Em Defesa da Revolução Africana

Frantz Fanon


Quarta parte: A caminho da libertação da África
A propósito de uma defesa(1)


Por vezes, para além das execuções coletivas ou das salas de tortura, os democratas franceses dirigem-se ao povo argelino e pedem-lhe que não reúna no mesmo desprezo e no mesmo ódio os diferentes elementos que representam o povo francês.

Georges Arnaud lembra, não sem amargura, que na Argélia tudo, e antes do mais a condenação à morte de uma inocente e de uma desequilibrada intoxicada pelos seus carrascos, se faz em nome do povo francês.

Há três anos, Georges Arnaud, que o povo argelino é massacrado em nome do povo francês.

A sua defesa de Djamila Bouhired honra-o, mas receie ter deixado de lado o essencial. O assassínio de Djamila Bouhired não levanta nenhum problema ao povo argelino.

Que ninguém se iluda: o riso de Djamila Bouhired à notícia da sua condenação à morte não é nem bravata estéril nem inconsciência.

Esse sorriso é bem mais a manifestação tranquila de uma certeza interior que permaneceu inabalável. O povo argelino não manifestou qualquer surpresa ao saber da condenação à morte de Djamila Bouhired. Pois não há uma só família argelina que não tenha sido ferida, enlutada, dizimada em nome do povo francês.

A mensagem de Djamila Bouhired inscreve-se na tradição dos argelinos mortos por uma Argélia independente. Os soldados do Exército Nacional, os homens e as mulheres da Argélia, estão comprometidos como Djamila Bouhired num combate implacável contra a dominação estrangeira.

Depois disso, Georges Arnaud, houve múltiplas Djamila Bouhired, torturadas violadas e massacradas em território argelino.

Haverá outras, e o povo argelino sabe-o. Sabe que a esperança do colonialismo francês é abalar a vontade nacional por meio destas execuções.

A característica da maioria dos democratas franceses é precisamente só se alarmarem com casos individuais, próprios para arrancar uma lágrima ou para provocar pequenas crises de consciência.

Por aqui se avalia a realidade do atraso histórico da consciência francesa. À luta pelo respeito das liberdades individuais e pelos direitos do Homem, tão fecunda há dois séculos, não consegue substituir a luta pelos direitos dos povos. Donde essa crispação em casos precisos e a esperança vã de interessar o povo francês pelo conjunto a partir de situações limites.

A situação limite não é nem Bouhired, nem Zeddour, nem mesmo o estádio de Phillipeville.

A situação limite é a vontade de 12 milhões de homens É a única realidade. E não é simplificável.

Na verdade, Georges Arnaud, você pensa que presta um serviço ao povo francês ao falar-lhe de Djamila Bouhired. Mesmo que Djamila Bouhired fosse absolvida (de quê?) e agraciada, a luta do povo argelino e a repressão feita em nome do povo francês mudariam de forma?

É verdade que o seu livro foi escrito para um público francês. É verdade também que existem em França de algum tempo a esta parte hábitos fascistas sobre os quais se debruçam os escritores que se prezam. Por causa de tudo isto, a sua iniciativa é corajosa.

O que é essencial, compreende, Georges Arnaud, é não baralhar as cartas. É não apresentar Djamila Bouhired como uma pobre rapariga vitima da malvadez.

Djamila Bouhired é uma patriota argelina consciente, organizada no seio da FLN.

Não pede nem comiseração, nem piedade. A dignidade de Djamila Bouhired, a sua extraordinária tenacidade, a sua obstinação em manter-se de pé, em não falar, a sua preocupação em sorrir perante a morte, constituem as características essenciais da atitude nacional do povo argelino.

A morte de Djamila Bouhired, tem razão, Georges Arnaud, põe um problema ao povo francês.

Devemos, no entanto, reconhecer que durante trés anos parece que este povo não se apercebeu da responsabilidade horrível que tomava, perante o Mundo e perante a História, ao caucionar, ao participar nesta guerra da Argélia, de que se pode dizer que era a maior vergonha da nossa época.

Maitre Jacques Vergès não pôde defender Djamila Bouhired, o senhor diz, Georges Arnaud, que faltou pouco para que ele tivesse sido linchado por essa parte do povo francês que reina em Argel.

Eis, pois, um novo pretexto para a revolta: os direitos da defesa, a proteção da defesa...

Como estamos longe desta guerra que, haverá que reconhecê-lo um dia, diz respeito a dois povos.

Quanto a Jacques Vergès, natural da Réunion, colônia francesa, basta-nos lembrar como alguns de nós fomos espezinhados em Lyon há dez anos para nos sentirmos em igualdade com ele.

Há dez anos, centenas de operários e de estudantes argelinos que manifestavam a sua solidariedade a um parente de Maitre Vergès, vítima de um conluio colonialista na Réunion, foram matraqueados pela polícia e pela guarda francesa.

Fica a Réunion assim tão longe de Argel?

continua>>>


Notas de rodapé:

(1) El Moudjahid, n.° 12, de 15 de Novembro de 1957, A propósito do livro de Georges Arnaud e Jacqucs Vergcs: Pour Djamila Bouhired. (retornar ao texto)

Inclusão 05/07/2018