das forças produtivas que já ultrapassaram as formas ou relações econômicas ainda existentes. A burguesia já não serve á sociedade; ela não só deixou de organizar a produção e de dirigir o seu progresso, mas, ao contrario, tornou-se mesmo um entrave a organização e desenvolvimento das forças produtivas da sociedade. E desde o momento em que essas forças produtivas tentam vencer e destruir esses entraves, imediatamente a burguesia faz um grande alarme dentro da sociedade burguesa, gritando que ameaçam a destruição da própria sociedade, quando na verdade, só é ameaçada a propriedade burguesa. Marx disse:

— “a arma com a qual a burguesia venceu o feudalismo é agora também aplicada contra ela própria; mas a burguesia não só forjou a arma que agora lhe dara a morte, como também criou os homens que contra ela empunharão essas armas – ela criou a moderna classe proletária – o operariado”.

***

Até aqui descrevemos a parte mecânica da luta de classes que só pode ser concluída com o estudo da produção. Essa luta parece ter um caráter puramente “mecânico”. Tratamos da burguesia e do proletariado somente como dirigentes e produtores e não como duas classes com interesses econômicos opostos. Essa é a parte mecânica do processo da luta de classes. Tomamos por base a evolução das forças produtivas e vimos como a própria força do trabalho é que provoca a divisão em classes, desempenha papel preponderante no desenvolvimento da sociedade. Primeiramente temos dirigentes e executores, sendo ambos úteis á sociedade e por isso com iguais direitos. Mais tarde surgem as primeiras lutas entre dirigentes que vivem já da exploração dos produtores. Tornaram-se parasitas, não correspondendo mais à marcha da evolução das forças produtivas da sociedade, isto é, dos executores, os explorados, que aspiram à sua libertação e que já podem destacar de si novos organizadores da produção com novas funções e novas tarefas. Estes novos dirigentes, por sua vez, se tornarão mais tarde inúteis à sociedade, convertendo-se em obstáculos à evolução das forças produtivas e começará uma nova luta contra eles, e assim por diante.

A sociedade, porem, não é maquina que tem a tarefa de desenvolver a técnica e a técnica tampouco não se desenvolve por si só. A sociedade se compõe de homens que têm certas necessidades materiais e espirituais, certas aspirações humanas, que vivem e lutam; compõe-se de homens com certa consciência que com a evolução da sociedade se torna cada vez mais complexa. Devemos, portanto, considerar o conteúdo humano e interno da luta de classes; devemos compreender a luta de classes em toda a sua complexidade e analisar as varias formas por ela assumidas.

Quando analisamos a sociedade e a observamos concretamente, constatamos então que ela é composta primeiramente de indivíduos, e que cada individuo não é uma parte mecânica da sociedade, sem vida própria, A sociedade representa um complexo de indivíduos onde cada um tem certa consciência, existindo, por isso, de si e por si, como unidade na sociedade.

A produção e a técnica são criados pelos indivíduos. A vida do individuo pode ser mais ou menos complexa pode ter um conteúdo rico ou pobre; o individuo porem, permanece como tal. Esse fato não deve por nós ser silenciado nem negado. Claro é para todos que a produção somente pode ser criada pela atividade humana, pelos atos dos indivíduos na sociedade. O que nos interessa é saber qual o papel de cada individuo na produção e como é determinada a atividade do homem, dos indivíduos na sociedade.

Formulemos, porem, outra questão: — vimos que com o desenvolvimento da técnica crescem as necessidades, quer materiais, quer espirituais dos indivíduos. As formas que essas necessidades assumem são sociais porquanto são produzidas pela sociedade, sua satisfação, porem, esta ligada ao individuo. Pergunta-se: — qual a relação existente entre a atividade individual, a satisfação individual das necessidades e a atividade social, que é o resultado da atividade individual? Qual a expressão da sociedade, formada por um conjunto de indivíduos?

A atividade individual tem sua primeira expressão no trabalho (satisfação indireta das necessidades), o qual assume o caráter de cooperação. E esse trabalho é a expressão de uma forma simples de atividade. Mais tarde essa atividade assume uma forma muito complexa por já se achar ligada a consciência, ás idéias, etc. De que forma aparece essa última, isto é a forma complexa da atividade individual? Não podemos dizer que o espírito humano se desenvolva independentemente (por si só). A evolução deve, pois realizar-se como resultado de choques entre o homem e a natureza externa, á qual ele está obrigado a se adaptar. A causa do desenvolvimento humano não está nele próprio, mas fora dele, na natureza á qual ele se deve adaptar. O homem porem, só se adapta á natureza pelo meio artificial, como já vimos, que ele cria com a técnica.

A forma de adaptação da sociedade primitiva era igual para todos, porquanto todos os seus membros se encontravam em igualdade de condições. Um individuo da sociedade primitiva não se distinguia de outro porque a diferenciação entre eles era quase nula; por isso não há aí lugar para o individualismo. Nessa época o fenômeno individual, embora exista, desempenha, todavia o menor papel. Quando porem a sociedade evolui e surge a divisão do trabalho, aparecem então as possibilidades de grupos e indivíduos se destacarem. Já desde o inicio, os dirigentes e os executores não se acham em igualdade de condições. Forma-se certa desigualdade nas condições de vida, nasce a propriedade e com ela a possibilidade de exploração. A forma de adaptação já não é igual nos dois grupos principais que se formam então na sociedade. Esses dois grupos têm interesses diversos e opostos na maioria das vezes. São aspirações e exigências diferentes, são psicologias de classes diversas.

Notamos, portanto, que a diferenciação de psicologia nasce no terreno da diferenciação de classes e traz o caráter destas. Com o posterior desenvolvimento da técnica e da divisão do trabalho surgem alem dessas duas psicologias coletivas também certas distinções na própria psicologia de cada classe, formando-se assim terreno para a evolução da individualidade; porque as distinções que nascem naturalmente em cada individuo adquirem, devido as múltiplas formas do trabalho a possibilidade de se desenvolverem e desempenharem, deste modo, um certo papel na sociedade.

Quanto mais atrasada é a sociedade em seu desenvolvimento econômico, tanto menos são as possibilidades dos indivíduos se destacarem e tanto mais se assemelha essa sociedade a um rebanho. Ao contrario, quanto mais se desenvolve a sociedade, tanto mais oportunidade se oferece ao desenvolvimento do individuo, tanto mais se sente ele intimamente livre. A causa principal que desempenha aqui o papel preponderante, e isso devemos acentuar, são as formas de adaptação á natureza, são as varias condições da vida em que se encontra o homem. Daí se originam antes de tudo as psicologias de classes (interesses de classes, exigências e aspirações) e depois nelas próprias varias diferenciações psicológicas (psicologias de grupos e de indivíduos destacadamente). O fenômeno principal que deixa sua marca sobre a psicologia geral é a forma de adaptação á natureza e as condições em que vive determinada classe ou grupo. Somente dessa forma e por meio desses fatores é que se origina a psicologia de classe. O fato de pertencer a esta ou aquela classe já deixa sua marca sobre a psicologia deste ou daquele individuo. O fenômeno das classes desempenha assim o principal papel na evolução da psicologia.

Se as formas gerais do trabalho e da adaptação à vida determinam em geral o conteúdo da psicologia, é claro então que vários indivíduos que se acham em condições idênticas de trabalho e de adaptação à vida, terão as mesmas exigências e as mesmas necessidades e a generalidade destas vencerá as exigências e necessidades de caráter individual, que desempenham então um papel secundário. Não podemos deixar de tomar em consideração a existência do individuo como tal, sendo isso um fato que não podemos negar, mas desde que esse individuo pertence a certa classe, isto é, a determinado grupo, que vive nas mesmas condições de adaptação à natureza, os interesses dos indivíduos estão sob a hegemonia dos interesses do seu grupo ou classe, da psicologia de classe que desempenha o papel preponderante na sociedade.

A causa principal em certo período na evolução da vida da sociedade será portanto a luta de classes como a luta dos explorados contra os exploradores, como luta para o aniquilamento da exploração. Sendo a exploração possível, principalmente devido ao fato de se acharem os meios de produção nas mãos de um pequeno grupo (a classe capitalista) e não nas mãos dos produtores, a luta toma por isso a forma de luta pela socialização dos meios de produção, — pelo comunismo.

Aqui porem devemos deter-nos sobre mais um fenômeno, para compreender o mecanismo da evolução social. O individuo sente-se consciente e livre, — cada ato seu é a revelação da sua vontade livre. Falando porem da sociedade que se desenvolve segundo leis determinadas, cumpre-nos negar a liberdade de cada individuo. Mais ainda, a vida da sociedade como vimos antes, se compõe da atividade social, isto é, da atividade de todos os indivíduos; mas, sendo a atividade de cada individuo o resultado de sua livre vontade, acontece que a vida da sociedade é baseada sobre a liberdade.

Tropeçamos assim de novo, numa dificuldade à qual contudo devemos vencer. Ou estabelecemos que a vida da sociedade se dá segundo certas leis e então teremos que negar a atividade livre; e negando a atividade livre cumpre negar a consciente atividade, ou afirmando a atividade livre do homem, teremos que perguntar: como pode um conjunto de atos livres tornar-se uma necessidade (determinismo)? Ora, já que vimos que a vida da sociedade está sujeita a leis determinadas (determinismo), e deste modo, voltamos novamente à questão de liberdade e necessidade (determinismo) na vida social, que o materialismo anterior a Marx não conseguia explicar.


Notas:

(1) Crises mundiais no comercio e na indústria; guerras imperialistas e revoluções; milhões de desocupados; queimas de produtos, etc. (retornar ao texto)

 

Este texto foi uma contribuição do
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Inclusão 26/03/2010