O Perigo Fascista Paira Sobre a Alemanha

Leão Trotsky

Setembro de 1930


Primeira Edição: Publicado pela primeira vez na compilação "FASCISM: What it is and how to fight it" a cargo de Pioneer Publishers em Agosto de 1944 e reprimpresso em 1964.
Fonte: "O giro na Internacional Comunista e a Situaçom Alemã", 1930.
Tradução de: ........
Transcrição de: ..................
HTML de: Fernando A. S. Araújo para o Marxists Internet Archive, julho 2005.
Direitos de Reprodução: Marxists Internet Archive (marxists.org), 2005. A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.


A imprensa oficial do Comintern interpreta agora os resultados das eleiçons da Alemanha [Setembro de 1930] como umha prodigiosa vitória do comunismo, que situaria na ordem do dia a palavra-de-ordem da "Alemanha soviética". Os burocratas optimistas recusam reflectir sobre o significado da relaçom de forças revelada polas estatísticas eleitorais. Examinam o incremento de votos comunistas independentemente das tarefas revolucionárias criadas pola situaçom e os obstáculos estabelecidos. O partido comunista recebeu por volta de 4.600.000 votos, face aos 3.300.000 em 1928. Do ponto de vista dos mecanismos "normais" do palamentarismo, o ganho de 1.300.000 votos é considerável, mesmo levando em conta o aumento no número total de votantes. Mas o ganho do partido fica ensombrado completamente se comparado com o progresso do fascismo, que passa de 800.000 a 6.400.000 votos. De nom menor importáncia para a avaliaçom das eleiçons é o facto de a social democracia, apesar das perdas substanciais, reter os seus quadros principais e ainda receber um maior número de votos operários [8.600.000] do que o Partido Comunista.

No entanto, se nos perguntarmos que combinaçom de circunstáncias internas e externas poderiam fazer virar a classe operária do lado do comunismo com maior velocidade, nom acharíamos um exemplo de melhores circunstáncias para um giro tal do que a actual situaçom na Alemanha: A soga do Young (1*), a crise económica, a decadência dos dirigentes, a crise do parlamentarismo, o incrível auto-desmascaramento da social democracia no poder. Do ponto de vista destas cirscunstáncias históricas concretas, a influência do Partido Comunista na vida social do país, apesar do ganho de 1.300.000 votos, devém proporcionalmente pequena.

A fraqueza da posiçom do comunismo, totalmente ligada à política e funcionamento interno do Comintern, revela-se mais claramente se compararmos o peso social actual do Partido Comunista com estas concretas e inadiáveis tarefas que as actuais circunstáncias históricas colocárom na sua frente.

É certo que o Partido Comunista nom contava com ganho semelhante de votos. Mas isso prova que ante a desfeita dos seus erros e defeitos, a direcçom do Partido Comunista deixou de ter grandes objectivos e perspectivas. Se ontem subestimava as suas possibilidades, hoje ainda subestima mais as dificuldades. Por esta via, um perigo vê-se multiplicado polo outro.

Para além do mais, a primeira qualidade de um autêntico partido revolucionário é a de ser capaz de olhar a realidade cara a cara.

Para que a crise social poda ser conduzida para a revoluçom proletária, cumpre que, ao lado de outras condiçons, se dê um decisivo movimento das classes pequeno burguesas na direcçom do proletariado. Isto daria ao proletariado a ocasiom de pôr-se à frente da naçom e liderá-la. As últimas eleiçons revelam – e isto é o seu principal valor sintomático – umha tendência no sentido contrário. Sob a desfeita da crise, a pequena burguesia tem-se decantado nom pola revoluçom proletária, mas pola mais radical reacçom imperialista, empurrando nessa direcçom um considerável sector do próprio proletariado.

O crescimento gigantesco do nacional socialismo é expressom de dous factores: umha profunda crise social, que desestabiliza o equilíbrio das massas pequeno burguesas, e a carência de um partido revolucionário que apareça ante as massas populares como reconhecido dirigente revolucionário. Se o Partido Comunista é o partido da esperança revolucionária, o fascismo é, como movimento de massas, o partido da desesperança contra-revolucionária. Quando a esperança revolucionária abraça as massas proletárias ao completo, isso empurra inevitavelmente no caminho da revoluçom consideráveis e crescentes camadas pequeno-burguesas. Precisamente nesse plano, as eleiçons oferecem a imagem oposta: a desesperança contra-revolucionária abraça as massas pequeno burguesas com tanta força que que empurra importantes sectores do proletariado...

O fascismo na Alemanha tem-se convertido num perigo real, como umha aguda expressom da posiçom de indefenso em que se acha o regime burguês, o papel conservador da social democracia nesse regime, e a impotência acumulada polo Partido Comunista para derrubá-lo. Quem negar isto, é cego ou um fanfarrom.

O perigo atinge particular gravidade ligado com a questom do ritmo de desenvolvimento, que nom depende apenas de nós. O estado febril detectado na curva política com motivo das eleiçons mostra que o ritmo de desenvolvimento da crise nacional pode decorrer com rapidez. Por outras palavras, o curso dos acontecimentos num muito próximo futuro pode fazer ressurgir na Alemanha, num novo plano histórico, a velha trágica contradiçom entre a madureza de umha situaçom revolucionária, de umha parte, e a fraqueza e impotência estratégica do partido revolucionário, de outra. Isto deve ser dito com clareza, abertamente e, sobretudo, a tempo.

Pode ser calculada com antecedência a força da resistência conservadora dos trabalhadores social-democratas? Nom tal. À luz dos acontecimentos do passado ano, essa força semelha ser gigantesca. Mas na verdade o que mais ajudou à coesom da social democracia foi a política errada do partido Comunista, que achou a sua mais alta expressom na absurda teoria do social fascismo. Para medirmos a resistência real da social democracia, cumpre um diferente instrumento de medida, quer dizer, umha correcta táctica comunista. Eom essa condiçom – e nom é condiçom pequena – o grau de unidade interna real da social democracia pode revelar-se em pouco tempo.

Embora de modo diferente, o que foi dito anteriormente também tem a sua aplicaçom no fascismo: Desenvolveu-se, de umha parte, a partir da inestabilidade das condiçons criadas pola estratégia Zinoviv-Staline (2*). Qual é a sua força ofensiva? Qual a sua estabilidade? Tem atingido o seu ponto álgido, como nos asseguram os optimistas profissionais [Comintern e partidos comunistas oficiais], Ou está apenas no primeiro degrau da escada? Isto nom pode ser predito mecanicamente. Pode determinar-se sjó através da acçom. Precisamente em funçom do fascismo, que vem sendo umha lámina de barbear em maos do inimigo de classe, a errada política do Comintern pode produzir resultados fatais em pouco tempo. De outra parte, umha correcta política – nom em tam breve período de tempo, é certo – pode socavar as posiçons do fascismo.

Se o Partido Comunista, apesar das circunstáncias excepcionalmente favoráveis, provou a sua impotência para abalar seriamente a estrutura da social democracia com ajuda da sua fórmula do "social fascismo", o fascismo real, polo contrário, ameaça agora essa estrutura, nom já com fórmulas verbais de um falso radicalismo, mas com as fórmulas químicas dos explosivos. Por mais que seja certo que a social democracia preparou com a sua política o florescimento do fascismo, nom é menos certo que o fascismo supom umha ameaça mortal primeiramente para a própria social democracia, cuja força está indissoluvelmente ligada com formas e métodos democrático-parlamentares e pacifistas de governo...

A política de frente unida de trabalhadores contra o fascismo nasce desta situaçom. Abre grandes possibilidades para o Partido Comunista. Umha condiçom para o êxito, porém, é o rechaço da teoria e prática do "social fascismo", cujo dano pode ser quantificado sob as presentes circunstáncias.

A crise social produzirá inevitavellmente umha profunda cissom no seio da social democracia. A radicalizaçom das massas afectará aos social-democratas. Nós teremos que chegar a acordos, inevitavelmente, com diversas organizaçons e facçons social-democratas contra o fascismo, colocando condiçons precisas aos seus líderes, à vista das massas... Devemos abandonar declaraçons vácuas sobre a frente unida e voltar à política de frente única consoante com a formulaçom de Lenine e a sua aplicaçom constante por parte dos bolcheviques em 1917.


Notas:

(1*) "A soga do Young": di respeito ao Plano Young. Após Owen D. Young, poderoso homem de negócios norte-americano, que foi Agente-geral para a reparaçom da Alemanha durante a década de 20. No verao de 1929, foi presidente da conferência que adoptou o seu plano, que substituiu o mal sucedido Plano Dawes, para "facilitar" que a Alemanha pagasse as reparaçons acordadas no Tratado de Versalhes. (volta ao texto)

(2*) "Estratégia Zinoviev-Staline": Gregory Y. Zinoviev (1883-1936), presidente do Comintern desde a sua fundaçom em 1919 até a sua substituiçom por Staline em 1926. Após a morte de Lenine, Zinoviev e Kamenev figérom um bloco com Staline (a Troika) contra Trotsky, e dominárom o partido Soviético. No período de dominaçom do Comintern por parte de Zinoviev-Staline, umha linha oportunista conduziu-no a umha série de erros e oportunidades perdidas, a mais notável das quais foi a revoluçom alemá de 1923. Após a ruptura com Staline, Zinoviev aderiu à trotskista Oposiçom de Esquerda. Mas em 1928, após a expulsom do partido da Oposiçom Unida, Zinoviev capitulou ante Staline. Readmitido no partido, foi expulso de novo em 1932. Após a negaçom de toda perspectiva crítica, foi readmitido mais umha vez, mas em 1934 foi expulso e encarcerado. "Confessou" no começo dos grandes julgamentos de Moscova em 1936 e foi executado. (voltar ao texto)