Do Informe Sobre a Revolução de 1905

V. I. Lênin

9 (22) de Janeiro de 1917


Primeira Edição: Escrito em alemão antes de 9 (22) de janeiro de 1917. Publicado pela primeira vez a 22 de janeiro de 1925, no número 18 de Pravda. Encontra-se in Obras, t. XXIII, págs. 229/234.
Fonte: Editorial Vitória Ltda., Rio, novembro de 1961. Traduzido por Armênio Guedes, Zuleika Alambert e Luís Fernando Cardoso, da versão em espanhol de Acerca de los Sindicatos, das Ediciones em Lenguas Extranjeras, Moscou, 1958. Os trabalhos coligidos na edição soviética foram traduzidos da 4.ª edição em russo das Obras de V. I. Lênin, publicadas em Moscou pelo Instituto de Marxismo-Leninismo, anexo ao CC do PCUS. As notas ao pé da página sem indicação são de Lênin e as assinaladas com Nota da Redação foram redigidas pelos organizadores da edição do Instituto de Marxismo-Leninismo. Capa e planejamento gráfico de Mauro Vinhas de Queiroz. Pág: 252-259.
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo.
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... E precisamente nesse despertar de imensas massas populares, que vão adquirindo consciência política e se lançam à luta revolucionária, baseia-se a significação histórica do 22 de janeiro de 1905.

Dois dias antes do “Domingo Sangrento”, o Sr. Piotr Struve, naquele tempo chefe dos liberais russos, editor de um órgão ilegal livre, publicado no estrangeiro, escrevia: “Na Rússia ainda não há ainda um povo revolucionário”. Tão absurda parecia-lhe, a esse “instruidíssimo”, pretensioso e arqui estúpido chefe dos reformistas burgueses a ideia de que um país camponês e analfabeto possa dar um povo revolucionário! Estavam tão profundamente convencidos os reformistas daquela época, como estão os de agora, da impossibilidade de uma verdadeira revolução!

Até 22 de janeiro (9, de acordo com o velho calendário) de 1905, o partido revolucionário da Rússia constava de um pequeno grupo de pessoas. Os reformistas de então (exatamente como os de agora) zombavam de nós, tachando-nos de “seita”. Várias centenas de organizadores revolucionários, alguns milhares de filiados às organizações locais, meia dezena de folhas revolucionárias, que saíam apenas uma vez por mês, editadas principalmente no estrangeiro e que chegavam à Rússia de contrabando, depois de vencer incríveis dificuldades e à custa de muitos sacrifícios: eis o que eram na Rússia, antes de 22 de janeiro de 1905, os partidos revolucionários, e, em primeiro lugar, a social-democracia revolucionária. Tal situação dava aos altivos e obtusos reformistas o direito formal de afirmar que, na Rússia, ainda não havia um povo revolucionário.

Não obstante, o panorama mudou por completo no curso de uns meses. Centenas de social-democratas revolucionários converteram-se “rapidamente” em milhares, os milhares converteram-se em chefes de dois ou três milhões de proletários. A luta proletária suscitou uma grande efervescência, que foi em parte movimento revolucionário, no seio de uma massa camponesa de cinquenta a cem milhões de pessoas; o movimento camponês repercutiu no exército e provocou insurreições de soldados, choques armados de uma parte do exército contra a outra. Assim, pois, um país enorme, com 130 000 000 de habitantes, lançou-se à revolução; assim, pois, a Rússia inerte converteu-se na Rússia do proletariado revolucionário e do povo revolucionário.

É necessário estudar esta transição; compreender como foi possível, quais foram, por assim dizer, seus métodos e caminhos.

O meio principal dessa transição foi a greve de massas. A peculiaridade da revolução russa consiste precisamente em que, por seu conteúdo social, foi uma revolução democrático-burguesa, enquanto que, por seus meios de luta, foi uma revolução 'proletária. Foi democrático-burguesa, uma vez que o objetivo imediato que se propunha, e que podia alcançar diretamente com suas próprias forças, era a República democrática; a jornada de 8 horas e o confisco dos imensos latifúndios da nobreza, medidas todas essas que a revolução burguesa da França realizou quase completamente em 1792 e 1793.

A revolução russa foi por sua vez uma revolução proletária, não apenas por ser o proletariado a sua força dirigente, a vanguarda do movimento, mas também porque o meio especificamente proletário de luta, justamente a greve, foi o meio principal para pôr em movimento as massas e o fenômeno mais característico do sinuoso desenvolvimento dos acontecimentos decisivos.

A revolução russa é, na história mundial, a primeira grande revolução — e sem dúvida não será a última — em que a greve política de massas desempenhou um papel extraordinário. Pode-se inclusive afirmar que não é possível compreender os acontecimentos da revolução russa e a sucessão de suas formas políticas, se não se estuda a essência desses acontecimentos e dessa sucessão de formas através da estatística das greves.

Sei muito bem que os áridos dados estatísticos estão fora de lugar em um informe oral e são bem capazes de assustar os ouvintes. No entanto, não posso deixar de citar alguns dados em cifras redondas, para que tenham a possibilidade de avaliar a base objetiva real de todo o movimento. Durante os dez anos que precederam a revolução, a média anual de grevistas na Rússia atingia 43 000 pessoas. Por conseguinte, o número total de grevistas durante o decênio anterior à revolução foi de 430 000. Em janeiro de 1905, no primeiro mês da revolução, o número de grevistas chegou a 440 000. Ou seja, em um só mês houve mais grevistas que em todo o decênio precedente!

Em nenhum país capitalista do mundo, nem sequer nos países mais avançados, como a Inglaterra, os Estados Unidos e a Alemanha, se viu um movimento grevista tão grandioso como o de 1905 na Rússia. O número total de grevistas subiu a 2 800 000, chegando a ser duas vezes maior que o total de operários fabris! Isso, naturalmente, não quer dizer que os operários fabris urbanos da Rússia fossem mais instruídos, ou mais fortes, ou estivessem mais adaptados à luta do que seus irmãos da Europa ocidental. Era justamente o contrário.

Mas isso demonstra o quanto pode ser grande a energia do proletariado. Isto indica que nos períodos revolucionários — digo isso sem nenhum exagero, baseando-me nos dados mais exatos da história russa — o proletariado pôde desenvolver uma energia combativa cem vezes maior do que em épocas comuns de tranquilidade. Isso indica que a humanidade, até 1905, não conheceu o quanto pode ser imensa e grandiosa a energia do proletariado quando se trata de lutar por objetivos verdadeiramente grandes, de lutar de modo verdadeiramente revolucionário!

A história da revolução russa mostra-nos que quem lutou com a maior tenacidade e com maior abnegação foi precisamente a vanguarda, os melhores elementos entre os operários assalariados. Quanto maiores eram as fábricas, mais fortes eram as greves, maior era a frequência com que se repetiam num mesmo ano. Quanto maior era a cidade, mais importante era o papel do proletariado na luta. As três grandes cidades onde reside a população operária mais numerosa e mais consciente — Petersburgo, Riga e Varsóvia —, dão uma percentagem de grevistas, em relação ao número total de operários, incomparavelmente maior do que o de todas as demais cidades, sem falar do campo.

Os metalúrgicos são na Rússia — provavelmente como em outros países capitalistas — o destacamento de vanguarda do proletariado. Aqui observamos o seguinte fato ilustrativo: para cada cem operários fabris de todas as especialidades, houve na Rússia, em 1905, 160 grevistas; enquanto que para cada cem metalúrgicos corresponderam nesse mesmo ano 320 grevistas! Calculou-se que cada operário fabril russo perdeu em 1905, em consequência das greves, uma média de 10 rublos — uns 26 francos segundo a cotação de antes da guerra — dinheiro que, por assim dizer, entregou para a luta. Se tomarmos somente os metalúrgicos, obteremos uma quantia três vezes maior! A frente iam os melhores elementos da classe operária, arrastando atrás de si os vacilantes, despertando os apáticos e animando os débeis.

Extraordinário por sua peculiaridade foi o entrelaçamento das greves econômicas e políticas no período da revolução. Está fora de dúvida que somente a mais estreita ligação entre estas duas formas de greve foi que garantiu a grande força do movimento. Se a grande massa dos explorados não tivesse visto diante de si os exemplos diários de como os operários assalariados dos diferentes ramos da indústria obrigavam os capitalistas a melhorar, de modo direto e imediato, a sua situação, não haveria sido possível de modo algum atrair as referidas massas para o movimento revolucionário. Graças a essa luta, um novo espírito agitou em massa o povo russo. E só então foi que a Rússia feudal, que vivia num sono letárgico, a Rússia patriarcal, devota e submissa, se desprendeu do decrépito Adão que levava dentro de si; só então, o povo russo recebeu uma educação verdadeiramente democrática, verdadeiramente revolucionária.

Quando os senhores burgueses e seus repetidores sem sentido crítico, os socialistas reformistas, falam com tanta petulância da “educação” das massas, entendem habitualmente por educação algo escolar e pedante, algo que desmoraliza as massas e lhes transmite os preconceitos burgueses.

A verdadeira educação das massas não pode estar nunca separada da luta política independente e, sobretudo, da luta revolucionária das próprias massas. Só a luta educa a classe explorada, só a luta lhe descobre o volume de sua força, amplia seus horizontes, eleva sua capacidade, clareia sua inteligência e forja sua vontade. Por isso, inclusive os reacionários tiveram que reconhecer que 1905, ano de luta, “ano de loucura”, enterrou para sempre a Rússia patriarcal.

Examinemos mais de perto a correlação entre os operários metalúrgicos e os têxteis durante as lutas grevistas de 1905 na Rússia. Os metalúrgicos são os proletários mais bem pagos, os mais conscientes e mais cultos. Os operários têxteis, cujo número, na Rússia de 1905, superava em mais de duas vezes e meia o dos metalúrgicos, representam as massas mais atrasadas e mais mal pagas, as massas que com frequência não romperam ainda definitivamente seus vínculos familiares com o campo. E aqui nos encontramos com essa importantíssima circunstância.

As greves mantidas pelos metalúrgicos durante todo o ano de 1905 nos dão um número de greves políticas maior do que o das econômicas, embora esse predomínio esteja bem longe de ser tão grande no princípio como no fim do ano. Pelo contrário, entre os operários têxteis observamos, nos começos de 1905, um enorme predomínio das greves econômicas, que somente no fim do ano se converteu em predomínio das greves políticas. Disso se deduz com toda clareza que somente a luta econômica, que somente a luta por uma melhoria direta e imediata de sua situação, é capaz de pôr em movimento as camadas mais atrasadas das massas exploradas, de educá-las verdadeiramente e de convertê-las — em época de revolução —, no curso de poucos meses, num exército de lutadores políticos.

Naturalmente, para isso era necessário que o destacamento de vanguarda dos operários não entendesse por luta de classes a luta pelos interesses de uma pequena camada superior, como com bastante frequência os operários reformistas trataram de fazer crer, mas que os proletários atuassem como vanguarda da maioria dos explorados, incorporassem essa maioria à luta, como aconteceu na Rússia em 1905 e como deverá acontecer e acontecerá, sem dúvida alguma, na futura revolução proletária da Europa.


Inclusão 31/08/2015