Mais um argumento para a ONU

Fidel Castro

27 de setembro de 2007


Fonte: Cuba Debate - Contra o Terrorismo Midiático.

Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo.


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Enquanto trabalho com o já famoso livro de Greenspan, leio um artigo publicado por El País, jornal espanhol com mais de 500 mil exemplares segundo se afirmaque desejo transmitir aos leitores. Está assinado por Ernesto Ekaizer, e diz textualmente:

“Quatro semanas antes da invasão de Iraque, que se realizou na noite de 19 para 20 de Março de 2003, George W. Bush mantinha em público sua exigência a Sadam Hussein nos seguintes termos: desarmamento ou guerra. A porta fechada, Bush reconhecia que a guerra era inevitável. Durante uma longa conversação privada com o então presidente espanhol, José María Aznar, celebrada no sábado 22 de Fevereiro de 2003 na fazenda de Crawford, Texas, Bush deixou claro que chegara o momento de largar Sadam. ‘Restam duas semanas. Em duas semanas estaremos militarmente prestes. Estaremos em Bagdá para finais de Março, disse-lhe a Aznar.

"Chegou o momento de largar Sadam”

“Dentro deste plano, Bush tinha terminado por aceitar, em 31 de Janeiro de 2003 ― após uma entrevista com o primeiro ministro britânico, Tony Blair ―, introduzir uma última manobra diplomática: a proposta de uma segunda resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Seu objetivo: abrir a porta legal à guerra unilateral que Estados Unidos se aprontava a desencadear com mais de 200.000 soldados preparados na região para atacar.

“Bush era consciente das dificuldades internas de Blair e não desconhecia as de Aznar. Apenas sete dias antes dessa reunião na fazenda de Crawford, três milhões de pessoas se manifestavam em várias cidades de Espanha contra a guerra iminente. ‘Necessitamos que nos ajudeis com nossa opinião pública’, pede Aznar. Bush lhe explica o alcance da nova resolução que pensa apresentar: ‘A resolução estará feita à medida do que possa te ajudar. Tanto faz para mim o conteúdo’. Ao que Aznar responde: ‘Nos ajudaria esse texto para ser capazes de co-patrociná-lo e ser seus co-autores e conseguir que muita gente o patrocine’. Aznar, portanto, se oferece a dar cobertura política européia a Bush, junto de Blair. O sonho de Aznar de cimentar uma relação com os Estados Unidos, seguindo o exemplo do Reino Unido, estava a ponto de tornar-se realidade.

“Aznar viajara em 20 de Fevereiro com sua esposa, Ana Botella, aos Estados Unidos fazendo uma escala no México para persuadir ―infrutiferamente― ao presidente Vicente Fox sobre a necessidade de apoiar Bush. No dia 21, o casal, acompanhado pelos colaboradores do presidente, chegou a Texas. Aznar e sua esposa se alojaram na casa de convidados da fazenda.

“Na reunião do dia seguinte, sábado, participaram o presidente Bush, sua assessora de Segurança Nacional na altura, Condoleezza Rice, e o responsável de assuntos europeus do Conselho de Segurança Nacional, Daniel Fried. Pela sua parte, acompanham Aznar seu assessor de política internacional, Alberto Carnero, e o embaixador de Espanha em Washington, Javier Rupérez. Bush e Aznar tiveram, como parte do encontro, uma conversa telefônica a quatro bandas com o primeiro ministro britânico, Tony Blair, e o presidente do Governo italiano, Silvio Berlusconi.

“O embaixador Rupérez traduziu do inglês para Aznar e também do italiano para Condoleezza Rice; outras duas intérpretes fizeram seu trabalho para Bush e seus colaboradores. Foi Rupérez que se encarregou de elaborar a ata-resumo da conversa num memorando que tem permanecido secreto até hoje.

“A conversa impressiona por seu tom direto, amigável e até ameaçador, quando, por exemplo, se refere à necessidade de que países como México, Chile, Angola, Camarão e Rússia, membros do Conselho de Segurança da ONU, votem a nova resolução como uma amostra de amizade para com os Estados Unidos ou se atenham às conseqüências.

“Adverte-se a nula expectativa no trabalho dos inspetores, cujo chefe, Hans Blix, tinha desmontado havia apenas uma semana, em 14 de Fevereiro, os argumentos expostos pelo secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, perante o Conselho de Segurança em 5 de Fevereiro de 2003, com ‘dados sólidos’ apoiados calorosamente pela ministra de Exteriores espanhola, Ana Palacio. Uns dados que o próprio Powell qualificou, mais tarde, como um conjunto de falsidades”.

“O relatório de Blix

“Segundo Blix, Iraque estava dando passos rumo a uma cooperação ativa para resolver os temas de desarmamento pendentes. Seu tom fora menos crítico que o do seu relatório de 27 de Janeiro de 2003. ‘Desde que chegamos ao Iraque, há três meses, temos realizado mais de 400 inspeções, sem aviso prévio, em aproximadamente 300 lugares. Até agora, os inspetores não encontraram nenhuma das armas proibidas... Se o Iraque se decidir a cooperar ainda mais estreitamente, o período de desarmamento através das inspeções pode ainda ser breve’, assinalava o chefe de inspetores.

“O Diretor-geral do Organismo Internacional da Energia Atômica (OIEA), Mohamed El Baradei, informou em 14 de Fevereiro que ainda restavam por esclarecer algumas questões técnicas; mas, acrescentou, ‘já não há problemas de desarmamento para resolver’. Segundo disse, não se encontrara prova nenhuma de que no Iraque se estivessem levando a cabo atividades nucleares ou relativas à energia nuclear, outro claro mentido do que afirmou Powell sobre o programa nuclear iraquiano.

“Tanto os primeiros frutos do trabalho de inspeção como a finalização dos preparativos dos Estados Unidos levaram a Bush a fixar o começo da operação militar para a data 10 de Março de 2003, à qual foram acrescentados nove dias para obter a segunda resolução. O processo de persuasão moral ao qual se debruçaram Aznar e Palacio a golpe de telefone e em reuniões bilaterais não conseguiu reunir mais que quatro votos: os três promotores e Bulgária. Eram necessários 9 votos.

“O fracasso desta cobertura legal da guerra iminente levou Bush a acordar com Blair e Aznar a realização, a 16 de Março de 2003, de uma reunião de cúpula nas Ilhas Açores, lugar sugerido por Aznar como alternativa às ilhas Bermudas por uma razão que ele próprio explicou a Bush:  ‘O nome dessas ilhas está relacionado a uma prenda de vestir que não é precisamente a mais adequada para a gravidade do momento em que nos encontramos’.  Ali, nesse 16 de Março, Bush, Blair e Aznar decidiram substituir o Conselho de Segurança das Nações Unidas e usurparam suas funções para declarar por sua conta e risco a guerra contra Iraque. Na manhã de 17 de Março, o embaixador do Reino Unido perante a ONU anunciava em Nova Iorque a retirada da segunda resolução. Uma derrota na votação teria complicado mais a carreira rumo à guerra.”


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Inclusão: 11/01/2020