Bush, a Saúde e a Educação

Fidel Castro

14 de Julho de 2007


Fonte: Cuba Debate - Contra o Terrorismo Midiático.

Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo.


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Não farei referência à saúde e a educação de Bush, mas à dos seus vizinhos. O acto não foi improvisado. A agência AP conta como iniciou as suas palavras: “Neste país temos corações grandes”, disse em espanhol perante uns 250 representantes de grupos privados e religiosos, fundações e ONGs que vieram a Washington com os gastos pagos pelo seu governo. Deles, procediam dos Estados unidos aproximadamente 100.

“A reunião, chamada Conferência da Casa Branca sobre as Américas, faz parte das ideias que Bush desenhou no começo da visita por cinco países latino-americanos no início de Março, sobre o que o seu governo esperava pela região no pouco tempo que lhe resta no cargo.”

“Bush convocou a conferência para falar de diversos temas, nomeadamente educação e saúde. 'Para nós é importante ter uma vizinhança saudável e educada', disse nas declarações improvisadas durante uma conversa com seis dos presentes, Guatemala, Estados Unidos, Brasil, Haiti e México, que partilharam a sua mesa a maneira de colóquio”, acrescenta a agência.

Afirmou coisas inacreditáveis, tais como

“o trabalho árduo que estamos a realizar na vizinhança”.

Falaram: Bush, o Secretário do Tesouro, o Sub-secretário de Estado para Assuntos do Hemisfério Ocidental e a Sub-secretária de Estado para Assuntos Públicos. Junto deles, presidiram os grupos de trabalho nos quais se baseou a reunião, vários membros do gabinete. Todos falaram até pelos cotovelos.

Mencionaram que Bush criou em Panamá um centro que capacitou mais de 100 doutores de seis países de América Central. Referiram-se, com grande ênfase, ao Comfort,

“um dos maiores navios-hospitais do mundo, que acaba de aportar no porto de Panamá, depois de ter visitado Guatemala”.

“Bush dedicou 55 minutos do seu tempo a essa actividade, que teve a sua sede num hotel da cidade de Arlington, Virgínia, na periferia de Washington.”

Sem hesitar, Condolezza, Secretária de Estado, juntou-se ao coro para falar de Cuba.

Segundo outra agência de notícias, quando o nosso Conselho de Estado, cumprindo as normas constitucionais, acabava de convocar a eleições, ela declarou que

“Os Estados Unidos espera que os próprios cubanos decidam sobre o seu futuro”, e acrescentou:  “Washington não tolerará a transição de um ditador para outro”.

No seu discurso inicial, Bush afirmou conceitos realmente insólitos para o chefe de um império global planetário, bem consciente do seu poder e do seu papel pessoal, registrados pormenorizadamente pela agência espanhola de imprensa EFE:

“O Presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, instou hoje os governos de América Latina a serem honestos, transparentes e abertos.” […] “O mandatário afirmou que as sociedades abertas e transparentes são as que levam a um futuro esperançoso.”

Esperamos que os governos sejam honestos e transparentes. Rejeitamos a noção de que esteja bem que haja corrupção no seio de um governo…”

“Beneficia-nos ajudar um vizinho que o precisar. Renova a nossa alma e eleva o nosso espírito colectivo. Acho que a quem muito lhe é dado, muito lhe é exigido, e a nós, como país, foi-nos dado muito, pelo que acho que somos obrigados a ajudar às pessoas”, insistiu.

Bush é ciente de que mente e que os seus embustes são difíceis de engolir, mas não se importa com isso. Confia em que, se for repetido mil vezes, muitos terminarão acreditando nele. Porquê tanto ardil? O quê o aborrece essencialmente? Desde quando surgiu o vaivém?

Bush descobre que o sistema económico e político do seu império não pode concorrer em serviços vitais, como a saúde e a educação, com a Cuba agredida e bloqueada durante quase 50 anos. Todo o mundo sabe que a especialidade dos Estados Unidos em matéria de educação é o roubo de cérebros. A Organização Internacional do Trabalho assinala que

“47 por cento das pessoas nascidas no estrangeiro que completam um Doutoramento nos Estados Unidos, ficam nesse país”.

Outro exemplo de pilhagem:

“Há mais médicos etíopes em Chicago do que em toda a Etiópia”.

Em Cuba, onde a saúde não é mercadoria, podem fazer-se coisas que Bush não é capaz de imaginar.

Os países do Terceiro Mundo não dispõem de recursos para criarem centros de investigação científica, e Cuba, no entanto, os tem criado apesar que os seus próprios profissionais eram muitas das vezes exortados e incentivados para desertarem.

O nosso método de alfabetização “Eu posso, sim", está hoje gratuitamente ao serviço de todos os países latino-americanos, aos quais, se desejarem aplicar o programa, serão apoiados na adaptação às suas características próprias com a produção dos materiais impressos e de vídeo correspondentes.

Países como a Bolívia aplicam-no em castelhano, quetchua e aimará. Somente os que ali aprenderam a ler e escrever em apenas um ano, são mais do que os alfabetizados pelo império em toda a América Latina, se existir algum. Não falo de outros países como a Venezuela, que fez verdadeiras proezas educacionais num brevíssimo espaço de tempo.

“Eu posso, sim” beneficia outras sociedades fora do hemisfério ocidental. Basta assinalar que em Nova Zelândia é utilizado na alfabetização da população Maorí.

Em lugar dum estabelecimento de treino para profissionais médicos na América Central, por onde já passaram ao redor de 100 — o que nos alegra —, o nosso país hoje tem dezenas de milhares de bolseiros da América Latina e do Caribe, que durante seis anos se formam gratuitamente como médicos em Cuba. Não se excluem, é claro, os jovens norte-americanos, os quais levam muito em sério os seus estudos.

Cooperamos com a Venezuela na formação de mais de 20 000 jovens, que estudam Medicina e assistem às consultas nos bairros pobres, atendidos por especialistas cubanos para se familiarizarem com a sua futura e difícil tarefa.

O Comfort, com mais de 800 pessoas a bordo, entre pessoal médico e a tripulação, não poderá atender um grande número de cidadãos. Resulta impossível realizar programas médicos por episódios. A reabilitação, por exemplo, em muitos dos casos precisa de meses de trabalho. Os serviços que oferece Cuba ao seu povo numa policlínica ou num hospital habilitado são permanentes, e os pacientes podem ser atendidos a qualquer hora do dia ou da noite. Temos formado os reabilitadores necessários.

As operações da vista também precisam de uma especial habilidade. No nosso país os hospitais oftalmológicos operam da vista mais de 50 000 cubanos cada ano e atendem 27 tipos de doenças. Não existe lista de espera no transplante de córnea, que requer uma organização especial. Façam uma pesquisa activa nos Estados Unidos e se poderá ver quantas pessoas precisam de serem operadas realmente entre os habitantes do país, que por não serem nunca examinados por um oftalmologista atribuíam suas limitações a outras causas e correm o risco de ficarem cegos ou seriamente afectados da vista. Comprovarão que são milhões de pessoas.

Não incluo na cifra mencionada a centenas de milhares de latino-americanos e caribenhos que são operados, uma parte em Cuba, e a maior parte deles nos seus respectivos países, por oftalmologistas cubanos. Só na Bolívia somam mais de 100 000 por ano. Neste caso participam, junto dos nossos especialistas, médicos bolivianos formados na Escola Latino-americana de Medicina (ELAM).

Veremos como o Comfort resolve a situação no Haiti, prestando serviços de saúde durante uma semana, onde em 123 comunas de 134 no total com que conta o país, tem médicos cubanos com formados da ELAM, ou estudantes haitianos do último curso da sua carreira, para combaterem a SIDA e outras doenças tropicais.

O problema é que os Estados Unidos não podem fazer o que faz Cuba. No entanto, pressiona brutalmente firmas produtoras de excelentes equipamentos médicos fornecidos ao nosso país, para impedirem que reponham determinados programas computadorizados ou alguma peça sobressalente que têm patente dos Estados Unidos. Posso citar casos concretos e o nome das firmas. É nojento, embora temos soluções que nos tornam mais  invulneráveis nesse terreno.

Há menos de 6 meses, Bush ainda não tinha inventado a ideia de universalizar a produção de combustível a partir de alimentos dentro e fora dos Estados Unidos. Os que conhecem do valor das gorduras e dos alimentos proteicos na alimentação humana sabem das consequências que tem para grávidas, crianças, adolescentes, adultos e idosos a carência dos mesmos. O peso da sua escassez recairá nos países menos desenvolvidos, isto é, na maior parte da humanidade. Para ninguém será uma surpresa a elevação dos preços dos alimentos básicos e da instabilidade social que trará consigo. Ontem, sexta-feira  13,  o petróleo subiu a 79,18 dólares o barril. Outra conseqüência da dança dos papéis e da guerra do Iraque.

Há apenas 48 horas o Secretário de Segurança dos Estados Unidos, Michael Chertoff, declarou que “tinha a sensação visceral de que poderia acontecer um atentado na temporada estival” desse país. Uma coisa semelhante expressou a Secretária de Estado e posteriormente o próprio Presidente dos Estados Unidos. Mas ao mesmo tempo que informavam dos riscos potenciais, envidavam esforços por tranquilizar a opinião pública.

O governo dos Estados Unidos tudo vê e tudo escuta, com ou sem autorização legal. Dispõe, aliás, de numerosos órgãos de inteligência e contra-inteligência com inúmeros meios económicos destinados à espionagem. Pode obter a informação de segurança que precisar sem sequestrar, torturar ou assassinar em cárceres secretos. Todo o mundo sabe dos verdadeiros propósitos económicos que se perseguem com o uso mundial da violência e da força. Qualquer ataque contra a sua população o pode evitar, salvo que prevaleça a necessidade imperial do estrondo para prosseguir e justificar a brutal guerra que decretou contra a cultura, a religião, a economia e a independência doutros povos.

Devo concluir.

Amanhã, domingo, é o Dia das Crianças. Nelas penso quando escrevo esta reflexão. A elas a dedico.


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Inclusão: 27/11/2019