Trotsky e o Trotskismo


A Revolução de Outubro


capa

Trotsky só aderiu ao Partido bolchevique no VI Congresso do POSDR (bolchevique) que se realizou semi-clandestinamente em Petrogrado de 8 a 16 de Agosto de 1917.

Na véspera das jornadas decisivas de Outubro, quando Zinoviev e Kamenev se conduziam como «fura-greves», revelando à burguesia os planos bolcheviques da insurreição, Trotsky combateu também Lenine em relação ao plano e à data da insurreição armada; exigia que a tomada do poder fosse objeto de uma decisão do próximo Congresso dos Sovietes, o que tendia a retardar a sublevação e a deixar passar o momento mais favorável, a desmoralizar as massas trabalhadoras e a comprometer todas as possibilidades de sucesso da revolução.

Lenine reagiu com vigor contra este ponto de vista errado, contra este retardamento.

 


A Crise Está Madura


Que fazer?... reconhecer que temos no CC e nos meios dirigentes do Partido uma tendência ou uma nuançe de opinião que quer esperar pelo Congresso dos Sovietes e se pronuncia contra a tomada imediata do poder, contra a Insurreição imediata. Esta tendência, ou esta nuance da opinião deve ser vencida.(1)

Senão, os bolcheviques desonram-se para sempre e desaparecem enquanto partido.

Deixar escapar a ocasião presente e «esperar» pelo Congresso dos Sovietes seria idiotice completa ou traição completa.

Traição completa face aos operários alemães. Porque não vamos do mesmo modo esperar o princípio da sua revolução! Quando ela rebentar, os LiberDan(2) serão também da opinião de a «apoiar». Mas ela não pode começar enquanto Kerensky, Kishkine & C.a estiverem no poder.

Traição completa face aos camponeses. Deixar reprimir o movimento camponês quando se tem os Sovietes das duas capitais, é perder e perder merecidamente a confiança dos camponeses, é cair aos olhos dos camponeses ao nível dos LiberDan e de outros pulhas.

«Esperar» o Congresso dos Sovietes é uma idiotice completa, porque é perder semanas, e as semanas, e mesmo os dias hoje decidem tudo. É renunciar cobardemente à tomada do poder, porque ela será impossível a 1 ou 2 de Novembro (por razões políticas e técnicas: eles não deixarão de concentrar cossacos para o dia estupidamente «fixado» da insurreição).

«Esperar» o Congresso dos Sovietes é uma idiotice, porque o Congresso NÃO DARÁ NADA, ele não pode dar nada!

28 de Setembro de 1917.
V. I. Lenine: «A crise está madura».
Obras completas,
tomo XXt, p. 296, E. S. I.


Contra o Retardamento


Emprego todas as minhas forças para convencer os camaradas que agora tudo está preso por um fio, que se põem na ordem do dia questões que não podem ser decididas, nem por meio de conferências, nem por Congressos (mesmo no caso de estes serem Congressos dos Sovietes), que só podem ser decididos pelos povos, pelas massas, pela ação das massas em armas...

É necessário, seja por que preço for, esta tarde, esta noite(3), prender o governo depois de se ter desarmado os junkers (e de os ter batido, se resistirem), etc...

Já não é possível esperar! Seria arriscarmo-nos a perder tudo!

A defesa do povo (não de um Congresso, mas do povo, o exército e os camponeses, em primeiro lugar) contra o governo de Kornilov..., eis o conteúdo da tomada imediata do poder.

Todos os distritos, todos os regimentos, todas as forças devem ser mobilizadas já e devem enviar imediatamente delegações ao Comité Militar Revolucionário e ao CC bolchevique, exigindo imperiosamente que, até ao dia 25, o Poder não seja deixado, em nenhum caso, de maneira nenhuma, a Kerensky & C.ª; é absolutamente necessário que esta questão seja decidida esta tarde ou esta noite.

A história não perdoaria nenhum retardamento aos revolucionários que hoje podem vencer (e vencerão hoje de certeza), mas que amanhã arriscariam perder muita coisa, arriscariam perder tudo.

Tomando o poder hoje, não o tomamos contra os Sovietes, tomamo-lo para eles.

A tomada do poder será a obra da insurreição; o seu conteúdo político será precisado em seguida.

Seria nefasto ou formalista esperar o voto indeciso de 25 de Outubro. O povo tem o direito a o dever de resolver estas questões pela força e não pelo voto; o povo tem o direito e o dever de dirigir, nos momentos críticos da revolução, os seus representantes, mesmo os melhores, em vez de esperar por eles.

A história de todas as revoluções provou-o, e os revolucionários que deixassem escapar o momento, mesmo sabendo que a salvação da revolução, a proposta de paz, a salvação de Petrogrado, o remédio contra a fome, a transmissão da terra dependiam deles, cometeriam o maior de todos os crimes.

O governo hesita. É preciso acabar com ele, custe o que custar.

Retardar a ação, é a morte.

24 de Outubro de 1917.
V. I. Lenine: «Carta aos membros do Comité Central»,
Obras completas, tomo XXI, pp. 438-439, E. S. I.

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Notas de rodapé:

(1) Trata-se do grupo formado por Zinoviev, Kamenev, Trotsky e seus adeptos. Cf. introdução acima. (retornar ao texto)

(2) Socíaís-democratas. mencheviques de direita. (Nota da edição francesa.) (retornar ao texto)

(3) A tarde de 24 de Outubro do antigo calendário russo corresponde ao 6 de Novembro do nosso calendário. Esta insistência de Lenine em não esperar nem sequer mais vinte e quatro horas para desencadear a insurreição demonstra a importância que justamente dava a uma ação decidida, imediata, rápida. Vinte e quatro horas poderia parecer, à primeira vista, uma bagatela, e a divergência com Trotsky poderia parecer não essencial. Na realidade, era uma divergência profunda e do triunfo de um ou de outro ponto de vista dependia a sorte da revolução. Algumas horas de descanso deixadas ao governo provisório de Kerensky ter-lhe-iam permitido concentrar as suas forças. O começo da revolta na tarde de 24, assegurará pelo contrário o sucesso da Revolução de Outubro. (Nota da edição francesa.) (retornar ao texto)

Inclusão 07/05/2015