História do Mundo
Volume II - O Período Moderno

A. Z. Manfred


Capítulo I - A Revolução Burguesa Inglesa, o Absolutismo Feudal na Europa dos séculos XVII e XVIII


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Ao mesmo tempo que estavam a aparecer características capitalistas nas relações de produção feudais, aumentou a riqueza e a influência da burguesia como classe capitalista. Nos países em que o capitalismo se desenvolveu com maior rapidez a burguesia deixou logo de se contentar com a protecção e a ajuda das monarquias absolutas da era feudal. A burguesia começou a aspirar ao poder para se assegurar de que todo o aparelho de coacção estatal estaria ao serviço dos interesses do capitalismo e privaria os senhores feudais, que os capitalistas consideravam parasitas ociosos, do poder de que tinham desfrutado como membros da classe dominante nos estados governados por monarquias absolutas. Tinham sido feitas tentativas várias para alcançar o poder, como se viu no volume anterior, no século XVI. Assim se interpretam, no fundo, a Reforma e a Guerra dos Camponeses na Alemanha. A primeira revolução burguesa bem sucedida foi a revolta dos Países-Baixos contra o domínio espanhol. Em ambos estes países a questão fundamental era a transferência do poder das mãos dos proprietários feudais para a burguesia e ao mesmo tempo o triunfo de um novo sistema social, o do capitalismo, sobre a antiga sociedade feudal, a transição revolucionária de uma ordem social para outra mais progressista.

Na história da Europa, e na verdade na história do Mundo, teve papel preponderante nesta questão, a revolução realizada em Inglaterra em meados do século XVII. O poder crescente da burguesia e dos sectores da nobreza que tinham interesses semelhantes, juntamente com a liquidação dos últimos vestígios dos padrões feudais da agricultura e da indústria, fizeram da Inglaterra nos séculos XVII e XVIII um país progressista e uma grande potência mundial, com muitas possessões coloniais que estavam todas a ser exploradas no interesse dos capitalistas, comerciantes e empresários ingleses e, no século XVIII, no interesse dos donos das fábricas inglesas. Foi na Inglaterra que surgiu pela primeira vez a sociedade capitalista, antes de se tomar um fenómeno mundial. Por isso a Revolução burguesa inglesa foi de grande significado para todo o curso da história mundial e os historiadores soviéticos marxistas consideram este acontecimento como marcando o início da história moderna, isto é, a história da Sociedade capitalista.

Prelúdio à Revolução Inglesa

À medida que se ia tornando mais poderosa, a burguesia inglesa começou a exprimir o seu descontentamento em relação ao poder absoluto do rei em termos ainda mais contundentes. Entretanto o Rei e os seus leais seguidores não compreenderam que, com o êxito do desenvolvimento da nova economia capitalista e o aparecimento da classe burguesa, o feudalismo estava condenado.

Os primeiros reis da nova dinastia Stuart, Jaime I (1603 - 1625) e Carlos I (1625- 1649), lutaram, apesar da pressão do Parlamento, para afirmar o seu poder ilimitado de reis absolutos.

A sua política financeira foi recebida com a maior frieza.

De acordo com uma lei datada no século XIV só se podiam introduzir novos impostos com o consentimento do Parlamento e em mais de uma ocasião este recusou-se a aprovar novos impostos. No reinado de Carlos I (filho de Jaime I) o conflito entre a Coroa e o Parlamento atingiu o auge. Em 1628, o Parlamento apresentou uma Petição dos Direitos ao Rei, que o dissolveu no ano seguinte e não voltou a reuni-lo durante onze anos. O principal conselheiro de Carlos era na altura Thomas Wentworth, Conde de Strafford, que o aconselhou a desafiar o Parlamento e a constituir um governo pessoal recorrendo às suas prerrogativas de rei. Ora isto só teria sido possível se não acontecesse que o Rei não tinha, nem o direito de introduzir novos impostos sem o consentimento do Parlamento, nem o controlo absoluto do exército.

Para obter o controlo do exército, Carlos enviou o seu favorito, o Conde de Strafford, à Irlanda como Lord Deputy, em 1631, com o encargo de reunir um exército, a pretexto de esmagar uma revolta Irlandesa.

Numa tentativa para obter dinheiro, em 1635, Carlos reintroduziu o imposto lançado sobre a construção de navios, imposto que tinha sido decretado antes de existir Parlamento, quando se exigia dinheiro aos habitantes das regiões costeiras principalmente para ajudar a repelir os ataques dos Normandos. O rei também tentou cobrar outros impostos, mas encontrou firme oposição do Parlamento.

Em 1631 estalou uma revolta na Escócia em resposta à tentativa do rei Carlos para estender o absolutismo inglês aquela parte do Reino, e de introduzir lá a Igreja anglicana que era leal à Coroa, ao passo que naquela época o calvinismo, na sua forma escocesa, o presbiterianismo, se tinha enraizado na Escócia.

Desde o início da revolta que a situação parecia extremamente grave para o rei Carlos. Como tinha pouco dinheiro e não dispunha de exército foi obrigado a convocar o Parlamento. Em Abril de 1640, reuniu-se o Parlamento após um intervalo de onze anos: contudo, não só o novo Parlamento se recusou a dar dinheiro ao Rei como também continuou a entravar exigências no sentido de diminuir o poder real, e entrou mesmo em negociações secretas com os Escoceses. O rei dissolveu o Parlamento uma vez mais, passadas poucas semanas, e este Parlamento acabou por ser conhecido por «Pequeno Parlamento».

O rei entretanto continuava com más finanças e a revolta ganhava terreno, de maneira que em Novembro do mesmo ano Carlos foi obrigado a convocar mais uma vez o Parlamento. Desta vez encontrou uma oposição ainda mais firme do que anteriormente. Consciente da difícil posição do Rei, o Parlamento insistiu em que ele acatasse as suas exigências.

Logo as paredes de Londres se cobriram de slogans revolucionários e o governo teve medo de dissolver o Parlamento, que na verdade estava destinado a tornar-se o Parlamento da Revolução burguesa inglesa. Veio a ser chamado Longo Parlamento, pois não foi dissolvido durante doze anos.

O Parlamento conseguiu condenar o Conde de Strafford, por uma lei de proscrição, à pena de morte como traidor. Não muito tempo depois, ia acontecer o mesmo a outro campeão do absolutismo, o arcebispo Laud. O Parlamento aboliu os tribunais especiais e o direito de o Rei lançar impostos sobre a construção de barcos, reafirmou o seu direito a controlar a cobrança de impostos e em Novembro de 1641 impôs o «grande protesto», em que apresentava uma lista dos actos ilegais do Rei e exigia que todos os postos importantes do Reino fossem ocupados por pessoas «em quem daí em diante o Parlamento tivesse razões para confiar».

Enraivecido, o Rei apareceu no Parlamento e ordenou que fossem presos os chefes da oposição, mas estes já se tinham escondido na City (as principais casas comerciais e bancos que pertenciam à burguesia estavam situadas na City e mantinham-se firmemente do lado da oposição). A agitação espalhou-se pela cidade. Grandes grupos de marinheiros vieram das docas para defender os chefes da oposição. Em Janeiro de 1642 o Rei deixou Londres em direcção ao noroeste e começou a reunir os seus sequazes leais. Em Agosto declarou guerra ao Parlamento.

O Começo da Revolução

Os proprietários feudais do economicamente atrasado Noroeste reuniram-se em volta da Coroa. O Sudeste e Londres, mais desenvolvidos, a burguesia e a parte da nobreza com interesses semelhantes apoiaram o Parlamento. Desde o início da Grande Rebelião, a Marinha esteve do lado do Parlamento e isto serviu para proteger a Inglaterra de interferências por parte das monarquias absolutas do Continente. A Igreja de Inglaterra apoiou o Rei, enquanto os puritanos eram leais defensores do Parlamento e os nomes dos vários grupos deste período provinham mesmo das várias tendências do movimento Protestante.

O partido da burguesia rica que desempenhava o papel principal no Parlamento era conhecido como sendo o dos Presbiterianos que defendiam a Igreja calvinista unida e administrada por um conselho de anciãos. O partido da nobreza inferior e da burguesia eram os Independentes, que defendiam a independência religiosa de todas as congregações religiosas. Quando a guerra começou, o Rei tinha 0 poder. Os senhores que lutaram a seu lado eram lutadores profissionais e a sua cavalaria era disciplinada e experimentada. As forças reunidas pelo Parlamento, estavam insuficientemente organizadas e eram mal equipadas. Além disso, os comandantes do exército parlamentar vinham predominantemente da classe dos pequenos proprietários e tomavam parte na campanha com pouco entusiasmo, sempre dispostos a uma rápida reconciliação com o Rei. Os presbiterianos do Parlamento, que eram a maioria, contavam também com tal reconciliação.

A política hesitante do Parlamento e os revezes sofridos pelo seu exército deram origem ao descontentamento entre os sectores radicais da sociedade inglesa, que desde logo cerraram fileiras e apoiaram os independentes. Os Independentes eram chefiados por Oliver Cromwell (1599-1658), lavrador de meios modestos, e reuniram um exército de cavalaria que incluia camponeses, artesãos e vários representantes da pequena burguesia ao lado dos firmes e ardentes adeptos do Calvinismo: os Independentes. A disciplina de aço que reinava na cavalaria de Cromwell (os seus homens vieram a ser chamados «braços de ferro») conseguiu obter a primeira vitória sobre o Rei, em Marston Moor, em Julho de 1644. Depois disto, o Parlamento permitiu a Cromwell reformar o Exército em geral e o seu novo exército modelo infligiu o último golpe à causa do Rei, na batalha de Naseby em 1645. Foram feitos muitos prisioneiros, e foi confiscada toda a artilharia dos Realistas, uma grande parte das suas outras armas e a correspondência diplomática do Rei. Esta correspondência revelou que, enquanto o Rei entabulava negociações com o Parlamento para um armistício, correspondia-se também com os governos europeus pedindo-lhes ajuda, e descrevia em cartas a amigos os cruéis castigos que aplicaria aos «rebeldes» se a sua causa saísse vitoriosa. Estas cartas foram publicadas e suscitaram indignação geral. Em consequência disso, a autoridade do Rei sofreu um duro golpe.

Depois da batalha de Naseby, Carlos sofreu mais algumas derrotas. Em Março de 1646 quase todas as posições realistas se tinham rendido, e o exército e o Rei tinham fugido para a Escócia. Contudo, os Escoceses, que tinham recebido 400 000 libras pela ajuda que as suas tropas tinham prestado ao exército de Cromwell, entregaram o Rei aos Ingleses, em Janeiro de 1647.

Durante a guerra, o Parlamento promulgou várias reformas com o objectivo de liquidar parcialmente as práticas feudais. Parte das terras da Coroa e da Igreja, e as terras que pertenciam aos que apoiavam o Rei, foram confiscadas e vendidas. A abolição das casas senhoriais, em 1646, teria também importantes consequências. Todas as obrigações relacionadas com os proprietários destas casas foram revogadas e as terras que pertenciam à nobreza transitaram para a posse da classe média. Entretanto, embora os bens da classe média ficassem livres de todos os vestígios de vassalagem feudal, as terras dos camponeses continuaram sujeitas às antigas condições, ficando obrigados a pagar toda a espécie de impostos e de prestar serviços aos senhores, e assim nada ganharam com a Revolução. A Grande Rebelião foi uma luta entre a burguesia, aliada à classe média do campo, contra a monarquia, os senhores poderosos e a Igreja estabelecida.

A Segunda Guerra Civil

Depois de o Rei ter sido entregue ao exército como prisioneiro, os presbiterianos consideraram no Parlamento que a revolução tinha acabado e estavam prontos a negociar uma paz com o Rei. Contudo, o ardor revolucionário das massas populares que não tinham ganhado nada com os cinco anos de guerra, ainda não estava acalmado. Os soldados rasos do exército preferiram continuar a lutar e surgiu um novo partido, que ficou sob a designação de levellers. Chefiado por John Lilburne (1618 - 1657), que exigia o sufrágio universal,a abolição da monarquia e a volta da terra interdita aos camponeses. O poder político ficou desde logo nas mãos do exército e o Parlamento resolveu licenciá-lo a pretexto de que a guerra tinha acabado. Este decreto provocou indignação no exército e os regimentos procederam à eleição dos seus representantes agitadores para formarem conselhos de representantes de soldados, que exigiram acção decisiva dos Grandes (nome por que eram conhecidos entre os soldados rasos os oficiais ou chefes militares Independentes). Para manter os soldados sob controlo, Cromwell formou o Conselho Geral do Exército, no qual os soldados estavam sob a vigilância dos seus oficiais. Pouco depois o exército ocupava Londres e dominava praticamente o país.

No entanto, ia estalar agora um conflito no exército. Os oficiais e Levellers não chegavam a acordo quanto à natureza da futura estrutura política do Estado. Os Grandes temiam o sufrágio universal, alegando que os pobres podiam alcançar o poder e acabar com a propriedade privada.

Este conflito de interesses levou os levellers e os soldados rasos à revolta. Cromwell esmagou a revolta e desmantelou o Conselho do Exército permitindo apenas o Conselho de Oficiais.

Surgiram então elementos contra-revolucionários, que se aproveitaram deste conflito de interesses dentro do exército. Os Presbiterianos do Parlamento fizeram um acordo com os Realistas e o Rei conseguiu escapar e refugiar-se entre os senhores escoceses que reuniram um exército de 20 000 homens e marcharam sobre a Inglaterra para se defrontarem com o exército de Cromwell.

Bem conscientes do perigo da situação, os Grandes e os Levellers cerraram mais uma vez fileiras e o exército de Cromwell conseguiu derrotar os Escoceses. O Rei foi preso e chamado a justificar todo o derramamento de sangue feito por sua ordem e os prejuízos que tinha trazido à causa de Deus e da pobre Nação Inglesa. O exército expulsou os Presbiterianos do Parlamento, e os Independentes, que continuaram nas suas funções, condenaram o Rei à morte por alta traição. Em 30 de Janeiro de 1649 o Rei foi decapitado e a Inglaterra foi proclamada República sem Rei nem Câmara dos Lordes.

Cromwell dissolvendo o que restava do Longo Parlamento

Em 1653, Cromwell dissolveu o que restava do Longo Parlamento e em 1654 foi proclamado Lorde Protector da República, tomando-se assim único chefe da Inglaterra. Enquanto esteve no poder tratou cruelmente tanto a oposição leveller como a oposição realista. Esmagou revoltas na Irlanda e na Escócia e declarou estas regiões partes integrantes do Estado inglês para sempre (1654). Cromwell obteve também alguns êxitos em política externa. Depois de derrotar a principal rival do comércio Inglês, a Holanda, e de a obrigar a reconhecer o Acto de Navegação que fora elaborado em 1651 e segundo o qual as mercadorias vendidas em Inglaterra, estas só podiam ser trazidas para os portos ingleses por navios ingleses ou pelos navios do país que as produzisse. O Acto de Navegação infligiu um golpe desastroso no comércio holandês. Cromwell tomou à Espanha a ilha da Jamaica, que era na altura o centro do comércio de escravos, e Dunquerque nos Países Baixos, aos Espanhóis.

Em 1658, Cromwell morreu no auge do poder. Contudo, a burguesia, nova classe dominante, temendo uma nova vaga revolucionária e o envolvimento de largas massas do povo, tratou logo de restaurar a monarquia, na pessoa de Carlos II (1660-1695), a quem sucedeu Jaime II (1685-1688). Quando estes últimos reis Stuart tentaram voltar à política dos seus antecessores, a burguesia expulsou a dinastia de uma vez para sempre, por meio daquilo que ficou a chamar-se a Gloriosa Revolução, quando, sem qualquer derramamento de sangue, Guilherme de Orange e sua mulher Maria, parentes próximos dos Stuarts, foram convidados a subir ao trono. Este acontecimento marcou a vitória final do Parlamento, que tornou possível um reflexo mais realista do jogo dos interesses de classe no país, do que o fizera o absolutismo dos Stuart.

A Revolução Inglesa eliminou os últimos vestígios do feudalismo e deu origem a uma nova monarquia cujos poderes foram limitados pelo Parlamento. A essência do sistema parlamentar estava em que o país era governado pelo partido que obtivesse a maioria dos votos em eleições parlamentares. Os ministros eram escolhidos de entre os líderes do partido maioritário e o governo era responsável perante o Parlamento. Isto significava que se não fosse dado ao governo o apoio do Parlamento, este seria obrigado a abandonar o poder. No entanto, os partidos dominantes no Parlamento estavam longe de representar os verdadeiros interesses do povo, dado que mais não eram que um pequeno sector da população, homens de nascimento nobre ou de meios, que gozavam do direito de votar.

De um pequeno país que no século XV tinha tido uma população de não mais de 3,5 - 4 milhões e não tinha sob o seu jugo nem a Irlanda nem a Escócia, a Inglaterra transformara-se agora numa grande potência europeia, que dominava não só todo o território das Ilhas Britânicas mas também vastos territórios na América do Norte e toda a Índia.

No século XVI, a Inglaterra conseguiu vitórias sobre a Espanha; no século XVII, sobre os Holandeses; no século XVIII sobre a França. Este aumento do poder da Inglaterra foi uma consequência directa do desenvolvimento capitalista do país.

A Revolução Inglesa foi a primeira revolução burguesa com repercussões que se fariam sentir muito para além das suas fronteiras e que marcariam um ponto de viragem na história. Contudo, muito tempo tinha ainda de passar antes de a economia capitalista e os governos burgueses se espalharem por toda a Europa.

O Absolutismo em França

Entretanto, em França, onde os elementos capitalistas tinham aparecido logo no final do século XV e as manufacturas se haviam desenvolvido no século XVI, outros cento e cinquenta anos haviam de passar-se antes do advento da Revolução burguesa (1789). A revolução em Inglaterra deu-se durante o apogeu da monarquia absoluta em França, isto é, durante o reinado de Luís XIV, «Le Roi Soleil», como os seus contemporâneos lisonjeiramente lhe chamavam. Luís XIV subiu ao trono em 1643 quando tinha apenas 5 anos. Tomou as rédeas do governo em 1661 e iria reinar por mais de meio século (1661 -1715). «Serei o meu próprio ministro», declarou o jovem rei, e na verdade ele ia ser um chefe todo-poderoso, cuja vontade determinava o destino de todos os seus súbditos, em todo o reino.

Durante muito tempo, o dito L'état c’est moi foi atribuído a Luís XIV e embora nos nossos dias a afirmação seja considerada mais como lenda do que como um facto, este sentimento provém de um reflexo do estado das coisas na França daquele tempo. O rei e a sua «entourage» imediata na corte tinham tal poder e viviam no meio de um tal luxo, que lhes deve ter parecido que a vida deste grande Estado começava e acabava nos magníficos salões e câmaras da Corte.

Ao tempo de Luís XIV chamou-se «la grande époque» ou «le siècle de Louis le Grand». Durante o seu reinado foi construído um novo palácio real em Versalhes que, pela sua extravagância, luxo e brilho, fazia todas as outras residências reais da Europa parecerem insignificantes. Ora muitos dos cortesãos nobres seguiram o exemplo do rei e construíram por sua vez magníficas residências e castelos. Durante o reinado de Luís, a França ia travar guerras incessantes contra a Espanha, a Holanda, a Inglaterra, a Suécia e a Áustria, nas quais as tropas francesas obtiveram muitas grandes vitórias e os chefes franceses alcançaram grande reputação. A França de Luís XIV parecia aos olhos de todo o mundo, o mais poderoso estado da Europa.

Contudo, à medida que passavam os anos e as décadas desta «grande era», o povo comum, os camponeses e artesãos (em resumo, aqueles cujo trabalho ia alimentar e vestir a nobreza, o clero, o exército, a corte e o próprio rei) acabaram por compreender que as suas condições de vida estavam a piorar e que o país estava a empobrecer e que cada novo dia trazia novos e mais pesados fardos para eles. Estalaram então revoltas populares em várias partes do reino, que só com grande dificuldade foram dominadas, o que serve para ilustrar a verdadeira atitude do povo francês para com Louis le Grand. Quando este morreu, em 1715, o seu funeral teve de ser feito em segredo para evitar uma grande revolta.

Durante o reinado de Luís XV (1715 - 1774) o estado de coisas nesta sociedade feudal absolutista tomou-se ainda mais crítico. A nobreza dominante e, particularmente, os seus escalões superiores, isto é, o rei e os seus cortesãos, preferiram ignorar a situação desesperada das tropas arrasadas pela guerra, o facto de as suas extravagantes despesas irem muito além dos meios do Tesouro Público, os sofrimentos do campesinato que morria de fome e o descontentamento da burguesia, e passavam o seu tempo em bailes dispendiosos, grandes orgias, recepções e caçadas. As enormes despesas da Corte e dos palácios da alta e da baixa nobreza, as distracções e um sem-número de frivolidades não conheciam limites. Não se pensava no futuro. Diz-se que Luís XV afirmou: «Après nous le déluge». O Rei, os seus cortesãos e a maior parte da nobreza viviam a sua vida de acordo com este código, e todos esperavam não sobreviver à Idade de Ouro.

A única fonte de rendimentos desta nobreza parasita era a exploração do campesinato e os impostos sobre a burguesia. O roubo ávido do campesinato levou ao empobrecimento e a uma crise geral da agricultura francesa. Os extremos a que se chegara com o objectivo de intensificar a exploração feudal do campesinato no século XVIII demonstram que a nobreza ia cavando a sua sepultura debaixo dos próprios pés.

A maré do descontentamento generalizado subiu rapidamente. Os camponeses não queriam nem podiam continuar a viver como até então. No decurso de todo um século, e particularmente nos meados desse século e na sua segunda metade, grandes revoltas camponesas haviam abalado a estrutura da monarquia francesa. Os trabalhadores empobrecidos das cidades saíram também para a rua em várias ocasiões, atacando os celeiros e os depósitos de alimentos. A burguesia, que nesta altura constituía a classe mais instruída e economicamente mais poderosa, não estava disposta a aceitar quer a sua falta de direitos quer o poder arbitrário da corte e da nobreza. Todas as classes exploradas e não privilegiadas, todo o oprimido terceiro-estado se juntaram para se oporem à minoria privilegiada.

O Iluminismo

O descontentamento entre as fileiras da burguesia e as massas populares encontrou expressão gráfica nos escritos filosóficos, políticos e económicos e na literatura do Iluminismo do século XVIII, verdadeira Idade de Ouro da cultura francesa.

Os escritores do Iluminismo não representavam um grupo unido, e distinguiam-se até pela sua própria diversidade. Um dos primeiros, o simples padre rural Jean Meslier (1664-1729), manter-se-ia sempre obscuro. Foi só muitos anos depois da sua morte que o manuscrito do seu «Testamento» começou a circular clandestinamente. Nesta obra, ele exprime ideais materialistas, criticando o Estado e a opressão feudal.

Ao contrário de Meslier, os iluministas da velha geração. Montesquieu (1689- 1755) e Voltaire (1694- 1778) ganharam muita fama ainda em vida. Montesquieu falou como severo e profundo crítico do despotismo e do poder arbitrário do rei absoluto nos seus escritos políticos e filosóficos, Cartas Persas e O Espírito das Leis. Pôs em relevo as injustiças da França despótica, para as comparar com ideais de Liberdade, sobretudo de liberdade política. Montesquieu é justamente considerado como o pai do liberalismo burguês.

Voltaire, escritor de brilhante ironia e espírito, foi autor de tragédias, poesias, escritos históricos, romances filosóficos, poemas satíricos, tratados e artigos políticos. Foi um corajoso e inveterado inimigo da Igreja e líder do anti-clericalismo e desprezava a moral e os dogmas da sociedade feudal, e a desordem e o vício inerentes ao absolutismo. Contudo, no seu construtivo programa de reformas, e na sua atitude para com o povo, era reservado e moderado. Mas o seu papel no Iluminismo foi enorme e devido não tanto às suas opiniões políticas como ao seu espírito livre de investigação e ao cepticismo que inspirou à nova geração, levando-a assim directa ou indirectamente para o caminho da luta revolucionária.

Filósofos deste movimento foram também o médico Julien de la Mettrie (1709- 1751), autor do livro L’Homme Machine, que tanta sensação fez no seu tempo; Denis Diderot (1713- 1784), principal editor e iniciador da famosa Enciclopédia em muitos volumes e de algumas obras filosóficas e políticas; Helvetius (1715-1771) que no seu livro De l’Esprit, criticou a fé religiosa e a Igreja, e o despotismo; e Holbach (1723-1789), autor do penoso Système de la Nature. O materialismo destes filósofos ainda continha várias incoerências e era ainda do tipo mecanicista. Mesmo assim, desempenharam um papel importante e positivo no desenvolvimento cultural daquela época, lutando contra o obscurantismo e a ignorância, divulgando audaciosamente novas ideias e desafiando a religião estabelecida e as doutrinas medievais.

Os economistas Quesnay, Turgot e Du Pont de Nemours, que depois conhecidos por fisiocratas, pronunciaram-se a favor da liberdade ilimitada de iniciativa económica, ideias que correspondiam aos interesses da burguesia.

A par destes escritores e iluministas cujos escritos reflectiam tão claramente a ideologia da burguesia jovem e revolucionária daquele período, havia outros cujas obras faziam eco das aspirações e sonhos das massas populares. O escritor autodidacta Jean Jacques Rousseau (1712-1778) ia exercer uma influência extremamente forte sobre a nova geração, e, no entanto, foi obrigado a passar toda a vida como um vagabundo sem casa e sem dinheiro. Apesar das contradições dos romances, da poesia e dos escritos filosóficos e políticos de Rousseau, eles teriam um efeito revolucionário entre os seus contemporâneos. Duas ideias principais estavam no fulcro da sua atracção: a ideia da igualdade, que Rousseau tratou como um fenómeno não só político mas também social, e a ideia do poder do povo. O seu sonho de uma república ideal onde impera a igualdade, república igualitária de pequenos produtores-proprietários que não conheciam pobreza nem riqueza, era, é claro, pouco realista, mas reflectia as velhas aspirações do campesinato, ansioso pela terra que lhe fora tirada pelos senhores feudais, os sonhos dos trabalhadores de uma outra sociedade mais justa de que eles próprios tinham uma consciência ainda pouco nítida.

As mal definidas aspirações sociais das camadas mais baixas da sociedade daquele tempo também encontraram expressão nos escritos dos comunistas utópicos: Morelly, autor de um tratado intitulado Le Code de la Nature, e o Padre Mably, autor de numerosas obras políticas. Tanto Mably como Morelly submeteram todo o sistema social baseado na propriedade privada a uma dura crítica. Mas esta ordem comunista ideal, «natural» — a Idade de Ouro da Humanidade — era considerada por eles como ligada ao avanço do Iluminismo.

Apesar de a diversidade de expressão, as ideias dos homens do Iluminismo tinham em comum uma ousada resolução de submeter a uma crítica impiedosa todas as instituições sociais, dogmas e cânones da já obsoleta sociedade feudal da idade absolutista. Esta barragem ideológica havia de preceder o ataque furioso revolucionário directo das massas.

O Iluminismo desempenha um papel ainda mais dramático em França durante o século XVIII, altura em que já não era um fenómeno exclusivamente francês, mas um movimento que abrangia toda a Europa, a Alemanha, a Rússia, a Itália e a Espanha, ou seja todos os países onde fermentava a luta contra o absolutismo feudal que impedia o progresso.

As Monarquias da Europa Oriental

Enquanto em França o desenvolvimento capitalista pelo menos progredia, embora muito mais lentamente do que na Inglaterra, na Europa Oriental o modo feudal de produção e os estados feudais estavam ainda profundamente entrincheirados e as ideias revolucionárias, mesmo no tempo da Revolução Francesa, teriam ali pequena repercussão. Contrastando com o que se passava em Inglaterra, os desenvolvimentos capitalistas que ocorriam nos países progressistas da Europa, iam dar, na Europa Ocidental, origem a uma vaga de reacção feudal. No Nordeste e no Sudeste do continente surgiram dois grandes estados — a Prússia e a Áustria — cujas economias se baseavam nos latifúndios da nobreza, que por sua vez se apoiava no trabalho dos camponeses ligados às suas terras. Isto implicou um regresso às formas mais primitivas de exploração feudal explicado pelo facto de que os países Europeus a leste do Elba se tornaram fontes abastecedoras de produtos agrícolas para os mercadores da Europa ocidental, onde o capitalismo já se afirmava. Os proprietários prussianos, polacos e austríacos expulsaram os camponeses das suas antigas terras arrendadas, alargaram a área de terra arável, utilizando a prestação obrigatória de trabalho dos camponeses, ligando-os às grandes propriedades para sempre e privando-os de toda a liberdade pessoal. Os latifundiários que vendiam os seus produtos em grande quantidade no Ocidente, enriqueceram com os lucros, entrincheirando-se mais na sua posição de sector privilegiado da sociedade. Estes Estados representavam um bastião do feudalismo e da reacção na Europa oriental e tratavam continuamente guerras agressivas. Com este objectivo continuaram a aumentar os seus exércitos, que eram comandados por membros da nobreza (na Prússia pelos junkers) criados numa atmosfera formada por séculos de hostilidades contra os povos da Europa Oriental, alguns dos quais conseguiram submeter. Alargando o seu território à custa dos pequenos Estados alemães, os interesses prussianos e austríacos em breve colidiram, quando um e outro tentaram unificar a Alemanha sob a sua hegemonia. Nenhum deles teve êxito nesta aventura e não voltaram a ser feitas novas tentativas até ao século XIX.

A Polónia foi um caso especial. Aqui, como na Prússia, tinha-se desenvolvido uma agricultura baseada na prestação de trabalho dos camponeses e poucas cidades se tinham tornado centros industriais importantes. Além disso, os habitantes das cidades na sua actividade económica mostravam-se muito dependentes do sistema agrícola existente e apoiavam os nobres polacos e a ordem feudal, por razões políticas e económicas. A audaciosa independência política dos nobres polacos significava que a Polónia só nominalmente era uma monarquia, enquanto na prática todas as grandes propriedades eram entidades independentes e o país era mais uma república do que uma monarquia. Todas as questões de Estado eram decididas pelos sejms (conselhos de representantes eleitos da nobreza), mas todos os nobres polacos tinham o direito de rejeitar os decretos dos sejms e mesmo de usar a força contra a ordem existente. Em tais condições, o Estado não podia esperar manter a sua unidade, e no final do século XVIII deixou de existir, sendo a Polónia repartida entre a Áustria, a Prússia e a Rússia.


Inclusão 18/07/2016