Alguns capítulos de: Escorpião e Félix

Romance humorístico

Karl Marx

1837


Fonte para a tradução: MARX, Karl. IEinige Kapitel aus: Scorpion und Felix. Humoristischer Roman. In: MARX, Karl. Werke, Artikel, literarische Versuche bis März 1843. Herausgegeben vom Institut für Marxismus-Leninismus beim Zentralkomitee der Kommunistischen Partei der Sowjetunion und vom Institut für Marxismus-Leninismus beim Zentralkomitee der Sozialistischen Einheitspartei Deutschlands. 1. ed. Berlin: Dietz Verlag, 1975.

Tradução: Lucas Campos Ferreira (Universidade Vale do Rio Doce).

HTML: João Batalha.

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ERSTES BUCH/ PRIMEIRO LIVRO.

10. KAPITEL / 10º CAPÍTULO

Segue aqui, como prometemos no capítulo anterior, a prova de que a referida soma de 25 táleres pertence pessoalmente ao bom Deus.

Eles não têm dono! Pensamento sublime: poder algum de homem os possui; mas o augusto poder que navega sobre as nuvens circunda o universo — logo, também os referidos 25 táleres; ele os roça com suas asas, tecidas de dia e de noite, de sol e de estrelas, de montanhas gigantes e de planícies de areia sem fim, que ressoam como harmonias, como o fragor da catarata, onde a mão do terreno já não alcança — logo, também os referidos 25 táleres; e — não posso continuar, meu mais íntimo está excitado, olho para o universo e para dentro de mim e para os referidos 25 táleres: que matéria há nessas três palavras! Seu ponto de vista é a infinitude; soam como vozes de anjos; lembram o Juízo Final e o fisco; pois — era Grethe, a cozinheira, a quem Escorpião, excitado pelas narrativas de seu amigo Félix, arrebatado por sua melodia rica em chamas, dominado por seu sentimento juvenil e fresco, apertava contra o coração, pressentindo nela uma fada.(1)

Concluo, portanto, que fadas usam barba, pois Madalena Grethe — não a Madalena arrependida — ostentava, como um guerreiro honrado, costeletas e bigode; os cachos suaves se aninhavam, encrespando-se, no queixo bem talhado, que, qual rochedo em mar solitário (os homens o avistam de longe), sobressaía, a partir da bacia rasa e aguada do rosto, gigantesco e orgulhoso, consciente de sua própria elevação — cortando os ares, movendo deuses, abalando homens.(2)

A deusa da fantasia parecia ter sonhado com uma beleza barbada e ter-se perdido nos campos encantados de seu rosto alongado; e, quando despertou, era a própria Grethe quem sonhara — e coisas terríveis: que ela fosse a grande meretriz da Babilônia, o Apocalipse de João e a ira de Deus; que Ele fizera brotar um restolho pontiagudo sobre a pele sulcada por delicadas linhas onduladas, para que sua beleza não incitasse ao pecado e sua virtude estivesse protegida, como a rosa pelos espinhos, para que o mundo reconhecesse e não se incendiasse por ela.(3)

12. KAPITEL / 12º CAPÍTULO

“Um cavalo, um cavalo, meu reino por um cavalo”, disse Ricardo III;(4)

“Um homem, um homem — eu mesma por um homem”, disse Grethe.(5)

16. KAPITEL / 16º CAPÍTULO

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus; e o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória.”

Pensamento inocente, belo! Mas as associações de ideias levaram Grethe adiante: ela acreditou que o Verbo morasse nas coxas, como Tersites em Shakespeare; que Ajax tivesse tripas na cabeça e seu entendimento na barriga; ela — Grethe, não Ajax — convenceu-se e compreendeu como o Verbo se fizera carne: viu nas coxas sua expressão simbólica, contemplou a sua glória e decidiu — lavá-la.(6)

19. KAPITEL / 19º CAPÍTULO

Ela tinha, porém, grandes olhos azuis — e olhos azuis são triviais, como a água do Spree.(7)

Fala deles uma inocência tola e saudosa, uma inocência que se compadece de si mesma, uma inocência aquosa: quando o fogo se aproxima, ela se dissolve em vapor cinzento — e nada mais há por trás desses olhos; todo o seu mundo é azul, sua alma é um tintureiro de azul; mas olhos castanhos — eles são um reino ideal: uma infinita noite espiritual e cheia de engenho dormita neles, relâmpagos de alma irrompem deles, e seus olhares soam como as canções de Mignon, como uma terra distante de brasa delicada, habitada por um deus rico, que se deleita na própria profundidade e, afundado no todo do seu ser, irradia infinitude e sofre infinitude. Sentimo-nos ligados, como por encantamento: quereríamos apertar ao peito esse ser melodioso, profundo, cheio de alma, sugar o espírito de seus olhos e fazer canções de seus olhares.(8)

Amamos o mundo luxuriante e movente que se nos abre; vemos, ao fundo, pensamentos solares de altura gigantesca; pressentimos um sofrimento demoníaco, e figuras de movimento delicado dançam em roda diante de nós, acenam-nos e recuam tímidas, como a Graça, assim que são reconhecidas.

21. KAPITEL / 21º CAPÍTULO — Philologische Grübeleien / Cismas filológicas

Félix não se desprendeu com muita delicadeza dos abraços do amigo, pois não suspeitava de sua natureza profunda e sentimental e estava justamente ocupado com a continuação — de sua digestão; à qual ordenamos, de uma vez por todas, que ponha a pedra de fecho de seu grandioso operar, já que nos detém a ação.

Assim pensou também Merten, pois um golpe violento desferido por Félix fora desferido por sua larga mão histórica.

O nome Merten lembra Carlos Martel, e Félix acreditou realmente ter sido acariciado por um martelo, tamanha era a agradabilidade da sacudida elétrica que sentiu.(9)

Ele arregalou os olhos, cambaleou e pensou em seus pecados e no Juízo Final.

Eu, porém, cismei sobre a matéria elétrica, sobre o galvanismo, sobre as cartas eruditas de Franklin à sua amiga geométrica e sobre Merten, pois minha curiosidade está no máximo para descobrir o que esse nome pode esconder.(10)

Que o próprio nome descenda em linha reta de Martel não é de duvidar: o sacristão mo assegurou — embora a esse período falte qualquer eufonia.

O l transformou-se em n; e, sendo Martel um inglês, como todo versado em história sabe, e soando no inglês o a muitas vezes como o “ê” alemão, que coincide com o e de Merten, Merten poderia muito bem ser uma outra forma de Martel.(11)

A julgar por isso — já que entre os antigos alemães o nome, como se vê por vários epítetos (Krug, o cavaleiro; Raupach, o conselheiro áulico; Hegel, o anão), exprime o caráter de seu portador — Merten parece ser um homem rico e honrado, embora, por ofício, seja alfaiate e, nesta história, pai de Escorpião.(12)

Este último fato fundamenta uma nova hipótese: em parte porque ele é alfaiate, em parte porque seu filho se chama Escorpião, torna-se bastante provável que ele descenda de Marte, o deus da guerra — genitivo Martis, acusativo grego Martin, Mertin, Merten — pois o ofício do deus da guerra é cortar, na medida em que decepa braços e pernas e serra em pedaços a felicidade da terra.(13)

O escorpião é, ademais, um animal venenoso, que mata com o olhar: suas feridas são mortais, seu relâmpago de olhos esmaga — bela alegoria da guerra, cujo olhar mata, cujas consequências golpeiam o atingido com cicatrizes que sangram por dentro e já não podem ser curadas.

Como, entretanto, Merten tinha pouca natureza pagã — ao contrário, era muito cristão — parece ainda mais provável que ele descenda de São Martinho. Uma pequena confusão vocálica dá Mirtan; o i soa muitas vezes, na fala do povo, como e (por exemplo: “gieb mer” em vez de “gieb mir”); e o a, no inglês, como já indicado, frequentemente soa como “ê”, o que, no correr do tempo, transforma-se facilmente em e, sobretudo com o crescimento da cultura — de modo que o nome Merten surge muito naturalmente e significa um alfaiate cristão.(14)

Embora esta derivação seja inteiramente provável e profundamente fundada, não podemos deixar de mencionar ainda outra, que enfraquece muito nossa fé em São Martinho — que só poderia ser tomado como patrono, pois jamais, ao que sabemos, foi casado e, portanto, não poderia ter sucessor varão.

Essa dúvida parece ser removida pelo seguinte fato: toda a família de Merten tinha em comum com o pároco rural de Wakefield a propriedade de casar-se o quanto antes; logo, cedo, e de geração em geração, ostentava-se na coroa de mirto — o que, a menos que se recorra a milagres, é a única explicação de como Merten nasceu e aparece nesta história como pai de Escorpião.(15)

“Myrthen” teria de perder o “h”, pois, ao celebrar casamentos, o “ê” (Eh) se destaca — isto é, o “he” cai — de onde “Myrthen” vira “Myrten”.

“Y” é um “υ” grego e não uma letra alemã. Como, pois, conforme demonstrado, a família de Merten era um tronco autenticamente alemão e, ao mesmo tempo, uma família de alfaiates muito cristã, o “y” estrangeiro e pagão teve de transformar-se num “i” alemão; e como o casamento era o elemento predominante nessa mesma família, mas “i” é uma vogal estridente e impetuosa (embora os casamentos dos Merten fossem muito suaves e brandos), ele foi transformado em “eh” e, depois, para que a mudança ousada não chamasse atenção, em “e” — cuja brevidade também sugere a decisão ao fechar o matrimônio — de modo que “Myrthen”, no alemão rico de sentidos “Merten”, alcança a forma suprema de perfeição.(16)

Segundo essa dedução, teríamos o alfaiate cristão de São Martinho, a coragem maciça de Martel, a rápida decisão do deus da guerra Marte, ligados ao que há de honroso, que ressoa dos dois e em “Merten” — de modo que essa hipótese reúne em si todas as anteriores e, ao mesmo tempo, as derruba.

De opinião diversa é o escoliasta, que, com grande diligência e esforço continuado, redigiu comentários ao velho historiador de que nossa história foi extraída.

Embora não possamos aderir a sua opinião, ela merece uma apreciação crítica, pois nasceu do espírito de um homem que, a uma erudição descomunal, aliava grande habilidade em fumar — cujos pergaminhos, envoltos pelo santo vapor do tabaco, foram preenchidos de oráculos numa inspiração pítica de incenso.(17)

Ele crê que “Merten” deva provir do alemão mehren (“multiplicar”) e de Meer (“mar”), porque os casamentos dos Merten “se multiplicaram” como areia ao “mar”; e porque, além disso, no conceito de um alfaiate se esconderia o conceito de um “multiplicador”, já que ele faz de macacos homens. Sobre essas pesquisas sólidas e profundas construiu sua hipótese.(18)

Quando a li, tomou-me como um assombro vertiginoso; o oráculo do tabaco me arrebatou — mas logo despertou a razão, fria e discriminadora, e lançou as seguintes objeções.

No conceito de um “aumentador/multiplicador”, que eu até posso conceder ao dito escoliasta no conceito de um alfaiate, de modo algum deve estar incluído o conceito de um “diminuídor”, pois isso seria uma contradictio in terminis — o que, para as senhoras, ele colocou como Deus no diabo, o espírito (wit) numa roda de chá, e a elas mesmas como filósofas.(19)

Se, porém, de “Mehrer” se fez “Merten”, então a palavra foi evidentemente diminuída por um “h” — logo, não foi aumentada; o que prova ser substancialmente contraditório à sua natureza formal.

Logo, “Merten” de modo algum pode descender de mehren; e que tenha nascido de Meer é refutado pelo fato de que as famílias Merten jamais caíram na água, tampouco foram tarantuladas de fúria, mas sim uma piedosa família de alfaiates — o que contradiz o conceito de um mar que se enfurece em altas ondas; razões pelas quais se conclui que o referido autor, apesar de sua infalibilidade, errou, e que nossa dedução é a única correta.

Depois dessa vitória, estou cansado demais para continuar e quero deleitar-me na felicidade da autossatisfação — da qual, como afirma Winckelmann, um momento vale mais do que todo o elogio da posteridade, embora eu esteja tão convencido disso quanto Plínio, o Moço.(20)

22. KAPITEL / 22º CAPÍTULO

“Para onde quer que olhes, nada há senão mar e ar:
aqui, ondas inchadas; ali, nuvens ameaçadoras;
entre ambos rugem ventos num turbilhão desmedido;
não sabe a onda do mar a que senhor obedecer.
O piloto está incerto: nem o que fuja, nem o que busque encontra;
em males ambíguos, a própria arte se espanta.”(21)
“Para onde quer que olhes, só vês Escorpião e Merten:
aquele inchado de lágrimas; este, enevoado de ira.”
“Entre os dois estronda, como um enxame de palavras que ruge ao infinito;
não sabe a quem servir — ouve o mar que se encapela.”
“Eu, o reitor/piloto, oscilo; e o que omito, o que escrevo,
não encontro: diante do escândalo, a arte rasteja pelos cantos.”(22)

Assim conta Ovídio, em seus libri tristium, a triste história — à qual a seguinte sucede a anterior. Vê-se: ele já não sabia como se socorrer; eu, porém, narro como segue:—

23. KAPITEL / 23º CAPÍTULO

Ovídio estava sentado em Tomis, para onde o lançou a ira do deus Augusto, porque possuía mais gênio do que entendimento.(23)

Ali murchou, entre bárbaros selvagens, o delicado poeta do amor — e o próprio amor o derrubara. Sua cabeça pensativa apoiava-se na mão direita e olhares ansiosos se estendiam ao longínquo Lácio. O coração do cantor estava quebrado e, contudo, ainda precisava esperar; e, contudo, sua lira não podia calar-se, e ardia, em canções melodiosas e de doce eloqüência, a sua saudade e a sua dor.

Em torno dos membros do velho frágil zumbia o vento norte, enchendo-o de arrepios desconhecidos, pois ele florescera no ardente país do sul; sua fantasia ali enfeitara seus jogos luxuriantes e quentes com vestes de esplendor; e quando esses filhos do gênio eram livres demais, a Graça punha em torno dos ombros sua coroa de véu divino e discretamente velador, de tal modo que as dobras esvoaçavam longe e choviam gotas mornas de orvalho.

“Em breve, cinzas, pobre poeta!” — e uma lágrima rolou pela face do ancião, quando — ouviu-se, profundamente comovida contra Escorpião, a poderosa voz de baixo de Merten.———

27. KAPITEL / 27º CAPÍTULO

“Ignorância — ignorância sem limites.”

“Porque (refere-se a um capítulo anterior) seus joelhos se inclinavam demais para um certo lado!” — mas falta o determinado, o determinado; e quem poderia determiná-lo, quem sondar qual lado é o direito, qual o esquerdo?

Diz-me, mortal: de onde vem o vento? Ou Deus carrega um nariz no rosto? — e eu te direi o que é direita e esquerda.(24)

Nada senão conceitos relativos: é para beber loucura, delírio, dentro da sabedoria!

Ó! em vão é todo o nosso esforço, quimera a nossa saudade, até que tenhamos sondado o que é direita e esquerda — pois à esquerda Ele porá os bodes, e à direita, as ovelhas.(25)

Mas se Ele se virar, tomar outra direção, porque sonhou à noite, então os bodes ficam à direita e os piedosos à esquerda — segundo nossas míseras opiniões.

Determina-me, portanto, o que é direita e esquerda, e todo o nó da criação está desatado: Acheronta movebo; deduzirei com exatidão onde tua alma virá a colocar-se; donde concluo ainda em que degrau estás agora — pois aquela relação originária pareceria mensurável, já que teu ponto de vista seria determinado pelo lado do Senhor; o teu, aqui, porém, pode ser medido pela espessura da tua cabeça. Eu me sinto tonto; se aparecesse um Mefistófeles, eu viraria Fausto — pois é claro: nós todos, todos somos um Fausto, já que não sabemos qual lado é o direito, qual o esquerdo. Nossa vida é, portanto, um circo: corremos para lá e para cá, procuramos os lados, até cairmos na areia e o gladiador — isto é, a própria vida — nos mata. Precisamos de um novo redentor, pois — pensamento torturante, tu me roubas o sono, tu me roubas a saúde, tu me matas — não conseguimos distinguir o lado esquerdo do direito; não sabemos onde eles estão.(26) ———

28. KAPITEL / 28º CAPÍTULO

“Evidentemente: na lua — na lua ficam as pedras-da-lua; no peito das mulheres, a falsidade; no mar, areia; e na terra, montanhas!”, respondeu um homem que bateu à minha porta sem esperar que eu o chamasse para entrar.

Depressa empurrei meus papéis para o lado e disse-lhe que me alegrava muito de até aqui não o ter conhecido, porque assim me crescia o prazer de conhecê-lo; que ele ensinava grande sabedoria; que todas as minhas dúvidas estavam, por ele, apaziguadas. Porém — por mais rápido que eu falasse, ele falava ainda mais rápido: sons sibilantes se enfiavam entre seus dentes; o homem inteiro parecia — como eu, com calafrio, percebi ao examiná-lo de perto — uma lagartixa ressecada; nada além de lagartixa, saída rastejando de alvenaria apodrecida.

Ele era de estatura atarracada, e seu porte tinha muita semelhança com o do meu fogão. Seus olhos podiam ser antes verdes que vermelhos e antes alfinetes do que relâmpagos; ele próprio, porém, merecia antes o nome de duende do que de homem.

Um gênio! Reconheci-o rápida e seguramente, pois seu nariz saltara para fora da cabeça como Palas Atena do crânio do Pai-de-todos Zeus; daí eu também explicava seu delicado rubor escarlate, que apontava para origem etérea — enquanto a própria cabeça poderia ser chamada de sem cabelo, a menos que se quisesse denominar “cobertura” uma grossa crosta de pomada que, com outros produtos do ar e das origens, vicejava na montanha primitiva.

Tudo nele indicava altura e profundidade; mas sua fisionomia parecia denunciar um homem de processos e papéis, pois as bochechas eram como tigelas lisas e ocas — e tão protegidas da chuva por ossos que se projetavam de modo gigantesco, que se poderia nelas depositar papéis e decretos de governo.

Em suma, de tudo se verá que ele teria sido o próprio deus do amor — se não se parecesse consigo mesmo; e que seu nome soaria doce como “amor” — se não lembrasse antes um arbusto de zimbro.(27)

Pedi-lhe que se acalmasse, pois ele afirmava ser um herói; ao que eu, modestamente, repliquei que os heróis eram um tanto melhor constituídos; que os arautos, ao contrário, tinham uma voz mais simples, menos combinada e mais sonora; e que Hero, por fim, é uma beleza transfigurada — uma natureza verdadeiramente bela, em que forma e alma lutam para atribuir a si a perfeição; portanto, não convinha ao seu amor.(28)

Ele, porém, retrucou que — que ele tinha uma ossatura forte; que tinha uma s‑s‑sombra tão boa e ainda melhor que a de outras pessoas, pois lançava mais s‑s‑sombra do que luz; que, portanto, sua esposa poderia refrescar-se à sua sombra, prosperar e até virar ela mesma uma s‑s‑s‑sombra; que eu era um h‑h‑horrível homem e, além disso, um gênio de trapos ou um idiota; que ele se chamava Engelbert e que o n‑nome soava m‑m‑melhor do que S‑S‑Scorpião; que eu me enganara no capítulo 19, pois olhos azuis eram m‑m‑mais bonitos do que castanhos; que olhos de pomba eram os mais espirituosos e que ele próprio, embora não fosse pomba, era ao menos “surdo” para a razão; e, além disso, a‑a‑amava o majorato e possuía um armário de lavar.(29)

“E‑e‑ela deve ser confiada à m‑m‑minha d‑d‑direita, e você d‑d‑deixe suas pesquisas sobre direita e esquerda: ela mora em frente — nem à direita, nem à esquerda.”

A porta se fechou de supetão; uma aparição celeste saiu da minha alma; a conversa de som amável terminara — mas, como vozes de espíritos, sussurrou pela fechadura: “Klingholz, Klingholz!”(30)

29. KAPITEL / 29º CAPÍTULO

Eu estava ali, pensativo; pus Locke, Fichte e Kant de lado e entreguei-me a profunda investigação para descobrir como um armário de lavar poderia relacionar-se com o majorato — quando me atravessou como um relâmpago: pensamento sobre pensamento amontoou-se, transfigurou meu olhar, e uma figura de luz surgiu diante dos meus olhos.

O majorato é o armário de lavar da aristocracia, pois um armário de lavar existe apenas para lavar. A roupa, porém, alveja; logo, empresta brilho pálido ao que foi lavado. Do mesmo modo, o majorato prateia o filho mais velho da casa — empresta-lhe uma cor pálida de prata — enquanto imprime aos outros membros a pálida cor romântica da necessidade.

Quem se banha em rios lança-se contra o elemento bramante, combate sua fúria e luta com braços vigorosos; mas quem se senta no armário de lavar permanece enclausurado e contempla os cantos das paredes.

O homem comum — isto é, o não senhorial do majorato — luta com a vida que se enfurece, atira-se ao mar que incha e rouba, com direito prometeico, pérolas de sua profundidade: magnífica, a configuração interna da ideia se lhe apresenta aos olhos e ele cria, audaz. O senhor do majorato, porém, deixa apenas as gotas caírem sobre si, teme deslocar os membros e, por isso, senta-se num armário de lavar.

Achada a pedra filosofal — achada!(31)

30. KAPITEL / 30º CAPÍTULO

Uma epopeia, portanto, não pode ser composta em nossos dias, como resulta das duas investigações recém-feitas.

Em primeiro lugar, fazemos reflexões profundas sobre o lado direito e o esquerdo; assim, arrancamos a esses termos poéticos seu traje poético — como Apolo arrancou a pele de Mársias — e os transformamos em figura do dúvida, num babuíno informe que tem olhos para não ver e é um Argos invertido: este tinha cem olhos para descobrir o perdido; aquele, o sombrio assaltante do céu — o Dúvida — possui cem olhos para tornar invisível o já visto.(32)

O lado — o lugar — é, porém, um critério principal da poesia épica; e, assim que já não existem lados, como de modo demonstrado ocorre entre nós, ela só poderá erguer-se de seu sono de morte quando o som das trombetas despertar Jericó.

Além disso, encontramos a pedra filosofal; todos, entre nós, apontam para a pedra, e eles ————

31. KAPITEL / 31º CAPÍTULO

Eles jaziam no chão — Escorpião e Merten — pois a aparição supraterrena (referida a um capítulo anterior) abalara seus nervos de tal modo que a força de coesão de seus membros se dissolvera no caos da expansão — que, como no embrião, ainda não se desprendeu das relações do mundo para uma forma particular — de sorte que o nariz lhes desceu até o umbigo e a cabeça tombou à terra.(33)

Merten sangrava um sangue espesso; havia nele muito “material de ferro” — quanto, não posso determinar, porque, no conjunto, a química ainda vai muito mal.

A química orgânica, em especial, torna-se a cada dia mais combinada por simplificação, na medida em que diariamente se descobrem novas substâncias primevas que têm isto em comum com os bispos: carregam nomes de países que pertencem aos infiéis e ficam in partibus infidelium; nomes, ademais, tão longos quanto os títulos de um membro de muitas sociedades eruditas e dos príncipes do Império alemão; nomes que os espíritos livres imaginam entre os nomes, porque não se prendem a língua alguma.(34)

Em geral, a química orgânica é uma herege ao querer explicar a vida por processo morto! Um sacrilégio contra a vida — como se eu desenvolvesse o amor a partir da álgebra.

Ensaios literários

O todo se baseia, evidentemente, na doutrina do processo, que ainda não está devidamente elaborada — e nunca poderá estar — porque se apoia no jogo de cartas, jogo do puro acaso, no qual o Ás é personagem principal.(35)

Mas o Ás fundou toda a jurisprudência moderna, pois Irnerius, certa noite, perdera sua partida; vinha justamente de um salão de senhoras, estava bem vestido — usava um fraque azul, sapatos novos com longas fivelas e um colete de seda, carmesim — quando se sentou e escreveu uma dissertatio sobre o Ás, que então o impeliu adiante, de modo que começou a ensinar direito romano.(36)

O direito romano, porém, inclui tudo: também a doutrina do processo, também a química — pois é o microcosmo que se desprendeu do macrocosmo, como demonstrou Pácius.(37)

Os quatro livros das Institutas são os quatro elementos; os sete livros dos Digestos (Pandectas), os sete planetas; e os doze livros do Código, os doze signos do zodíaco.

Nenhum espírito, porém, entrou no todo — foi Grethe, a cozinheira, quem chamou para o jantar.

Escorpião e Merten, em violenta excitação, haviam tapado os olhos e assim confundiram Grethe com uma fada. Quando se recuperaram do seu pânico espanhol — datado da última derrota e da vitória de Dom Carlos — Merten apoiou-se em Escorpião e se ergueu como um carvalho; pois Ovídio e Moisés dizem que o homem deve olhar as estrelas e não mirar a terra. Escorpião, porém, pegou a mão do pai e deu ao corpo dele uma posição perigosa, ao colocá-lo sobre dois pés.(38)

35. KAPITEL / 35º CAPÍTULO

“Por Deus! o alfaiate Merten é um bom ajudante — mas também se deixa pagar caro!”

“Na verdade! o bem-aventurado Martinho é bom no auxílio, mas caro no negócio!”, exclamou Clóvis após a batalha de Poitiers, quando os clérigos de Tours lhe explicaram que Merten ajustara suas calças de montar — com as quais ele cavalgou o valente pangaré que lhe rendeu a vitória — e quando exigiram 200 florins de ouro por esse serviço de Merten.(39)

Mas a coisa toda se passa assim — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — —

36. KAPITEL / 36º CAPÍTULO

Eles estavam sentados à mesa: Merten à cabeceira; à sua direita, Escorpião; à sua esquerda, Félix, o velho companheiro de ofício, mais abaixo — pois restava uma certa lacuna entre os principes e a plebe, isto é, os membros subordinados no corpo político de Merten, comumente chamados de oficiais/companheiros.(40)

A lacuna, que nenhum ser humano podia ocupar, não era guardada pelo espírito de Banquo, mas pelo cão de Merten, que todos os dias tinha de recitar a oração da mesa; pois Merten, que cultiva as humanidades, afirmava que seu Bonifácio (assim se chamava o cão) era uma e a mesma pessoa que São Bonifácio, o apóstolo dos alemães — baseando-se numa passagem em que este declara ser um cão que ladra. (Ver epístola 105, p. 145, ed. Seraria.)(41)

Por isso ele tratava esse cão com veneração supersticiosa. O lugar do animal era, de longe, o mais elegante: uma delicada manta carmesim do mais fino casimira, acolchoada como um sofá luxuriante, sustentada por penas entrelaçadas com arte — era a poltrona de Bonifácio; borlas de seda pendiam, e, tão logo a “sessão” se encerrava, a poltrona era levada ao lugar solitário de uma alcova afastada — que parece ser a mesma que Boileau, em seu Lutrin, descreve como o templo de descanso do preboste.(42)

Bonifácio não estava em seu lugar; a lacuna ficou aberta, e a face de Merten perdeu a cor. “Onde está Bonifácio?”, bradou do fundo do coração comprimido, e a mesa inteira entrou em visível agitação. “Onde está Bonifácio?”, perguntou Merten outra vez — e como se sobressaltou, como tremeu cada membro do seu corpo, como se eriçou seu cabelo ao ouvir que Bonifácio estava ausente!

Todos se levantaram de um salto para procurá-lo; ele próprio parecia inteiramente abandonado pela habitual serenidade. Tocou a campainha; Grethe entrou; seu coração pressentiu o mal; ela acreditou—

“Ah, Grethe, onde está Bonifácio?” — e ela visivelmente se acalmou; e ele tropeçou com os braços sobre a luz, de modo que a treva primordial envolveu a todos, e uma noite prenhe de desgraça, carregada de tempestade, irrompeu.(43)

37. KAPITEL / 37º CAPÍTULO

David Hume afirmava que este capítulo era o locus communis do anterior — e afirmava isso antes mesmo de eu o ter escrito. Sua prova era a seguinte: ao passo que este capítulo existe, o anterior não existe; este, portanto, deslocou o anterior do qual nasceu — embora não como causa e efeito, pois isso ele punha em dúvida. Todo gigante — portanto, também todo capítulo de vinte linhas — pressupõe um anão; todo gênio, um filisteu de couro; toda revolta dos mares, lodo; e, assim que os primeiros desaparecem, os últimos começam: tomam lugar à mesa e esticam violentamente suas longas pernas.(44)

Os primeiros são grandes demais para este mundo; por isso são expulsos. Os últimos, ao contrário, lançam raízes nele e ficam — como se pode comprovar pelos fatos: o champanhe deixa um retrogosto persistente e repugnante; o herói César deixa o ator Otaviano; o imperador Napoleão deixa o rei burguês Luís Filipe; o filósofo Kant deixa o cavaleiro Krug; o poeta Schiller deixa o conselheiro Raupach; o céu Leibniz deixa a sala de aula Wolf; o cão Bonifácio deixa este capítulo.(45)

Assim, as “bases” assentam como borra no fundo — mas o espírito se evapora.

38. KAPITEL / 38º CAPÍTULO

A última frase sobre as “bases” era um conceito abstrato — logo, não era uma mulher; pois um conceito abstrato e uma mulher, como não são diferentes! exclama Adelung. Eu, porém, sustento o contrário e o provarei com rigor — só que não neste capítulo, mas num livro que não consiste em capítulo algum, o qual pretendo escrever assim que me convencer da Santíssima Trindade.(46)

39. KAPITEL / 39º CAPÍTULO

Quem deseja alcançar um conceito sensível — e não abstrato — dela (não me refiro à grega Helena nem à romana Lucrécia, mas à Santíssima Trindade), a esse não posso aconselhar melhor do que: não sonhar nada antes de adormecer; ao contrário, vigiar no Senhor e examinar esta frase, pois nela está o conceito sensível. Se subirmos à sua altura, a cinco degraus do nosso ponto de vista atual, como uma nuvem posta sobre nós, o gigantesco “Não” vem ao nosso encontro; se descermos ao seu meio, assustamo-nos diante do enorme “Nada”; e se nos aprofundarmos em sua profundeza, ambos se reconciliam de novo harmonicamente no “Não” que salta diante de nós em ousada escrita flamejante, ereta.

“Não” — “Nada” — “não”

eis o conceito sensível da Trindade; mas o abstrato — quem o sondaria? Pois:

“Quem subiu ao céu e desceu?” “Quem tomou o vento nas mãos?” “Quem amarrou as águas na sua veste?” “Quem estabeleceu todas as extremidades da terra?” “Qual é o seu nome e qual é o nome de seu filho? Sabes tu isso?”, disse Salomão, o Sábio.(47)

40.KAPITEL / 40º CAPÍTULOS

“Não sei onde ele está, mas isto é certo: é um crânio, um crânio!”, gritou Merten. Amedrontado, inclinou-se para reconhecer no escuro de quem era a cabeça que sua mão tocava — quando recuou como aniquilado, pois os olhos————

41.KAPITEL / 41º CAPÍTULOS

Sim! os olhos!

Eles são um ímã e atraem ferro; por isso nos sentimos puxados às damas, mas não ao céu — pois as damas veem por dois olhos, o céu apenas por um.(48)

42.KAPITEL / 42º CAPÍTULOS

“Eu lhes provarei o contrário!”, disse-me uma voz invisível; e, quando olhei na direção da voz, vi — você não acreditará, mas eu asseguro, eu juro que é assim — vi…; mas não se zangue, não se assuste, pois não diz respeito nem a sua esposa, nem a sua digestão — vi a mim mesmo, pois eu próprio me oferecera como contraprova.

“Ah! sou um doppelgänger!”, atravessou-me — e os Elixires do Diabo, de Hoffmann—

43.KAPITEL / 43º CAPÍTULOS

— estavam diante de mim sobre a mesa, justamente quando eu refletia por que o Judeu Errante é um berlinense nato e não um espanhol; mas vejo que isso coincide com a contraprova que devo fornecer; por isso nós, por precisão, não faremos nem uma coisa nem outra, e nos contentaremos com a observação de que o céu está nos olhos das damas, mas os olhos das damas não estão no céu — do que se conclui que não são tanto os olhos que nos atraem, mas sim o céu, pois não vemos os olhos, e sim apenas o céu dentro deles. Se os olhos — e não o céu — nos atraíssem, então nos sentiríamos atraídos ao céu e não às damas; pois o céu não tem um olho, como acima observado, mas nenhum — e ele próprio não é senão um olhar infinito de amor da divindade; mas o olho suave e melodioso do espírito de luz; e um olho não pode ter um olho.(49)

O resultado final de nossa investigação é, portanto, que nos sentimos atraídos às damas e não ao céu porque não vemos os olhos das damas, mas vemos o céu dentro deles; que, por assim dizer, nos sentimos atraídos aos olhos justamente porque não são olhos; e porque Ahasverus, o Eterno, é berlinense de nascimento — pois é velho e enfermiço e viu muitos países e olhos — mas ainda assim não se sente atraído ao céu, e sim às damas; e existem apenas dois ímãs: um céu sem olho e um olho sem céu.(50)

Um está acima de nós e puxa para cima; o outro, abaixo de nós e puxa para as profundezas. A Ahasverus, porém, puxa-o violentamente para baixo — do contrário, vagaria ele eternamente pelas terras da terra? E vagaria eternamente pelas terras da terra se não fosse berlinense nato e acostumado a planícies de areia?

44. KAPITEL / 44º CAPÍTULO — Zweites Fragment aus Halto's Brieftasche / Segundo fragmento da carteira de Halto

Voltávamos de uma casa de campo; era uma bela noite azul-escura. Tu te prendias ao meu braço e querias soltar-te, mas eu não te deixei: minha mão te amarrou, como tu amarraste meu coração — e tu te deixaste segurar.

Eu murmurava palavras cheias de saudade e dizia o mais alto e o mais belo que um mortal poderia dizer, pois não dizia nada: eu estava interiormente submerso em mim mesmo; via erguer-se um reino cujo éter ondulava tão leve e, no entanto, tão pesado; e no éter estava uma imagem divina — a própria beleza — como eu a pressentira outrora em ousados sonhos de fantasia, mas não a reconhecera. Ela faiscava relâmpagos de espírito, sorria — e tu eras a imagem.

Eu me espantava diante de mim mesmo, pois eu crescera pela minha paixão, gigantesco: via um mar infinito, mas nele já não rugiam vagas; ele ganhara profundidades e eternidade; sua superfície era cristal, e em seu abismo escuro estavam fixadas estrelas douradas e trêmulas, que cantavam canções de amor, que irradiavam brasa — e o próprio mar era quente!

Se o caminho tivesse sido a vida!

Eu beijei tua mão doce e macia; falei de amor e de ti.

Uma leve névoa pairava sobre nossa cabeça; seu coração se quebrou, ele chorou uma grande lágrima — ela caiu entre nós; nós, porém, sentimos a lágrima e nos calamos.(51)

47. KAPITEL / 47º CAPÍTULO

“Ou é Bonifácio, ou são minhas calças!”, gritou Merten. “Luz, digo eu — luz!” — e fez-se luz. “Por Deus, não são calças: é Bonifácio, aqui estendido no canto escuro; e seus olhos ardem num fogo sombrio — mas o que preciso ver?” “Ele sangra!” — e, mudo, ele desabou. Os oficiais olharam primeiro para o cão e depois para seu mestre. Por fim, este se arrancou violentamente do chão: “O que vocês encaram, seus asnos? Não veem que o santo Bonifácio está ferido? Farei investigações rigorosas e ai — três vezes ai — do culpado! Mas agora, depressa: carreguem-no para a poltrona, chamem o médico da casa, tragam vinagre e água morna, e não se esqueçam de chamar o mestre-escola Vito! Sua palavra vale muito para Bonifácio!” Assim, curtas e compactas, vieram as ordens. Para todos os lados correram porta afora; Merten examinou Bonifácio mais de perto — cujo olho ainda não assumia brilho mais brando — e, ansioso, sacudiu a cabeça.

“Um desastre nos ameaça — um grande desastre! Chamem um sacerdote!”

48. KAPITEL / 48º CAPÍTULO

Merten levantou-se algumas vezes, desesperado, pois ainda nenhum dos chamados queria aparecer.

“Pobre Bonifácio! Mas — e se eu próprio ousasse, por ora, assumir o tratamento? Estás em geral febril; o sangue corre da tua boca; não queres comer; vejo esforços violentos no teu baixo-ventre; eu te entendo, Bonifácio, eu te entendo!” — e Grethe entrou com água morna e vinagre.

“Grethe! Há quantos dias Bonifácio está sem evacuar? Não te prescrevi que lhe fizesses ao menos uma vez por semana um clister? Mas vejo que, de hoje em diante, terei eu mesmo de assumir assuntos de tamanha importância! Traga óleo, sal, farelo, mel e um clister!”(52)

“Pobre Bonifácio! Teus pensamentos e contemplações sagradas te entopem, desde que já não podes vertê-los em fala e escrita!”

“Oh, tu admirável vítima de profundidade de ideias — ó tu, piedosa constipação!”(53)