Um Passo em Frente, Dois Passos Atrás

Vladimir Ilitch Lénine


m) Conclusão dos Debates sobre os Estatutos. Cooptação para os Centros. Saída dos Delegados da «Rabótcheie Dielo»


Dos debates posteriores sobre os estatutos (26ª sessão do congresso), é digna de menção somente a questão relativa à limitação dos poderes do Comité Central, questão que lança luz sobre o carácter dos ataques actuais dos martovistas ao hipercentralismo. Os camaradas Egórov e Popov tendiam a limitar o centralismo com um pouco mais de convicção, independentemente da sua candidatura própria ou da que propunham. Já na comissão dos estatutos eles tinham proposto que se limitasse o direito do CC de dissolver os comités locais exigindo a concordância do Conselho, e, mais ainda, limitando-o a uma série de casos expressamente enumerados (p. 272, nota 1). Três membros da comissão dos estatutos (Glébov, Mártov e eu) declararam-se contra, e o camarada Mártov defendeu a nossa opinião no congresso (p. 273) respondendo a Egórov e Popov que «o CC não deixaria de discutir mesmo assim antes de tomar uma decisão tão grave como a dissolução de uma organização». Como vedes, naquele momento o camarada Mártov ainda estava surdo a todas as pretensões anticentralistas, e o congresso rejeitou a proposta de Egórov e Popov; infelizmente, as actas não nos dizem por quantos votos.

No congresso do partido, o camarada Mártov declarou-se igualmente «contra a substituição da palavra organiza (o CC organiza comités, etc., no § 6 dos estatutos do partido) pela palavra confirma. Também é preciso conferir o direito de organizar», dizia então o camarada Mártov, que ainda não tinha tido a maravilhosa ideia, que só descobriu no congresso da Liga, de que confirmar não cabe no conceito de «organizar».

À parte estes dois pontos, dificilmente se encontrará qualquer interesse no resto dos debates já totalmente dedicados a questões de pormenor relativas aos §§ 5-11 dos estatutos (pp. 273-276 das actas). O parágrafo 12 é relativo à cooptação em todos os organismos colectivos do partido em geral, e nos centros em particular. A comissão propõe que se aumente a maioria qualificada necessária à cooptação de 2/3 para 4/5. Ò relator (Glébov) propõe a cooptação por unanimidade para o CC. O camarada Egórov, considerando indesejáveis as fricções, declara-se a favor de uma simples maioria, na ausência de um veto fundamentado. O camarada Popov não está de acordo nem com a comissão nem com o camarada Egórov, e exige uma simples maioria (sem direito de veto) ou a unanimidade. O camarada Mártov não está de acordo com a comissão, nem com Glébov, nem com Egórov, nem com Popov; pronuncia-se contra a unanimidade, contra os 4/5 (a favor dos 2/3), contra a «cooptação recíproca», isto é, contra o direito da redacção do OC de protestar contra a cooptação no CC e vice-versa («o direito de controlo recíproco sobre a cooptação»).

Como o leitor vê, surge o agrupamento mais variado, e as divergências fragmentam-se quase ao ponto de chegar a particularidades «pessoais» no ponto de vista de cada delegado!

O camarada Mártov diz: «Reconheço a impossibilidade psicológica de trabalhar com pessoas desagradáveis. Mas a nós importa-nos igualmente que a nossa organização seja viva e tenha capacidade de actuar.… Em caso de cooptação, o direito de controlo recíproco do CC e da redacção do OC não é necessário. Se sou contra, não é porque pense que um possa ser incompetente na jurisdição do outro. Não! A redacção do OC, por exemplo, poderia dar ao CC um bom conselho: se convinha, por exemplo, admitir o senhor Nadéjdine no CC. Protesto porque não quero que se crie uma série de trâmites que produzam irritação recíproca.»

Eu objectei-lhe: «Temos aqui duas questões. A primeira é relativa à maioria qualificada, e sou contra a proposta de baixá-la de 4/5 para 2/3. Admitir um protesto fundamentado não é razoável, e sou contra. A segunda questão, relativa ao direito de controlo recíproco do CC e do OC sobre a cooptação é muitíssimo mais importante. O acordo recíproco dos dois centros é condição indispensável de harmonia. Trata-se aqui da ruptura entre os dois centros. Quem não quiser a cisão tem que velar para que haja harmonia. A vida do partido ensina-nos que houve pessoas que semearam a cisão. E uma questão de princípio, uma questão importante, de que pode depender todo o futuro do partido» (276-277)(1). Este é o texto integral do resumo feito no congresso do meu discurso, ao qual Mártov atribui uma importância particularmente séria. Infelizmente, embora atribuindo-lhe essa importância, ele não se deu ao trabalho de a ligar a todos os debates e a toda a situação política do congresso na ocasião em que foi pronunciado este discurso.

Em primeiro lugar, cabe perguntar: porque é que no meu projecto inicial (ver p. 394, §11)(2) me limitei aos 2/3 e não exigia o controlo recíproco sobre a cooptação para os centros? O camarada Trótski, que falou depois de mim (p. 277), levantou imediatamente esta questão.

O meu discurso no congresso da Liga e a carta do camarada Pavlóvitch sobre o II congresso respondem a esta pergunta. O §1 dos estatutos «quebrou o vaso», e havia que amarrá-lo com um «nó duplo», dizia eu no congresso da Liga. Isso significava em primeiro lugar que, a propósito de uma questão puramente teórica, Mártov se revelou oportunista, e que o seu erro tinha sido defendido por Líber e Akímov. Isso significava, em segundo lugar, que a coligação dos martovistas (ou seja, de uma insignificante minoria dos iskristas) com os anti-iskristas lhes dava a maioria no congresso na votação da composição pessoal dos centros. E eu falava então precisamente da composição pessoal dos centros, sublinhando a necessidade de harmonia e advertindo contra as «pessoas que semeavam a cisão». Esta advertência tomou com efeito uma grande importância de princípio, porque a organização do Iskra (mais competente, sem dúvida, quanto à composição pessoal dos centros, visto que conhece mais de perto todos os assuntos na prática e todos os candidatos), já tinha emitido o seu voto consultivo sobre esta questão e tinha tomado a decisão que conhecemos sobre as candidaturas que lhe provocavam receios. Tanto do ponto de vista moral como no que se refere à essência do assunto (ou seja, quanto à competência daquele que decide), a organização do Iskra devia desempenhar um papel decisivo nesta questão tão delicada. Mas formalmente o camarada Mártov tinha sem dúvida todo o direito de apelar para os Líber e os Akímov, contra a maioria da organização do Iskra. E no seu brilhante discurso sobre o §1, o camarada Akímov disse em termos notavelmente claros e inteligentes que, quando constata entre os iskristas um desacordo sobre os meios de atingir o seu objectivo comum, iskrista, vota conscientemente e de propósito a favor do pior meio, visto que os objectivos dele, Akímov, são diametralmente opostos aos dos iskristas. Era pois fora de dúvida que, mesmo independentemente da vontade e da consciência do camarada Mártov, seria precisamente a pior composição pessoal dos centros que obteria o apoio dos Líber e dos Akímov. Eles podem votar, eles devem votar (a julgar não pelas suas palavras, mas pelos seus actos, pelo seu voto sobre o §1), precisamente a favor da lista que pudesse prometer a presença de «pessoas que semeassem a cisão», votar precisamente para «semear a cisão». Será para admirar que, perante tal situação, eu tenha falado de uma importante questão de princípio (harmonia dos dois centros) de que podia depender todo o futuro do partido?

Nenhum social-democrata minimamente a par das ideias e dos planos iskristas e da história do movimento, que partilhasse com alguma sinceridade estas ideias, podia duvidar um só momento de que a solução, pelos Líber e pelos Akímov, do debate no seio da organização do Iskra sobre a composição pessoal dos centros era formalmente justa, mas assegurava os piores resultados possíveis. Era imperioso lutar contra estes piores resultados possíveis.

Põe-se a questão: como lutar? Não foi pela histeria nem pelos escandalozinhos, bem entendido, que nós lutámos, mas por meios perfeitamente leais e perfeitamente legítimos: compreendendo que estávamos em minoria (do mesmo modo que no § 1), pedimos ao Congresso que salvaguardasse os direitos da minoria. Quer se tratasse duma maior severidade quanto à qualificação na admissão dos membros (os 4/5 em vez dos 2/3), ou da unanimidade na cooptação, ou do controlo recíproco sobre a cooptação para os centros, defendemos tudo isto quando nos vimos em minoria na questão da composição pessoal dos centros. Este facto é constantemente ignorado pelos Joões e os Pedros, que gostam de falar e dar opiniões sobre o congresso irreflectidamente, depois de duas ou três conversas entre amigos, sem um estudo sério de todas as actas e de todos os «testemunhos» das pessoas interessadas. E quem quiser estudar com consciência estas actas e estes testemunhos chegará infalivelmente ao facto que indiquei: a raiz da discussão neste momento do congresso estava precisamente no problema da composição pessoal dos centros, e nós procurávamos conseguir condições mais rigorosas de controlo, justamente porque estávamos em minoria e queríamos «amarrar com nó duplo o vaso» quebrado por Mártov com alegria e com a alegre participação dos Líber e dos Akímov.

«Se assim não fosse - diz o camarada Pavlóvitch evocando esse momento do congresso - apenas restaria supor que, ao propor o ponto da unanimidade na cooptação, estaríamos a cuidar dos interesses dos nossos adversários, porque, para o partido dominante em qualquer organismo, a unanimidade é não só inútil, mas até desvantajosa» (p. 14 da Carta sobre o II Congresso). Mas actualmente esquece-se demasiadas vezes a cronologia dos factos, esquece-se que durante todo um período do congresso a actual minoria era maioria (graças à participação dos Líber e dos Akímov), que é precisamente a este período que corresponde o debate da cooptação para os centros, debate cuja razão subjacente era a divergência na organização do Iskra sobre a composição pessoal dos centros. Quem se der conta deste facto compreenderá também a paixão dos nossos debates e já não se admirará desta contradição aparente, em que pequenas divergências de pormenor fazem surgir questões verdadeiramente importantes, questões de princípio.

O camarada Deutsch, que usou da palavra na mesma sessão (p. 277) tinha bastante razão quando declarou: «Sem dúvida que esta proposta está calculada para o momento actual». De facto, só compreendendo o momento actual em toda a sua complexidade se pode compreender o verdadeiro sentido da discussão. E é de extraordinária importância não perder de vista que quando nós estávamos em minoria defendemos os direitos da minoria com processos que todo o social-democrata europeu reconhece serem legítimos e admissíveis: ou seja, pedindo ao congresso um controlo mais severo sobre a composição pessoal dos centros. Do mesmo modo, o camarada Egórov tinha bastante razão quando dizia também no congresso, mas noutra sessão: «Admira-me muito ouvir de novo nos debates referências aos princípios»... (Isto a propósito das eleições para o CC, na 31ª sessão do congresso, isto é, se não me engano, quinta-feira de manhã, enquanto a 26ª sessão, de que falamos agora, foi numa segunda-feira à noite)... «Parece-me claro para toda a gente que nestes últimos dias todos os debates giraram não à volta desta ou daquela maneira de colocar o assunto em princípio, mas exclusivamente à volta da forma de assegurar ou impedir o acesso aos organismos centrais desta ou daquela pessoa. Confessemos que os princípios desapareceram já há muito tempo deste congresso, e chamemos as coisas pelos seus verdadeiros nomes. (Hilaridade geral. Muraviov: “Peço que se faça constar na acta que o camarada Mártov sorriu”)» (p. 337). Não admira que o camarada Mártov, tal como todos nós, tenha rido às gargalhadas das lamentações, verdadeiramente risíveis, do camarada Egórov. Sim, «nos últimos dias» muitas coisas giraram à volta da questão da composição pessoal dos centros. Isso é verdade. Com efeito, a coisa era clara para toda a gente no congresso (e só agora a minoria tenta obscurecer este facto claro). Enfim, também é verdade que importa chamar as coisas pelos seus verdadeiros nomes. Mas, por amor de Deus, para que é aqui chamado o «perder os princípios»?? Reunimo-nos neste congresso (ver p. 10, ordem do dia do congresso) precisamente para nos primeiros dias falar do programa, da táctica, dos estatutos e resolver questões correspondentes, e falar nos últimos dias (pontos 18-19 da ordem do dia) da composição pessoal dos centros, e decidir sobre essas questões. É um fenómeno natural e inteiramente, inteiramente legítimo dedicar os últimos dias dos congressos à luta pela batuta de maestro. (Mas quando, para conquistar essa batuta, se batem depois do congresso, já só é uma querela mesquinha.) Se no congresso alguém sofreu uma derrota na questão da composição pessoal dos centros (como o camarada Egórov), é simplesmente ridículo falar, depois disso, de «perder os princípios». É natural, portanto, que toda a gente tenha rido do camarada Egórov. É compreensível também por que razão o camarada Muraviov pediu para fazer constar na acta a participação do camarada Mártov nesse riso: o camarada Mártov, ao rir-se do camarada Egórov, riu-se de si próprio...

Para completar a ironia do camarada Muraviov, talvez não seja supérfluo comunicar o seguinte facto. Depois do congresso, o camarada Mártov, como se sabe, afirmou a quem o quis ouvir que a razão principal da nossa divergência está precisamente na questão da cooptação para os centros, que «a maioria da antiga redacção» se manifestou terminantemente contra o controlo recíproco sobre a cooptação para os centros. Antes do congresso, ao aceitar o meu projecto de eleição de dois grupos de três, com uma cooptação recíproca de 2/3, o camarada Mártov escrevia-me a propósito disso: «Aceitando esta forma de cooptação recíproca, convém notar que depois do congresso cada organismo completará o número dos seus membros na base de princípios um pouco diferentes (eu recomendaria o seguinte método: cada organismo coopta novos membros dando a conhecer as suas intenções ao outro organismo; este último pode protestar, e então a controvérsia é resolvida pelo Conselho. Para que não haja trâmites morosos, este processo deveria aplicar-se a candidatos propostos antecipadamente pelo menos para o CC, candidatos entre os quais a cooptação se pode fazer mais depressa). Para sublinhar que no futuro a cooptação se fará segundo um processo que será previsto pelos estatutos do partido, é preciso acrescentar ao §22(3):“... que confirmará as decisões adoptadas”» (sublinhado por mim).

Sem comentários.


Depois de ter explicado o significado do momento em que teve lugar a discussão sobre a cooptação para os centros, precisamos de nos deter um pouco nas votações referentes a este ponto; é inútil alongarmo-nos sobre os debates, porque depois do discurso do camarada Mártov e do meu, que citei, só houve curtas réplicas, nas quais tomou parte um número insignificante de delegados (ver pp. 277-280 das actas). Quanto às votações, o camarada Mártov afirmou no congresso da Liga que na minha exposição eu fiz «a maior falsificação» (p. 60 das actas da Liga) «ao apresentar a luta à volta dos estatutos»... (o camarada Mártov enunciou sem querer uma grande verdade: depois do §1, justamente à volta dos estatutos, desenvolveram-se acalorados debates)... «como uma luta do Iskra contra os martovistas que tinham feito uma coligação com o Bund».

Vejamos de perto esta interessante questão relativa à «maior falsificação». O camarada Mártov junta as votações sobre a composição do Conselho às votações sobre a cooptação, e cita oito votações: 1) Eleição para o Conselho de dois membros pelo OC e de outros dois pelo CC: 27 a favor (M), 16 contra (L), 7 abstenções(4). (Anotemos entre parêntesis que nas actas, p. 270, o número de abstenções se eleva a 8, mas isto é um pormenor.) 2) Eleição do quinto membro do Conselho pelo congresso: 23 a favor (L), 18 contra (M), 7 abstenções. 3) Substituição pelo próprio Conselho dos membros saídos do Conselho: 23 contra (M), 16 a favor (L), 12 abstenções. 4) Unanimidade no CC: 25 a favor (L), 19 contra (M), 7 abstenções. 5) Exigência de um protesto fundamentado para que um membro não seja admitido: 21 a favor (L), 19 contra (M), 11 abstenções. 6) Unanimidade na cooptação para o OC: 23 a favor (L), 21 contra (M), 7 abstenções. 7) Possibilidade de uma votação sobre o direito do Conselho de anular as decisões do OC e do CC sobre a não-admissão de um novo membro: 25 a favor (M), 19 contra (L), 7 abstenções. 8) A própria proposta respeitante ao ponto anterior: 24 a favor (M), 23 contra (L), 4 abstenções. «Neste caso é evidente - concluiu o camarada Mártov (p. 61 das actas da Liga) - que um delegado do Bund votou a favor da proposta e os outros se abstiveram.» (Sublinhado por mim.)

Cabe perguntar: porque considera o camarada Mártov evidente que um delegado do Bund tenha votado por ele, por Mártov, quando não houve votações nominais?

Porque se fixa no número de votantes, e, quando este número indica a participação do Bund na votação ele, o camarada Mártov, não duvida que esta participação tenha sido a seu favor, de Mártov.

Donde resulta aqui a «maior falsificação» minha?

Havia no total 51 votos; sem os bundistas, 46; sem os partidários da Rabótcheie Dielo, 43. Em sete votações das oito citadas pelo camarada Mártov, tomaram parte 43, 41, 39, 44, 40, 44 e 44 delegados; numa votação tomaram parte 47 delegados (ou melhor, houve 47 votos), e aqui o próprio camarada Mártov reconhece que foi apoiado por um bundista. Evidencia-se assim que o quadro traçado por Mártov (e traçado de maneira incompleta, vê-lo-emos daqui a pouco) vem apenas confirmar e reforçar a minha exposição da luta! Em muitos casos foi muito elevado o número de abstenções: isto mostra o interesse relativamente pequeno de todo o congresso por certos pormenores; mostra a ausência de um agrupamento perfeitamente definido de iskristas sobre estas questões. A afirmação de Mártov de que os bundistas «com a sua abstenção prestam um apoio evidente a Lénine» (p. 62 das actas da Liga) fala justamente contra Mártov: portanto, somente na ausência dos bundistas ou com a sua abstenção eu podia por vezes contar com a vitória. Mas sempre que os bundistas consideravam que valia a pena intervir na luta, eles apoiavam o camarada Mártov; e tal intervenção verificou-se não só no caso acima citado da participação dos 47 delegados. Quem quiser consultar as actas do congresso dar-se-á conta de que o quadro traçado pelo camarada Mártov é de modo muito estranho incompleto. O camarada Mártov omitiu simplesmente ainda outros três casos em que o Bund participou na votação, com o pormenor de que o camarada Mártov, bem entendido, saiu vitorioso em todos estes casos. Eis aqui estes casos: 1) Adopta-se a alteração proposta pelo camarada Fomine, que reduz a maioria qualificada de 4/5 para 2/3: 27 a favor, 21 contra (p. 278), participaram portanto 48 votos. 2) Adopta-se a proposta do camarada Mártov para a supressão da cooptação recíproca: 26 a favor, 24 contra (p. 279), participaram pois na votação 50 votos. Enfim, 3) É rejeitada a minha proposta de admitir a cooptação para o OC e o CC exclusivamente com o assentimento de todos os membros do Conselho (p. 280): 27 contra, 22 a favor (houve mesmo votação nominal, que infelizmente não está registada nas actas), portanto 49 votos.

Resultado: quanto à cooptação para os centros, os bundistas participaram somente em quatro votações (as três votações que acabo de citar, com 48, 50 e 49 votantes, e uma citada pelo camarada Mártov, com 47 votantes). Em todas estas votações o camarada Mártov saiu vitorioso. A minha exposição revelou-se exacta em todos os seus pontos, quando falo da coligação com o Bund, quando constato o carácter de somenos importância das questões (muitíssimos casos com um número considerável de abstenções), quando digo que não há agrupamento definido dos iskristas (não há votações nominais; muito poucos oradores nos debates).

A tentativa do camarada Mártov de encontrar uma contradição na minha exposição não passou de uma tentativa feita com meios inadequados, visto que o camarada Mártov destacou palavras isoladas sem se dar ao trabalho de restabelecer todo o quadro.


O último parágrafo dos estatutos, dedicado à questão da organização no estrangeiro, mais uma vez provocou debates e votações particularmente característicos do ponto de vista dos agrupamentos no congresso. Tratava-se de reconhecer a Liga como organização do partido no estrangeiro. Claro, o camarada Akímov insurgiu-se imediatamente, recordando a União no estrangeiro aprovada pelo primeiro congresso e chamando a atenção para o significado de princípio da questão. «Devo esclarecer primeiramente - declarou - que não atribuo grande valor prático a esta ou àquela solução do problema. A luta ideológica que se tem desenvolvido até agora no nosso partido sem dúvida que ainda não terminou; mas ela prosseguirá noutros planos e com outro agrupamento de forças... No §13 dos estatutos mais uma vez ficou reflectida, e de modo muito marcado, a tendência para fazer do nosso congresso, em vez de um congresso do partido, um congresso fraccionário. Em vez de obrigar todos os sociais-democratas da Rússia a inclinarem-se perante as decisões do congresso do partido, em nome da unidade do partido, unindo todas as organizações do partido, propõe-se ao congresso que dissolva a organização da minoria, que obrigue esta a desaparecer» (281). Como o leitor vê, a «continuidade», que se tornou agora tão cara ao camarada Mártov depois da sua derrota na questão da composição dos centros, não era menos cara ao camarada Akímov. Mas, no congresso, os que têm bitolas diferentes para si e para os outros levantaram-se apaixonadamente contra o camarada Akímov. Apesar da adopção do programa, do reconhecimento do Iskra e da adopção quase integral dos estatutos, traz-se para a cena precisamente o «princípio» que separava «em princípio» a Liga da União. «Se o camarada Akímov pretende pôr a questão no plano dos princípios - exclama o camarada Mártov -, não temos nada contra isso; sobretudo porque o camarada Akímov falou das combinações possíveis na luta contra duas tendências. O triunfo de uma tendência deve sancionar-se (notem que isto foi dito na 27ª sessão do congresso!) não no sentido de se poder fazer uma nova reverência ao Iskra, mas no de abandonar definitivamente todas as combinações possíveis de que falou o camarada Akímov» (282, sublinhado por mim).

Quadro: o camarada Mártov, depois de encerradas todas as discussões sobre o programa no congresso, continua ainda a abandonar definitivamente todas as combinações possíveis... enquanto não sofreu ainda uma derrota na questão da composição dos centros! O camarada Mártov, no congresso, «abandona definitivamente» a possível «combinação» que com tanto êxito põe em prática imediatamente a seguir ao congresso. Mas o camarada Akímov já então se mostrou bem mais perspicaz do que o camarada Mártov; o camarada Akímov invocou os cinco anos de trabalho «da velha organização do partido que, por decisão do primeiro congresso, tinha o nome de comité», e acabou com uma ultravenenosa e providencial alfinetada: «Quanto à opinião do camarada Mártov de que são vãs as minhas esperanças de ver nascer uma tendência nova no nosso partido, devo dizer que mesmo ele próprio me dá esperanças» (p. 283. Sublinhado por mim)

Sim, temos de reconhecer que o camarada Mártov justificou brilhantemente as esperanças do camarada Akímov!

O camarada Mártov seguiu o camarada Akímov, convencido que este tinha razão, depois de ter sido rompida a «continuidade» do antigo organismo de direcção colectiva do partido, que se considerava a funcionar há três anos. A vitória do camarada Akímov não lhe ficou muito cara.

No congresso, no entanto, só os camaradas Martínov, Brúker e os bundistas (8 votos) se colocaram ao lado de Akímov, e de um modo consequente. O camarada Egórov, como verdadeiro chefe do «centro», prefere o áureo meio termo: está de acordo, vejam bem, com os iskristas, «simpatiza» com eles (p. 282) e prova esta simpatia propondo (p. 283) que se passe por alto toda a questão de princípios levantada, que não se fale nem da Liga nem da União. A proposta é rejeitada por 27 votos contra 15. É evidente que, além dos anti-iskristas (8), quase todo o «centro» (10) vota com o camarada Egórov (o total de votos é de 42, de modo que um importante número se absteve ou esteve ausente, como aconteceu muitas vezes com votações pouco interessantes ou cujo resultado era indubitável). Desde que se trate de levar à prática os princípios iskristas, logo se confirma que a «simpatia» do «centro» é puramente verbal, e que apenas nos seguem trinta votos ou pouco mais. A discussão e a votação da proposta de Rússov (reconhecer a Liga como a única organização no estrangeiro) provam-no ainda mais claramente. Os anti-iskristas e o «pântano» adoptam já francamente um ponto de vista de princípios, defendido além do mais pelos camaradas Líber e Egórov, que declaram que a proposta do camarada Rússov é ilegítima e não pode ser votada: «Com ela todas as outras organizações no estrangeiro são condenadas ao massacre» (Egórov). E o orador, que não quer participar no «massacre das organizações», não só recusa votar como até saí da sala. É preciso no entanto fazer justiça ao líder do «centro»: ele dá provas (nos seus princípios errados) de uma convicção e de uma coragem política dez vezes mais fortes do que o camarada Mártov e Cª, ele intercedeu a favor da organização «que se massacrava» não apenas quando se tratava do seu próprio círculo, que tinha sofrido uma derrota em luta aberta.

A proposta do camarada Rússov é considerada admissível à votação por 27 votos contra 15; é em seguida aprovada por 25 contra 17. Acrescentando a estes 17 o camarada Egórov, ausente, obtemos o conjunto completo (18) de anti-iskristas e do «centro».

Todo o §13 dos estatutos sobre a organização no estrangeiro é aprovado apenas por 31 votos contra 12 e seis abstenções. Este número, 31, que nos dá aproximadamente o número de iskristas no congresso, isto é, os que defendem com consequência e aplicam na prática as concepções do Iskra, encontramo-lo pelo menos já pela sexta vez na análise das votações do congresso (o lugar da questão do Bund, o incidente do CO, a dissolução do grupo Iújni Rabótchi e duas votações sobre o programa agrário). E o camarada Mártov quer fazer-nos crer, a sério, que não há qualquer razão para apontar um grupo tão «reduzido» de iskristas!

Não se pode deixar de assinalar também que a aprovação do §13 dos estatutos suscitou debates extremamente característicos a propósito da declaração dos camaradas Akímov e Martínov sobre a «recusa de participar na votação» (p. 288). O bureau do congresso examinou esta declaração e reconheceu - com toda a justiça - que nem mesmo a dissolução directa da União daria qualquer direito aos delegados da União de se recusarem a participar nos trabalhos do congresso. A recusa de votar é sem dúvida um facto anormal e inadmissível, este o ponto de vista que com o bureau todo o congresso adoptou, incluindo os iskristas da minoria, que, na 28ª sessão, vivamente reprovaram o que eles próprios viriam a fazer na 31ª sessão! Quando o camarada Martínov se pôs a defender a sua declaração (p. 291), ergueram-se contra ele tanto Pavlóvitch como Trótski, Kárski e Mártov. O camarada Mártov compreendeu com peculiar clareza os deveres de uma minoria descontente (enquanto ele próprio não ficou em minoria!) e discorreu sobre eles num tom particularmente didáctico. «Ou sois membros do congresso - exclamava dirigindo-se aos camaradas Akímov e Martínov -, e então deveis participar em todos os seus trabalhos» (sublinhado por mim; neste momento o camarada Mártov não via ainda formalismo e burocratismo na submissão da minoria à maioria!), «ou não sois membros do congresso, e então não podeis continuar na sessão... Pela sua declaração, os delegados da União obrigam-me a fazer-lhes duas perguntas: são membros do partido, são membros do congresso?» (p. 292).

O camarada Mártov ensina ao camarada Akímov os deveres que incumbem aos membros do partido! Mas não foi em vão que o camarada Akímov disse que depositava certas esperanças no camarada Mártov... Estas esperanças viriam a converter-se em realidade, mas só depois da derrota do camarada Mártov nas eleições. Quando não se tratava de si próprio mas dos outros, o camarada Mártov permanecia surdo, mesmo à terrível expressão «lei de excepção» lançada pela primeira vez (se não me engano) pelo camarada Martínov. «As explicações que nos foram dadas - respondeu o camarada Martínov aos que procuraram convencê-lo a retirar a sua declaração - não puseram a claro se se tratava de uma decisão de princípio ou de uma medida de excepção contra a União. Neste caso, consideramos que se fez um ultraje à União. O camarada Egórov, como nós próprios, tem a impressão que se trata de uma lei de excepção (sublinhado por mim) contra a União, e por isso abandonou mesmo a sala» (295). Tanto o camarada Mártov como o camarada Trótski, com Plekhánov, erguem-se energicamente contra a ideia absurda, realmente absurda, de ver um ultraje na votação do congresso, e o camarada Trótski, defendendo a resolução adoptada por proposta sua pelo congresso (segundo a qual os camaradas Akímov e Martínov podem considerar-se perfeitamente satisfeitos), assegura que «a resolução se reveste de um carácter de princípio e não de um carácter filistino, e não nos importa que alguém se sinta ultrajado por ela» (p. 296). Todavia, bem depressa se revelou que a mentalidade de círculo e o espírito filistino eram ainda demasiado fortes no nosso partido, e as palavras orgulhosas que sublinhei revelaram-se uma frase oca altissonante.

Os camaradas Akímov e Martínov recusaram-se a retirar a sua declaração e deixaram o congresso no meio das exclamações gerais dos delegados: «Absolutamente injustificado!»


Notas de rodapé:

(1) Ver V. I. Lénine, Obras Completas, 5ª ed. em russo, t. 7, p. 293. (N. Ed.) (retornar ao texto)

(2) Ver ibidem, p. 257. (N. Ed.) (retornar ao texto)

(3) Trata-se do meu projecto inicial de Tagesordnung (ordem do dia - N. Ed.) do congresso e do comentário que o acompanhava, projecto conhecido por todos os delegados. O § 22 deste projecto previa justamente a eleição de dois grupos de três para o OC e o CC, a «cooptação recíproca» por estes seis por maioria de 2/3, a confirmação desta cooptação recíproca pelo congresso e a cooptação independente ulterior para o OC e o CC. (Nota do Autor) (retornar ao texto)

(4) As letras M e L entre parêntesis mostram de que lado estava eu (L) e de que lado estava Mártov (M). (Nota do Autor) (retornar ao texto)

Inclusão: 27/12/2002
Última modificação: 05/03/2024