Trechos Escolhidos sobre Literatura e Arte

Marx, Engels, Lenine e Stalin


Primeira Parte: Marx e Engels
V — PELO REALISMO


1. — NADA DE COTURNOS NOS PÉS NEM DE AURÉOLAS NA CABEÇA.
capa

Seria desejável, ao mais alto ponto, que os homens que estiveram à frente do partido do movimento, muito tempo antes da revolução, nas sociedades secretas ou na imprensa depois da revolução, em lugares oficiais, fossem enfim representados com as cores severas de Rembrandt, em toda sua vitalidade. As descrições feitas até agora não pintam nunca esses personagens sob seu aspecto real, mas somente sob seu aspecto oficial, com coturnos nos pés e uma auréola em volta da cabeça. Esses retratos rafaélicos e divinizados fazem desaparecer toda a veracidade da representação.

Os dois escritos que temos sob os olhos(1), abandonam, realmente, os coturnos e a auréola que até agora enfeitavam os “grandes homens” da revolução de fevereiro. Esses escritos Penetram na vida privada dos personagens, mostram-nos na intimidade, no convívio com seus subalternos de diferentes espécies. Contudo, estão ainda muito distante de uma representação realista e fiel dos homens e dos acontecimentos.
(MARX e ENGELS, Artigo na Nova Revista Renana, 1850. Obras Póstumas de Marx, Engels e Lassalle, editadas por Mehring, pgs. 425-427, ed. al.)

2. — SHAKESPEARE E A LITERATURA ALEMÃ

Esse pândego Roderich Benedi, publicou um livro grosso e malcheiroso, contra, a “shakespearemania”, onde demonstra com muitos detalhes que Shakespeare não pode ser comparado aos nossos grandes poetas nem mesmo aos poetas modernos. Aparentemente, é preciso arrancar Shakespeare de seu pedestal para ali colocar o amplo posterior de R. Benedi. Só no primeiro ato dos Merry Wives(2), há mais vida e realidade que em toda a literatura alemã. Launee, sozinho, com seu cão Crab, vale mais que todos os comediógrafos alemães tomados em conjunto. Em compensação, esse pateta de Benedi perde-se em raciocínios tão sérios quanto fúteis sobre a maneira folgazã com que Shakespeare termina quase sempre os dénouements(3) e abrevia assim uma conversa enfadonha, — se bem que indispensável. Habcat sibi.
(ENGELS, Carta a Marx, em 10 de novembro de 1873, Correspondência, t. IV, página 413 ed. al.)

3. — OS REALISTAS INGLESES.

O New York Tribune, criado em abril de 1841, órgão da burguesia que simpatizava com os sofrimentos das massas operárias, pedira colaboração a Marx em 1851. Engels escreveu em substituição a Marx uma série de artigos sob o titulo geral: “A Alemanha, revolução e contrarrevolução”. A partir de janeiro de 1853, Marx pôde consagrar mais tempo a seu trabalho para o New York Tribune. Em suas cartas, algumas das quais fizeram sensação, ele descreve a situação social da Inglaterra e ataca a hipocrisia da oligarquia dominante.

A brilhante escola moderna de romancistas ingleses, cujas páginas demonstrativas e eloquentes revelaram ao mundo mais verdade que todos os políticos profissionais, publicistas e moralistas juntos, descreveu todas as camadas da classe média, desde o capitalista “altamente respeitável” detentor dos valores do Estado, que considera desdenhosamente todos os negócios, até o pequeno negociante e o solicitador de causas. E como Dickens e Thackeray, Miss Bronte e Mistress Gaskell os descreveram? Cheios de vaidades, de afetação, de tirania mesquinha e ignorância; o mundo civilizado confirmou esse julgamento com um epigrama que os flagela e que associou a essa classe, observando que: “ela é servil para com os seus superiores e tirânica para com os seus inferiores”.
(MARX, “A Classe Média Inglesa”, New York Tribune, 1 de agosto de 1854. Texto fornecido pelo Instituto Marx-Engels-Lenine).

Em 1859, Ferdinand Lassalle publicou sua tragédia histórica, Franz von Sickingen que mandou a Marx em 16 e a Engels em 21 de março de 1859, com uma nota sobre aideia trágica”.

A tragédia que éLassalle o diz expressamente,um “drama de tendência” tem por assunto a revolta da cavalaria contra os príncipes no outono de 1522 e dois anos antes da guerra dos Camponeses (1524-1525). Franz von Sickingen e Ulrich von Hutten haviam-se colocado à frente da revolta dos cavaleiros; sonhavam com a ressurreição de um Estado medieval no qual a nobreza exercesse o poder. Esse movimento da pequena nobreza empobrecidamovimento reacionário pelas suas finalidades de classe — não poderia vencer os príncipes sem se apoiar na burguesia ascendente e nos camponeses, mas isso era impossível, pois os cavaleiros se haviam justamente revoltado para conservar os seus privilégios. A coalisão dos príncipes lhes infligiu uma derrota. Sickingen foi mortalmente ferido e Huftten fugiu para a Suíça onde logo depois morreu.

“Em consequência dessa derrota e da morte de seus dois chefes, o poderio da nobreza como classe independente dos príncipes foi esmagado. A partir dessa época, a nobreza só agiu a serviço e sob a direção dos príncipes. A guerra dos camponeses, que rebentou imediatamente depois, obrigou-a, ainda mais, a se colocar direta ou indiretamente sob a proteção dos príncipes e demonstrou, ao mesmo tempo, que a nobreza alemã preferia continuar a explorar os camponeses, sob o domínio dos príncipes, do que derrubar os príncipes e os padres por meio de uma aliança aberta com os camponeses emancipados.”
(ENGELS, A Guerra dos Camponeses na Alemanha, E.S.I., pgs. 101-102).

4. — FRANZ VON SICKINGEN E A REALIDADE HISTÓRICA.

Parece bastante estranho que Lassalle tenha escolhido dois chefes da cavalaria em declínio e não os heróis plebeus da guerra dos camponeses, para escrever, como ele próprio o diz, “o drama da Revolução”. Por outro lado, Lassalle, contrariamente à realidade histórica, fez de Sickingen e de Hutten, os porta-vozes da burguesia ascendente, os campeões da unidade politica da Alemanha e da luta contra o Papado.

Marx e Engels, sem que houvesse combinação prévia, exprimiram sobre a obra do Lassalle uma opinião idêntica em suas cartas respectivamente de 19 de abril e 18 de maio de 1859.

I

Passo agora a teu Franz von Sickingen. Inicialmente devo louvar a composição e a ação, e é isso principalmente o que se pode dizer de qualquer drama alemão contemporâneo. Em segundo lugar, à parte qualquer atitude critica, o drama me emocionou vivamente na primeira leitura e a impressão que produzirá sobre os leitores cuja sensibilidade esteja mais desenvolvida será mais forte ainda. É um segundo ponto muito importante. E, agora, o reverso da medalha. Em primeiro lugar — isto é puramente formal — desde que escrevias em verso, poderias dar a teus iambos uma forma mais artística. Mas feitas as contas, o mais chocado que possam ficar os poetas profissionais com a tua negligência, eu a considero, enfim, como uma vantagem, porque os nossos epígonos poéticos nada mais possuem além de uma forma cuidada. Segundo: o choque, tal como o concebeste, não é somente trágico, é esse mesmo choque trágico que arrastou justamente à derrota o partido revolucionário de 1848-49. Só posso portanto aprovar integralmente a intenção de fazeres dele o ponto central de uma tragédia moderna. Mas eu me pergunto se teu assunto era o mais indicado para traduzir esse choque... Baltasar pode sem dúvida crer que, se Sickingen, em lugar de dissimular sua revolta sob a máscara cie uma querela entre cavaleiros, tivesse levantado a bandeira de guerra aberta contra o imperador e os príncipes, teria vencido. Podemos nós compartilhar dessa ilusão? Sickingen (e com ele mais ou menos Hutten) não sucumbiu devido à astúcia. Sucumbiu, porque se tinha revoltado como cavaleiro e como representante de uma classe em agonia contra o existente ou, antes, contra a nova forma do existente.

Se tirarmos de Sickingen, o que pertence ao individuo, com suaeducação particular, suas disposições naturais, etc., teremos Goetz von Berlichingen. Neste, individuo piedoso, a oposição trágica da cavalaria contra o imperador e os príncipes se exprime em sua forma adequada e é por isso que Goethe temrazão em escolhê-lo para herói. Na medida em que Sickingen — e em parte o próprio Hutten, — se bem que no seu caso como no caso de todos os ideólogos de uma classe, tais fórmulas devessem ser sensivelmente modificadas — combate os príncipes (porque, se se levanta contra o imperador, é somente porque o imperador dos cavaleiros se transforma em imperador dos príncipes), ele não é na realidade mais de que um Don Quixote, se bem que um Don Quixote historicamente justificado. O fato que comece sua revolta sob a forma de uma querela entre cavaleiros, isso significa apenas que ele a iniciou como cavaleiro. Para começar de outro modo, seria necessário fazer, diretamente, desde o inicio, apelar para as cidades e para os camponeses, isto é, às classes cujo desenvolvimento significa a negação da cavalaria.

Se quiseres, portanto, não reduzir simplesmente teu conflito ao de Goetz von Berlichingen, — e isso não entrava em teu plano — Sickingen e Hutten deviam morrer, porque, em sua imaginação, eles eram revolucionários (o que não se pode dizer de Goetz) e, como a nobreza instruída da Polônia de 1830, eles eram, por um lado, os instrumentos das ideias modernas, e, por outro, representavam realmente o interesse de uma classe reacionaria. Nessas condições, os representantes nobres da revolução — cujas palavras de ordem de unidade e liberdade escondiam ainda o sonho do antigo Império e do direito do mais forte — não deveriam absorver toda a atenção ao ponto em que acontecem em tua obra: os representantes dos camponeses (e principalmente estes) e os elementos revolucionários das cidades deveriam constituir uma retaguarda ativa, importante. Poderiam então exprimir, e em grau muito mais alto, precisamente as ideias as mais modernas em sua forma a mais pura, enquanto que agora, fora da liberdade religiosa, é a unidade política que resta realmente como ideia principalmente de teu drama. Terias podido, então, naturalmente, shakespearizar mais, enquanto que agora considero como teu maior erro a shakespearização, a transformação dos indivíduos em simples porta-vozes do espírito do século. Não é verdade que, de certo modo, caíste como o teu Franz von Sickingen no erro diplomático de dar mais importância ao conflito que contrapôs Lutero aos cavaleiros do que aquele que os contrapôs a Münzer e aos plebeus?

Lamento, além disso, a ausência de traços característicos nos personagens. Excetuando Carlos V, Baltasar e Richard de Treves. E, entretanto, houve jamais época tão rica em caracteres fortemente marcantes quanto o século XVI? Hutten representa, na minha opinião, muito mais o “entusiasmo”, o que é entediante. Não foi ele ao mesmo tempo um homem cheio de espírito, verdadeiramente diabólico e não foste, portanto, muito injusto para com ele?

A que ponto teu Sickingen, representado em outras ocasiões também muito abstratamente, é vítima de um choque independente de todos seus cálculos pessoais, isso transparece da maneira pela qual ele é obrigado a pregar aos seus cavaleiros a amizade com as cidades, etc., e, por outro lado, da satisfação que experimenta exercendo ele próprio o direito do mais forte sobre as cidades.

Reprovo, em certas passagens, o fazeres refletir exageradamente teus personagens sobre eles próprios, o que provem de tua queda por Schiller. Assim, por exemplo, na pag. 121, quando Hutten conta a Maria a história de sua vida, seria perfeitamente natural que fizesses Maria dizer:

“toda a escala das sensações”,

etc., até

“E ela é mais pesada que o peso dos anos.”

Os versos precedentes: “Dizem”, até “envelheceu” poderiam então continuar, mas a observação: “Basta uma noite para que a moça se torne mulher” (se bem que ela demonstre Maria conhecia o amor não apenas como uma noção abstrata) é inteiramente inútil; é absolutamente inadmissível que Maria começasse pela reflexão sobre sua “idade”. Só depois de ter dito o que contou “numa hora” é que ela poderia resumir seu estado de espírito pela reflexão sobre sua idade. Mais adiante, nas linhas seguintes, as palavras “considero como um direito” (a felicidade) me chocam. Por que tirar de Maria a concepção ingênua do mundo que ela teve até então e transformá-la numa doutrina de direito? Talvez te exponha de outra vez minha opinião de maneira mais detalhada.

Acho particularmente feliz a cena entre Sickingen e Carlos V, se bem que o diálogo aí se transforme um pouco demais em debate judiciário; depois as cenas em Treves. As frases de Hutten sobre a espada são muito bonitas.

Chega por esta vez.

Ganhaste um admirador ardente de teu drama na pessoa de minha mulher. Só a Maria é que não a satisfaz.
(MARX, Carta a Lassalle em 19 de abril de 1859; FERDINAND LASSALLE, Cartas e Escritos Póstumos, t. III, p. 173, Gustave Mayer, Stuttgart, 1922 ed. al.)

II

Ficaste naturalmente admirado de meu prolongado silêncio, tanto mais que te devo minha apreciação sobre Sickingen. Mas foi isso precisamente que me impediu de escrever há mais tempo. No empobrecimento atual e em geral das belas letras, raramente tenho ocasião de ler uma obra desse gênero e desde há anos não me acontecia ler alguma cousa cuja leitura tivesse como resultado um julgamento profundo, uma opinião precisa e determinada. As garatujas que aparecem não valem a pena. Mesmo os melhores romances ingleses que ainda leio e de tempos em tempos, como por exemplo os de Thackeray, apesar de sua significação cultural e histórica incontestável, nunca puderam acordar em mim esse interesse. Meu julgamento está muito embotado em consequência de uma longa inação e preciso de tempo para formular uma opinião. Teu Sickingen merece, entretanto, ser analisado diferentemente de toda essa confecção literária e por isso dediquei-lhe meu tempo. A primeira e a segunda leitura de teu dama, nacional alemão sob todos os pontos de vista, pelo assunto e a maneira de tratá-lo, me perturbaram de tal maneira que tive de deixá-lo de lado por algum tempo, tanto mais que nesses tempos miseráveis meu gosto enfraquecido (devo reconhecê-lo envergonhado) reduziu-me a um estado em que as cousas mesmo de pouco valor, me fazem, à primeira leitura, uma certa impressão.

Para chegar a um julgamento imparcial, inteiramente “crítico”, pus de lado Sickingen, ou, para ser mais exato, o emprestei a alguns amigos (encontram-se ainda por aqui alguns alemães com uma cultura literária mais ou menos ampla. Habent sua fat libelli(4): quando emprestamos livros, raramente os revemos e só consegui reaver meu Sickingen pela força. Posso dizer que, na terceira ou quarta leitura, a impressão ficou-me a mesma e, na convicção de que teu Sickingen pode suportar a critica, dou-te minha opinião.

Sei que não te farei um grande galanteio afirmando que nenhum poeta oficial da Alemanha contemporânea poderia, nem de longe, escrever um drama idêntico. É isso portanto um fato que caracteriza muito bem nossa literatura para passar desapercebido. Para abordar imediatamente o lado formal, fiquei agradavelmente surpreso pela habilidade com que se desenrola o enredo e pelo caráter dramático da ação do começo ao fim. No que concerne à versificação, tu te permitiste, é verdade, algumas liberdades, mas elas são mais chocantes à leitura que à representação. Quisera ler a peça para teatro porque, tal como se apresenta no livro, provavelmente ela e não pode ser representada. Tive aqui a visita de um jovem poeta alemão (Karl Siebel)(5), um compatriota e um parente distante que muito trabalhou pelo teatro; ele pretende ir, como reservista da guarda prussiana, a Berlim e, então, talvez por seu intermédio te escreva. Siebel muito admira teu drama mas o considera inteiramente impossível de ser representado devido aos longos monólogos, enquanto que os outros atores são obrigados, para não ficar como simples figurantes, a repetir duas ou três vezes os mesmos recursos mímicos. Os últimos atos provam abundantemente que te seria fácil tornar o dialogo mais vivo e mais animado e, como a mesma cousa pode ser feita, parece-me, quanto aos três primeiros em algumas cenas (o que pode acontecer em todos os dramas) estou convencido que tomarás em consideração, readaptando teu drama à cena. O conteúdo ideológico sofrerá, com isto, mas é uma cousa inevitável e a síntese perfeita da profundeza ideológica, do conteúdo histórico consciente que atribuis com justeza ao drama alemão, e da vivacidade, da amplidão de ação shakespeariana, não será sem dúvida realizada senão no futuro e talvez mesmo não o será pelos alemães. É precisamente nessa síntese que vejo o futuro do drama. Teu Sickingen acha-se no bom caminho; os principais personagens representam efetivamente as classes e determinadas correntes e, por conseguinte, ideias determinadas de sua época e os moveis de seus atos não são as pequenas paixões individuais, mas a corrente histórica que os arrasta. O progresso, entretanto, consistiria em que esses moveis fossem levados ao primeiro plano de maneira viva, ativa, por assim dizer natural, no decorrer da própria ação e que ao contrário os discursos de argumentação (nos quais reconheci, aliás, com alegria, teu antigo talento de advogado e de tribuno) tornam-se cada vez mais inúteis. Tu próprio pareces ter esse ideal por finalidade quando fazes a diferenciação entre o drama literário; creio que se poderia, se bem que dificilmente (porque a perfeição não é na verdade pouca coisa) transformar dessa maneira Sickingen num drama cênico. Isso está ligado à maneira de caracterizar as personagens. Tens razão quando te insurges contra a má individualização tão difundida hoje, que se reduz a pobres sofismas e é o sinal diferencial da literatura estéril dos epígonos. Parece que o indivíduo é caracterizado não somente por aquilo que faz, mas igualmente pela maneira como faz; e esse ponto de vista, o conteúdo ideológico de teu drama nada teria perdido se os diferentes personagens fossem mais nitidamente diferentes entre si e opostos uns aos outros. A maneira dos antigos não basta mais para nossos dias e aqui, penso, terás, sem inconveniências, levado mais em conta o papel representado por Shakespeare na história do drama. Mas são questões secundárias e eu as apresento somente para mostrar que também refleti sobre o lado formal de teu drama.

Quanto ao conteúdo histórico, demonstraste, claramente e indicando com justa razão seu desenvolvimento ulterior, os dois lados do movimento da época que mais te interessam: o movimento nacional da nobreza representado por Sickingen, e o movimento teórico do humanismo com o desenvolvimento que teve no domínio teológico e eclesiástico, a Reforma. As cenas de que mais gosto são as cenas entre Sickingen e o imperador, entre o legado do papa e o arcebispo de Treves (opondo aqui o legado leigo com sua cultura desenvolvida, estética e clássica, teórica e politicamente clarividente, ao príncipe eclesiástico limitado, conseguiste traçar um excelente retrato dos caracteres individuais, que, entretanto, decorre diretamente do caráter representativo dos dois personagens); na cena entre Sickingen e Charles, os caracteres sobressaem igualmente de maneira marcante. Introduzindo a autobiografia de Hutten, que razão de considerar como muito importante quanto ao seu conteúdo, empregas, entretanto, um meio muito arriscado de incluir esse conteúdo em teu drama. Muito importante também é a conversa de Baltasar com Franz, no quinto ato, onde o primeiro expõe ao segundo a politica verdadeiramente revolucionária que de deveria seguir. Na cena seguinte, revela-se o que é realmente trágico e, por causa dessa importância, parece-me que deverias marcá-lo melhor desde o terceiro ato onde as ocasiões de fazê-lo não faltam. Mas estou novamente caindo em questões secundarias. A situação das cidades e dos príncipes da época é igualmente descrita, em muitas passagens, com muita clareza e assim estão mais ou menos esgotados os elementos oficiais do movimento de então. Mas o que, parece-me, não acentuaste suficientemente foram os seus elementos não oficiais, plebeus e camponeses, com sua expressão teórica correspondente. O movimento camponês foi, a seu modo, tão nacional, tão dirigido contra os príncipes quanto o da nobreza, e a imensa envergadura da luta na qual sucumbiu, difere radicalmente da leviandade com a qual os nobres, abandonando Sickingen a seu destino, aceitaram seu papel histórico de cortesãos. Mesmo segundo tua concepção do drama que é, na minha opinião, como verás, um pouco abstrata demais, não obstante realista, o movimento camponês me parece merecer mais atenção; a cena camponesa com Jos Fritz é sem dúvida muito característica e a personalidade desse “perturbador” muito bem descrita; não basta, entretanto, para representar com bastante força, em face do movimento da nobreza, a maré montante de agitação camponesa já muito poderosa. Segundo minha concepção do drama que não admite se esqueça o real pelo ideal e Shakespeare por Schiller, a utilização dessa parte plebeia da sociedade de então, tão espantosamente mesclada, teria dado elementos inteiramente novos para animar o drama, um segundo plano inapreciável ao movimento nacional da nobreza que se desenrola no proscênio e teria pela primeira vez feito aparecer, sob seu verdadeiro aspecto, esse próprio movimento. Que admiráveis quadros de caracteres nos oferece essa época de decomposição das relações feudais na pessoa dos reis mendigos, de seus lansquenets sem pão, de seus aventureiros de toda espécie — um verdadeiro fundo de quadro à maneira de Falstaff, que, num drama histórico desse gênero, deve produzir mais efeito ainda que em Shakespeare! Além disso, sou de opinião que o desconhecimento desse movimento camponês te levou a representar inexatamente, num certo sentido, ao que me parece, o próprio movimento nacional da nobreza e deixar escapar o que houve de verdadeiramente trágico no destino de Sickingen. Na minha opinião, a massa da nobreza imperial da época não pensava de nenhum modo numa aliança com os camponeses, impossível porque ela vivia dos rendimentos provenientes da opressão dos camponeses. Uma aliança com as cidades teria sido mais viável; mas não se realizou ou foi feita de maneira muito incompleta. Entretanto, a revolução nacional da nobreza não poderia triunfar senão por uma aliança com as cidades e os camponeses, e principalmente com estes; e nisso reside justamente, segundo penso, o lado trágico, isto é, que essa condição essencial era impossível e, por conseguinte, a politica da nobreza devia inevitavelmente ser mesquinha e no momento mesmo em que a nobreza quis tomar a direção do movimento nacional, a massa da nação, os camponeses protestaram contra essa direção e arrastaram-na inevitavelmente à derrota. Não quero julgar até que ponto tua suposição de que Sickingen mantinha verdadeiramente certas relações com os camponeses é historicamente justa, o que, aliás, não tem importância. Se estou bem lembrado, os escritos de Hutten nos quais se dirige aos camponeses, deixam de lado a questão espinhosa da nobreza e procuram dirigir a cólera dos camponeses sobretudo contra os padres. Não te contesto o direito de conceber Sickingen e Hutten como tendo desejado emancipar os camponeses. Assim, tinhas imediatamente a contradição trágica em que eles se acharam entre a nobreza de um lado resolutamente em oposição a isso e os camponeses de outro lado. Isto é, na minha opinião, o choque trágico entre o postulado historicamente necessário e a impossibilidade prática de sua realização. Ignorando-o, reduziste a envergadura do conflito trágico a limites mais estreitos, isto é, Sickingen, em lugar de atacar por sua vez o Imperador e o Império, levanta-se contra um só príncipe (se bem que aí também incluíste, com razão os camponeses) e é a covardia e a indiferença da nobreza que provocam a sua derrota. Mas essa atitude da nobreza teria outro motivo se tivesses, anteriormente, acentuado a cólera crescente dos camponeses e o estado de espírito da nobreza, que se tornara incontestavelmente conservador depois dos anteriores levantes camponeses e o do pobre Conrad.(6) Isso é, aliás, um dos meios de introduzir no drama o movimento camponês e plebeu, e há pelo menos uma dezena de outros igualmente bons ou melhores ainda.

Como vês, aplico uma escala de valores muito elevado à tua obra, ela é mesmo a mais elevada possível no ponto de vista estético e histórico; sou obrigado a fazê-lo para poder formular, aqui e ali, algumas objeções, é a melhor prova de quanto eu a aprecio. A critica mútua tomou-se, desde há anos, no interesse do próprio partido, tão franca quanto possível; aliás, eu e todos nós nos alegramos sempre a cada nova confirmação de que nosso partido, em toda parte onde aparece, demonstra superioridade. E é uma tal confirmação que fazes ainda esta vez.
(ENGELS, Carta a Lassalle em 18 de maio de 1859. FERDINAND LASSALLE, Cartas e Escritos Póstumos, t. III, p. 179. Gustavo Mayer, Stuttgart, 1922, ed. al.)

5. — A TENDÊNCIA LITERARIA.

Mina Kautsky (1835-1912) autora de numerosos romances, mãe de Karl Kautsky, pretendeu, depois de sua adesão ao socialismo, abordar problemas sociais em sua obra literária, Stefan von Grillenhof (1879), o melhor dos seus livros, descreve de maneira realista, os sofrimentos e as lutas dos camponeses da Áustria. Os Velhos e os Novos, aparecido em 1884, a propósito do qual Engels escreveu sua carta de 26 de novembro de 1885, conta a vida dos operários austríacos nas minas de sal. Mina Kautsky evoca a opressão dos trabalhadores submetidos ao jugo do empreiteiro e da Igreja, sempre à mercê de um possível desemprego, privados do direito de ler jornais e livros.

Para a autora, o antagonismo que opõe “os velhos” aos “novos” não é uma manifestação da luta de classes, mas a luta dedois princípios” — a fé, representada pelos velhos e o ateísmo representado pelos novos. Daí o caráter livresco e esquemático do romance que tende a substituir os conflitos reais por abstrações.

Li, enfim, Os Velhos e os Novos(7) cuja remessa vos agradeço cordialmente. A vida dos trabalhadores das minas de sal é descrita com a mesma arte que a dos camponeses em Stefan(8).

A maioria das cenas da sociedade vienense são igualmente muito belas. Viena é a única cidade alemã onde se encontra uma sociedade. Berlim possui apenas “certas rodas” e, principalmente, rodas incertas e é por isso que aí não se encontra matéria para um romance, fora da vida dos literatos, dos funcionários e dos atores. Podeis melhor do que eu julgar se, nessa parte de vossa obra, a exposição da ação não se desenvolve, em certos trechos, de maneira um pouco precipitada; certas coisas que podem nos dar esta impressão parecem muito naturais em Viena com seu caráter internacional um tanto peculiar, saturada de elementos da Europa meridional e oriental. Encontrei nos dois meios literários(9) essa força de individualização dos caracteres que vos é habitual; cada um desses caracteres é um tipo, mas ao mesmo tempo um individuo distinto, “este” como diz o velho Hegel(10) deve ser assim mesmo. Entretanto, para ser imparcial, devo também fazer algumas objeções e chego então a Arnold. Este é verdadeiramente muito perfeito e, quando afinal morre, caindo de uma montanha, só se pode conciliar o fato com a justiça poética dizendo: ele era bom demais para este mundo. Ora, é sempre ruim que o poeta exalte seu próprio herói e me parece que, de certo modo, caístes nessa armadilha. Em Elsa, encontram-se ainda alguns traços individuais, se bem que idealizados também, mas em Arnold a personalidade se dissolve ainda mais no princípio.

De onde vem esse erro, a leitura do romance nos revela. Sentis provavelmente a necessidade de tomar partido nesse livro, de proclamar diante do mundo inteiro vossas opiniões. Isso está feito, é cousa passada, e não tendes mais necessidade de repeti-lo sob esta forma. Não sou, em absoluto, adversário da poesia de tendência como tal. O pai da tragédia, Esquilo, o pai da comédia, Aristófanes, foram, ambos, nitidamente poetas de tendência, assim como Dante e Cervantes e o que há de melhor na A intriga e o amor de Schiller é que ele é o primeiro drama político alemão de tendência. Os russos e os noruegueses modernos, que escrevem romances excelentes, são todos poetas de tendências. Mas creio que a tendência deve surgir da própria situação e da própria ação, sem que seja explicitamente formulada, e o poeta não é obrigado a dar já pronta ao leitor solução histórica futura dos conflitos sociais que descreve. Tanto mais quanto nas atuais circunstancias, o romance se dirige principalmente aos leitores dos meios burgueses, quer dizer, aos meios que não são diretamente os nossos, e então, a meu ver, um romance de tendência socialista realiza perfeitamente sua tarefa quando, por uma descrição fiel das relações reais, destrói as ilusões convencionais sobre a natureza dessas relações, abala o otimismo do mundo burguês, obriga a duvidar da perenidade da ordem existente, mesmo se o autor não indica diretamente a solução, mesmo se, neste caso, ele não toma ostensivamente partido. Vosso conhecimento exato e vossas descrições maravilhosamente frescas e vivas do campesinato austríaco e da “sociedade” vienense, encontrarão aí uma rica matéria, e demonstrastes em Stefan que sabeis tratar vosso herói com essa fina ironia que demonstra o domínio do poeta sobre a sua criação...
(ENGELS, Carta a Minna Kautsky, em 26 de novembro de 1885; MARX e ENGELS, Cartas a A. Babel, W. Liebknecht, K. Kautsky e outros, t. I, paginas 413-315, ed. al.)

6. — BALZAC.

Marx e Engels tinham a mais viva admiração por Balzac. Marx, que fez várias vezes alusão a Balzac no Capital e em suas cartas, se propusera havia muito consagrar um estudo ao autor da Comédia Humana, mas seus múltiplos trabalhos não lhe deixaram tempo para executar esse projeto.

A carta de Engels a Miss Harkness sobre Balzac (abril de 1888), escrita em inglês e da qual o rascunho foi conservado, precisa uma vez mais o pensamento de Marx e o de Engels sobre, o realismo e a tendência em literatura.

Margaret Harkness, filha de um pastor de Londres, aderira à Social Democratic Federation, fundada em 1880 por Hyndman. Enquanto a Sociedade Fabiana, fundada em 1884, via no socialismo apenas um prolongamento do ideal democrático burguês, a “Federação Social Democrata” propagava as concepções do marxismo. Margaret Harkness publicou, com a pseudônimo de John Low, novelas e romances de inspiração socialista que obtiveram, na época, na Inglaterra pelo menos, uma grande notoriedade. Miss Harkness encontrara-se face a face com a miséria do povo nos hospitais onde servia como enfermeira e nos subúrbios onde fora realizar várias “enquetes” sobre a mão-de-obra feminina e a exploração das operárias. Em seus livros: City gril (1887), Out of work (1888), Captain Lobe (1889), Manchester shirt-maker (1890), In darkest London (1891), ela descreve o sofrimento do proletário, das sombrias fabricas de Manchester à sórdida East-End, os dramas do desemprego e, principalmente, o tema que devia tentar uma socialista: o destino das moças que trabalham das 8 horas da manhã às 7 da noite por salários de fome, que variam, segundo os ramos da indústria e a qualificação das operárias, de 4 a 14 shillings por semana!

No City girl (Moça da cidade,), ela indica porque o Exército da Salvação exerce uma influência sobre as camadas trabalhadoras menos esclarecidas, mas não se apercebe do caráter profundamente anti-proletário dessa organização religiosa a qual em 1889, consagrou um livro com simpatia (Capitão Lobe).

Acentuando os méritos de “Moça da cidade”, Engels indica à autora os seus erros e a maneira de corrigi-los. Com a sua solicitude, demonstra a importância que dá à educação dos escritores pequeno-burgueses. Ao mesmo tempo manda-lhe um exemplar de seu Socialismo Utópico e Socialismo Cientifico para que ela possa assimilar o marxismo e compreender o conjunto e a marcha dos fenômenos sociais.

I

Agradeço a remessa, por intermédio do senhor Vitzelly (52) de vosso City girl. Li-o com o maior prazer e a maior avidez. É, realmente, como diz meu amigo Eichhoff, vosso tradutor, uma pequena obra-prima; ele acrescenta, — o que vos deve alegrar, — que sua tradução esforça-se por ser literal, porque toda omissão ou toda tentativa de modificação só pode diminuir o valor do original.

O que me chamou principalmente a atenção em vosso relato, ao lado de sua veracidade realista, é a manifestação de audácia de um verdadeiro artista. Não somente na maneira como falais do Exército de Salvação nas barbas dessa respeitabilidade orgulhosa, cuja respeitabilidade aprenderá, talvez, pela primeira vez porque o Exército de Salvação encontra um apoio tão considerável nas massas populares, e principalmente pela forma simples que dais ao enredo de vosso livro, — a velha história de uma rapariga proletária seduzida por um homem classe media. Um autor medíocre tentaria dissimular o caráter banal da fábula enchendo-o de complicações artificiais e de enfeites o que não impediria de ser visto a olho nu. Vós sentistes que podeis contar uma velha história porque serieis capaz de renová-la pela veracidade da narração.

Vosso Mister Grant é uma obra-prima.

Se acho alguma cousa a criticar é, talvez, unicamente o fato de vossa narrativa não ser suficientemente realista. O realismo, em minha opinião, pressupõe além da exatidão de detalhes, a representação exata dos caracteres típicos em circunstancias típicas. Vossos caracteres são suficientemente típicos nos limites em que são dados por vós; mas não se pode dizer a mesma cousa das circunstancias que os rodeiam e que os fazem agir. Em City girl, a classe operaria aparece como uma massa passiva, incapaz de auxiliar a si mesma, e não tentando mesmo fazê-lo. Todas as tentativas de arrancá-la da miséria embrutecedora vêm de fora, do alto (realmente, é a classe mais pobre, a mais sofredora e a mais numerosa)(11) de Saint-Simon (a pobre classe humilhada) de Robert Owen. Mas se esta descrição era justa em 1800 ou em 1810, na época de Saint-Simon (a pobre classe humilhada) de Robert Owen. Mas homem que tenha tido a honra de ter tomado parte das mais ativas, durante cinquenta anos, aproximadamente, na maioria dos combates do proletariado militante (e sempre se deixou guiar pelo princípio que a libertação da classe operaria deve ser obra da própria classe operaria). A resistência revolucionária que a classe operaria opõe ao meio que a oprime, suas tentativas — espasmódicas, semiconscientes ou conscientes — de obter seus direitos humanos, pertencem à história e podem reivindicar um lugar no realismo.

Estou longe de vos censurar por não terdes escrito um romance puramente socialista, um “romance de tendência” como dizemos, nós alemães, onde seriam glorificadas as ideias políticas e sociais do autor. Não é isso o que penso. Quanto mais as opiniões (políticas) do autor ficam escondidas tanto melhor para a obra de arte. O realismo de que falo se manifesta mesmo inteiramente fora das opiniões do autor. Permiti (ilustrar isto com) um exemplo. Balzac que considero um mestre do realismo, infinitamente maior que todos os Zolas passados, presentes e futuros, dá-nos em sua Comédia Humana a história mais maravilhosamente realista da sociedade francesa [especialmente do mundo parisiense] descrevendo sob a forma de crônica de costumes, quase de ano a ano, de 1816 a 1848, a pressão cada vez maior que a burguesia ascendente exerceu sobre a nobreza que se reconstituirá depois de 1815 e que, bem ou mal, na medida do possível, levantava a bandeira da velha polidez francesa. Balzac descreve como os últimos restos dessa sociedade, exemplar para ele, pouco a pouco sucumbiram diante da intervenção do “parvenu” vulgar da finança, ou foram por ele corrompidos; como a grande dama, cujas infidelidades conjugais tinham sido apenas um meio perfeito de se adaptar à maneira pela qual haviam dela disposto no casamento, cedeu lugar à burguesa que procura um marido para ter dinheiro ou vestidos; em torno desse quadro central, ele agrupa toda a história da sociedade francesa e na qual aprendi mais mesmo, no que diz respeito aos detalhes econômicos (por exemplo a redistribuição da propriedade real e pessoal após a Revolução)(12) do que em todos os livros dos historiadores, economistas, estatísticos profissionais da época, tomados em conjunto. Sem duvida, politicamente, Balzac era legitimista; sua grande obra é uma elegia perpétua que lamenta a decomposição irremediável da alta sociedade; suas simpatias são pela classe condenada a morrer. Mas, apesar de tudo isto, sua sátira nunca é mais cortante, sua ironia mais amarga, do que quando faz agir esses aristocratas, esses mesmos homens e mulheres pelos quais ele sentia uma tão profunda simpatia. E (afora alguns provincianos) os únicos homens de quem fala com uma admiração não dissimulada são seus adversários políticos os mais encarniçados, os heróis republicanos do Cloitre Saint-Merri(13), os homens que nessa época (1830-1830) representavam verdadeiramente as massas populares. Que Balzac tenha sido forçado a ir de encontro às suas próprias simpatias de classe e de seus preconceitos políticos, que tenha visto a inevitável queda seus queridos aristocratas e que os tenha descrito como não merecendo melhor sorte; que tenha visto os verdadeiros homens do futuro somente onde poderiam ser encontrados naquela época, eu o considero como um dos maiores triunfos do realismo e uma das maiores particularidades do velho Balzac.

Devo, entretanto, arguir em vossa defesa que em nenhuma parte do mundo civilizado a classe operaria manifesta menos resistência ativa, mais passividade para com o seu destino; que em nenhuma parte os operários estão mais embrutecidos que no East-End de Londres. E quem sabe se não tivestes excelentes razões para vos contentar, desta vez, em mostrar só o lado passivo da vida da classe operaria reservando o lado ativo dessa vida para uma outra obra?
(ENGELS, Carta a Miss Harkness, abril de 1888. Texto fornecido pelo Instituto Marx-Engels-Lenine).

II

Tentei, o mais que pude, guardar uma boa opinião do personagem(14) mas foi impossível. Que dizer de um senhor que, depois de ter lido pela primeira vez um romance de Balzac, (e tratava-se ainda do Cabinet des Antiques e do Pai Goriot) fala dele de maneira arrogante e com o maior desdem como de obras comuns e de uma extrema banalidade...
(ENGELS, Carta a Marx em 4 de outubro de 1852. Correspondência, t. I, dg. 405, edição al.)

III

Não posso escrever-te neste momento mais do que algumas linhas, porque o agente do proprietário está aqui e devo representar como ele o papel de Mercadet na comédia de Balzac. A propósito de Balzac, aconselho-te que leias dele A obra prima desconhecida e Melmoth reconciliado. São duas pequenas obras-primas cheias de uma deliciosa ironia.
(MARX Carta a Engels em 25 de fevereiro de 1867. Correspondência, t. III, p. 376, ed. al., Edit. Costes t. IX, pgs. 136-137)

IV

No Cura da Aldeia, de Balzac, lê-se o seguinte: “Se o produto industrial não fosse o duplo em valor do seu preço de custo liquido em dinheiro, o comércio não existiria”. Que achas disto?
(MARX, Carta a Engels em 14 de dezembro de 1868. Correspondência, t. IV, página 141, ed. al.)

V

É assim que, em Balzac, que estudou profundamente todas as nuanças da avareza, o velho usurário Gobseck voltou à infância quando começou a fazer um tesouro de mercadorias acumuladas.
(MARX, O Capital, livro I, cap. XXII em nota, pg. 524, Dietz, Stuttgart, 1920, ed, al.; Edit. Costes, t. IV, p. 38).

VI

Numa sociedade dominada pela produção capitalista, o próprio produtor não capitalista é dominado pelas concepções capitalistas. Em seu último romance, Os camponeses, Balzac, notável pela sua compreensão profunda das relações reais, descreve com uma grande justeza como o pequeno camponês, a fim de conservar a boa vontade de seu usurário, executa gratuitamente para ele toda espécie de trabalho, sem pensar que, dessa forma, lhe presta favores, porque seu próprio trabalho não lhe impõe despesa propriamente dita. O usurário, por seu lado, mata, assim, com uma machadada, dois coelhos. Deixa de pagar um salário e envolve cada vez mais estreitamente nas malhas da usura o camponês arruinado progressivamente porque se descuida do trabalho em seu próprio campo.
(MARX, O Capital, livro III, cap. I, p. 14, Dietz, Berlim, 1929, ed. al.. Edit. Costes, t. IX, p. 72.)

7. — IBSEN E O PEQUENO-BURGUÊS ALEMÃO.

A carta de Engels a Paul Ernst em 5 de junho de 1890 sobre Ibsen é contra as aplicações mecânicas do marxismo em literatura e contra o ecletismo.

Paul Ernst jovem escritor austro-alemão, que tivera representados, com sucesso, dois dramas naturalistas, os Homens Novos e O Grande Pecado, aderira ao socialismo. Se colaborava na Cena Livre, teatro e revista onde se encontravam naturalistas, expressionistas e anarquistas, publicava na Neue Zeit, revisfa teórica do Partido Social Democrata, artigos de crítica literária. Esses artigos, principalmente os que ele consagrou aos dramas de Ibsen, revelam uma atitude passiva, uma maneira mecânica de abordar os problemas literários, absolutamente oposta ao espírito do marxismo.

Uma controvérsia que a Cena Livre abrira sobre as mulheres na literatura escandinava, deveria fornecer a Engels a ocasião de escrever sua carta. Paul Ernst, escrevendo sobre “A mulher e a questão social” dera, com razão, predomínio aos fatores sociais sobre os fatores biológicos. Mas demonstrava sua passividade e seu fatalismo costumeiros.

O escritor impressionista austríaco Herman Bahr atacou violentamente Paul Ernst num artigo da Cena Livre, de 28 de maio de 1890, intitulado “Os epígonos do marxismo”. Bahr não está de acordo nem com Marx nem com os epígonos. Fora do atavismo (o homem natural) e da influência do meio (homem econômico), é preciso, diz ele, ter em conta o fator biológico. Em cada mulher se acha “a terceira mulher, a mulher tal como é”, a fêmea.

Paul Ernst mandou a Engels os dois números da Cena Livre que continham seu artigo e o de Bahr, e pediu-lhe, em carta de 31 maio de 1890, sua opinião e que dissesse se seus pontos de vista “coincidiam com os de Marx”.

Quando recebeu a resposta pedida, afirmou que Engels lhe dera razão. E, além disso, continuou perseverante em seus erros falsificando o marxismo. Aderiu, mesmo nesse ano, à oposição pequeno-burguesa qualificada por Engels de “revolta de estudantes e de literatos” e provocou nova reprimenda de Engels (Berliner Volkksblatt, 5 de outubro de 1890).

Pouco depois, a maioria dos literatos que haviam entrado no Partido o abandonaram pelo oportunismo e o anarquismo (1891). Paul Ernst tinha, no fundo, adotado aqueles pontos de vista desses literatos. Deixou mais tarde o Partido Social Democrata, caiu no idealismo, reafirmou-se reacionário durante a guerra 1914-1918, pregou a volta a Deus. Seu antigo adversário Hermann Bahr caiu, ele também, na mistica religiosa e nacionalista.

Infelizmente, não posso satisfazer vosso desejo escrevendo uma carta que possais utilizar contra o senhor Bahr. Ela me arrastaria a uma polêmica aberta e para isso eu teria que me roubar muito de meu tempo. O que vos escrevo é, portanto, destinado somente a vosso uso pessoal.

Além disso, o que chamais o movimento feminista escandinavo, me é totalmente desconhecido; conheço apenas alguns dramas de Ibsen e não sei absolutamente se e até que ponto Ibsen pode ser considerado responsável pelas efusões mais ou menos histéricas dos arrivistas burgueses e pequeno-burgueses. Por outro lado, o terreno geralmente designado sob o nome de questão feminina é muito vasto para que se possa, no limite de uma carta, tratar a fundo do assunto ou dizer sobre ele alguma cousa mais ou menos satisfatória. O que é certo é que Marx nunca poderia “tomar a atitude” que o senhor Bahr lhe atribui. Ele não era louco.

Quanto à vossa tentativa de explicar a cousa de maneira materialista, sou obrigado a dizer-vos, inicialmente, que o método materialista se transforma em seu contrario se, em lugar de servir de fio condutor nos estudos históricos, é aplicado como um modelo todo preparado sobre o qual se talham os fatos históricos. E se o senhor Bahr julga vos ter pegado em falta parece-me que tem um pouquinho de razão.

Enfeixastes toda a Noruega, com tudo o que ali se passa, numa categoria: a pequeno burguesia e, sem a menor hesitação aplicastes a essa pequena burguesia norueguesa vossas ideias sobre a pequena burguesia alemã.

Ora, dois fatos a isso se opõem.

Primeiramente: enquanto que em toda a Europa a vitória sobre Napoleão marcava a vitória da reação sobre a Revolução e que somente em sua pátria francesa a revolução inspirava ainda bastante temor para arrancar à legitimidade ressurreta uma Constituição burguesa liberal, a Noruega encontrava meios de conquistar uma Constituição muito mais democrática que qualquer outra Constituição europeia da época.

Segundo: a Noruega conheceu, no decorrer desses últimos vinte anos, um desenvolvimento literário como nenhum outro país no mesmo período, salvo a Rússia. Pequenos burgueses ou não, os intelectuais realizaram ali mais que em qualquer outra parte e imprimiram sua marca nas literaturas dos outros países, inclusive a da Alemanha.

[Se examinardes com atenção esses fatos, reconhecereis que eles são incompatíveis com a maneira de classificar os noruegueses na camada de pequenos burgueses e principalmente de pequenos burgueses do modelo alemão(15)] esses fatos nos obrigam, a meu ver, a analisar a pequena burguesia norueguesa naquilo que ela apresenta de particular.

Vereis, então, provavelmente, que estamos em presença de uma diferença muito importante. Na Alemanha, a pequeno-burguesia é o fruto de uma revolução abortada, de um desenvolvimento interrompido e reprimido e deve seu caráter especifico e muito pronunciado de covardia, de estreiteza, de impotência e de incapacidade à guerra de Trinta Anos e ao período que a seguiu, no decorrer do qual quase todos os outros grandes povos se desenvolveram rapidamente. Essa característica lhe ficou mesmo depois que a Alemanha foi novamente arrastada pelo desenvolvimento histórico; foi bastante acentuado para se impor como tipo alemão mais ou menos geral a todas as outras classes sociais alemães, até o dia em que nossa classe operaria quebrou esses estreitos limites. Os operários alemães são justamente tanto mais violentamente “sem pátria” quanto se libertaram inteiramente da estreiteza pequeno-burguesa alemã. A pequeno-burguesia alemã não constitui portanto uma etapa histórica normal, mas uma caricatura levada ao extremo, um fenômeno de degenerescência como o judeu polonês é uma caricatura do Judeu. [Ela é clássica somente pelo exagero de seu caráter pequeno-burguês levado ao extremo]. O pequeno-burguês inglês, francês, etc., não está absolutamente no mesmo nível do pequeno-burguês alemão.

Na Noruega, contrariamente, o pequeno campesinato e a pequena burguesia, misturados numa baixa proporção com a burguesia média — assim como na Inglaterra e na França do século XVII, por exemplo, representam desde vários séculos o estado normal da sociedade. Aqui, não se trata de uma volta violenta às condições antiquadas em consequência de algum grande movimento abortado ou de uma guerra de Trinta Anos. O país ficou atrás pelo isolamento e as condições naturais, mas sua situação sempre correspondeu às condições de produção; ela é, portanto, normal. Só muito recentemente a grande indústria, um pouquinho e de maneira esporádica, aparece no país, mas a alavanca mais poderosa da concentração do capital, a Bolsa, faz falta e, ainda mais, poderosa extensão do comercio marítimo age como fator de conservação. Porque, enquanto que em toda parte o vapor suplanta os navios à vela, a Noruega desenvolve consideravelmente sua navegação a vela e possui, senão a mais forte, em todo caso a segunda frota a vela do mundo, que pertence principalmente a pequenos armadores como na Inglaterra nas proximidades de 1720. Entretanto, a velha existência imutável foi posta, por isto, em movimento e esse movimento se traduz no desenvolvimento literário.

O camponês norueguês nunca conheceu a servidão e essa circunstância dá a todo o desenvolvimento do país, como em Castela, um fundo de quadro de todo diferente. O pequeno-burguês norueguês é o filho do camponês livre e é por isso que e é um homem ao lado do miserável filisteu alemão. Assim, a pequena-burguesia norueguesa é infinitamente superior à esposa do filisteu alemão. E sejam quais forem as fraquezas dos dramas de Ibsen, por exemplo, eles refletem sem dúvida o mundo da pequena e da média burguesia, mas um mundo totalmente diferente do mundo alemão, um mundo, onde as pessoas ainda têm caráter e iniciativa e agem de maneira independente, mesmo se sua conduta pode parecer extravagante a um observador estrangeiro. Prefiro estudar isto a fundo antes do me pronunciar a respeito.

Voltando à vaca fria, isto é, ao senhor Bahr, surpreende-me que na Alemanha o levem tão a sério. O gracejo e o “humour” parecem estar proibidos mais do que nunca na Alemanha (mesmo os judeus parecem fazer tudo para abafar o mais profundamente possível seu “humour” inato) e o tédio parece ter se transformado num dever cívico. De outro modo terias examinado certamente de mais perto a “mulher” do senhor Bahr, da qual se arrancou tudo o que se “desenvolveu historicamente”. Ora, o que se desenvolveu historicamente foi sua pele que deve ser branca ou preta, amarela, trigueira ou vermelha — ela não pode portanto ter pele humana. O que se desenvolveu historicamente foram seus cabelos, crespos e sedosos, encaracolados ou lisos, pretos, ruivos ou louros. Ela não pode, portanto, ter cabelos humanos. Que resta, portanto, ainda, se lhe tirardes tudo que se desenvolveu historicamente, pele e cabelos, e se “a própria Mulher se apresenta”, que é que aparece? Simplesmente a macaca anthropopiteca que o senhor Bahr pode levar para sua cama, “apenas palpável e transparente”, ela e seus “instintos naturais”.
(ENGELS, Carta a Paul Ernst, em 5 de junho de 1890. Texto fornecido pelo Instituto Marx-Engels-Lenine).

continua>>>

Notas de rodapé:

(1) A. Chenui “Os Conspiradores”, Páris, 1850; Lucien de la Hodde. (retornar ao texto)

(2) As alegres comadres de Windsor. (retornar ao texto)

(3) Desfechos (em francês no original) (retornar ao texto)

(4) Cada livro tem seu destino. (retornar ao texto)

(5) Siebel, Karl (1833-1868) (retornar ao texto)

(6) Nos fins do século XV, duas grandes associações secretas de camponeses e de plebeus, o Bundschuch e o Pobre Conrad, anunciaram e prepararam a guerra dos camponeses. O Bundschuch, cuja influência se processou principalmente na Alsácia e no país de Bade, foi descoberto e esmagado em 1493 e em 1502 se reorganizou sob a direção de Jos Fritz, para ser de novo dizimado em 1513. O Pobre Conrad constituído em Wuremberg em 1503 e em ligação com Bundschch, organizou as insurreições de 1513 e 1514. Tendo os burgueses traído os camponeses, seus aliados, a insurreição foi esmagada pelos príncipes e cavalheiros. (retornar ao texto)

(7) O romance de Minna Kautsky, Os Velhos e os Novos, foi publicado pela revista social democrata Neue Welt em 1884, em volume, em Leipzig, no mesmo ano. (retornar ao texto)

(8) O romance de Minna Kautsky, Stefan von Grillenhof, foi igualmente publicado pela revista Neue Welt, em 1879. (retornar ao texto)

(9) A aristocracia austríaca e os operários das minas do sal. (retornar ao texto)

(10) Engels alude à celebre fórmula de Hegel em sua Estética: "O Homem, e este homem em particular". (retornar ao texto)

(11) As palavras entre parenteses estão riscadas no rascunho da carta. (retornar ao texto)

(12) Estas palavras foram colocadas entre parênteses por Engels. (retornar ao texto)

(13) A rua do Cloitre-Saint-Merri é famosa pela insurreição de 5 e 6 de junho de 1832, depois dos funerais do general Lamarque. Vitor Hugo faz dessa insurreição um dos principais episódios de Os Miseráveis. (retornar ao texto)

(14) Trata-se de Pindar, pseudônimo de um socialista russo, que Engels qualifica nessa mesma carta de ignorante e pedante. (retornar ao texto)

(15) As palavras entre parenteses estão riscadas no rascunho de Engels. (retornar ao texto)

Inclusão 03/07/2019